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Seja bem-vindo ao novo episódio de "Visões Criativas", um programa com o apoio da Alberto Oculista, onde não basta ter a visão de um todo, é preciso bom olho para os detalhes. Eu sou a Maria Ribeiro Nunes e hoje vamos ver além do óbvio, olhar com clareza para o que está por vir, sempre com vista às novas tendências. Vamos perceber como é que a visão pode ser a melhor aliada de um designer de moda, porque, no fim das contas, a moda não é só o que vestimos, é também como vemos o mundo e como o mundo nos vê. Para isso, contamos com o olhar de Valentim Quaresma, que vê possibilidades, formas, texturas e até mesmo histórias por contar num acessório ou numa peça de roupa. Bem-vindo, Valentim.

Obrigado.

O Valentim expressa a criatividade através da moda e da arte. É designer de moda e aos 18 anos fez a primeira coleção de joias e acessórios para Ana Salazar, pioneira da moda portuguesa, com quem trabalhou durante 22 anos. Fundou a própria marca em 2005 e o sucesso tornou-se internacional depois de ter recebido o prêmio "Melhor Coleção do Ano" no concurso International Talent Support, em Itália. Desde então, tem apresentado o seu trabalho pelo mundo. As suas coleções integram o calendário oficial da Moda Lisboa, onde apresenta sazonalmente o seu trabalho desde 2011. E Valentim, nada é só o que parece, não é verdade?

Parece não.

Nem tudo o que parece é.

Nem tudo o que parece é, no meu caso.

E pode parecer muita coisa.

Sim, geralmente parece muita coisa.

Depende dos olhos de quem as vê, não é verdade?

Depende do ponto de vista.

Vamos começar com um desafio para te conhecermos melhor. É um dilema de isto ou aquilo, onde te vou dar duas opções e escolhes a que preferes. Vamos a isso?

Vamos.

Valentim, nas tuas criações, preferias só poder explorar padrões geométricos ou formas orgânicas?

Formas orgânicas.

Por quê?

Porque tenho uma ligação com a natureza muito forte e acho que ia ser mais criativo.

Preferias só poder trabalhar com contrastes visuais intensos, como o preto e o branco, ou só poder harmonizar diferentes tonalidades da mesma paleta de cor?

Só com preto e branco. Sim, acho que consigo resultados mais fortes.

Impactantes?

Sim.

Que é muito a tua linha.

Que é muito a minha linha.

Numa coleção, Valentim, preferes passar uma narrativa clara ou deixar que cada peça conte a sua própria história?

As duas coisas.

Uma mistura das duas?

Uma mistura das duas, sim.

E se tivesses que escolher só uma? E tivesses que abdicar da outra?

A primeira.

A primeira, uma narrativa clara?

Uma narrativa clara.

Sempre dependente do olhar de quem as vê.

É lógico.

Foi fácil?

Foi fácil.

Agora que já conhecemos um cadinho mais do Valentim Quaresma enquanto designer de moda, gostava de começar por te perguntar: tens uma já longa e reconhecida carreira, que começou precisamente com a joalharia. Como é que se descobre que se tem talento pra arte de fazer joias e acessórios?

Bom, eu descobri porque eu arranjei emprego logo quando tinha 16 anos, a trabalhar num ateliê a fazer acessórios. Nunca passou pela cabeça que pudesse vir ser a minha profissão.

Foi um acaso?

Foi um acaso mesmo. Eu queria ser ginasta quando era miúdo.

Como é que passamos de ginasta pra designer?

Parti o braço e nunca mais fiz saltos direito.

Mas o braço ficou bom depois.

E o braço ficou ótimo pra trabalhar, claro.

E anos mais tarde começaste a fazer vestuário também. Foi vontade de contar histórias diferentes com outras formas de arte?

Foi vontade de complementar o trabalho que tinha feito até então. E também porque os desfiles iam ficando cada vez maiores e seis meses não chega pra criar uma coleção para um desfile só de acessórios. Então comecei a incorporar também a roupa e a incorporar a roupa no meu processo criativo, ao mesmo tempo que ia criando as joias e criando a roupa também.

E foi um desafio, foi-te proposto por alguém ou foi iniciativa própria? Foi uma vontade tua?

Não, foi uma vontade minha, sim. Tive que pôr todo o meu know-how logo ao serviço da criatividade.

E foi aí que esqueceste a ginástica.

E foi. Não, foi muito antes.

Olha, eu gostava de explorar como é que a visão, não só no sentido literal, é essencial pra quem trabalha com moda. A percepção visual tem influência, desde a escolha do material até à composição de um desfile de moda. Achas que é esta capacidade de ver além do óbvio que distingue um designer talentoso de um visionário?

Acho que acima de tudo é a curiosidade e a visão que nós conseguimos ter através dessa curiosidade de perguntar como é que se faz, como é que não se faz, o que é isto, o que é aquilo, como é que eu vou pra aqui, como é que eu vou pra ali.

