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Olá, bem-vindos à segunda parte da Vixi Suave. Temos conosco Duarte Marques, diretor de campanha de Luís Marques Mendes, entre muitas outras coisas, mas aqui na qualidade de diretor de campanha de Luís Marques Mendes. A semana acaba por ficar marcada pelo anúncio de André Ventura. Há, entre alguns apoiantes de Luís Marques Mendes, quem considera que isto é uma belíssima notícia. Também acredita que André Ventura vai roubar votos a Gouveia e Melo?
Boa tarde. Eu devo dizer que somos coerentes com a forma como falamos das outras candidaturas. Todas elas fazem falta, concordemos ou não com elas, todas são bem-vindas, todas são importantes, todas devem ser tidas em conta naquilo que é a nossa análise, o nosso trabalho de campanha eleitoral. Parece-me óbvio que André Ventura e Gouveia e Melo são ambos candidatos que disputam o voto das pessoas mais antissistema ou que estão contra o sistema, ou que estão fartos do sistema, daquilo que é o sistema mau. E portanto, diria que é um candidato que vem colocar, não é por acaso que aquele almoço aconteceu.
Nós vamos falar também sobre esse momento.
Gouveia e Melo, suprapartidário, procurou de alguma forma condicionar ou fazer o que quer que fosse com André Ventura. Mas é um candidato que não disputa votos com Marques Mendes.
Apesar das sondagens. Há sondagens que apontam-
Não é o mesmo. Uma coisa é ter o mesmo número de votos, outra coisa é se disputa voto. Acho que não há pessoas indecisas entre votar Marques Mendes ou André Ventura. Pode haver pessoas indecisas entre votar Marques Mendes e talvez Gouveia e Melo, ou até António José Seguro, mas nós não disputamos eleitorado com Ventura. Até porque, por exemplo, Gouveia e Melo tem um eleitorado mais espartilhado, mas tem muitos antissistema. E obviamente que disputa esse eleitorado com André Ventura. Eu acho que é a primeira vez estes dias, após vários meses em que nós pelo menos já estamos em campanha eleitoral, depois da grande queda do almirante, é este o facto que faz dizer pela primeira vez que não se discute quem é que é o segundo que vai à segunda volta. Neste momento, também não é líquido que Gouveia e Melo vá à segunda volta. E esse cenário não pode ser ignorado, porque obviamente André Ventura é um forte candidato também a ir à segunda volta. E portanto, esse é um tema. Acho que é André Ventura e Gouveia e Melo estão do mesmo lado do eleitorado, que não é o nosso, estão num espectro que são antissistema, são antipartidos, são o radicalismo face àquilo que é a nossa proposta do papel do presidente. E portanto, nós acreditamos neste sistema, acreditamos no sistema político português com os seus defeitos e com as suas virtudes.
E acha que é essa semelhança entre os dois, usando aquilo que acabou de responder, que ajuda a explicar o porquê de quer Gouveia e Melo na reação ao anúncio da candidatura de André Ventura, quer André Ventura quando de facto se apresenta ao país, é isso que explica o facto de os dois terem tentado dizer que são muito diferentes?
Claro, porque são parecidos, isso é normal. As pessoas tentam mostrar-se diferentes para justificar a sua própria candidatura e para evitarem o mal ou os danos que daí podem advir. Depois destes almoços, destas reuniões, do papel de Mário Ferreira em tudo isto, percebe-se claramente que há ali uma preocupação de parte a parte, senão não se sentavam à mesa. Agora eu diria, sendo duas candidaturas claramente antissistema e antipartidos, são candidaturas que têm os seus pontos fracos, têm as suas próprias contradições. São candidaturas que elas próprias contradizem coisas que apresentam. Temos apoiantes de André Ventura com os problemas que têm, ele próprio contra a nossa Constituição e a forma como nós funcionamos. Gouveia e Melo também a dizer que quer mudar tudo, é um candidato que quer pôr o país na ordem, que à mínima coisa vai dissolver o Parlamento. São candidatos que são, na verdade, antissistema. E nós temos que entender o que é ser antissistema, o que é ser a favor do sistema. Se o sistema é ter estabilidade, ter previsibilidade na função, garantir o futuro aos portugueses com ambição e respeito pelas instituições, pelo bom funcionamento das instituições, pela independência das instituições. Se isso é ser do sistema, então Marques Mendes é obviamente um candidato do sistema, sem problema nenhum.
Já referiu algumas vezes a questão do almoço entre Gouveia e Melo e André Ventura. E quando foi conhecido esse episódio, através de uma notícia do jornal Público, reagiu nas redes sociais dizendo que afinal o tal suprapartidarismo de Gouveia e Melo era uma farsa. Farsa é uma palavra minha. Mas em rigor, os dois, André Ventura e Gouveia e Melo, acabaram por não se entender. Portanto, a pergunta é: em que medida é que este almoço prova que Gouveia e Melo não é independente dos partidos?
