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Bem-vindo ao último episódio de "Visões Criativas", um programa com o apoio da Alberto Oculista, onde vamos descobrir como as profissões criativas usam a visão não apenas para trabalhar, mas para contar histórias e impactar o público. Eu sou a Maria Ribeiro Nunes e no episódio de hoje mergulhamos no mundo do espetáculo. A dança é uma arte visual em que a visão guia cada movimento e para nos ajudar a compreender o trabalho de um bailarino, recebemos o Edgar Branco. Bem-vindo, Edgar.
Obrigado.
O Edgar Branco é bailarino profissional. Ganhou destaque no programa Dança com as Estrelas da TVI, onde participou desde a primeira edição, mas começou cedo a dar os primeiros passos na carreira. Foi campeão nacional diversas vezes em várias categorias de dança desportiva. Começou a dar aulas de dança em 2005 e mais tarde fundou a escola de dança desportiva nacional Dance Step, com a sua mulher, também bailarina. É uma figura influente no panorama da dança em Portugal e atualmente conjuga a paixão pela arte com outro desafio profissional, o mercado imobiliário. Edgar, qual foi o palco mais especial em que já dançaste?
Há palcos especiais por várias razões. Um dos palcos que seria mais especiais que eu atuei é capaz de ter sido no casamento do pai da Milene, o pai da minha esposa, e que acabamos por fazer uma atuação lá. Outro deles, de certeza, num campeonato do mundo que pudemos ter o prazer de ir representar o país. Portanto, depende. Uma exibição na minha escola também é um palco que eu adoro fazer, portanto é um bocado injusto estar a escolher um, mas diria que, se calhar, um campeonato do mundo. Não é toda a gente que consegue representar o país a um campeonato do mundo e acho que é capaz de ser o marco de um competidor maior.
Olha, vamos começar com um desafio para conhecermos melhor as tuas preferências enquanto bailarino profissional.
Vamos a isso.
É um dilema de "isto ou aquilo", onde te vou dar duas opções e escolhes a que preferes. Vamos a isso, Edgar Branco?
Vou tentar.
Edgar, preferes dançar com luzes fortes num palco bem iluminado, onde cada detalhe é visível, ou com pouca iluminação numa atmosfera mais íntima?
Quem me conhece sabe que a resposta é a segunda. Não há hipótese.
Ok.
Apesar de já ter feito muita coisa com muita luz, mas eu sou uma pessoa mais recatada do que a atividade, na realidade, pede. Então sim, iria para a segunda opção, sendo que a primeira não é a minha de eleição, apesar de também conseguir fazer se for necessário, mas não é a que eu escolheria direto.
E já dançaste em vários cenários, como referimos há pouco. Preferes dançar num ambiente com cenários muito elaborados ou num espaço mais minimalista, onde os movimentos são o foco?
Experiências diferentes, mas talvez mais minimalista. Gosto da proximidade do público, gosto da proximidade das pessoas, portanto, talvez mais íntimo.
Para terminar, Edgar, preferes executar movimentos que exigem foco constante do público ou movimentos que se concentram mais na interação com outros bailarinos à tua volta?
Não, gosto mais de foco com o público, talvez.
E agora que já conhecemos um bocadinho mais do Edgar enquanto bailarino profissional, gostava de começar por te perguntar quando é que a dança se tornou mais que um hobby, porque já ouvi dizer que foi muito cedo.
Foi muito cedo, sim. Aliás, eu estava no início da faculdade e quando comecei a competir e a perceber. Só para enquadrar, fazia kickboxing e natação de competição antes de começar a fazer dança. E a minha mãe nunca achou que eu ia fazer dança na minha vida.
Como é que sai do kickboxing?
Exato. E eu quando comecei a fazer, achei que era uma atividade desafiante, mais desafiante do que as outras, apesar de poderem ter outras coisas mais desafiantes, mas a complexidade, a quantidade de coisas que eu podia aprender, a mim fascinou-me na altura.
Então foi uma escolha tua sair do kickboxing para ir pra dança?
Foi uma escolha minha, sim.
Ok.
Impelida pela minha mãe, que disse: "Epá, não há dinheiro para tudo", mas sim, foi uma escolha minha. Mas a realidade é que começou desde aí que eu disse que o meu objetivo é ser professor de dança. Portanto, tudo que eu fizer a partir daqui é para isso.
