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Olá, bem-vindos à Vichyssoise. Esta semana foi a primeira de desconfinamento, já cheira a primavera, uma estação onde, já se sabe, o amor anda no ar.

Ora diga lá, isso é para si.

Não, eu posso.

O que é um bom resultado? Só na hora e olhando ao resultado e à forma como os votos se foram distribuindo, se pode ver se tem uma real leitura nacional ou se apenas e iminentemente autárquica.

Sim, eu concordo e subscrevo a opinião do doutor Rui Rio.

Ora bom. Se gosta de sondagens, elas têm corrido bem.

Repare, eu recordo as eleições regionais nos Açores e juntos conseguimos derrubar uma hegemonia socialista.

Que tinha maioria absoluta nas sondagens.

Exatamente, tinha maioria absoluta nas sondagens.

É uma pena não ter sido por sondagens aqueles que nos governam. Ora diga lá, isso é para si.

Não, eu posso. Eu por acaso já estava a estranhar que esta pergunta não tivesse surgido. Estava-se a guardar agora para o final. Muito bem, quanto ao Porto...

Não, isso já foi explicado 1789 vezes que não. Agora nós no Porto iremos fazer seguramente uma campanha agressiva e quem sabe o CDS até não vai acabar por nos dar razão a dada altura.

De facto, eu e o Rui temos tido uma história com algumas parecenças. E eu trevo-me aqui dizer para aqueles que esperam que as eleições autárquicas sejam o ponto final das nossas lideranças, também não vão conseguir, porque acredito que vamos ter bons resultados, que é isso que nos propomos com a celebração deste acordo.

Francisco e Rui, amigos para sempre, aqui na voz de um barítono que não passou no casting de La Féria, mas é um ator que ainda deixa saudades num dos lados do Hemiciclo. Os debates quinzenais com o primeiro-ministro já não são quinzenais, já não são debates e já não são o tempo todo com o primeiro-ministro. Longe vão os tempos das boas memórias.

Senhor primeiro-ministro, ainda bem que a senhora ministra da Saúde já ordenou o pagamento do subsídio de risco.

Factos são factos. Levámos o ano inteiro do ano passado a ouvir o Bloco de Esquerda dizer que não reforçávamos os profissionais do Serviço Nacional de Saúde. Nós aumentámos tanto o número de médicos no Serviço Nacional de Saúde quanto tínhamos feito em toda a legislatura anterior. Aquela legislatura que seguramente, quer para mim, quer para si, é uma legislatura de excelente memória. E se fizemos isso em quatro anos, e se no ano passado fizemos quase tanto como nos quatro anos anteriores, a única coisa que podemos dizer é o seguinte: os quatro anos foram de boa memória, mas partilhe também a boa memória do ano passado. Não se afaste dela, porque não iríamos por bom caminho.

Ora vamos lá ver. Eu sou o Rui Pedro Antunes, editor de política do Observador. Comigo tenho o João Alexandre, editor da rádio, e as jornalistas Inês André Figueiredo e Mariana Lima Cunha. Vai começar a Vichyssoise. Ora bem, vamos começar aqui por uma sopa, que não é bem uma sopa, é uma concha de sopa, e eu ia começar pelo João Alexandre.

Ora viva.

Ora viva, tudo bem, João Alexandre. O que é para ti uma concha de sopa?

Uma concha de sopa... Não sei exatamente o que é uma concha de sopa, mas a verdade é que voltou a estar um cadinho o caldo entornado no Parlamento esta semana, porque o Bloco de Esquerda e o PSD, de alguma forma, cercaram António Costa. Ouvíamos aqui António Costa deixar uma mensagem à Catarina Martins para se recordar dos bons tempos também da geringonça, dessa solução de governo que na primeira legislatura entre 2015 e 2019 acabou por fazer segurar o governo de António Costa, e diz o primeiro-ministro com boas memórias. Mas a verdade é que, quer seja pelo caso da venda das barragens da EDP, que António Costa explicou muito mal no Parlamento, de alguma forma a remeter o assunto para a Autoridade Tributária, já no dia anterior o presidente-executivo da EDP também tinha deixado muita coisa por responder numa comissão parlamentar, quer também neste tema relacionado com a saúde e com a pandemia. António Costa não conseguiu dominar, creio eu, o Bloco de Esquerda e o PSD, que atacaram em conjunto e o primeiro-ministro acabou por fazer um debate em que até se costuma sair muito bem o António Costa, mas eu creio que o primeiro-ministro deixou muita coisa por explicar. Agora, a parte positiva é este abrir de porta de António Costa, que anda sempre a dar uma no cravo e outra na ferradura, semana sim, semana não. A relação com o PCP, já sabemos mais ou menos como é que funciona. Com o Bloco de Esquerda, António Costa insiste sempre em deixar uma crítica implícita e por vezes até dura à Catarina Martins, mas deixa sempre essa possibilidade de uma porta em aberto para uma discussão futura que vai ser também necessária daqui para frente, até porque com os efeitos da crise pandémica também na economia nacional, é de crer que daqui para frente seja necessário também contar com alguns aliados e que o governo não consiga fazer esta passagem para esse crescimento econômico de que o ministro das Finanças também falou esta semana sozinho. Portanto, António Costa terá de tratar também bem os parceiros e é isso que por vezes não acontece, até porque o Bloco de Esquerda não larga o osso e bem nos lembramos também como é que aconteceram as últimas votações de orçamento do Estado.

