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Bem-vindo ao primeiro episódio de "Visões Criativas", um programa com o apoio da Alberto Oculista, onde desvendamos as lentes pelas quais os profissionais veem o mundo. Eu sou a Maria Ribeiro Nunes e hoje ajustamos o zoom e começamos por ampliar a perspectiva sobre como a visão é fundamental para exercer e para compreender o trabalho de um fotógrafo com a ajuda do Artur Cabral. Bem-vindo, Artur.
Olá, obrigado.
O Artur passou parte da infância entre Portugal, Tanzânia e Marrocos, países com os quais mantém ligação e que influenciam o seu olhar artístico. Trabalha como freelancer, deixou a arquitetura para se dedicar totalmente à fotografia e é especialmente conhecido pelo seu trabalho com foco em reportagem e viagem. Tem uma ligação muito forte com o continente africano, que é uma das suas principais inspirações fotográficas, e atualmente concilia a fotografia com a organização de viagens. Já colaborou com grandes empresas e revistas como a National Geographic Portugal, Sunday Times e Canon Portugal. Tem uma forma muito própria de ver o mundo e adora fazer com que as pessoas consigam ver as coisas como ele as vê. É verdade, Artur?
É mesmo isso.
Vamos ao primeiro desafio deste programa?
Força.
Começamos com um desafio para conhecermos melhor as tuas preferências enquanto fotógrafo. É um dilema de isto ou aquilo, onde vou dar duas opções e escolhes a que preferires.
Ok.
Vamos a isso? Artur, preferes fotografar apenas em luz natural e depender do que a natureza te oferece, ou fotografar apenas em estúdio e ter controle total sobre a iluminação?
Luz natural, sempre.
Luz natural sempre?
Sempre.
Preferias ter uma visão com zoom ajustável, em que fosse possível aproximar-te visualmente de qualquer detalhe, ou ter uma visão panorâmica de 360 graus em que pudesses ver tudo ao teu redor?
Essa é engraçada. Durante muito tempo eu fotografava muito com zoom e aos poucos vim a perceber que quanto menos zoom eu uso, mais perto eu chego. E gostei disso, mesmo para fotografar pessoas, eu neste momento gosto de estar lá no meio.
Para terminar este segmento, Artur, preferias captar imagens em alta resolução, mas monocromáticas e sacrificar a cor pela nitidez, ou fotografar em baixa resolução, mas com cores vibrantes e intensas?
Eu gosto sempre de fotografar com a maior resolução possível. Por outro lado, também gosto de fotografar a cores, porque a cor ajuda muito a contar a história do sítio. Eu gosto muito de ver imagens a preto e branco, mas imagens soltas. Mas quando estou a contar uma história, quando estou a fazer uma reportagem de um lugar, a cor é fundamental para mim.
Artur, agora que já te conhecemos um bocadinho melhor e as tuas preferências enquanto fotógrafo, ainda que em cenários bastante hipotéticos, gostava de começar por perguntar que fotografia que te fez pensar: "Eu quero fazer disto a minha vida?" Que fotografia que te fez sentir alguma coisa?
O que me fez, na altura, largar a arquitetura para me dedicar à fotografia, foi um trabalho que me foi encomendado pelo Turismo de Lisboa, pela Associação Visit Lisbon. Precisavam de um fotógrafo para remodelar o portfólio fotográfico da cidade. E que me pôs a caminhar por Lisboa. Eu sou de Almada, mas Lisboa sempre foi a minha casa. E foi um bocado por aí que me deu esse passo de abdicar de uma coisa que eu gostava muito, de arquitetura, mas que estava cansado de passar 15 horas, 20 horas por dia fechado num ateliê a trabalhar, e que me permitiu ter mais espaço e mais liberdade e andar na rua e gerir o meu tempo. Portanto, se calhar, não foi uma fotografia que me fez querer virar fotógrafo, foi um trabalho que me deu essa possibilidade de pensar: "Ok, eu consigo fazer disto vida".
E descobriste o gosto pela fotografia depois?
Sempre, desde pequenino, o gosto estava lá. Desde pequenino, que eu andava com máquinas pequeninas, compactas, sempre fotografei.
Lembras-te da tua primeira câmera fotográfica?
Lembro-me. Acho que era uma Kodak, não tenho a certeza, mas era uma daquelas amarelas que se podia levar para dentro d'água.
Começaste em grande. E a fotografia não é só composição e enquadramento. Tu próprio dizes que começaste a fotografar por curiosidade, mas mais tarde também como forma de explorar a luz, que como há pouco referias, é extremamente importante para o resultado final de uma imagem, jogar com os contornos e texturas da figura humana. Em que momento é que se deu este ponto de viragem de olhares e interpretares a fotografia?