E dizem que quem não vê além, tropeça nos próprios passos. É assim o dia a dia de um bailarino?
Não, na realidade, o bailarino costuma ter mais equilíbrio do que uma pessoa normal, portanto, os tropeções são muito menores. Aliás, a minha esposa costumava acabar por tropeçar muitas vezes e torcer os pés e tudo mais. E quando começou a dançar, isso começou a desaparecer. Acabou torcer os pés.
É uma habilidade que se ganha com a dança?
Sim. É mesmo uma questão de equilíbrio, noção espacial também, que nos permite corrigir o corpo sem estar em tensão e então é mais fácil equilibrar assim.
Interessante. E a dança é uma arte corporal, mas também depende muito da visão, como referias agora, por exemplo, a noção do espaço. Aquilo que vês enquanto danças ajuda na coordenação e na execução dos movimentos?
Ou seja, se eu quiser fazer uma rotação de olhos fechados, é uma coisa. Se eu fizer uma rotação de olhos abertos, já é uma coisa completamente diferente. Temos o foco, temos a noção de quanta rotação eu estou a fazer, onde eu termino, onde eu começo. E isso permite fazer uma panóplia de movimentos muito maior do que se eu não tivesse visão. A realidade é essa.
E que técnicas costumam utilizar para melhorar a vossa perceção visual? São alguns truques que acabam por ganhar, não é? Por exemplo, fixa um ponto. Isto é verdade? Isto efetivamente aplica-se no dia a dia de um bailarino?
Aplica-se muito, até porque esse direcionamento do foco permite não ter Porque isto tem a ver com o sistema vestibular. Se nós rodarmos muito, é como um copo cheio d'água. Começa a rodar, e se a gente parar o copo, ele continua a rodar. Por isso é que nós ficamos tontos. Então, fixar um ponto é quase como eu conseguir rodar o copo rápido, de forma que a água não se mexa lá dentro. É isto que se passa com o equilíbrio.
E isto treina-se tudo também com a ajuda da visão?
Treina-se tudo. Com a ajuda da visão, dá pra treinar tudo. Dá pra treinar nós e dá pra treinar os outros, porque isso é a parte importante também. Não basta só entender o movimento, mas eu de vez em quando tenho que ver, porque a nossa percepção do movimento, se virmos ao espelho, vemos coisas que eu não estou a sentir que estou a fazer, mas que na realidade estão lá.
É essa a importância de treinar em frente a espelhos?
Também.
A maior parte dos estúdios de dança têm espelhos. É por este motivo?
Se calhar somos um bocadinho exibicionistas.
Querem ver o que estão a fazer.
Não, mas tem a ver com isso, tem a ver com a correção que conseguimos fazer com a visão. É muito importante, porque nós depois competimos. Somos avaliados por alguém que está fora do nosso corpo, portanto, logo aí a pessoa vai estar a ver. Se nós tivermos uma ideia da imagem que eu estou a transmitir quando abro os meus braços ou quando estou numa linha ou quando tenho o par na minha mão, é completamente diferente do que se eu não tiver noção do que estou a fazer.
Então achas, por exemplo, que ter uma boa visão é um requisito para se ser um bom bailarino?
Ter uma visão treinada é um requisito.
Ok. Então quais achas que são os desafios que bailarinos com problemas de visão, como miopia ou astigmatismo, enfrentam? O uso de óculos ou lentes de contato, por exemplo, pode ser um problema ou pode ser uma solução?
Eu acho que pode ser uma solução. Isto por quê? Porque normalmente quem tem dificuldade em ver, tende a criar expressões para tentar facilitar a visão. Não fica muito estético em termos competitivos, atualmente, goste ou não se goste, de óculos na competição, logo, quem tenha que usar óculos mesmo para ver e competir de óculos, não é mais estético do que alguém que não usa óculos, que tenha lentes, por exemplo.
Ok.
Isto em termos estéticos mesmo, não tem nada a ver com qualidade técnica.
Com o desempenho e com a performance depois no palco.
E isso faz com que a pessoa, quando não usa óculos e precisa muito deles, comece assim a franzir os olhos para tentar ver qualquer coisa, para tentar direcionar. E isso faz com que possa ou não conseguir fazer determinados movimentos, determinadas ações.
E aqui uma curiosidade: vocês, bailarinos, em palco, têm marcas visuais no chão ou não há qualquer tipo de referência para os passos que fazem?
