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Bem-vindo ao novo episódio de "Visões Criativas", um programa com o apoio da Alberto Oculista, onde vamos descobrir com nitidez como é que profissionais de diversas áreas criativas usam o olhar não só para ver, mas também para capturar momentos, moldar realidades e despertar emoções. Eu sou a Maria Ribeiro Nunes e hoje vamos perceber como é que a visão é fundamental para exercer e para compreender o trabalho de um designer de interiores com a ajuda da Nini Andrade Silva. Bem-vinda, Nini.

Olá, obrigada.

A Nini é uma das mais prestigiadas designers de interiores do mundo. É a mente criativa por detrás de vários hotéis de renome e o seu trabalho é frequentemente destacado em publicações prestigiadas como o The New York Times. A Nini é também uma artista cujas pinturas fazem parte da Coleção Berardo e estão presentes em museus internacionais. Tem o Design Center na Ilha da Madeira, onde expõe a sua coleção, e em reconhecimento à sua contribuição para a cultura e design, recebeu o título de Oficial da Ordem do Infante Dom Henrique pelo governo português em 2011, e em 2022 recebeu uma ordem do governo colombiano em reconhecimento do trabalho artístico feito no país. Diz não seguir tendências, procura criá-las. É assim, Nini?

Exatamente. Sempre. Eu acho que um criador tem mesmo é de criar.

E já são uns belos anos a criar.

São muitos, são 35.

Nini, vamos começar já com um desafio para te conhecermos melhor. É um dilema de isto ou aquilo, onde te vou dar duas opções e escolhes a que preferes. Preferes criar ambientes com paletas de cores neutras e monocromáticas ou com cores vibrantes?

Tem de ser a primeira.

Cores neutras e monocromáticas?

Claro. É.

Segunda questão: preferias transformar espaços clássicos e vintage ou contemporâneos com linhas modernas?

Contemporâneos com linhas modernas.

Com linhas modernas?

Sim.

E para terminar: preferes explorar decoração ou estilo minimalista ou decoração muito rica visualmente?

É decoração Nini-malista.

Nini-malista? Já tens um termo para definir o teu próprio estilo. Foi fácil escolheres?

Foi.

Foi, porque tu também tens um estilo muito definido, não é?

É um estilo muito definido e é assim, se eu pudesse escolher, eu diria: depende dos sítios, depende das cores, mas se eu tivesse que escolher só uma, eram mais-

Monocromáticas, mais Nini-malistas.

Mais Nini-malistas.

Olha, agora que já conhecemos um bocadinho melhor as tuas preferências enquanto designer de interiores, gostava de começar por te perguntar em que momento é que ser designer de interiores se revelou uma opção para a tua vida. Isto porque não é uma profissão óbvia, daquelas que se escolhem ainda em criança.

Não, eu desde criança, já na escola primária, era eu que fazia os desenhos das minhas amigas. Portanto, eu sempre desenhei, eu sempre arranjava coisas em casa. Eu acho que já sabia o que é que ia ser. Eu acho que vim à Terra já para fazer isto.

Para ser designer de interiores.

Sempre, eu sempre quis ser designer de interiores.

E dizes que és uma contadora de histórias. Como é que funciona este processo de contar uma história nas várias fases? O imaginar uma imagem, o transpô-la para o papel e, por fim, dar vida ao que se criou.

É engraçado que muitas vezes a história vem depois. Muitas vezes a história vem antes e muitas vezes vem depois, porque é assim. Por exemplo, imagina, agora vamos para o Brasil, estou me lembrando o Brasil, porque é o último hotel que nós estamos a abrir. E quando cheguei ao Brasil com a minha equipa, é claro que fomos ver todos os sítios, escolher o que é que íamos fazer, foi feita uma recolha e nós escolhemos e começamos a desenhar. Isso acontece. Mas muitas vezes, pelo meio, acontecem coisas que não era o que estávamos à espera e nós temos de arranjar uma história para essas coisas.

E ganha uma nova vida, assim de repente.

E ganha uma nova vida. Isso aí é que eu chamo mesmo criatividade. Isto é interessante. Nós tivemos um hotel em que era de cadeia e a cadeia obrigou-nos, entre aspas, a ter alcatifas deles. E que nós tínhamos desenhado outras. E entre as que eles tinham, eu tive de escolher uma adentro da história daquele hotel, e acabei fazendo uma história com essa, que não foi a que eu desenhei, mas que consegui criar uma história para essa alcatifa.

E de repente nasce uma nova vida.

Sim, e de repente nasceu uma nova vida.

O design de interiores, além de muito visual, é também muito imaginativo. Tens uma imagem idealizada na cabeça, mas depois concretizá-la implica teres o olhar muito treinado para veres um espaço e perceberes o que é que funciona e até mesmo o que é que é possível fazer.

Sim, a maneira de construir as coisas, porque é assim, nós imaginamos que vai ser uma peça de design com aquele formato, mas depois na construção, no projeto de execução, muitas vezes a peça é um pouco modificada por causa da construção. Aí é que é bom trabalhar no metaverso, porque consegue-se construir tudo o que se quer. E é engraçado, nós hoje em dia também fazemos, e é interessante porque aí não há maneira de dizer que não se consegue construir. Consegue-se. Consegue-se construir tudo o que se quer.

Qualquer coisa.

Qualquer coisa. Mas eu acho que o desafio está nisso tudo e é muito interessante.

E em que medida é que achas que a visão é treinável para se ser designer de interiores? Como é que se treina a perceção visual e se pode melhorar o olho clínico que a tua profissão exige?