Quando eu comecei a perceber mexer na máquina, porque eu fotografava muito, mas em automático e com máquinas pequeninas, e de repente foi num workshop de fotografia de estúdio com modelo, em que eu comecei a perceber como é que podia mexer na máquina, via os outros a fazer e tentava replicar e depois tentava mudar para perceber por que eles estavam a fazer assim e não faziam de outra forma, um bocado tentativa e erro. E essas fotografias, essas sessões eram com modelo. Portanto, comecei aí a olhar para a questão do corpo, para a questão da cara, dos olhos. Sempre adorei os olhos, a expressão, acho que dizem muito. Detesto fotografar pessoas de óculos escuros, porque acho que os olhos são aquilo que se diz o espelho d'alma e é verdade.
E dá para captar o espelho d'alma através da fotografia?
É engraçado, que eu quando comecei a fotografar, e eu gosto muito de fazer retratos muito próximos, e que me dizem um bocado isso na brincadeira, que eu não estou a roubar a alma, mas consigo fotografar bem a alma, consigo captar esse lado. Eu adoro a Tanzânia, com essa componente de vida selvagem, mas também pessoas. Adoro São Tomé Pela componente humana. Não temos os animais lá, mas o fato de falarmos a mesma língua, de partilharmos mais pontos em comum, cria-se essa relação mais próxima que permite esses tais retratos. Aliás, aqui há uns anos também fiz um trabalho, que já tinha começado em Lisboa, mas depois fiz na Ilha do Príncipe, que era uma exposição, o Obrigado. Andei a retratar as pessoas mais antigas da Ilha do Príncipe. Passei 15 dias pelas roças todas, pelas comunidades, à procura das pessoas mais velhas, mais idosas, eram os jovens do antigamente.
Os jovens do antigamente.
O intuito era o obrigado, que era um agradecimento em forma de retrato por tudo o que eles tinham feito para garantir as condições que as pessoas hoje em dia conseguem viver.
Deixa-me pegar agora nisto, porque tu já foste várias vezes à Tanzânia, por exemplo, mas cada vez que lá vais, encontras coisas diferentes, vês coisas diferentes?
Sempre. Como é uma viagem de safári, de vida selvagem, é sempre diferente. Depois eu vou com grupos, portanto, o fato de ir com companhia diferente torna a viagem diferente. Mas mesmo nos momentos em que estou sozinho, e isso é engraçado, porque as pessoas perguntam se eu já não estou um bocado farto, porque eu faço uma mesma viagem há oito anos, que levo pessoas com safári. E quando me perguntam se eu não estou farto da mesma coisa, o que eu posso responder é: às vezes, quando tenho tempo livre entre um grupo e outro, eu vou sozinho fazer a mesma coisa. Mostra o quão eu gosto daquilo.
E que não é a mesma coisa.
E que nunca é a mesma coisa. Nós podemos ir dois dias seguidos pra mesma árvore e num dia estar lá um elefante, no dia seguinte estar lá um leopardo ou não estar nada, ou estar o que quer que seja, é sempre diferente.
Agora, gostava de focar-me aqui um bocadinho na visão de fotógrafo. De que forma a qualidade da tua visão influencia a qualidade do teu trabalho?
Eu tenho notado ao longo dos anos, e já não vou pra jovem, que a minha visão vai descendo um pouco. Nunca usei óculos e nos últimos quatro, cinco anos tenho uns óculos que são mais pra computador, vista cansada. Uma coisa curiosa das máquinas e que algumas pessoas nem sabem, algumas até já expliquei isso, é que para alguém que tenha problemas de visão, a própria máquina permite ajustar as dioptrias para quando estamos a olhar, estar ajustado. Porque muitas vezes as pessoas estão de óculos e não é fácil encostar os óculos.
Sim.
A própria máquina permite ajustar.
Então ter uma boa visão não é um requisito para ser um bom fotógrafo, necessariamente.
Uma boa visão é importante, não a visão de 100% de conseguirmos ver, uma boa visão de estar atento a tudo e de estar atento aos detalhes, mais nesse sentido. Mais do que ver bem ou ver desfocado, é o ver bem no sentido de olhar e perceber tudo, perceber os pormenores, os detalhes de tudo.
Então a visão ajuda na escolha do momento exato para capturar uma imagem.
Também.
E no trabalho específico de fotografia de vida selvagem, a capacidade de detetar movimentos subtis à distância pode fazer a diferença.
Faz muito.
Como é que se treina a visão pra esta habilidade fotográfica? Existe algum exercício ou alguma técnica específica que se possa fazer para melhorar a percepção visual?
