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Vichy Suazo, meu nome é Miguel Santos Carrapatoso, sou jornalista e editor adjunto de política do Observador. Tenho ao meu lado um homem que conhece o eixo Cascais-Belém como ninguém, o Vasco Maldonado Correia, e a não menos prestigiada Mariana Lima Cunha. São esses dois companheiros e amigos que me vão ajudar a explicar uma semana marcada pelos 100 dias de António José Seguro, não que alguém tenha dado por eles, pelo aparente, e sublinho aparente, fim do filhotinho sobre a reforma laboral e pelo 43º Congresso do PSD, que há de encerrar estes sete dias intensíssimos de política nacional. Portanto, para discutir tudo isto e muito mais, venha daí a refeição mais deliciosa da política portuguesa. Vasco Maldonado Correia, eu sei que tu és muito ciumento dos teus dois apelidos.

Obrigado por dizer os três.

Sendo o eixo da linha.

Sirvo-te para começar uma-

O que é mentira

Eu por acaso sou.

Pronto. E tem três nomes.

Se me permitem continuar a conduzir este programa, agradeço. Tenho uma sopa para ti, uma sopa por abrir, para falar de António José Seguro, que celebrou esta semana 100 dias à frente da Presidência da República e Vasco, tu, melhor do que ninguém, saberás identificar a grande marca deixada por António José Seguro nestes 11 dias. Que marca foi essa? Por favor, ajuda-nos a nós aqui em estúdio e também aos nossos ouvintes a descobrir e a perceber aquilo que António José Seguro anda a fazer.

Ainda bem que me fazes essa pergunta, Miguel. Nós já tínhamos feito o balanço dos primeiros três meses, isso porque o Presidente da República fez essa autoavaliação ainda nos Açores, e creio que na altura faltou referir um aspecto interessante e que se calhar até é uma das marcas mais interessantes destes primeiros 100 dias. E até talvez um dos pontos em que António José Seguro tem feito por ser mais diferente do governo e até do antecessor. É verdade que Marcelo Rebelo de Sousa chegou a dizer que Donald Trump era um ativo do Kremlin, mas dificilmente o ouviríamos dizer aquilo que Seguro disse esta semana numa conferência em Lisboa, em que foi enumerando as várias crises internacionais causadas por países como a China ou a Rússia, e também juntou os problemas causados pelos Estados Unidos, não apenas um, falou na Venezuela, falou na Gronelândia, nos problemas nas terras raras, e juntando tudo no final no mesmo saco, pôs em pé de igualdade a China, a Rússia e os Estados Unidos. E esse fincapé do chefe de Estado a Washington, tão diferente da maneira como o governo lida com os Estados Unidos e como vimos agora na crise da base das Lajes.

Se passar a chamar assim é porque tu que notaste.

Sim, eu agora vou ficar atento ao comentário que está ali nas televisões, onde vocês estão, para ver se isso acontece. Mas se olharmos, por exemplo, para o clima, até na política nacional em que António José Seguro vai tentando manter uma política de bem-estar com o governo, e o governo também vai referindo isso várias vezes, eu acho que essa é a marca em que mais se distancia do governo, o de fazer um fincapé aos Estados Unidos e também nesse sentido piscando um olho à esquerda.

Entretanto, e tu ouviste esse facto, o que deve fazer com que te penitencies, António José Seguro usou do veto político para uma questão magna que tem atormentado muita gente no país, a questão das bandeiras. Mariana Lima Cunha, este violentíssimo veto político de António José Seguro a uma questão magna como a utilização de bandeiras diversas em edifícios públicos, pode ser um primeiro sinal de que a cooperação entre São Bento e Belém não será assim tão pacífica como talvez Luís Montenegro desejasse.

Eu não sei se consigo partir para uma leitura maior a partir deste veto em concreto, não querendo diminuir esta iniciativa legislativa.

Mas podes diminuir, estás aqui para isso.

Posso praticar essa diminuição. É uma iniciativa do domínio um bocadinho do folclórico.

Para quem não queria diminuir.

E daí eu não ter referido, Mariana.