Muito bem, eu só queria dizer que os 110 milhões que a EDP poupou em imposto de selo na venda das barragens não se notaram na minha fatura da luz. Pelo contrário Acho que o Caçador Ligado deu uma factura mais elevada. Mariana Lima Cunha, João Alexandre, tu és a única pessoa que não tem três nomes. Não sei se isso quer dizer alguma coisa.

Na verdade, tenho quatro.

Se olhares para os líderes do PSD, tu tens Francisco Sá Carneiro, Aníbal Cavaco Silva, Pedro Santana Lopes, José Manuel Durão Barroso, são quatro nomes. Luís Filipe Menezes, Manuel Ferreira Leite, Pedro Passos Coelho. Há um agora, que é Rui Rio, que só tem dois nomes e dizem que é próximo do PS. Se olhares para o do PS é o contrário, António Costa, António Guterres, José Sócrates, são só dois nomes. Não sei se isto quer dizer alguma coisa. Mariana Lima Cunha, vais ser candidata à liderança do PSD? Não me parece.

Juro que não foi com esse critério que eu decidi quando me inscrevi, quando passei a ter carteira de jornalista, juro que não era a pensar nessa carreira futura.

Muito bem, e a tua concha de sopa?

A lançar este manto de suspeição em cima de mim. A minha concha de sopa. Eu estava a olhar para o que o João Alexandre estava a dizer, a pensar se isto terá sido mais um jantar romântico ou uma sopa um bocadinho avenada. Quando António Costa falou no debate para Catarina Martins, escreveu sobre a nostalgia de António Costa, mas ele também mete sempre um bocadinho de ironia à mistura quando fala sobre o Bloco de Esquerda, o Bloco, que é um partido que ele já classificou antes como um partido de mass media, e para quem fala sempre com esse tom um bocadinho mais hostil, às vezes mais gozão, dependendo também das fases do ano em que estamos, das fases de negociação em que estamos. Aliás, essa ironia, diria eu, acaba com Costa quando ele diz no debate que a Catarina Martins que não se deve afastar da boa memória do ano passado, que é um ano em que o Bloco já não entrou para as contas orçamentais, em que se fez quase tanto como nos quatro anos anteriores de legislatura da Geringonça. Podia parecer um momento nostálgico, podia parecer um regresso ao passado comovente, mas acho que tem aqui mais uma ferroada de António Costa do que de outra coisa. Como eu estava a dizer, o primeiro-ministro guarda sempre um tom diferente para os dois partidos parceiros ou ex-parceiros, quando se dirige a eles. Isso também representa riscos para os dois partidos. O Bloco de Esquerda, por um lado, gosta, aprecia, quando é considerado um adversário pelo PS, porque isso não só faz parecer a sua posição mais dura, como ajuda a que os seus votos não sejam diluídos depois nos do PS, na altura de ir a eleições. E portanto, tem aqui um desafio que é conseguir marcar essa diferença sem chegar a parecer que está fora de jogo, de facto, porque isso também pode criar conversa.

Mariana, há uma coisa muito interessante que é, apesar de o Bloco ser crítico do governo e não estar na solução, atualmente ninguém fala do Bloco como um dos partidos da oposição. Acaba por ser engraçado isso.