Achas que é o essencial na tua profissão, é ser uma pessoa curiosa?

Acho que sim. É uma das ferramentas principais pra um designer.

Como é que descreverias o papel da visão no processo criativo da tua profissão, de um designer de moda? Isto porque é uma profissão que depende muito da intuição, da criatividade, como referias, da percepção emocional e posteriormente da própria habilidade manual na conceção da peça.

Na visão, tem que estar muito ligado à paciência também. Há dois aspectos: ou quando estamos em processo criativo de ver aquilo que nos rodeia para incorporar no trabalho que estamos a fazer, ou também a visão quando estamos a ter um trabalho mais prático, literal, de estar, por exemplo, seis horas a olhar pra uma agulha a coser.

O teu trabalho implica muitas vezes errar, melhorar, errar, melhorar. Achas que gera aqui alguma frustração?

Não, de todo, porque faz parte mesmo do processo criativo. Se não erras, não se avança.

Exato, aprender aqui com o erro.

Sim.

Valentim, quando desenhas uma peça, consegues visualizar como é que vai ficar no corpo de uma pessoa ou é uma surpresa e quando é efetivamente utilizada por alguém é que ganha outros contornos?

É sempre uma surpresa, até porque eu não desenho as minhas peças, começo logo a fazer aquilo que imagino.

Ok.

E elas vão nascendo dessa maneira.

E já te aconteceu teres uma imagem em mente que depois, ao ser concretizada, não funcionou como esperavas?

Não é questão de não funcionar. Funcionar acaba sempre por funcionar. Pode é acabar de uma maneira diferente daquela que eu tinha pensado no princípio.

E surpreendes-te?

Sim, claro.

Muitas vezes?

Muitas vezes.

Às vezes acaba por ficar melhor do que aquilo que imaginavas?

Não, eu acho que ela só está acabada quando eu olho pra ela e fico surpreendido.

Tu surpreendes-te com todas as tuas criações?

Não todas, mas uma grande parte.

E já te aconteceu, por exemplo, pensares que tinhas terminado efetivamente uma peça e dias depois voltas a olhar pra ela e pensas: "Ainda pode ficar melhor."

Sim, isso acontece com muitas peças. Há peças que eu tenho que estão sempre em construção. Ainda tenho algumas.

Por exemplo, há pouco referiste o estar seis horas a olhar pra uma agulha. Tu achas que a tua profissão é uma profissão que cansa a vista, no sentido em que às vezes precisas mesmo de parar de olhar pra conseguir depois mais tarde voltar a olhar e vê-la com outros olhos?

Sim, completamente. Não só isso, temos também a luz. É bastante importante para aquilo que estamos a fazer. Uma boa luz se requer para fazer um bom trabalho.

O teu ateliê tem uma boa luz?

Tem luz natural, sim.

E fazes questão de que haja uma boa iluminação.

Sim, é essencial.

Mas trabalhas também durante muitas noites, acredito.

Já não.

Já não?

Não, quando era mais novo, sim, trabalhava à noite sem fio, mas à medida que fui ficando mais velho e mais organizado, foi um dos senãos de mão.

Perdeste o mau hábito.

Não é um mau hábito, eu já não preciso trabalhar à noite para chegar às conclusões e ao trabalho que tenho que fazer.

E nas tuas criações usas materiais pouco óbvios. É o caso de molas de pressão, cabos elétricos, fitas de cassete VHS e certamente muitos outros. Como é que se olha pra um material e se vê além daquilo que se tem no momento?

Experimentando, fazendo experiências com eles e vendo as características que eles têm e aquilo que nos podem proporcionar. Há materiais mais interessantes pra trabalhar do que outros, como é lógico. E também depende daquilo que queremos fazer com eles.

A sustentabilidade é uma preocupação que tens no teu ateliê, portanto, nada vai fora, tudo pode ter uma segunda vida.

E tudo tem uma segunda vida, sim. Há muito pouco desperdício no meu ateliê, tanto a nível têxtil como do resto dos materiais.

E quais são os desafios de traduzir uma visão criativa em algo palpável?

Os desafios são tentar ser o máximo criativo possível, de inovar. Acho que esse é o principal.

É a criatividade mesmo, que é também um dos requisitos pra ser um bom designer de moda. Como é que tu equilibras a visão artística, ou seja, uma ideia, com as necessidades práticas e funcionais da moda? Porque às vezes é muito bonito, mas pode efetivamente não ser prático no dia a dia.

Mas a moda também não é só pro dia a dia. Eu faço o meu trabalho, não é só pro dia a dia.

Não tem essas limitações.

Não tem, porque depois também divido o meu trabalho para durante outras áreas. Quando faço coisas pra teatro, há coisas que são aproveitadas quando estou a trabalhar pra teatro. Ou mesmo as coisas que não são vendidas, são arquivadas pra uma exposição, etc.