Depende do nível.
Nível de competição?
Sim, nível de evolução, neste caso. Por exemplo, no meu caso e da minha parceira, da Milene, eu acho que nunca tivemos marcas no chão, mas pomos marcas no chão para os miúdos que são pequeninos, que precisam de saber que têm que ir até ali. É ali o sítio onde começa, onde é que está o meio do palco. Já fizemos isso com marcações de adereços, cadeiras, o que quer que seja. Uma das marcações que existe muito em termos de espetáculo é o meio do palco. Para quê? Para se saber dividir os grupos e eu perceber se estou muito caído pra um lado ou muito caído pra o outro. E então, isso acaba por acontecer muitas vezes, essa marcação mais para o espaço em si, para o entendimento do espaço, do que para o dançarino. E quanto mais experiência tem, na realidade, menos marcação tem no chão.
Isso é uma coisa que se ganha, não é? A noção corporal e espacial, o perceberes onde é que termina o teu corpo e onde é que começa o da outra pessoa.
Isso mesmo.
Tu quando danças coreografias com movimentos assim mais rápidos, tu sentes que a visão se ajusta constantemente?
Depende do movimento. Lá está, se for uma rotação, em princípio, vê-se o início e o fim da rotação, que normalmente pode ser exatamente o mesmo. Não vemos nada, entre rotação não vemos nada. Se for movimento rápido feito pela outra pessoa que nós estamos a acompanhar, aí por norma, temos tendência de olhar para a parte do corpo ou o movimento que está a acontecer é mais direcionado. Quando estamos a fazer alguma coisa rápida e temos um foco para o público, por norma, temos tendência de o manter um bocadinho mais tempo para permitir ao corpo dançar para aquele ponto. Portanto, depende um bocadinho, às vezes, do próprio movimento em si.
E faz diferença mesmo dançares e olhares-te ao espelho e depois dançares e olhares para os olhos do público?
Faz. Para mim, faz. Eu acho que todo dançarino ou quem está a atuar, quer uma reação. Olha para o público porque precisa de uma reação. E essa reação a gente não a tem com o espelho. A gente tem os nossos olhos, mas é raro estarmos a olhar para nós mesmos no espelho. Estamos a olhar para o nosso corpo, não estamos a receber feedback do outro lado. Por outro lado, o público pode ser um pau de dois bicos. Pode estar a olhar e ser uma reação muito positiva ou ter uma cara, como nós chamamos, uma cara de brócolis, mas é um bocadinho por aí. Recebe-se o feedback. Se o feedback for positivo, também dá um ânimo diferente.
Olha, e quando estás a dançar, por exemplo, assim em grupo, tu confias na tua visão periférica para evitar colisões no fundo com outros dançarinos ou usas apenas as tuas referências corporais e aquilo que treinas efetivamente?
Eu uso muito visão periférica, tenho que usar. Apesar de saber que quanto mais conhecimento tenho, sei que se for pra trás, estou mesmo a ir pra trás. Não estou a ir enviesado pra algum lado. Também já corrigi isso vezes suficientes pra não acontecer. Mas mesmo assim, não custa nada ter uma noção espacial um bocadinho maior que a nossa visão normal. Criar ali um bocadinho mais de visão periférica e há as rotações, há tudo mais, e há coreografias que são muito complexas mesmo, no caso do "Dança com as Estrelas". Havia coreografias com muitas passagens entre pares e atletas, e agarra a mão aqui, e passa pra ali, e vira pra aqui, e a seguir passa pra trás, e piruetas. Então tem que se ter uma noção espacial muito grande. Por muito que o meu corpo esteja preparado, se eu não vir o que está a acontecer, é impossível estar a 100%.
Edgar, que conselho darias a um bailarino iniciante que queira melhorar a sua percepção visual, que queira adaptar-se melhor aos diferentes palcos?