Eu acho que nesse momento ainda estamos um bocadinho neste limbo. Ou seja, o próprio Bloco, aliás, se olharmos, por exemplo, para a moção que a direção do Bloco vai apresentar agora na convenção do Bloco em maio, todo o discurso é de abertura, de abertura para poder voltar a uma solução se assim se justificar. Aliás, no dia em que o Bloco votou contra o último orçamento do Estado, o discurso do Bloco foi alertar para a cheguização do PSD, como dizia Catarina Martins, no sentido de justificar como um bloco de esquerda podia, um bloco à esquerda, aliás, podia agora ser mais importante do que nunca, e uma união à esquerda. Portanto, o Bloco não se pôs fora de jogo, não se quis pôr fora de jogo e mesmo estando o Bloco convicto de que António Costa pode já estar a dá-lo por perdido enquanto parceiro, eu diria que o governo também não pode ser assim tão rápido a descartar, por muito que António Costa não goste do Bloco, que se dê mal com o Bloco, que tenha claramente uma relação mais fria com Catarina Martins do que com Jerónimo de Sousa. Num ano destes, num ano com tanta potencial instabilidade, não pode descartar o Bloco e também não convém, como se diz nas relações românticas, que tome o parceiro PCP por garantido. É sempre um problema nas relações. Aliás, só dizer mais uma coisa a propósito disso, foi também interessante ouvir a Ana Catarina Mendes, a líder parlamentar do PS, nesse mesmo debate, que aproveitou também para dar uma ferroada um bocadinho mais subtil ao Bloco de Esquerda, quando se falava dos números da saúde, o investimento no SNS, que foi uma grande bandeira do Bloco nos últimos orçamentos. E a Ana Catarina Mendes dizia que se espanta por não haver agora uma saudação de quem tanto exigiu, e agora que há esse investimento não tem uma felicitação de volta. Lá está, faz-me lembrar um bocadinho essas dinâmicas românticas, às vezes em momentos de maior tensão. "Eu faço tanta coisa por ti e tu não me valorizas." E portanto, acho que a esquerda está a olhar para os desafios deste ano.

Ana Catarina Mendes também a assumir um bocadinho o papel de Carlos César, não é?

Exatamente. Aliás, podemos fazer um bocadinho de autopromoção na Vixissúase especial que tivemos na semana passada, para comentar os cinco anos do mandato de Marcelo Rebelo de Sousa, nós tínhamos precisamente um deputado do Bloco de Esquerda, o José Soeiro, que quando falava sobre Pedro Nuno Santos, que é um grande defensor da Geringonça e dos acordos à esquerda, dizia precisamente que essas atitudes de quem defende a Geringonça são diferentes das atitudes típicas de PS e de Carlos César. Era o que ele lhes chamava. O Bloco anotou que na altura foi a Ana Catarina Mendes também uma das pessoas que chamaram ao Bloco de desertor quando votou contra o orçamento, que teve o discurso mais agressivo e portanto está sempre identificada como uma pessoa com quem o Bloco tem alguma dificuldade em alinhar-se e a quem reconhece um discurso mais hostil.

Ficam as reflexões românticas. Acho que agora também há uma nova frase que é todas as pessoas querem que o parceiro ou a parceira olhem para eles como Rui Rio olha para Francisco Rodrigues dos Santos, também foi bastante animada essa citação.

Rui, só para dizer que por acaso quando ouvi aqui a nossa montagem inicial de Francisco Rodrigues dos Santos e Rui Rio a completarem as frases um do outro, lembrou-me aliás momentos que já aconteceram no Parlamento precisamente com o PCP e com António Costa, em que João Oliveira chegou a completar frases de António Costa.

Ainda neste debate bimestral?

Não neste. Foram quatro horas, mas não deu para tanto.

Ele calou-se para o João Oliveira falar um bocadinho. Aconteceu ali um bocadinho. Alguns segundos.

Há sempre uma sintonia.

Inês André Figueiredo, também tens três nomes?

É verdade, também tenho de responder.

E qual é a tua concha de sopa?

A minha concha ia muito ao encontro destas conchas da Mariana e do João, por isso vou só deixar uma ressalva, uma pequena conchinha de sopa para aquilo que também foi comentado no início, que para todos os ministros que falaram neste debate bimestral e que deram uma perninha ao primeiro-ministro, com tudo o que eram questões específicas, mas não só, porque Costa mandou-os falar em muitas situações. Como dizias ao início, houve espaço para muito mais do que António Costa neste debate e fica essa ressalva. Já há poucos debates, os quinzenais foram-se e agora o primeiro-ministro também decidiu distribuir muito trabalho neste bimestral.

Inês, pergunto-te agora, mudando aqui a sopa, não queria atribuir uma sopa, mas molhar a sopa. O que isso te sugere e o que te sugere molhar a sopa?