Exato. O Vasco esteve na high road e portanto decidiu nem entrar ao nível. O que eu quero dizer com isto é que não sei se esta lei que tinha a ver com que bandeiras é que se podem hastear em edifícios públicos mostra o pensamento político de fundo de Seguro. Pode mostrar que ele quando as coisas entram um bocadinho no folclore, no discurso anti-"woke" etc., talvez ponha algum travão, ou o travão possível, quando acha que a maioria de direita se está a desviar demasiado à direita, até porque esta é uma causa que foi abraçada pelo Chega, apesar de o CDS a ter promovido primeiro. E portanto, eu acho que Seguro tem dado algumas alfinetadas no governo. Quando começou, começou pelo pacto da saúde, do qual entretanto não ouvimos falar mais, e pelo relatório das tempestades, mas até agora acho que não há nada de essencial que tenha demonstrado que vai haver algum tipo de conflito. Não têm a paixão que Costa e Marcelo tinham pelo outro, acho eu, mas já houve aquele episódio em que assinaram os dois uma bandeira, um do lado verde e outro do lado vermelho, e disseram que se complementavam. Acho que não é uma declaração de amor tão bonita como a que tínhamos com a anterior dupla, mas que é uma dupla que quer, para já, acho que Montenegro quer ter uma boa relação e quer evitar conflitos com o Presidente da República. Se quisermos retirar leituras deste veto das bandeiras, o PSD recuou e vai tentar ajustar o diploma para agradar um bocadinho mais a Seguro E Seguro também não é propriamente conhecido por ser a personalidade política que mais promove conflito. O que pode ser interessante, talvez no próximo passo, será a sua posição na reforma laboral.

Muito bem, Mariana. Era mesmo aí.

Sabes o que é que eu te digo? Nós completamo-nos.

Era mesmo aí que eu queria chegar.

Um dia que tenhamos de assinar uma bandeira, vamos estar um de cada lado.

O que eu ia dizer agora: tenho uma sopa para te servir, uma sopa rica para falar desta reforma laboral. Aparentemente, o país vai ficar muito mais rico, muito mais próspero. Vamos todos conseguir nos reformarmos aos 55 anos ou até mais cedo. Mas também é uma sopa rica porque o que falaremos a seguir foi rico em volte face e em surpresas. André Ventura deu, aparentemente, o sim à reforma laboral de Luís Montenegro, esquecendo muitas das linhas vermelhas que tinha anunciado. Posto isto, e mesmo ou apesar de não sabermos exatamente quais são as letrinhas do contrato assinado entre as partes, as letrinhas pequeninas, isto é uma vitória para Luís Montenegro em vésperas de congresso?

Sim, acaba por ser. As letrinhas pequeninas, como tu estavas a dizer, isso é um padrão que tem acontecido nesta coabitação do PSD com o Chega. Há imensas letras pequenas de imensos dossiês que eles acabam por negociar, que vamos ter de ler depois, porque ficam pra regulamentação ou pra portaria. Ou seja, nos casos mais delicados, geralmente as coisas ficam mais pras calendas e aproveita-se logo para aprovar o essencial e para dizer que houve aqui uma vitória e um avanço. Acho que André Ventura fez o habitual, que é: fez as suas contas, viu o que é que lhe compensava fazer neste caso, viu o que é que ainda conseguia trazer pro seu eleitorado. E a verdade é que a perspectiva inicial não era boa. Olhando pro que era o pacote laboral inicial do governo e tendo Ventura que ia querer fazer um sindicato, que penso que não chegou a existir, mas chegou a querer fazer um sindicato e a querer aproveitar o descontentamento.

Uma central sindical.