A partir do momento que Gouveia e Melo se faz rodear de muitas pessoas dos partidos, e quase todos, por exemplo, pessoas divergentes que vieram do PSD, e tem na sua campanha também várias pessoas, alguns já saíram entretanto, porque se conheceu o passado, do Partido Socialista e que o estavam também a apoiar na primeira linha, e que o conjunto de pessoas que tem à sua volta, que já passaram pelos partidos, Isaltino Morais, Ângelo Correia, pessoas geralmente do sistema, ou às vezes de um sistema menos bom, ou da parte má do sistema, Gouveia e Melo mostrou que afinal precisa dos partidos para alguma coisa. Por isso é que tem tantos militantes, por isso é que tem tantos truques que são vistos como aquilo que é a parte má dos partidos e dos caciques partidários, apesar de tentar projetar uma imagem completamente diferente. O almoço é apenas uma confissão daquilo que nós já sabemos. Uma coisa é o que se diz cá para fora. Outra coisa é o que se faz Nos bastidores, o que se tenta fazer nos bastidores. Portanto, Gouveia e Melo é mais uma daquelas pessoas que aproveita a má imagem que os portugueses têm dos políticos para, em vez de credibilizar o sistema, aproveitar-se do descrédito do sistema. Aliás, muito parecido com Rui Rio, que era alguém que parecia que não gostava do PSD, apesar de ser seu presidente. Tem um pouco essa escola que se aproveita da fragilidade dos outros ou que acaba por projetar ou por provocar ainda mais desgaste num sistema que tem que ser preservado e melhorado, para tirar partido dele. E isso não é bom. Basta ver o exemplo da condenação dos marinheiros com Gouveia e Melo. Depois não interessa o que aconteceu a seguir, que acabaram por ser todos, não sei se ilibados, mas o processo morreu.
Consideradas ilícitas.
Colocou um púlpito em cima da proa do navio para humilhar publicamente e com a imprensa os seus militares, quando aquilo que se deve fazer ao contrário é: elogia-os em público e pune-os em privado. Isso revela muito, que uma coisa é o que diz, outra coisa é o que faz. Daí eu ter dito que aquilo é um pouco uma farsa ou pelo menos pareceu uma farsa, o apartidarismo.
Também escreveu o seguinte nessa reação ao tal almoço: "Esta iniciativa de um grande apoiante de Gouveia e Melo e da Onda TVI explica muito bem o que se passa na Media Capital à margem dos jornalistas." Só para percebermos bem, em que medida é que Gouveia e Melo está a ser promovido pela TVI?
Não, isso foi um desabafo que nós fizemos e eu não queria alargar muito. Foi uma mensagem que decidi colocar, até para servir de alerta para as pessoas estarem atentas e também de alguma forma para evitar que abusem. Porque há um conjunto de notícias que vêm sempre do mesmo sítio, com os mesmos titulares, do mesmo grupo de imprensa, e nós achamos que era melhor chamar a atenção para isso, para os próprios terem um pouco mais de bom senso e distanciamento na questão. E para já é só isso.
Mais no sentido da promoção da candidatura.
Isso eu não discuto. O problema é que cada um pode promover os critérios editoriais se eles quiserem. Uma coisa é quando temos assuntos que vocês questionam, nós explicamos e vocês: "Ok, já percebi, é legal, faz sentido", ou coisas desse gênero. A maior parte, todos os jornais perceberam que não era assunto e que só os três ligados ao mesmo investidor, ao mesmo tipo de investidores, é que acharam que era notícia.
Está a falar das notícias recentes e negativas para o Luís Marques Mendes, que saíram no Sol e no Jornal...
Sim, e numa reportagem da TVI, no Tal & Qual.
Portanto, mais do que focado na promoção de uma candidatura, é de outra. A propósito disto, perguntávamos-lhe também se Luís Marques Mendes, que foi durante anos comentador da SIC, Francisco Pinto Balsemão é dono da empresa e é presidente da comissão política do candidato, se essa crítica não se pode fazer à SIC também.
Pode-se fazer e deve-se fazer se atuar de forma diferente com Luís Marques Mendes do que atuar com os outros. E portanto, será natural que até tenha algum escrúpulo maior ou sejam mais incisivos nas entrevistas com ele, até para mostrar que cumprem o seu papel. Isto não é um problema de jornalistas, é um problema de quem está muitas vezes acima. E no caso, o histórico de Pinto Balsemão, com todos os elogios que lhe podemos fazer, toda a gente sabe que era uma pessoa que não mandava nos seus órgãos de comunicação social e que até o criticavam muitas vezes. E aliás, acho que essa é a escola da casa.
