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Bem-vindo ao novo episódio de "Visões Criativas", um programa com o apoio da Alberto Oculista, onde exploramos a importância da visão em profissões artísticas. Eu sou a Maria Ribeiro Nunes e no episódio de hoje vamos conhecer o mundo do design gráfico, onde a visão não é apenas uma habilidade biológica, mas uma ferramenta poderosa para criar, comunicar e impactar. Para isso, contamos com a ajuda do Filipe SJ. Bem-vindo, Filipe.

Olá, obrigado.

O Filipe é licenciado em Design de Multimédia e, além de designer gráfico, é ilustrador, criativo digital e gosta de brincar com a fotografia. Uma das suas grandes influências foi o irmão mais velho, também designer, que o introduziu e guiou por este mundo criativo. Para o Filipe, a organização é essencial e aos sábados vai à missa, que é como quem diz: vai ao skate park com a família. Conta com vários destaques e publicações a nível nacional e internacional, tendo sido eleito três vezes como um dos 200 melhores artistas digitais do mundo pela Archive, e tem algumas condecorações Young Lions. Descreve-se como um fanático de organização que afirma ser um designer. O que isto significa, Filipe?

A verdade é que este tópico da organização sempre fez um bocado parte da minha personalidade antes até de eu entrar no mundo do design. Portanto, de certa forma, acho que quando entrei no mundo do design, isto tornou-se uma skill natural, ou uma aptidão, ou uma característica bastante útil. Porque quando trabalhamos em design e estamos a mexer com imensos ficheiros, a organização acaba por ser essencial. Portanto, isto tornou-se parte da minha personalidade profissional.

Mas que já veio antes.

Sempre esteve lá, sempre esteve presente, sempre deu indícios de existir. E depois quando entrei no mundo do design: "Ok, isto se calhar afinal dá jeito".

Exato, é uma skill que trouxeste da tua vida pessoal e aplicas na tua vida profissional.

Exatamente.

Começamos o programa com um desafio para te conhecermos melhor enquanto designer gráfico. É um dilema de isto ou aquilo, vou dar-te duas opções e escolhes a que preferes. Vamos a isso?

Vamos a isso.

Filipe, preferes criar designs com foco em imagens e ilustrações visuais fortes ou com foco em tipografia criativa e marcante?

Ok, não posso escolher os dois.

Não. Isso seria fácil demais.

Ok. Claramente o primeiro.

A imagem?

Sim, gosto muito de tipografia. A tipografia é essencial para dar personalidade quando queremos criar uma mensagem mais específica, ou vamos usar uma palavra na nossa composição, ou algo do gênero. Mas, para mim, acho que a parte da imagem forte sempre esteve lá de alguma forma. Portanto, acho que ia por aí.

E uma imagem vale mesmo mais que mil palavras.

Vale mais até do que isso.

Na criação de um logotipo para uma marca icónica, preferes seguir tendências visuais atuais e garantir o sucesso ou criar algo totalmente original, mesmo correndo o risco de estar fora de moda?

Boa pergunta. Acho que a parte de observar tendências faz sempre parte do processo. Eu começo sempre com um benchmark, com uma pesquisa, mas isso nunca será mandatório se no final isso não se aplicar bem ao conceito que eu estou a tentar criar, ou que está a surgir, ou quando me estou a alinhar com o cliente ou com quem está envolvido no projeto. Se vejo que não faz sentido integrar tendências atuais, isso não vai ser mandatório. Agora, sempre que possível, faço questão de as integrar.

Então a resposta final seria uma mistura perfeita das duas opções, é isso?

Contemplar sempre a primeira, mas integrar sempre a segunda.

Não dá para escapar. Filipe, para terminar, num projeto de identidade visual, preferes criar algo que atenda às expectativas visuais do público-alvo ou desafiar essas expectativas e propor algo completamente diferente?

O segundo é sempre muito tentador.

Podes surpreender.

Eu acho que sempre senti essa vontade de às vezes ser de certa forma polêmico naquilo que apresentamos, mas depois estamos sempre muito limitados com base no cliente com quem estamos a trabalhar, ou no projeto que estamos a fazer, ou até na empresa em que estamos a desenvolver esse projeto. E posso dizer que se calhar 80% das vezes, mesmo que o resultado final ou aquilo que saiu para a rua não tenha sido assim, houve pelo menos uma tentativa de. Sim.

Agora que já conhecemos um bocadinho melhor a tua forma de interpretar o design gráfico, gostava de começar por perguntar, Filipe: desde cedo perceberam que em ti havia uma aptidão natural para o desenho e para a criatividade?