Molhar a sopa. Eu iria para o caso do Chega, por exemplo, com a apresentação do Nuno Graciano esta semana em Lisboa. Está conhecido o candidato à Câmara Municipal. Diga-se que foi uma apresentação feita com pompa e circunstância em frente ao Padrão dos Descobrimentos, que já de si não é uma escolha nada inocente, porque surge depois da polêmica de um deputado do PS, o Ascenso Simões, ter proposto demolir o monumento e depois algumas pessoas virem concordar e a crítica de André Ventura acabou por surgir em direção a Joacine Katar Moreira através do Twitter. Sobre a apresentação em si, as pessoas começaram a se ajuntar muito antes da hora, o número de apoiantes foi crescendo, já estávamos ali praticamente num ajuntamento com 100 pessoas, o que vale era junto ao rio Tejo, era ao ar livre, e o apresentador focou-se muito num discurso contra a esquerda. É de realçar que foi o próprio Nuno Graciano que pôs os temas polêmicos do passado em cima da mesa, logo no início do discurso, aquela questão de ter dito até num podcast que o principal inimigo da democracia era a própria democracia e ao justificar, disse que defendia a democracia, mas não a libertinagem. E nesta sequência, fez até questão de dizer que se considera um democrata, mas deu a entender que a direita está a ser amordaçada por uma esquerda absolutamente doentia, palavras de Nuno Graciano, que não permite a direita ter opiniões nem discursos diferentes. Só que uma ressalvazinha: durante o discurso viveu-se um ambiente de festa, com dezenas de apoiantes a aplaudir, em gritos de apoio, tudo e mais alguma coisa, e houve até espaço para vaias aos jornalistas quando houve perguntas para o candidato do Chega.

Muito bem, agora faltam dois minutos para terminarmos esta primeira parte. Eu daria aqui um minuto à Mariana para atribuir a sua molhar a sopa ou comer muita sopinha. No fundo, o que ela quiser, porque eu troquei aqui as sopas. E na verdade, para depois dar também um minuto ao João Alexandre.

Vou aqui muito rapidamente falar da sopinha que pode faltar à direita comer até chegar às autárquicas. Nós tivemos esta semana, como já ouvimos Rui Rio e Francisco Rodrigues dos Santos apresentar, em parte, diria eu, o acordo autárquico que PSD e CDS vão ter, porque falta saber ainda o que nos interessa realmente, que é em quantas câmaras e, sobretudo, quais é que são as câmaras em que esse acordo vai acontecer, mas sobretudo porque é o momento, as eleições autárquicas, em que ou os próprios ou os críticos internos dos seus partidos têm posto muito peso. É um momento definidor, que pode ser definidor para ambas as lideranças, que ambas as lideranças querem que seja um momento definidor no mau sentido para o governo. O Francisco Rodrigues dos Santos dizia que acha que isto pode ser já um cartão amarelo ou vermelho para o governo e ambos querem aproveitá-lo para virar o curso das coisas a favor da direita. O problema é que ambos também têm muito a jogar e a perder aqui. Eu diria que o que vai acontecer à direita nestas eleições também depende muito do que puder correr mal ao governo até às autárquicas. Vamos ter processamento de apoios, vamos ter o processo de vacinação. Na sondagem da Intercambios, por exemplo, esta semana o governo continuava a liderar, já com um suposto desgaste da pandemia, com as trapalhadas da vacinação, das eleições no confinamento.

Mariana, temos 10 segundos, portanto só mesmo para fechar este tema de PSD e autárquicas, queria só deixar aqui uma pergunta que até poderia ser Rui Rio a fazer aos autarcas do PSD.

Nós também não sabemos. Termina assim a primeira parte da Vixi Suave. Regressamos dentro de momentos com o convidado Tiago Mealha Gonçalves. Ora, bem-vindos à segunda parte da Vixi Suave. Conosco hoje temos um liberal, ex-candidato presidencial, melôman e especialista em flertar no Twitter. Tiago Mealha Gonçalves, não sei se nos está a ouvir bem?

Estou a ouvir bem.

Passaram 54 dias desde que foi a votos, disse que não queria ser político profissional. No Twitter tem disfarçado bem, pelo menos tem ali uma intervenção política bem-humorada. O que tem feito desde o dia das eleições até hoje?

Lá está, eu estou a ser o que era antes, uma pessoa com bom humor. Vocês é que descobriram isso agora, mas eu já o era. De facto, o regresso tem sido normal, digamos, mas o facto de eu estar aqui convosco significa que as coisas são diferentes, evidentemente. Portanto, alguma coisa mudou desde esses dias.

Passou a ser uma figura política, por assim dizer.

Certo. Evidentemente, já o estava a fazer no contexto, se eu fundei um partido e colaborei ativamente nele Desde o início, era porque queria, de alguma forma, ter participação política fora do espectro do que os partidos políticos ofereciam.

Sente-se bem nessa posição, então?