Como é que ouviu a garantia do almirante de que ele é o único candidato verdadeiramente independente, ou seja, compara-se assim obviamente com todos os outros candidatos, Marques Mendes incluído.
Eu acho que mais do que dizer que somos ou não somos independentes, temos que provar. Temos que provar no nosso dia a dia. Nós podemos ser partidários. O doutor Bagão Félix dizia uma vez que o único sítio em que ele podia ser independente, podia não ser tendencioso, ou podia ser tendencioso sem prejudicar ninguém, era no futebol, porque jamais um penalty seria bem assinalado contra o Benfica, isso não prejudica ninguém. Em tudo o resto, na nossa ação, nós até podemos ser de um partido ou ser de um clube ou ser de uma empresa e conseguir manter o seu registo de independência e na nossa opinião, até por vezes somos mais escrupulosos assim. Somos mais escrupulosos com aqueles com quem nós temos uma maior ligação. E portanto, aqui não está uma questão no caráter, da independência, não vem do nosso passado.
Acha que Marques Mendes costuma ser até o árbitro crítico ao PSD?
Basta perceber por que Isaltino Morais está na campanha de Gouveia e Melo, porque Marques Mendes quis cumprir eticamente com os seus princípios, não o deixou ser candidato a Oeiras. Por que Rui Rio não o apoia? Porque ele sempre o criticou, ou pelo menos criticou muitas vezes. Tal como criticou Luís Montenegro, tal como criticou Passos Coelho, tal como criticou António Costa. Nós nalguns estudos de opinião que já fizemos, há uma característica muito engraçada, é que as pessoas reconhecem a independência de Marques Mendes no seu comentário. Isso é doloroso para muitos colegas de partido, que não gostam. Nós preferimos sempre que não nos critiquem. Mas ele fê-lo porque era comentador. E essa sua independência é muito forte. Por isso é que eu digo, mais importante do que nós afirmarmos a nossa independência, é como a história dos independentes. Nós conhecemos muitos governos cheios de independentes, que são independentes com o cartaz há muito tempo. Aliás, basta ver as listas do PCP dos independentes, que são os mesmos há 20 anos do PCP, dos ministros que são independentes e estão sempre os mesmos governos do PS ou do PSD. Independentes é na nossa ação e a nossa maior independência é a nossa liberdade. E portanto, Marques Mendes, para o bem e para o mal, é alguém que tem um perfil que consegue registrar a sua independência e consegue afirmá-la. E eu acho que é isso que se precisa. Não é por bater no peito e dizer que é independente. Somos mais independentes. Olha só o caso de Santinho, também é muito independente e depois vê-se o que andou para aí a fazer.
As sondagens publicadas até aqui mostram que Gouveia e Melo apela significativamente a eleitores do PSD. Ventura poderá também ter esse efeito. Acha que foi isso que acabou até por justificar a referência de André Ventura a Pedro Passos Coelho, que já aí referiu?
André Ventura pelo menos já não é eleitor do PSD, mas já foi, feliz ou infelizmente. Mas diria que não, o André Ventura não tem vergonha nenhuma. E portanto num dia está a pegar na imagem de Sá Carneiro, como no dia a seguir pega em Passos Coelho
Aliás, nesse anúncio falou dos dois.
É claramente um abuso. É alguém que não tem noção, que sabe perfeitamente que se Sá Carneiro fosse vivo fugia a sete pés de André Ventura, porque é tudo ao contrário. É também não conhecer Pedro Passos Coelho. Acho que é uma coisa que as pessoas não têm noção, que não há relação. E portanto, é um abuso claro de André Ventura, como faz da própria igreja, que é uma coisa que é quase um sacrilégio. É um abusador, é um bully, é um abusador que usa muito a imagem de outras pessoas que são credíveis, porque como não tem mais para usar, usa pessoas que ou não se podem defender ou querem estar fora da vida política para tentar dar a ideia que teria o apoio dessas pessoas, quando não é claramente verdade. É só conhecer essas pessoas para perceber.
Mas não se sente, quanto a Pedro Passos Coelho, desconfortável por não ter existido ainda um sinal de apoio a Luís Marques Mendes?
Ainda é cedo e portanto não é para já e acho que não será já. E Pedro Passos Coelho é uma pessoa que eu respeito imenso, tem as suas convicções muito próprias. Não faço ideia se vai apoiar ou não. Acho que naturalmente poderá votar em Luís Marques Mendes. Tem uma relação de há muitos anos. Seria estranho que assim não fosse, mas é uma pessoa pela qual tenho o maior respeito que possa existir para me estar agora a pronunciar sobre se o deve fazer. O país deve-lhe muito e será sempre alguém que o país deverá ter em conta e ouvi-lo com atenção.