O que eu tenho sentido é que cada vez, com o passar do tempo que vou fazendo esta viagem, vou vendo melhor. Eu acho que é muito a cena da repetição e do estar atento e de já saber alguns comportamentos de alguns animais e perceber que se vermos algum tipo de movimento, poderá ser determinado animal. Mas, por outro lado, vejo pessoas que vão comigo e é a primeira vez que lá estão e que do nada conseguem detetar coisas que estamos todos a olhar e que nem se vê. O contrário também já aconteceu, que é ver três pessoas a verem um elefante a correr e eu olhava e só via uma árvore.
O contrário.
Mas era o contrário, mas era uma árvore, de facto. As três pessoas estavam a ver a mesma coisa, mas estavam as três erradas.
Focando aqui no movimento dos animais que referias. Na fotografia de vida selvagem, corre-se sempre um risco.
Sim.
Fotografas leões, elefantes, outros animais. Achas que a visão pode ajudar a prever o comportamento dos animais, por exemplo?
Sem dúvida. A visão também, mas o conhecimento desses comportamentos, acima de tudo. Claro que se estivermos a ver bem, com ou sem óculos, e se conseguimos perceber no elefante aquele abanar das orelhas ou o fato dele de repente ter parado de comer é porque poderá já não estar confortável. Mas se nós os respeitarmos, eles não atacam o carro. Já me aconteceu várias vezes de eles virem aproveitar a sombra do carro pra vir descansar. O leão, a chita.
Não diminui a probabilidade?
O elefante é pior. O elefante ao lado do carro, o elefante é maior que o carro. Esse sim.
Em termos de dimensões.
O rinoceronte também mete o seu respeito.
Olha, a luz natural, como há pouco referíamos, é fundamental na fotografia de viagem, de reportagem, de vida selvagem. A fotografia pode ser influenciada pela luz? Achas que a luz pode ser um desafio pra fotografia?
100%.
As variações de luz, de luminosidade, como é que lidas com elas?
O mais importante na fotografia é a luz. A fotografia é a luz. Aquilo que nós conseguimos captar na câmera é a forma como a luz bate nos elementos, nos animais, nas pessoas, nas árvores. A luz é tudo.
Os amanheceres, os entardeceres.
É sempre aquela melhor luz, aquela luz mais golden hour, é sempre mais mágico. Mas sim, mesmo a luz do dia, se queremos uma coisa mais forte, mais contrastada, mais drástica, uma luz de meio-dia, às vezes é aquilo que se quer, se quisermos ter aquela coisa específica. Por norma, é uma luz que se evita por ser muito forte.
E tu trabalhas muitas horas ao sol. Um fotógrafo pode usar óculos de sol enquanto trabalha?
Eu não gosto. Já vi pessoal com óculos de sol. Eu não gosto, porque eu gosto de ver as cores reais daquilo que estou a ver. E por norma não gosto. A única altura em que eu uso óculos de sol, mas mesmo cá, normalmente, mesmo sem ser a fotografar, uso pouco óculos de sol A não ser quando estou a conduzir e estou com o sol pela frente ou em safári quando estão muitos carros e há muita poeira, uso mais os óculos nesse sentido de proteção.
Mas nem sempre é fácil.
Não, nem sempre é fácil.
Quando o sol está mais baixo.
Sim.
És fotógrafo há 15 anos. Como é que o teu olhar fotográfico evoluiu ao longo do tempo? O que é que mudou na maneira como vês e capturas imagens?
Eu sou uma pessoa tímida por natureza e a fotografia tem-me ajudado a libertar um bocado desse lado, porque eu cada vez mais gosto de fotografar perto e estar perto das pessoas. Em vez de estar com uma lente com um zoom grande e estar lá ao fundo, eu gosto é de estar no meio das pessoas, estar a conversar com elas, estar ali no meio e quando fotografo, a fotografia está dentro da história, eu estou ali dentro. Não sou um espetador, eu faço parte.
Dás por ti, às vezes, fora do trabalho, a pensar com o olhar de fotógrafo, do género: "Quem me dera ter aqui uma câmera para fotografar esta coisa"?
Isso acontece muitas vezes, mas o curioso é quando eu passo aquelas horas a editar e de repente estou na estrada, a conduzir, a olhar para uma árvore e a pensar que aquela árvore precisava de um ajuste nas cores.
Que giro, isso já é transportares totalmente a parte da pós-produção para a vida real.
No início diziam muito isso: "Vê-se mesmo que és arquiteto" quando eu estava a fotografar.
A composição das fotografias?
A composição, eu sempre tive um olhar mais minimalista, os alinhamentos, as coisas direitinhas e na fotografia também tento isso. Para mim, uma das coisas que me faz mais confusão quando olho para a fotografia é ver a linha do horizonte torta, principalmente quando é o mar ou quando é alguma coisa assim, uma montanha e o próprio monte às vezes é um bocado torto.