Sinto, mas não sinto que seja muito diferente do que eu ando a fazer desde há três anos. Desde que fundei o partido, aliás, verdadeiramente até desde 2013, que foi quando me juntei inicialmente ao movimento que elegeu um independente para a Câmara do Porto. Claro que evidentemente, esta candidatura presidencial levou a uma enorme exposição mediática, o que depois muda as coisas, pelo menos em termos de impacto do que eu possa fazer, é necessariamente diferente, mas não acho que tenha mudado em termos de substância sobre o que eu pretendo fazer, que é, na prática, tornar Portugal mais liberal.

Já vamos perguntar-lhe como é que quer aproveitar esse capital, mas antes disso, tem havido aqui alguns tempos conturbados na Iniciativa Liberal Mais a Sul. A Iniciativa Liberal conversou com Carlos Moedas, dois dias depois estava a apresentar um candidato, três dias depois esse candidato foi despedido. Isto são os loucos de Lisboa ou a Iniciativa Liberal está a tentar imitar o PSD na balcanização que lhe é característica?

Não, acima de tudo, o que a Iniciativa Liberal está a fazer é preparar e levar à escolha dos cidadãos, dos lisboetas, uma opção verdadeiramente liberal. E a questão de protagonistas sempre foi secundária no nosso partido. Acho que temos demonstrado isso até à exaustão. Portanto, naturalmente, que o episódio da apresentação do candidato que o deixou de ser, não era o que queríamos que tivesse acontecido, mas isso não anula o que vai acontecer em Lisboa, que é uma verdadeira proposta liberal e uma visão autárquica liberal para Lisboa e que dentro de muito pouco tempo, aliás, vocês já sabem mais do que eu. O Rui Pedro já terá descoberto quem é, eu não sei, e amanhã saberemos a partida.

Pode confiar.

É, o Rui Pedro já sabe. Uma das razões para vir aqui é também para me dizer o que me vai acontecer a mim, Rui Pedro, porque eu ainda não sei.

Não, isso é o que nós lhe queremos perguntar.

Tá bem. Depois já falaremos disso. Mas efetivamente. Diga.

Este caso fragilizou a liderança de João Cotrim Figueiredo?

Não. Vamos lá ver. Eu vou agora usar o "prognósticos só no fim do jogo", que é uma frase muito sábia do meu João Pinto, do meu clube, e que na verdade, quer no futebol, quer na política, efetivamente só depois de tudo medido, depois de uma campanha que vai ser feita, depois dos protagonistas que vamos escolher e que as pessoas vão conhecer. Só depois de tudo isso e chegando o dia das eleições é que saberemos se houve alguma falha na estratégia.

Mas estes sinais logo à partida, aliás, o próprio Tiago Mayan falou num sério revés que aconteceu em Lisboa. Isto são o quê? São as chamadas dores de crescimento?

Não, acima de tudo, isto teve a ver com aspectos mais pessoais do próprio candidato.

Portanto, não diz nada sobre o partido ou sobre a preparação do partido.

Não anula, nem sequer creio que seja propriamente impactante ou que vá alterar o que é a estratégia para Lisboa.

Mas não acaba por minar um pouco este começo? Não parece ser uma falsa partida também aos olhos de quem, neste caso, se prepara para ser eleitor da Iniciativa Liberal ou já começou a ser eleitor da Iniciativa Liberal?

Permite termos o plano B.

Por isso mesmo por ser um plano B e por não ser um plano A.

Em muitos casos poderá ser até um melhor plano. Acima de tudo, o que irá acontecer é, independentemente do início, vai haver continuação da proposta e dentro de muito breve, dentro de muito pouco tempo, estando ela corporizada e estando ela no terreno, já ninguém se vai lembrar do que se passou no início.

E neste caso, a Iniciativa Liberal é também um partido com sensibilidades diferentes. Considera que ganharia se fosse integrado na grande coligação não socialista que está a surgir também em torno de Carlos Moedas. E lembro até, e até no Observador acabámos por escrever sobre isso, que nas eleições presidenciais acabou por se cruzar com Carlos Moedas numa corrida que foi fazer com João Cotrim Figueiredo na zona de Belém. Na altura já suspeitava também que Carlos Moedas estivesse a correr para Lisboa?

Não, não suspeitava. Nem me lembrou, sinceramente, esse episódio.

Encontraram-se ao longe, mas foi registado pelos jornalistas.

Muito bem. Pronto, se me dizem, eu acredito. Independentemente de Carlos Moedas, o que a Iniciativa Liberal está a querer fazer em Lisboa e aliás, em qualquer contexto autárquico nos apresentarmos é-

Era capaz de votar em Moedas, Tiago Nogueira Soares?

Não, eu sempre morei no Porto, portanto seria sempre impossível fazer isso. A não ser que eu venha para cá.

Se votasse em Lisboa, não era um candidato que à partida descartasse.