Acredita convictamente que o eleitorado do PSD não se vai dividir pelas outras duas candidaturas. Francisco Pinto Balsemão escreveu esta semana aos militantes do PSD a pedir que cerrem fileiras à volta de Marques Mendes. Existe aqui ainda alguma preocupação em mobilizar as bases do partido?
Essa carta não é para os militantes, é uma carta que foi enviada aos membros da comissão política. Portanto, não foi uma carta aos militantes. Foi uma carta enviada porque o doutor Balsemão não poderia estar presente por questões de saúde. E foi para aqueles, não foi para os militantes do PSD. Qual a leitura que eu faço disso? É que todos somos poucos para trabalhar e, portanto, aqueles que estavam naquela sala e que ouviram a carta, que eu próprio li, mas também aqueles que a lerem cá fora, os militantes e os não militantes, perceber que é importante para Marques Mendes, ou se querem ter um presidente como Marques Mendes. É muito simples, o doutor Marques Mendes não se quer impor a ninguém. Claro, quer ir à segunda volta, quer ganhar, mas os portugueses é que sabem que presidente é que querem. Ou seja, se querem um presidente que tenha muita experiência política e numa altura em que as pessoas não gostam dos políticos, ser um candidato que assume que a sua experiência é a sua grande mais-valia, é assumir um risco. Podia ser tipo Miss Portugal ou Miss Mundo, querer agradar aos partidos todos. Nós temos o candidato que diz bem à esquerda, à direita, que o governo diz que sim a tudo, é tudo fantástico e a maior das maravilhas. Mas nós queremos um presidente que decida e tenha a sua própria convicção, não esteja aqui para se mudar a si próprio para ficar melhor visto.
As bases estão suficientemente mobilizadas desde aquele episódio do Congresso, com alguma frieza com que foi recebido Marques Mendes?
Não, frieza alguma. Já as bases neste momento estão muito mobilizadas para as autárquicas. E isso é o fundamental. Normalmente, por exemplo, Marques Mendes faria a apresentação de metade dos candidatos do PSD. Deve ser das pessoas mais solicitadas pelas bases do PSD para apresentar candidatos. E agora não está a fazer, obviamente, por razões que se compreendem. E acho que a seguir o partido vai se focar nas eleições também, é óbvio, mas agora contamos que temos tido muita atração, surpreendentemente até de camadas mais jovens da sociedade que nós não estávamos a contar que reconhecessem tão bem o candidato e que fossem tão simpáticos e o recebessem de forma muito especial, particularmente nas universidades. E outra coisa que é importante é perceber que uma candidatura presidencial, eu arrisco-me a dizer isto, a mais comparável é uma candidatura autárquica, porque se vota muito na pessoa. Portanto, não é por acaso que Marques Mendes tem muitos apoiantes que já votaram Partido Socialista, tem vários ex-membros de governo socialistas, dos bons normalmente, mas tem muita gente que não é militante, obviamente, de esquerda, mas que vota mais vezes à esquerda. E isso nota-se, nota-se nas várias equipas que nós montámos, nota-se na rua. Marques Mendes é um candidato obviamente de centro, que não esconde a sua família social-democrata, mas que consegue angariar votos em muitas franjas da sociedade que nós não estávamos à espera. Eu diria que é um candidato moderado por alternativa a alguns candidatos mais fraturantes, mais radicais, e cujo objetivo é também ter alguma previsibilidade. E há uma coisa, eu termino só com isto: Marques Mendes tem uma grande capacidade de comunicação e alguém da política com muita experiência, mas tem uma característica curiosa na forma como ele fala do presidente e às vezes não é por acaso que ele era tão amigo de Jorge Sampaio. O doutor Marques Mendes olha para o papel do presidente como um presidente que mais do que comenta, é um presidente que antecipa. Porque ele quando era líder parlamentar e foi líder do PSD, teve o privilégio de fazer algumas negociações com outros partidos promovidas pelo presidente e que nunca foram notícia até se fecharem. Pacto da Justiça, Revisões Constitucionais. Então ele vai achar que o papel do presidente é de antecipar estes problemas e conseguir, antes de eles serem públicos, garantir acordos entre as partes. Depois de serem públicos, praticamente já ninguém reage da mesma forma.
Deixe-me só perguntar, até porque fez uma referência que pode caber como uma luva a Marcelo Rebelo de Sousa, disse que o papel do presidente é antecipar, não comentar. A maior dificuldade ou o maior obstáculo de Luís Marques Mendes é provar que não é igual a Marcelo Rebelo de Sousa?