Uma central sindical, era mais ambicioso. Para aproveitar o descontentamento dos trabalhadores, tinha esse eixo e portanto, não faria muito sentido abraçar de caras o pacote laboral do governo. Mas André Ventura, que é talvez um dos nossos mais talentosos no domínio da narrativa política e nos plot twists, sabe sempre como é que há de encaixar ali umas quantas vitórias ou umas quantas bandeiras novas que impõe na negociação, algumas delas coisas que o governo até já tinha chegado a admitir quando estava a negociar com os parceiros sociais. E portanto, sabia que tinha aí algum caminho ou outro, como na aumentação ou nas férias, em que podia conseguir algumas vitórias da parte do governo e acabar o dia a dizer que conseguiu uma vitória. Nós, no momento em que estamos a gravar, o Chega não confirmou sua posição, mas já disse: "Amanhã vão ver o que nós conseguimos, conseguimos mais do que o PS em 50 anos." Portanto, aparentemente, o jogo está feito e a idade da reforma, que era a grande linha vermelha de André Ventura, quase não foi assunto, nem no debate quinzenal desta quarta-feira, nem nas últimas intervenções no geral de André Ventura. Portanto, diria que André Ventura fez as contas, viu que tinha ali algumas medidas que podiam compensar-lhe e decidiu fazer aqui uma cambalhota.

Dito isto, e antes de passar a bola para o Vasco, Marianela Lima Cunha antecipavas uma questão, essa sim magna, que é o que fará António José Seguro. As pessoas porventura já se esqueceram, mas o agora presidente da República prometeu vetar a reforma laboral se esta não tivesse o aval da UGT. Não teve. Tanto quanto sabemos, não será drasticamente diferente daquela versão que foi apresentada então durante a campanha presidencial e que mereceu, desde logo, o chumbo de António José Seguro. Portanto, o que fará o presidente da República? Será consequente com as suas promessas ou procurará aqui uma saída que o impeça de comprar uma guerra aberta com o governo?

Eu acho que o que explica mais a posição de António José Seguro é a maneira como ele tem tentado introduzir alguma nuance e alguma leveza na posição inicial que tinha assumido e que era óbvia, era clara e não tinha margem pra dúvidas. Sem UGT, não há reforma laboral. O próprio governo tem interpretado as palavras de António José Seguro de outra maneira. Tem dito repetidamente, eu já ouvi a ministra também dizê-lo, que António José Seguro se estava a referir à versão inicial e portanto a tentar dar-lhe, acho eu, uma saída. Se António José Seguro quiser aproveitar essa fuga, ainda assim, acho que vai ser um cadinho embaraçoso pro presidente, no sentido em que as modificações foram introduzidas pelo Chega. Ou seja, as alterações que vai ter a lei, Montenegro pode ter razão e pode dizer que André Ventura tem um travo comunista e, portanto, que até introduz algumas coisas que interessam à esquerda, mas no fim do dia, António José Seguro vai dizer o quê? "Afinal, esta reforma era má porque não tinha o acordo da UGT, mas agora que tem alterações do Chega, é fantástica." Meteu-se numa posição chata pra ele próprio. Mas as campanhas são assim.

Partilhas desta leitura cínica de Marianela Lima Cunha?

Sempre.

Partilho. Acho que não há grande margem pra António José Seguro, até partindo do princípio que se não comprar essa guerra com o governo, está a comprar uma guerra à esquerda. E se calhar ainda é cedo pra pensar em reeleições ou na reeleição, mas se nesta altura em que é chamado, ou se nessa altura em que for chamado a cumprir com uma das poucas promessas que fez durante a campanha presidencial, se posicionar ao lado do governo diria que pode estar em maus lençóis.

O clima vai pesar.

O clima vai ficar pesado. Não sei se me vais perguntar também se isto é uma vitória ou não.

Por quem sois, convido-te a fazer essa reflexão.

Eu venho preparado pra isso Depende dessas letrinhas pequeninas, porque se de facto o Luís Montenegro ou o PSD aceitarem negociar.

Ou estudar, pelo menos.

Ou estudar. Ou então eu vou inverter. Se não rejeitarem prontamente olhar para essa proposta, eu creio que já é uma derrota, no mínimo, a médio e longo prazo, porque é uma medida que foi reconhecida como abertamente populista pelo próprio governo, pela própria ministra Maria do Rosário Palma Ramalho, que trouxe números para cima da mesa que mostravam como a medida ia afetar a Segurança Social. E por isso, se essa medida for agora aceite ou se não for rejeitada logo à partida, como eu estava a dizer, é uma admissão de que o governo aceita olhar para medidas populistas se isso fizer passar reformas maiores e que por isso tudo é negociável, desde que o governo possa passar a ser visto como reformista.