Se eu votasse em Lisboa, eu sei que vou ter um candidato muito em breve. O Rui Pedro já sabe mais do que eu até quanto a isso.

Já agora, não sei se já dissemos ou não o nome, mas o nome é Bruno Horta Soares. Foi isso mesmo que acabámos por escrever. Mas em forma também de resumo em relação a esta questão de Lisboa. Não considera que seria positivo integrar essa grande coligação em torno de Carlos Moedas? Não seria benéfico também para a Iniciativa Liberal e para um projeto que pretenda derrotar Fernando Medina?

Nós não pretendemos derrotar A, B, C ou D. Nós pretendemos implementar verdadeiras visões liberais em tudo o que fizermos. O caso de Lisboa, a análise que foi feita, quer a nível local, quer depois em consonância com a comissão executiva e os órgãos nacionais de partido, é que a melhor forma de o fazer em Lisboa é a apresentação de uma candidatura autónoma. E eu tendo a concordar, não sendo eu de Lisboa e não estando diretamente envolvido nos meandros e nos pormenores mais concretos do que é a vida na cidade, tenderei a concordar com os meus companheiros, porque são eles que estão melhor habilitados para fazer essa análise.

Então não acha que Lisboa pode funcionar como um laboratório para uma..

A proposta de Moedas eu ainda não a vi muito bem, mas o que ouvimos de Moedas até agora, em termos de projeto de cidade, naturalmente, as pessoas são diferentes, mas em termos de projeto de cidade, o que eu ouvi até agora de Carlos Moedas não dista muito do que Medina também apresenta.

Se não houvesse pontos em comum entre Moedas e a Iniciativa Liberal, não se tinham sentado à mesa para falar antes de escolherem um candidato.

Naturalmente. E essas conversas ocorreram, aliás, é público. O João Cotrim Figueira já falou delas, o Carlos Moedas também. Mas foram conversas em que, evidentemente, a conclusão óbvia que se pode retirar, não foi possível que o projeto de Carlos Moedas se tornasse também um projeto da Iniciativa Liberal. Provavelmente, porque esse pendor liberal que exigimos e queremos não pôde ser incorporado.

Certíssimo. Deixe-me avançar aqui. Tendo em conta que Moedas ficou fora da corrida e Miguel Quintas também acabou por ficar assim, o que acha de Bruno Horta Soares?

Eu conheço o Bruno Horta Soares, evidentemente, ele é mais fundador do que eu, porque ele, na verdade, está na origem da própria Associação Iniciativa Liberal e acho que tem excelentes qualidades. E sendo ele o candidato, acho que é uma excelente escolha. Haverá outras, felizmente, no núcleo de Lisboa há muita gente de muita valia. O Bruno Horta Soares acrescenta também o facto de, de facto, estar desde a origem no partido. Aí já há menos que possam afirmar isso.

No Porto, o mais provável é a Iniciativa Liberal apoiar Rui Moreira?

Não está fora de ponderação, mas de novo, o raciocínio é o mesmo que eu disse há pouco. Se isso significa que efetivamente isso poderá corporizar uma proposta e uma visão liberal para a autarquia do Porto, então isso poderá estar em cima da mesa, mas não há decisões ainda tomadas. E também, verdade seja dita, nem passariam por mim, porque eu, na prática, neste momento, no partido, sou um mero membro de base.

Mas sabe a sua vontade, por exemplo, se fosse essa a vontade do partido?

Claro, que me envolva a mim diretamente, naturalmente, há a parcela de vontade minha.

Claro, mas por isso mesmo estaria disposto a encabeçar, por exemplo, uma candidatura individual da Iniciativa Liberal do Porto, se decidirem fazer como em Lisboa?

Vamos ver o que vai ser feito. Não pensei ainda necessariamente. Vocês sabem que também, isso também é público.

Mas não exclui.

Neste momento, não excluo nada, porque todos os cenários são possíveis dentro do espectro que já vos disse, de qual é a melhor estratégia para defender uma proposta mais liberal para o Porto.

E integrar as listas de Rui Moreira também é um cenário que pode estar em cima da mesa?

Se estivermos com Rui Moreira, penso que por há algum tipo de solução nesse sentido, mas nem passa só por mim.

Mas considera que tem condições, por exemplo, para fazer um trabalho melhor do que foi feito nos últimos anos na Câmara Municipal do Porto?