Não. Aqui eu vou corrigir. É antecipar, não é agir depois do problema estar criado. Ou seja, é mais difícil ao presidente tentar juntar as partes depois de estarem chateadas ou depois de cada um dos argumentos ser público, é mais difícil. E Marcelo Rebelo de Sousa, mais do que comentar, não é isso. Marcelo Rebelo de Sousa já apareceu várias vezes a tentar fazer acordos um bocadinho já depois de saber que havia um desacordo. Doutor Marques Mendes aí é diferente, é nessa parte que é diferente, é fazer antes. Ou seja, conseguir antecipar os problemas e tentar juntar as partes antes de publicamente estarem em desacordo, porque é mais difícil. Eu acho que é nessa parte que a coisa é diferente.
Mas pode ser um handicap a ideia que existe de que Luís Marques Mendes é muito, até porque são próximos, mas é muito parecido a Marcelo Rebelo de Sousa? Isso pode ser um handicap?
Não é um handicap. Eu acho que nas coisas boas do Marcelo são parecidos. Marcelo foi um presidente muito afável, que abriu as portas a toda a gente, é popular, não é por acaso que foi duas vezes eleito, é um perfil oposto de Cavaco Silva. E portanto, nessa parte da relação com as pessoas, de ter muita experiência política, se calhar é mais parecido. Por outro lado, é muito mais previsível do que Marcelo Rebelo de Sousa. Nesse aspeto é mais Cavaco E alguém que é muito rigoroso na exigência dos factos. Tenha certeza que com Luís Marques Mendes na presidência, o primeiro-ministro, nas suas reuniões semanais, vai ter que trabalhar muito, porque eu anoto na campanha, ele pergunta as coisas, quer ter a certeza, a gente não lhe pode dar uma resposta que não esteja certa. É muito exigente desse ponto de vista. E ele muitas vezes lembra os tempos do professor Cavaco como primeiro-ministro. E eu acho que hoje as pessoas já não estão habituadas a isso. Desse ponto de vista, acho que é diferente do Marcelo. Na parte da relação com as pessoas, de ter uma abertura muito grande. O doutor Marques Mendes vai na rua e tanto vai cumprimentar alguém que é um eleitor do PCP, como vai cumprimentar outro que é do PSD da mesma forma. E às vezes quem anda com ele na rua e não está habituado a isto, até se surpreende, sobretudo em zonas mais à esquerda. E depois é surpreendido porque as pessoas são muito simpáticas, porque o conhecem, porque o reconhecem, porque ele durante a sua vida política sempre foi muito, desse ponto de vista, imparcial, sempre acedeu a convites de pessoas de vários espectros políticos, sempre que foi governante preocupou-se com todos e não só com o seu eleitorado. Uma coisa que nós não tínhamos noção, por exemplo, foi ele que criou a RTP Internacional e já não nos lembramos disso e muito menos os mais novos do que nós, os da nossa idade. E, por exemplo, o voto dos imigrantes nas presidenciais é uma coisa do tempo dele. Ou seja, ele pode ser um presidente que não vai surpreender ninguém, é um presidente que tem passado, tem presente e pode ter futuro. E, portanto, tem uma experiência à sua volta que conta. E isso diria que é muito importante, mais do que nunca, numa altura em que a fragmentação política é de fato um problema do país ao qual nós não estávamos habituados.
Só uma pergunta antes de avançarmos. É inegável a identificação que Luís Marques Mendes tem com o PSD, também a proximidade que tem em relação a Luís Montenegro. Uma eventual queda do governo nos índices de popularidade, o mau momento como atravessou recentemente na questão dos incêndios e também na saúde, isso pode contaminar a campanha de Luís Marques Mendes?
Sinceramente, eu não sei responder. Acho que às vezes isso pode-
Alguém faça essa ligação.
Claro, é como perguntar se as sondagens favoráveis ajudam mais ou desajudam, porque relaxam. No caso do governo, diria, na popularidade pode prejudicar, sim, mas também as pessoas não gostam de pôr os ovos todos no mesmo cesto. Eu diria que não. Sinceramente, não sei, depende. Depende, é uma palavra que resolve muitas coisas, mas é uma faca de dois gumes ou de dois legumes, como dizia o governador do Boa Vista. Daí, gostava de saber a resposta, não sei. Gostava de saber a resposta, mas não podemos contar com isso. Eu acho que o doutor Marques Mendes o que tem que fazer é fazer uma boa campanha, continuar na rua, como já está há muitos meses. Na altura, acharam que era muito cedo, e ele começou, se calhar, muito antes do tempo, mas começou no tempo certo. Desde aí o almirante tem vindo a cair muito nas sondagens e Marques Mendes tem vindo a crescer, um bocadinho mais, um bocadinho menos, mas de uma base muito estável. Agora temos é que trabalhar bastante bem e pensar que é preciso passar à segunda volta.