Portanto, literalmente, tem tudo mesmo uma segunda vida.

Tem tudo uma segunda vida, sempre.

E as tuas criações são geralmente muito detalhadas. Quando visualizas uma peça, tens em conta o look inteiro ou depois de teres a peça é que constróis a imagem geral? Qual é o teu processo?

Eu começo sempre a pensar no pormenor para a-

Pra imagem grande?

Para a imagem grande, sim. E isso foi um treinamento como joalheiro.

A tua escola das joalherias.

Sim, de pensar no pequenino para aumentar a escala.

E neste caso, os detalhes é que fazem efetivamente a diferença.

Os detalhes fazem sempre a diferença.

Tu costumas seguir tendências ou confias mais na tua visão pessoal?

Não, nem acredito, nem acho que seja correto falar em tendências hoje em dia.

Achas que este conceito já se perdeu?

Acho que sim, completamente.

E achas que a visão pode ajudar a antecipar as necessidades e as preferências do mercado, não sendo naturalmente as tendências que referes, mas as necessidades do mercado?

A visão sim, pode estar ligada a muitos aspetos da sociedade e políticos que influenciam a moda.

Gostas de misturar um conceito social e político numa criação?

Gosto, eu fiz isso no último desfile.

E como é que foi a percepção do público?

Passou muito despercebido. Foi o primeiro coordenado que levava as cores da Palestina, mas foi uma coisa muito-

Muito subtil?

Subtil, sim.

Não crias a pensar na reação do público, é isso? Crias aquilo que tens em mente efetivamente.

Sim, crio para me satisfazer, principalmente.

Então o impacto do público não afeta a tua vontade de criar uma coleção com um certo conceito.

É lógico que não, mas também se tiver uma má crítica, também não é por causa disso também que a minha autoestima e a minha criatividade vai abaixo.

Como é que tu descrevias a evolução da tua visão como designer de moda ao longo dos anos? O que mudou na forma como vês e como interpretas a moda?

Como vejo e como interpreto a moda, principalmente depois do Covid. Mudou a minha forma de pensar e minha forma de trabalhar total.

O que mudou?

Dantes pensava de uma forma mais industrial, industrializar a minha marca, e depois do Covid percebi que não era esse o meu caminho. O meu caminho é mesmo de fazer moda de autor, porque sou um artista que expressa minha criatividade através da moda.

E foi bem recebida essa tua mudança de percepção?

Sim, até agora não posso queixar, sim.

Valentim Quaresma, vamos a mais um desafio?

Vamos.

Estamos quase a chegar ao fim do programa e vamos terminá-lo com outro dilema. Vou dar-te duas frases, uma delas é um facto sobre visão, a outra é um mito. O desafio é identificares qual delas é a afirmação verdadeira e qual delas é a afirmação falsa. Vamos a isso?

Vamos.

Vamos ver se consegues identificar o facto e o mito. As frases são: "Comer cenouras melhora a visão" e "Os bebés nascem daltónicos". Qual delas é a verdadeira e qual delas é a falsa, Valentim?

Os bebés. É verdadeira.

É verdade, está certíssimo. Os recém-nascidos não conseguem distinguir cores por completo nos primeiros meses de vida. O cérebro começa por conseguir identificar cores básicas, como o vermelho e o verde, por volta dos quatro meses de idade, e a percepção das restantes cores desenvolve-se com o tempo. Já o mito de comer cenouras melhora a visão é daquelas coisas que crescemos a ouvir. Efetivamente nunca vamos procurar a base científica por trás disto. Mas o mito surgiu durante a Segunda Guerra Mundial, quando o exército britânico divulgou que o sucesso da Força Aérea Real se devia à excelente visão noturna dos soldados por comerem muitas cenouras. Esta explicação era apenas uma manobra de distração pra manter em segredo o radar de interceção que o exército tinha. As cenouras são ricas em vitamina A, que é uma vitamina essencial pra saúde ocular, mas comer grandes quantidades não vai melhorar drasticamente a visão. Não é por comer cenouras que vamos deixar de usar óculos. É curiosa esta explicação, não é?

É curioso, sim.

Já tinhas ouvido esta expressão de comer cenouras?

Já, claro que sim, comer cenouras.

Faz bem à visão. E a explicação é extraordinária, fiquei surpreendida.

Sim, eu não sabia essa história.

Valentim Quaresma, muito obrigada por nos teres ensinado tanto sobre a tua profissão enquanto designer de moda. Muito obrigada por teres aceitado o nosso convite.

Obrigado eu.

Chegamos ao fim de mais um episódio de Visões Criativas, um programa com o apoio da Alberto Oculista. Hoje ouvimos um testemunho da importância da visão na carreira de designer de moda. Lembre-se, a visão é muito mais que um sentido e vai muito além do que se vê. É o que nos permite perceber, imaginar e criar. De olhos bem abertos para o próximo episódio. Vemo-nos pra semana. Até lá.