Este é sempre um tópico sensível, até porque eu conheço e já conheci pessoas, designers e artistas incríveis que desenham muito bem. Eu sempre gostei de desenhar.

Desde pequenino?

Sim, sempre gostei de desenhar. Aliás, numa série de fotos que tenho em pequeno com os meus pais em restaurantes, estou sempre a desenhar. E ainda hoje uso a desculpa de que estou ali a divertir os meus sobrinhos, mas a verdade é que eu não consigo resistir. Quando vais jantar fora e tens aquelas toalhas de papel, eu não consigo resistir. Pedir uma caneta ao senhor que está a servir e começar logo ali a desenhar cenas e acaba sempre uma salganhada de coisas desenhadas na mesa.

E achas que começas já a influenciar os teus sobrinhos da mesma forma que o teu irmão te influenciou a ti?

Tenho a certeza. Aliás, se nos vires aos quatro num restaurante juntos, não há como evitar isto acontecer. Somos os quatro ali a rabiscar e a desenhar. É natural e ao mesmo tempo torna-se num momento de família interessante, que já é típico nosso.

E que projeto teu é que te fez acreditar que o teu caminho seria mesmo o design gráfico?

Eu acho que houve vários pontos ao longo da vida e da minha infância que me fizeram sentir que aquilo era o meu lugar. Aconteceu, por exemplo, na escola primária, quando houve um concurso de desenho e lembro-me que me divertiu imenso e consegui ganhar. Mas, sobretudo, foi aquele prazer de estar ali a desenhar aquilo livremente.

Ganhar foi a cereja no topo do bolo.

Foi se calhar um: "Olha, tu até fizeste aqui alguma coisa com piada". Para alguém considerar que merecias ganhar isto. Houve este tipo de indícios, mas ao mesmo tempo houve outro tipo de coisas, como por exemplo, lembro-me também que a primeira vez que vi uma colega minha a mexer num programa, no Photoshop, na altura, eu ainda não fazia ideia que ia mexer com isso, e lembro-me de a ver a sobrepor texto e imagem e fazer composições e poder mexer nas camadas. Aquilo deixou-me, de certa forma, com um pensamento do estilo: "eu quero fazer isto, parece-me super divertido". Poderes mexer e manipular a posição das coisas e camadas e criares um impacto visual com isto. Acho que houve sempre este tipo de sinais.

E é um trabalho muito visual. Gostava de te perguntar qual é a importância da visão para o processo criativo de um designer gráfico, porque no fundo parece que é tudo.

Costumo dizer que tenho uma sensibilidade visual apurada. Isto aplica-se a muita coisa e acho que isso pode ser uma das razões pelas quais me divirto tanto ou gosto tanto de fazer isto. Porque efetivamente, desde a seleção da cor e estamos a falar de estar a mexer em detalhes no código de cor durante bastante tempo.

Quase infinitos.

Sim, exato. Às vezes é importante pôr um limite a nós próprios, porque senão ficamos naquilo horas. A composição, a escolha de tipografia, a mistura disto com aquilo, de uma textura com um padrão. Este tipo de coisas, que no fundo é tudo muito visual. Acho que o facto de podermos ter ou haver pessoas que têm mais sensibilidade visual do que outras, pode efetivamente ser aqui um aspeto importante. Se eu tenho ou não, não sei, mas eu acredito que sim.

Vamos olhar para o teu processo de criação. Quando recebes um briefing de um cliente, começas logo a visualizar como é que as ideias se podem depois transformar na prática?

Sempre. Às vezes é assustador, porque é do género, mal começa um briefing, seja um cliente, seja quando estamos a trabalhar com um diretor criativo ou mesmo com a equipa, começa sempre a formar-se alguma coisa, começamos logo a visualizar alguma coisa. E eu comecei a perceber, cedo, que isto tem muito a ver com a tua cultura visual. E é engraçado quando tu cruzas e bates bolas, como nós costumamos dizer, com colegas de trabalho, porque a cultura visual que nós temos, aquilo que nós vimos ao longo da vida, vai sempre ter impacto naquilo que tu vais visualizar nesse momento. E se és um designer gráfico que, se calhar, via muitos filmes de terror, vais ter uma vibe um bocadinho mais dark. Se és uma pessoa que, como eu, via muitos filmes de animação, há sempre muita cor. Estás a perceber? Aquilo que tu viste ao longo da tua vida vai sempre ter impacto naquilo que estás a visualizar e sim, acho que é natural, nesta profissão, tu começares logo a visualizar alguma coisa.

Dizem que há cores capazes de despertar emoções nas pessoas. Como é que usas a perceção da cor para impactar o resultado final de um projeto? Por exemplo, o amarelo dá mesmo fome, o azul dá mesmo tranquilidade às pessoas?