Bem, primeiro conselho é confiar nos olhos dos outros Outros que tenham experiência, outros que saibam o que estão a fazer. Se for esse o caso, sim. Mas nós temos os nossos professores e se me disser a mim que: "Olha, o que estás a fazer aí não fica, não dá, não pode ser, não fica bem". E eu, apesar de me estar a sentir bem, a primeira opinião que eu oiço é aquela. Aquela pessoa é que me está a ver, aquela pessoa é que está a ver de fora, aquela pessoa é que tem mais conhecimento que eu. Portanto, acho que esse é o primeiro ponto. Essa era a primeira coisa que eu diria a alguém, é para confiar em alguém que tenha provas dadas disso. Não é confiar às vezes cegamente, só porque sim, porque me apeteceu ir para ali e estou a confiar a 100%, mas é ter a noção de se essa pessoa tem provas dadas, o que é que fez, como é que vê a dança, como é que se posiciona, que tipo de formação faz, que continuação de formação é que faz. Eu acho que isso é muito importante. Depois, a partir do momento em que começamos a ter mais experiência, também é confiar um bocadinho no que os nossos olhos veem. Não estar a ver só aquilo que queremos ver. Eu tenho pessoas que olham para um vídeo de competição e estão sempre a criticar.
Delas próprias ou de outras pessoas?
Delas próprias. "Estão mal, isto foi horrível e não sei quê, dancei tão mal. Isto aqui, não fiz isto, não fiz aquilo". Depois tenho outras que se calhar fazem a mesma, em termos de qualidade, é mais ou menos igual e que: "É espetacular, olha lá o que eu estou a fazer". Eu estou a olhar para os vídeos às vezes e só penso: "Mas tu não estás a ver, como é que é possível estares a olhar para isto e não estares a perceber que aquilo que a gente tem trabalhado não está a acontecer?". E então também aconselhamos muitas vezes que o sentimento que tu tens não interessa, não conta.
Onde é que ficam os teus estúdios, já agora?
Ficam no Casal do Marco, na Margem Sul.
Fica a sugestão para quem quiser ir dar um passinho de dança. E para terminarmos este programa, trago-te outro desafio. Vou dar-te duas frases, uma delas é um facto sobre a visão e a outra é um mito. No fundo, tens que tentar identificar qual é a afirmação verdadeira e qual delas é a afirmação falsa. Estás pronto?
Não.
Edgar, as frases são: entortar os olhos pode torná-los tortos para sempre e a pupila dilata-se quando vemos alguém por quem estamos apaixonados.
Sendo que o nosso corpo tem reações quando vemos coisas positivas, eu apostaria na segunda sendo verdadeira e a primeira sendo mito. Até porque eu gosto muito de fazer por isso, de entortar os olhos, ainda não estão tortos e já faço há muitos anos.
Então não convém que seja verdade.
Pois, não convinha que fosse verdade. Se for verdade, é da maneira que paro. Eu acho que a minha esposa vai aceitar isso de bom grado, mas eu acho que a segunda é verdadeira e a primeira é mito.
Está certíssima. Estudos mostram que as pupilas podem dilatar até 45% em resposta a estímulos emocionais. Normalmente aumentam quando vemos um objeto interessante e que aceitamos sem hesitação. Também dilatam no escuro, quando temos dificuldades em ver. É o caso, por exemplo, quando bailarinos dançam em palcos pouco iluminados. Se as condições de iluminação e visibilidade forem as normais, então significa que a dilatação da pupila pode ser, sim, sinal de interesse e atração. Já o entortar os olhos pode torná-los tortos para sempre, é um mito. Eu ouvi muito quando era criança. Pelos vistos, também o conheces bem. Na verdade, os músculos oculares permitem o movimento dos olhos em diferentes direções. O facto de se olhar para a esquerda, para a direita, para cima e para baixo ou entortá-los, não fará de diferença e não fará com que eles fiquem permanentemente nestas posições. Os olhos tortos geralmente resultam de doenças visuais, de erros refrativos não corrigidos ou de danos musculares nervosos.
Ainda bem, portanto continuamos, não é?
Edgar Branco, muito obrigada por nos teres ensinado tanto sobre a tua profissão enquanto bailarino. Muito obrigada por teres aceitado o nosso convite.
Obrigado eu pelo convite e foi um prazer.
Dançamos na linha do tempo e chegamos ao fim do programa Visões Criativas, um podcast com o apoio da Alberto Ocubista. Neste último episódio, ouvimos um testemunho da importância da visão na carreira de bailarino. Lembre-se: por detrás de cada movimento perfeito, há uma visão apurada, uma perceção clara do espaço e um olhar atento aos detalhes, mesmo nos movimentos mais suaves. Foi um gosto olhar para novos horizontes ao longo destes episódios. Pode sempre recordar nas principais plataformas de podcast e no nosso site em observador.pt. E olhos bem abertos para um futuro criativo. Até breve!