Eu recordo que um dos vereadores de Rui Moreira é militante da Iniciativa Liberal. E há vários elementos do núcleo territorial do Porto que já tiveram ligação ao movimento e que não têm ligação ao movimento, mas também têm qualidades e competências técnicas e políticas. Portanto, quando se fala do Porto, não há que falar só do Tiago ou do Ricardo ou de A, B, C ou D. Há muito mais gente e, portanto, tudo isso será ponderado e seja em candidatura autónoma, seja com Rui Moreira, todo o núcleo do Porto estará focado na proposta liberal que terá para a cidade.

O caso Selminho, em particular, não o incomoda? Acha que, de facto, o presidente da Câmara do Porto está a ser alvo de uma cabala?

Não me incomoda minimamente, porque o caso Selminho, esse caso que está agora a surgir, o facto de que Rui Moreira é acusado é o de ter assinado uma procuração para advogados, que eram os mesmos advogados que já tinham sido nomeados pelo executivo anterior, ou seja, pelo executivo do Rui Rio, para o assunto Selminho. Este é o facto de que Rui Moreira é acusado. Toda a acusação se constrói à volta deste facto único. E eu deixo a cada um fazer a análise política, então, do que isto significa.

E se seria uma outra entrevista, Tiago Mealha de Gonçalves, já percebemos que não é um problema para si. O que seria um bom resultado para a Iniciativa Liberal nas autárquicas? E já agora, nas próximas legislativas, condensamos já aqui duas questões.

Nós falamos da onda liberal e isso tem sido visível em termos de resultados eleitorais, quer também continuamente nas sondagens. Há uma demonstração de um claro crescimento, e um crescimento acima de tudo muito consolidado, da base eleitoral da Iniciativa Liberal. E bons resultados é demonstrar que essa subida realmente se reflete nas urnas. E portanto esperamos assim. Nas autárquicas nós estaremos presentes onde temos núcleos e já temos uma implantação relativamente espalhada pelo país, e será importante também em termos de implantação e consolidação territorial do partido. Portanto, é sempre estas duas vertentes, a demonstração de que há efetivamente-

Há um número de vereadores, há um número de presidentes de câmara?

Não, eu pelo menos não faço a análise segundo esse tipo de raciocínios.

Tiago Maia Gonçalves, já estamos aqui a aproximar-nos do final desta entrevista. Mudemos aqui um pouco o tema. Portugal é hoje um dos países onde a pandemia está melhor, é pelo menos isso que vão indicando os números mais recentes. Continua a considerar que era possível ter ultrapassado o último ano sem o recurso ao estado de emergência, de que foi tão crítico?

O estado de emergência não é coincidente com medidas de confinamento e com medidas de saúde pública. E isso foi o que sempre tentei explicar, e antes de mim, a Iniciativa Liberal sempre tentou explicar. E foi precisamente essa confusão de conceitos que foi aproveitada a dado momento pelos atores políticos para cavalgar essa confusão de conceitos e cavalgar o medo das pessoas, que permite ainda ao dia de hoje fazermos essa confusão. Mas estado de emergência vai muito para além disso, e já foi, já tivemos semanas neste país em que o governo podia simplesmente escolher qualquer um de nós.

Mas o confinamento resultou, tem que admitir isso.

Medidas de confinamento resultaram. Não temos o benchmarking que poderíamos fazer. Podemos ir a outros países europeus onde as medidas de confinamento não foram estas ou foram praticadas de outra forma, e se calhar pode-se fazer esse estudo. Mas aceitando que sim, o problema das medidas de confinamento, e agora já não falo de estado de emergência, o problema das medidas de confinamento é que foram feitas de uma forma absolutamente desconsideradora dos efeitos que elas tinham a nível social, económico e também de saúde não Covid.

Deixe-me interrompê-lo que está mesmo a acabar-se o nosso tempo. Para mudar aqui um bocadinho de assunto, na entrevista que deu ao Observador durante as presidenciais, só tinha um minuto para responder à questão. Se fosse presidente da República, aconselharia o governo a deixar cair a TAP e a fechar a companhia? Lembra-se do que respondeu? Mantém a mesma opinião?

Sim, mantenho, evidentemente.

Qual é a sua resposta?

Se calhar respondia mais um bocadinho o porquê.

Agora tem 30 segundos. Na altura tinha um minuto, agora tem 30.

A TAP nunca deveria ter se tornado pública. A TAP deveria ser uma empresa privada e como qualquer empresa privada em dificuldades, deve enfrentar o que qualquer empresa faz em dificuldades, um processo de insolvência, que permite recuperação.

Tiago Maia Gonçalves, concorreu contra Marcelo Rebelo de Sousa nas últimas eleições presidenciais. Entretanto, neste segundo mandato, o presidente Marcelo já o desiludiu até agora ou nem por isso?