É um tópico muito importante. Aliás, existe toda uma disciplina que é a psicologia da cor e que é sempre muito interessante ter isto em conta. E hoje em dia, por exemplo, com ferramentas de inteligência artificial, conseguimos até consultá-las para chegar, se calhar, a cores que devemos usar quando estamos a tentar passar uma mensagem ou uma vibe. Sim, existe toda esta temática da psicologia da cor. Acho que nem sempre isto deve ser o fator decisivo, é bom para arrancar, para começar a tomar decisões. Há decisões que tu podes tomar para jogar pelo seguro. Se fizeres preto e branco, é garantidamente acessível, tem contrastes, a gente vai ver quase da mesma forma, mas quando começamos a integrar mais coisas, pode ser diferente e é importante ter este fator da acessibilidade em conta e tentar perceber como é que outras pessoas veem aquilo que tu vês.

E achas que nesse sentido, a perceção visual de um designer gráfico pode ser treinada para olhar para o mundo de uma forma diferente, para estar mais atento às tendências ou para aprender a detetar detalhes que à partida são irrelevantes, mas que acabam por passar uma mensagem ao público e às vezes nem se apercebem?

Sim, isso acontece até de uma forma natural, eu diria. Quando começas a trabalhar na área, tu chegas a um ponto em que tu se falares com designer, qualquer designer te sabe dizer qual é aquela fonte que está a ser usada naquele jornal, nos títulos, no body copy. Isto acaba por se tornar uma skill natural em nós. São muitos anos a olhar para fontes, a escolher fontes, da mesma forma que estilos e cortes e misturas de padrões com imagens, etc, composições. Há muitas coisas que tu vais começar a adquirir naturalmente e começam a fazer parte de ti. E sem dúvida que todos estes elementos têm impacto na mensagem que tu vais passar. A fonte ou o tipo de letra que tu escolhes, as cores que tu usas, o tipo de recorte que tu fazes na imagem ou mesmo a sobreposição e os tons, tudo isto vai ter influência. Tudo isto são decisões que tu deves tomar com base num fim.

E o que achas que pode fazer a diferença entre o ordinário e a verdadeira obra de arte?

Pergunta difícil. Eu diria que há, se calhar, alguns pontos aqui no processo que podem ser diferenciadores nesse aspeto. Um deles é o abraçar o erro. E já aconteceu muitas vezes e eu acho que nós acabamos por aprender isto sem querer. Já me aconteceu, por exemplo, estar a fazer uma composição no Photoshop ou noutro programa e depois, de repente, o rato escorrega-me da mão ou faço alguma coisa sem querer e aquilo puxa algum elemento que não era suposto e eu olho: "Até fica giro". Ou esconder uma layer sem querer e aquilo muda a cor. Tu olhas para aquilo, ou nem reparaste e voltas mais tarde e pensas: "Se calhar, isto até fica bem". Ou seja, abraçar o erro, e como estes erros há outros. Porque no volume tu abraçares o erro, estás a aceitar algo que aconteceu naturalmente e que tu não irias lá chegar, se calhar, de outra forma e que pode ser interessante. Acho que este é um dos pontos importantes para criar algo diferenciador, é saber abraçar o erro. Depois é também saber que existem processos, e eu gosto muito de processos para nos ajudar e nos encaminhar para arrancar um projeto e por aí adiante, mas é também saber que às vezes é importante quebrar os processos e não nos podemos prender por eles. Às vezes, certos passos do projeto podem não fazer sentido, ou por uma questão de timing, ou por uma questão de não se aplica naquele projeto específico. É importante também saber quebrar processos e usá-los só quando eles nos estão a ajudar. E depois também, mais uma vez Não nos seguirmos demasiado pelo que os outros fazem, porque já conheci muitos designers e muitas pessoas talentosas que se calhar não seguiram este ramo, ou não mostraram tanto trabalho, ou não fizeram tanta coisa porque tinham muito medo de falhar. Eu acho que isto é uma coisa que se calhar todos temos. Eu tive muitas fases, ainda hoje tenho muitas fases, mas no início tinha muito aquele medo de fazer uma coisa que as pessoas não gostam ou que não vai ser bem aceito. E quando tu chegas ao ponto em que simplesmente já não dás tanta importância a isso, tu permites-te a ti próprio também falhar e andar para frente. E no fundo, isto é o processo, é experimentar. Experimentas e se calhar em cada 20 coisas há uma que fica bem, mas se essa ficar muito bem, paciência.

Já vale a pena.