Há pouco estava a falar de apoios, deixe-me falar de um deles ou da falta de um deles. Os 32% das eleições legislativas foram da coligação AD. Curiosamente, o outro parceiro da coligação, o CDS, ainda não disse nada. Consegue compreender esse silêncio?
Claro que sim. Há uma possibilidade em cima da mesa de Paulo Portas ser candidato. É normal que o seu partido, o partido do qual foi quase um dos principais construtores, não digo fundadores, mas foi construtores mais tarde, ainda não se pronunciou, precisamente porque também admito que queira esperar pela posição de Paulo Portas. Eu acredito que Paulo Portas não será candidato. Nós temos alguns membros já na campanha e na comissão política que são militantes do CDS, como Lopes Xavier, como Diogo Feio, entre outros, como tínhamos a própria Teresa Caeiro, que infelizmente já não está conosco, era desta comissão política, que recordo com saudade, e que tinha se desfiliado. E, portanto, eu diria que logo se vê. Estranho que seria já terem tomado uma posição, mas contamos obviamente no futuro conseguir ter o apoio do CDS.
Mas Luís Marques Mendes já tentou demover Paulo Portas dessa possibilidade?
Confesso que não sei, mas mesmo que soubesse, acho que também não devia dizer.
Falamos muito de almoço, houve aquele encontro noturno entre Gouveia e Melo e Nuno Melo. Acredita que há alguma possibilidade do CDS apoiar o almirante?
Não, não acredito que isso possa acontecer. E também não quero saber dos encontros noturnos das pessoas, muito menos do almirante e do senhor ministro da Defesa, por quem tenho uma grande consideração e respeito.
No anúncio da candidatura, André Ventura procurou mostrar que esta é uma luta onde apenas quatro candidatos contam. Luís Marques Mendes não tem razão para temer a candidatura de João Cotrim Figueiredo?
Não, em primeiro lugar, porque a candidatura de João Cotrim Figueiredo percebe-se que é uma candidatura para manter o eleitorado da iniciativa liberal, obviamente. E, por outro lado, também traz uma função de projetar a imagem dele num período em que a IL estaria até, de alguma forma, a decrescer. E percebemos também que não era esse o objetivo inicial ou que não era essa a ideia inicial. E portanto, eu acho que a partir daí, nós percebemos que João Cotrim Figueiredo é um candidato como todos os outros, nós vamos tratar da mesma forma que todos os outros, e acreditamos que lá mais pra frente na campanha as pessoas vão perceber que de fato não é um candidato a ganhar a presidência da República. E portanto acho que as pessoas vão perceber, e o eleitorado da IL é bastante inteligente, vai perceber que ou tem um candidato, um presidente que pensa um bocadinho mais como eles nalgumas coisas, ou tem um que é completamente oposto.
Está a sugerir que o eleitorado da IL até pode ir votar em Luís Marques Mendes?
Estou-lhes a sugerir que vão votar, estou. Espero que o façam, com todo o respeito, mas acho que esta é uma campanha que inevitavelmente, mais lá à frente, o voto útil será uma matéria importante de decisão.
E não houve conversas com João Cotrim Figueiredo para que recuasse e a IL declarasse esse apoio a Luís Marques Mendes? Houve alguma tentativa ou não faz sentido sequer?
Não, porque a IL apresentou logo uma candidata muito cedo, depois desistiu. Portanto, fazia sentido estar, era um bocadinho falta de respeito pela IL, e nós temos muito respeito pelos partidos todos e pelo seu eleitorado. Portanto, obviamente que a nossa mensagem é que qualquer eleitor da IL se revê num presidente como Luís Marques Mendes. Pode não concordar com tudo, mas não sai defraudado.
Mas há pouco falava da capacidade que Luís Marques Mendes está a ter no eleitorado mais jovem. Cotrim Figueiredo não tem uma grande probabilidade de ir roubar, por assim dizer, esse eleitorado.
Qualquer candidato tem. Neste caso, por exemplo, nós da IL temos o fundador da IL, o primeiro presidente da IL, estava na comissão de honra de Luís Marques Mendes. Temos uma antiga candidata a presidente da IL Está na comissão de honra do Luís Marques Mendes. Nós temos várias pessoas que votam em ele que estão a apoiar Luís Marques Mendes e acreditamos que o seu eleitorado também possa, de alguma forma, votar no único do seu lado. Não acreditamos que irão votar em Ventura, não acreditamos que irão votar em António José Seguro, mas que percebam que obviamente Cotrim de Figueiredo tem muitas dificuldades de chegar a uma segunda volta e não é candidato a ganhar as presidenciais. Eu diria, por exemplo, André Ventura também não é candidato a ganhar as presidenciais, é candidato a chegar à segunda volta. Mas quem é que pode ganhar as presidenciais? Isto para mim é muito claro: Gouveia e Melo, Luís Marques Mendes e António José Seguro são os três candidatos que podem ganhar. Daí a minha resposta.