Eu sei que o senhor presidente já foi mais vocal num outro aspeto, está a reunir uma espécie de gabinete para vigiar o que irá acontecer com os fundos europeus. Mas de novo, eu preciso ver o que o senhor presidente vai fazer. Eu para já só estou a ouvir o que ele diz, mas ainda não vi nada que ele esteja a fazer. Vamos ver. Eu quero dar o benefício da dúvida. Eu reconheço plenamente que este mandato será um mandato muito difícil, seria-o para qualquer presidente. Temos um contexto muito difícil de, no fim, terminar esta fase final de contenção da pandemia, mas depois lidar com os efeitos de destruição econômica e social que dela advém. Isto realmente é um cenário muito difícil. Eu quero dar o benefício da dúvida ao senhor presidente.

Então passando aqui só uma última avaliação para fecharmos a entrevista. Nos Açores, onde a Iniciativa Liberal já disse que o Chega não vai mudar nada, disse-lhes nem nos Açores, nem na República, já têm um tempo para fazer essa avaliação. Está confortável com a viabilização que a Iniciativa Liberal deu a esse governo dos Açores e com os resultados que ele tem produzido?

Estou, porque a viabilização vai sempre depender, a cada momento, do respeito do acordo que foi assinado. E portanto, não é a viabilização que ocorreu deste governo e dos orçamentos que garantirá uma viabilização futura. A Iniciativa Liberal está lá de forma responsável a cumprir o acordo que estabeleceu. Este último orçamento já está a incluir medidas, nomeadamente em termos fiscais, que são, no fundo, o PSD, enquanto líder da coligação governamental, a cumprir o que acordou com a Iniciativa Liberal. E da parte da Iniciativa Liberal, com o que podemos fazer, que é com o voto de um deputado, estamos a cumprir. Os restantes, já vimos ali sinais de que pode haver menos confiança noutros apoios que foram obtidos.

E já sabemos que a nível nacional não é repetível, ou pelo menos a Iniciativa Liberal não entrará numa solução, é isso que acha, já o ouvi dizer isso algumas vezes.

Nos Açores não estamos numa solução de governo com o Chega.

Sim, viabilizam, mas ajudam, fazem parte de uma solução política que permite que o governo funcione. Tiago Maia Gonçalves, estamos mesmo a chegar ao fim, passamos para a segunda parte da nossa refeição, que é o segmento Carne ou Peixe. Eu sei que é ouvinte do programa, e portanto já sabe. Vamos então a isto. Vamos soltar a trilha. Tiago Mealha Gonçalves, quem escolhia para CEO de uma empresa na qual fosse acionista maioritário: João Cotrim Figueiredo ou Carlos Guimarães Pinto?

Ó diabo. Eu se calhar queria os ambos, mas um CEO e outro provedor do acionista.

E o CEO era quem?

O João CEO e o Carlos provedor do acionista.

Muito bem. Preferia ser ministro num governo em que tinha como colega André Ventura ou Pedro Nuno Santos?

O primeiro não vai acontecer, o segundo também não. Portanto, acho que estou fora desse governo.

Mas qual é que tem menos probabilidades de acontecer? Tens de escolher um.

Não, estou fora desse governo.

Para termos de abstenção.

Quem é que levaria a um jogo do Futebol Clube do Porto, quando os adeptos regressarem às bancadas, claro, Catarina Martins ou Jerónimo de Sousa?

Não sei qual deles gostará mais de futebol, mas talvez levasse o camarada Jerónimo. Parece-me ser mais vocal para os cânticos.

Para finalizar, muito rapidamente, a quem é que comprava um carro em segunda mão: Rui Rio ou António Costa?

Se calhar tudo Rui Rio.

Muito bem, chega assim ao fim o segmento Carne ou Peixe. Agora pedia a Tiago Mealha Gonçalves que nos trouxesse a nossa sobremesa e que nos explicasse por que escolheu esta música e qual é a música.

Muito bem. É verdade. Eu tenho pena é vocês não terem escolhido a Erdé szupa no vosso quadro inicial, que é uma sopa húngara muito reconfortante e descomplexada. Mas pronto, falando da sobremesa, Etta James, "I've Got a Feeling". Vocês falaram de amor, que o amor está no ar, mas o amor também está dentro de nós e faz-nos mexer coisas cá dentro. E esta música fala um pouco disso. E é de uma das grandes vozes clássicas do soul e também depois do jazz, que tem uma carreira muito longa, Etta James.

Tiago Mealha Gonçalves, muito obrigado por ter vindo à Vichy Soares. É um homem de homem e já tínhamos percebido isso nas escolhas que fez como candidato presidencial. Muito obrigado mais uma vez. A Vichy Soares regressa na próxima semana. Vamos ver quem é que nos consegue enganar.

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