E não falamos, aliás, a mim cabe, perante este elenco, falar de algo que vocês dois, até pelas vossas origens, desprezam, mas o povo. Falta saber o que achará o povo desta reforma laboral. Todos os instrumentos que temos, e são as sondagens, têm as suas limitações, naturalmente, indicam que esta reforma é percecionada como sendo bastante impopular. Aparentemente, vamos ver que leitura e que avaliação farão os eleitores desta possível e mais do que provável aliança entre o Chega e o governo. Para terminar, uma sopa cheia, até porque os três aqui presentes estaremos ou estamos a poucas horas de rumar a Anadia, onde teremos o prazer e o privilégio de assistir a mais um congresso do PSD. Mariana Lima Cunha, o que devemos esperar desta festa social-democrata?

Eu até me atrapalhei, Miguel. Estou a pensar em comer leitão, é nisso que eu estou a pensar. Na festa social-democrata não tenho pensado tanto. Mas eu acho que há duas questões interessantes a pensar neste momento no PSD e no governo. A primeira é o tal rumo reformista ou não de Luís Montenegro. E de facto, se a reforma laboral for aprovada entretanto, Luís Montenegro tem o congresso mais resolvido do que seria até agora. Andava com Passos a assombrá-lo, andava com uma série de chatices que são muito reais, podemos falar do preço da gasolina ao supermercado, enfim, vários percalços que são daquelas coisas que se sente no bolso. E eu acho que tudo o que se sente no bolso é o que é determinante para a população e portanto tinha uma série de problemas para resolver. Aí pelo menos pode levar uma vitória ao congresso e tentar apresentar-se como governo reformista. Isso está ligado à segunda questão, que eu acho que é a relação do PSD com o Chega. Acho que se torna um assunto que já não dá para negar todos os dossiers importantes e que o próprio governo assumiu como bandeiras têm sido resolvidos ao lado do Chega, às vezes com as tais letras pequenas para tratar depois. E portanto, também acho que é interessante perceber um bocadinho o que é que o partido pensa disso e se acha que o não é não está ou não é em vigor, se este tipo de negociação que vai sendo feita caso a caso, mas muito ao lado do Chega, é a mais avisada ou não, e se a criatura pode matar o criador ou não.

Vasco, a Mariana já se conseguiu reconciliar com o povo, falou de questões que afetam diretamente os portugueses e não sobre os pormenores disso.

E esta portuguesa também.

Eu vou falar sobre o rebolho.

Vasco, achas de facto que este congresso acaba por estar atormentado ou assombrado, melhor dizendo, pelas muitas dificuldades que se estão a sentir ou a fazer sentir no país, seja a nível de custo de vida, seja a nível da habitação, acesso à saúde, etc.?

Eu diria que vai estar mais atormentado pelo fantasma de Pedro Passos Coelho.

O Vasco fez ar de: "Eu não vou ao farmacêutico."

Quanto é que custa o pacote de leite?

Está caro.

Eu diria que vai estar atormentado pelo fantasma de Pedro Passos Coelho, que não estando presente, mesmo depois de desafiado por Luís Montenegro, será interessante perceber em que medida é que Luís Montenegro e Hugo Soares têm o partido, as bases do partido na mão, ou se vão aparecer algumas vozes que não tendo em Passos Coelho uma presença firme neste congresso, se irão aparecer essas vozes discordantes no congresso. Diria que será mais por aí que Luís Montenegro e Hugo Soares podem estar preocupados.

Muito bem, Vasco e Mariana, fiquem a saber que um litro de leite custa sensivelmente 90 cêntimos. Espero que seja-

Eu pessoalmente só consumo sem lactose, Miguel, não sei se te serve

...que seja algo que vos faça refletir e orientar as vossas preocupações para aquilo que realmente interessa. A primeira parte da Vixi & Suas fica por aqui. Voltamos dentro de momentos com entrevista a Miguel Relvas.