Precisamente. E para perceber as contas que se vão fazendo na campanha do Luís Marques Mendes, acredita que há o risco sério de haver uma segunda volta entre Henrique Gouveia e Melo e André Ventura?
Eu acho que não há esse risco. Esse risco existe sempre. É o risco de Cotrim de Figueiredo ou Catarina Martins ir à segunda volta. Se isso é real ou não, aqui é outra questão.
A última sondagem, enfim, era uma sondagem muito balizada no tempo. Creio que a amostra era de agosto. André Ventura nem sequer tinha anunciado a candidatura. Aliás, tinha dito na altura que não seria candidato, mas punha Henrique Gouveia e Melo, Luís Marques Mendes e logo a seguir André Ventura. Estamos a falar de três mais bem posicionados a passar à segunda volta.
Deus nos livre se houver uma segunda volta com Gouveia e Melo e André Ventura. Até porque às vezes as pessoas não têm noção, mas nós temos que ver o que é ser Presidente da República. E é o único cargo em que de fato a experiência política é importante. É como nós quando procuramos um médico para uma coisa muito especial, procuramos o mais experiente, não é o que tem menos experiência e o que é mais engraçado. Se estivéssemos à procura de um chefe de Estado-Maior das Forças Armadas, o melhor era Gouveia e Melo. Estamos à procura do Ministro da Defesa, se calhar também é Gouveia e Melo. Se calhar alguém para tratar da logística de alguma coisa, com muita experiência que fez bem, mas há mais gente que o faria, também pode ser. Outra coisa é para ser Presidente da República, que é o cargo politicamente mais exigente de todos. É aquele em que nós depositamos a esperança e a confiança de conseguir, em determinados momentos que é preciso liderar a nação, estar presente, ter o bom senso. Se perguntarem qual é a característica mais importante de um Presidente da República, se calhar é bom senso, capacidade de visão, experiência, como nós fazemos com as pessoas mais velhas que pedimos conselho. E o Presidente da República tem que ser previsível, por um lado, tem que ser muito consistente, conhecer bem os seus poderes e a forma de os usar e ter experiência política para saber lidar com um espectro político muito fragmentado. E neste caso em concreto, nós devemos confiar naqueles que têm as melhores condições para, numa altura de dificuldade, liderarem a nação. E neste caso concreto, há alguém que desconhece completamente os poderes presidenciais ou que acha que vai pôr isso tudo na ordem, ignorando que há instituições e o equilíbrio das instituições é fundamental para a nossa democracia e para a nossa liberdade. Por mais que isso também crie dificuldades aqui e ali, nós temos que saber viver com aquilo que temos. E portanto, defender as instituições, defender a sua independência e a forma como o sistema está organizado, e se isso é ser do sistema, é do sistema que nos trouxe até aqui. E o sistema que nós criamos pós-revolução, com a criação da nossa democracia e com a sua grande sustentabilidade que tem hoje, com os seus defeitos, é esse sistema que nós queremos continuar a manter, a aperfeiçoar, a melhorar, mas não de repente mudar, não fazer mais uma revolução, porque fazer mais uma revolução era pôr em causa tudo aquilo que foi conquistado até aqui. Eu acho que é esse o papel do presidente, que é capaz de unir. E eu acho que os portugueses, olhando para trás, estão contentes com aquilo que tiveram. Que o país tem dificuldades, tem. Tem problemas, tem. Mas se compararmos com o passado, hoje o país é um país que vive melhor do que há 20, 30 anos. Foi este sistema da normalidade que nos trouxe até aqui. Luís Marques Mendes faz parte dessa normalidade. E numa altura em que nós até achamos, os dados são esses, que se avizinha uma crise económica na Europa e no mundo lá mais para frente, é bom ter alguém que tenha bom senso, saiba fazer pontes, que não seja mais um agitador. Quando temos uma grande agitação, o que é que nós precisamos? Alguém que ponha calma, tenha autoridade moral para falar, que tenha dado provas de experiência política, de previsibilidade, de bom senso, de rigor também, e que nos momentos críticos saiba decidir, saiba avançar. Neste caso, Marques Mendes foi o primeiro a avançar. Quando toda a gente dizia que não se devia avançar, ele avançou, teve coragem. Não é um taticista, não é alguém que tem medo de dar a cara, de arriscar, de falar.
Doutor Marques, e nós também temos de avançar, neste caso, para o segundo segmento do nosso programa. O bloco Carne ou Peixe. Venha daí a trilha. Lá está, numa segunda volta, quem é que preferia, João Noronha Lopes ou Rui Costa?
Rui Costa.
Muito bem.
Agora mais a sério.