Exatamente. E todas as outras fizeram parte do processo para tu chegares ali. Portanto, acho que isto também é importante, saber libertar-nos um bocado da opinião alheia durante o momento e o processo de criação.

E são estes os conselhos que gostarias de dar a designers gráficos que estejam a iniciar-se, para que o público também consiga ver e interpretar o trabalho da forma que eles querem mostrar ao mundo, como ele quer ser visto.

Esses dois, sem dúvida, são importantes. Saber quebrar processos quando é preciso. E agora falando de conselhos à malta que está a começar, acho que além disto é muito o meter as mãos na massa. Porque nós às vezes, para não dizer sempre, o que acontece quando tu começas nesta área é que ao início dá muito medo. Temos aqui uma folha branca e como é que eu começo? E não tenham medo de começar, não tenham medo de olhar para as vossas referências, perceber como é que as pessoas que vocês seguem fazem as coisas e replicar até um ponto em que começam a criar o vosso próprio estilo, porque no fundo é isto que é a criatividade. Olhar, receber influências, misturar, fazer experiências e começar a criar as nossas próprias peças. Portanto, não tenham medo de experimentar. Participem em concursos, metam-se em desafios, façam colaborações e acima de tudo, façam coisas. Façam coisas porque é aí que vão começar a definir o vosso estilo e de alguma forma a chegar a algum caminho que vai ser a vossa identidade e o vosso trabalho.

Fica aqui o conselho para a geração futura de designers gráficos. Filipe SJ, vamos a mais um desafio?

Vamos a isso.

Estamos a chegar ao fim e para terminarmos este programa trago-te outro desafio. Vou dar-te duas frases, uma delas é um facto sobre visão, outra é um mito. Vais tentar identificar qual é a afirmação verdadeira e qual é a afirmação falsa. Pronto?

Vamos a isso.

As frases são: "o estrabismo só é curável durante a infância" e "a visão usa quase metade da capacidade do cérebro". Qual delas é a afirmação verdadeira e qual delas é a afirmação falsa?

Não faço a menor ideia. Portanto, vou literalmente apostar aqui no ouvidor, um all-in na segunda.

Como a afirmação verdadeira?

Sim.

E foi um all-in muito bem escolhido. A visão usa quase 50% da capacidade cerebral no processamento visual. O cérebro precisa de interpretar luz, cor, formas e movimentos constantemente. É um bocadinho quase como a tua profissão, como o design gráfico, o que requer cerca de metade da nossa capacidade cerebral e também demonstra a importância da visão para a nossa sobrevivência e compreensão no mundo. O estrabismo não é curável só durante a infância, embora seja mais fácil de corrigir. Há tratamentos e cirurgias que também podem ser eficazes já em adultos, portanto, todos os que acreditavam neste mito até agora, saibam que ainda vão a tempo. Surpreendido, Filipe?

Não me admira assim tanto. Ou seja, gostei de saber o facto científico. Não sabia que era efetivamente 50%, mas faz-me todo sentido, porque nós efetivamente, no que diz respeito à visão, recebemos vários estímulos e são esses estímulos que são precisos para conseguirmos replicar e usarmos aquilo que fazemos com a visão.

E no teu caso, até para trabalhar.

Totalmente.

Totalmente. Já agora, perguntar-te, achas que uma deficiência visual pode ser limitante na tua profissão?

Bastante, já pensei muitas vezes nisso. Acho que a visão é o nosso superpoder, digamos assim, e sem dúvida que um problema de visão ia sempre ter um impacto.

Como o daltonismo, por exemplo.

Sem dúvida. Nós não sabemos bem ou não temos o mesmo tipo de visão que a maior parte das pessoas têm enquanto estamos a criar peças, ia ter impacto. Isto pode ser bom ou mau. Podia também daqui surgir alguma coisa interessante, mas ia ter sempre impacto.

Também é verdade. Fica o desafio para alguém que queira experimentar. Filipe SJ, muito obrigada por nos teres ensinado tanto sobre a tua profissão enquanto designer gráfico. Muito obrigada por teres aceitado o nosso convite.

Obrigado eu.

Chegámos ao fim de mais um episódio de "Visões Criativas", um podcast com o apoio da Alberto Oculista. Hoje ouvimos um testemunho da importância da visão na carreira de designer gráfico. Lembre-se, tudo pode ser uma tela em branco à espera de inspiração. Seja pela escolha de cores, a composição de elementos ou a harmonia tipográfica, o olhar de um designer gráfico é o que transforma ideias em realidade visual. Fechamos os olhos por aqui. Para a semana trazemos-lhe um novo olhar a régua e esquadro para o mundo da criatividade. Até lá.