Irregular.
Agora, a linha do mar, que é sempre direita e de repente vejo a linha assim, o arquiteto que há dentro de mim ainda faz assim.
A arquitetura foi uma boa escola então para a fotografia?
Foi, sem dúvida.
Artur, que dica darias a fotógrafos iniciantes sobre a importância da perceção visual na fotografia, quer para quem fotografa, quer para quem posteriormente vá ver essas imagens?
A primeira coisa é fotografar muito. Não ter medo de errar, fotografar, ver fotografias, tentar replicar, tentar fazer diferente, tentar uma coisa que se goste muito, tentar contar a história daquela paisagem, daquela pessoa, daquela porta, do que quer que seja, tentar mostrá-la de vários ângulos, de várias perspetivas, tentar perceber o que é que funciona melhor para ali ou o que é que não funciona, ou o simples fato de, às vezes, um cruzamento na estrada que há ali alguma coisa que é engraçada, deixem-se ficar por lá. Uma coisa é fotografar aquela porta ou aquele cruzamento só por si, outra coisa é que de repente há de passar alguém de bicicleta, há de passar a senhora com o vestido vermelho, há de passar qualquer coisa que vai tornar aquele canto ainda mais bonito, especial e único.
Mas até a porta pode ser história?
Sem dúvida. Em Zanzibar, uma das coisas que eu faço muito pela cidade, é exatamente pelas portas de madeira trabalhada, que são coisas brutais e tu vês aquilo carregado de história ali. Agora, a porta está lá sempre. O engraçado e aquilo que eu às vezes procuro é a porta com mais alguma coisa. E então vejo uma porta brutal e deixo-me ficar ali à frente e há de passar alguém, há de acontecer alguma coisa, a porta há de abrir e alguém há de entrar ou sair. É dar tempo para que as coisas possam acontecer.
Não ter medo de arriscar, ter atenção aos detalhes e dar tempo. É este o conselho. Artur, vamos a mais um desafio?
Força.
Estamos quase a chegar ao fim e para terminarmos este programa trago-te outro dilema. Vou dar-te duas frases, uma delas é um facto sobre visão, a outra é um mito. No fundo, terás de identificar qual delas é a afirmação verdadeira e qual delas é a afirmação falsa.
Vamos ver.
Vamos a isso?
Bora.
Artur, as frases são: usar os óculos de outra pessoa é prejudicial e os olhos azuis são mais frágeis que os olhos escuros. Qual delas é a verdadeira e qual delas é a falsa?
Usar os óculos de outra pessoa que não tenha o mesmo problema que nós, logo aí há de ser prejudicial. Os olhos claros, eu só acho que eventualmente poderão ser mais frágeis, por exemplo, para o sol, mas isso é uma questão de habituação ou não de óculos escuros ou o que quer que seja. Eu diria que é a primeira que é a falsa. Usar os óculos de outra pessoa é que faz mal. Não, que essa é que é a verdadeira.
É a que é a verdadeira. Bem, isto no fundo é um pleno. Não só acertaste, como deste a justificação correta. Usar os óculos de outra pessoa é prejudicial, não é por acaso que é necessária uma avaliação e receita médica para a confecção dos óculos. Até as medidas de distância entre os olhos e o eixo do grau dos óculos, por exemplo, variam de pessoa para pessoa e por isso todos os óculos devem ser personalizados para corrigir os problemas de vista. Já os olhos azuis são mais frágeis que os olhos escuros. Tu também tens olhos claros, por isso deves saber que é um mito. A cor dos olhos não determina a saúde ou fragilidade da visão. No entanto, como possuem menos pigmentação na íris, pessoas com olhos claros podem, sim, ser mais sensíveis à luz, já que a íris filtra menos luz do que os olhos com mais pigmento, como os olhos castanhos. Isto apenas faz com que as pessoas de olhos claros precisem de mais proteção contra a luz. Não estás nada surpreendido, no fundo, porque acertaste tudo. Artur Cabral, muito obrigada por nos teres ensinado tanto sobre a tua profissão enquanto fotógrafo. Muito obrigada por teres aceitado o nosso convite.
Obrigado eu pelo convite.
Ajustámos o foco e chegámos ao fim do primeiro episódio de Visões Criativas, um programa com o apoio da Alberto Oculista. Hoje ouvimos um testemunho da importância da visão na carreira de um fotógrafo. Lembre-se, o que vemos é só uma parte da história. Cada detalhe capturado pelo olhar de um profissional é uma peça fundamental que nos ajuda a ver o mundo de uma forma diferente. Para a semana, há novo episódio, uma nova perspetiva e mais ângulos para explorar. Até lá.