Eu quase respondi Rui Rocha.
Estava a falar do Rui Costa.
Agora a sério, voltamos ao tópico anterior. Era obrigado a escolher um candidato na segunda volta: Gouveia e Melo ou André Ventura.
Acho que André Ventura era mais fácil.
Mais fácil?
Sim, para Marques Mendes, claramente. É o candidato que mais antagoniza com o...
Mas o objetivo da nossa pergunta não era esse.
É tapar a cara e pôr a cabeça.
Exatamente.
Se eu estava em Ventura ou Gouveia e Melo, Deus nos livre ter um presidente como qualquer um deles. Mas são pessoas diferentes, reconhecidamente, com defeitos diferentes, com formações diferentes, com hábitos diferentes e que são, de fato, também incomparáveis. Mas na verdade, acho que dentre os dois, Portugal não ficava a ganhar em nada com a sua eleição.
Está afastado do lado mais visível da política há algum tempo. Envoltando, preferia ser ministro de um governo de Pedro Passos Coelho com o Chega como parceiro de coligação ou ser deputado do PSD na oposição?
Mais depressa só seria deputado do PSD na oposição, porque para já nunca aceitaria fazer parte de um governo com o Chega, mas também não acreditaria que Passos Coelho fizesse um governo com o Chega, pelo menos com o Chega que nós conhecemos hoje. E também, vamos ser sérios, o Chega que conhecemos hoje é inaceitável, as posições que tomam. Conheço muita gente que até está no Chega e que são pessoas normais, mas as posições que têm tomado muitas vezes são vergonhosas e não fazem sentido nenhum. Mas há muito boa gente que é eleitora do Chega, que é gente como deve ser, que é gente boa. Nós também há uns anos olhávamos para o Bloco de Esquerda e pareciam todos um bocadinho loucos. Não é que hoje em dia estejam mais moderados, mas diria que têm mais responsabilidade e sentido de Estado. Comparando com o que eram antes. Também não faria coligação com nenhum deles. Mas se daqui a uns anos o Chega vai ter uma coisa diferente com o mesmo nome, seria outra coisa. É isso que eu quero dizer, que as pessoas também evoluem e os partidos mais radicais tendem a acalmar-se. Mas não diria nada disso e também não faço tensões de voltar à política no próximo tempo.
E como militante do PSD preferia daqui a oito ou 10 anos, como quiser, ter como líder do partido António Leitão Amaro ou Sebastião Bugalho?
Eu sou pessoalmente e da política, diria que o António Leitão Amaro é dos meus melhores amigos. E se tivesse que optar por um, optaria sempre pelo António, porque já provou muito, teve coragem em grandes momentos. O Sebastião Bugalho tinha-me uma chamada antes de chegar aqui, é um tipo supercorajoso, muito mais corajoso do que muitos que andam na praça pública. Tenho o maior respeito por ele. Acho que tem uma capacidade extraordinária de ler política, está a fazer um grande papel no Parlamento Europeu e acho que neste momento é o campeão de apresentações de candidatos. Eu diria que é o herdeiro de Marques Mendes na apresentação de candidatos.
Veja lá onde é que o está a colocar. Portanto, Leitão Amaro para o partido, Sebastião Bugalho para a presidência.
Não, mas acho que como o PSD de cinco em cinco anos, em média, muda de líder, acho que claramente qualquer um deles daria um bom líder do PSD no futuro, mas pela ordem que eu referi. Acho que era o melhor para todos.
Muito bem, Duarte Marques, agora é a altura do convidado servir uma sobremesa, no caso, uma música. Que música é que nos traz e por quê?
A música que eu trago é das músicas que mais gosto. Eu não costumo prestar muita atenção às letras, confesso. A minha mulher se vir quando for ouvir isto vai-se rir. Só ouço mesmo a música e o conjunto da melodia. Mas há uma música que eu gosto imenso, que é o "Wish You Were Here" dos Pink Floyd, que eu ouço há muitos anos. Eu na minha juventude ouvia coisas dos mais velhos. Ouvia Genesis, Pink Floyd, Dire Straits, etc. e outras coisas. O meu pai morreu muito cedo, eu tinha 13, 14 anos, meu pai tinha 50 anos, era uma pessoa para mim uma referência na ação pública, não só política, mas local e como cidadão. E sempre que penso nessa música lembro do meu pai. É uma boa chamada e é sempre por isso. E a música em si é boa. Eu penso no meu pai e outras pessoas que eu gostava que estivessem cá e já não estão. E é sempre uma boa recordação.
Duarte Marques, muito obrigado por ter vindo à BCC Suave. Os nossos ouvintes já sabem, podem ouvir esta entrevista na Rádio Observador, nas plataformas habituais ou lê-la na íntegra no site do Observador.