É assim, eu acho que é com os anos e com o que se vê. Por exemplo, eu passo a vida a viajar. Eu passo a vida a viajar, não para ir copiar nada, não é para isso.

Para inspirar-se, certo?

Para inspirar, para ter outra visão, outras coisas. E talvez até para, a partir deste ponto, criar uma outra coisa nova, mas já parte de um outro ponto que não tinha pensado antes. Eu acho que o cérebro e a visão começam a ver as coisas de outra maneira, e isso é muito importante. As pessoas têm de ver, ver cada vez. Eu, por exemplo, eu olho para todos os lados. Eu às vezes vou na rua e mesmo o lixo, porque o lixo está tudo junto. E só tem cores que são raras de estarem juntas, mas como as pessoas atiram, não estão a pensar se está uma coisa a condizer com a outra. E muitas vezes eu inspiro-me nas cores que vejo no lixo.

Que são involuntárias, não é?

São involuntárias.

Então o teu olhar está sempre a trabalhar.

Constantemente.

Constantemente. E como é que a visão ajuda na criação de um ambiente esteticamente agradável e ao mesmo tempo funcional e prático? Como é que se conjugam estes dois fatores?

É aí que entra o design, porque o design tem de ser não só a beleza, mas com uma função.

E é este o desafio.

É esse o desafio. Eu costumo dizer nas minhas palestras que as pessoas têm que ter cuidado com o que põem no mundo. Os designers têm que ter muito cuidado. É preciso saber o que se está a desenhar, por que se está a desenhar e para que serve. Porque caso contrário, começamos a fazer peças sem mais nem menos e já não há assim tanto espaço no nosso mundo para tantas coisas. Hoje em dia temos de ter muito cuidado com o que criamos, temos que criar peças especiais e com uma função muito especial. Tudo é muito importante, não é só eu vou fazer porque é bonito. Por isso, quando eu faço alguma coisa, há sempre quem goste e quem não goste. Felizmente, as pessoas têm ideias diferentes.

E podes conceber uma peça para um fim e chegar outra pessoa com um olhar diferente e dar-lhe uma nova vida.

Completamente.

Um novo uso, uma nova história.

Completamente. Eu lembro-me uma vez que estava numa exposição de pintura com um dos meus quadros e estava uma pessoa a ver e a contar uma história completamente diferente. E eu olhei e pensei: "Também está certo o que esta pessoa está a dizer."

Fez-te sentido também?

É, também fez sentido, porque as pessoas conseguem olhar para as coisas e ter outras visões, e isso é interessante.

E espelham um cadinho daquilo que elas são e daquilo que viveram na arte dos outros, não é?

Sim, exatamente. Cada um vê a vida que levou, a vida que sentiu e o que viu.

Vamos olhar aqui um cadinho para a prática. A visão é fundamental para evitar erros nas várias combinações possíveis, porque tu trabalhas com cores, texturas, padrões, materiais diferentes. E de que forma é que a perceção visual que tens hoje influencia esta escolha de cores, texturas, padrões, materiais que compõem um espaço?

É muito importante, até porque no meu curso, no IADE, nós tínhamos uma disciplina que era a psicologia da perceção visual. E era estudar o cliente, porque muitas vezes as pessoas pensam: "Eu vou fazer isto porque é bonito", mas esse não tem nada a ver com o cliente. Nós temos que estudar primeiro o cliente, perceber bem o que é que vai na cabeça do cliente e depois transformá-lo de uma maneira, porque muitas vezes os clientes chegam ao nosso pé e dizem: "Eu gostava disto assim." E eu consigo olhar e perceber que aquele cliente consegue ir muito mais longe, só que não sabe como chegar lá. E o meu papel é levá-lo pela mão e dizer: "Isso é interessante, mas se fizéssemos assim?" E o cliente vai e gosta.

E costumam receber bem as tuas sugestões?

Costumam, porque eu nunca digo a um cliente que não gosto do que ele está a dizer. Eu levo devagar a um outro sítio para ele compreender, porque as pessoas não gostam de ser confrontadas dessa forma, dizer: "Não, isso não vai ficar bem." Não, o cliente até está a explicar. E quando o cliente explica, é aí que começa a funcionar a psicologia da perceção visual e começamos a ver que, de facto, o cliente consegue ir mais longe, só que não sabe como é que há de ir mais longe.

Exatamente. Nem tem a perceção visual treinada como os designers de interiores.

Não, não tem, por isso mesmo.

Não tem a capacidade de olhar e ver além.

Não, porque não é o trabalho deles.

Que é o que vocês fazem a fundo.

É o que nós fazemos.

Ver além da superfície.

É ver além, porque foi para isso que fomos treinados.

Referiste as necessidades específicas dos clientes. Como é que achas que a visão colabora na criação de um espaço que transmite emoções, como conforto, dinamismo, coisas que o cliente procura especificamente?

É engraçado. Por exemplo, se for a um hotel, os clientes são diferentes, não é só uma pessoa, são várias pessoas. Há pessoas que vão para os hotéis, eu quero ir para aquele hotel porque é mais o meu gênero. Só que dentro desses há muitos, há muitas pessoas diferentes naquele hotel. Então eu costumo fazer a ideia geral, mas depois tenho pontos separados em que dá para pessoas que pensam de maneiras diferentes. E a pessoa quando entra nos espaços, só vê o que lhe agrada.

O nosso olhar é automaticamente para o que nos agrada?

O nosso olhar vai automaticamente para o que nos agrada. Isso não tenho dúvida nenhuma.

É magnético.

É magnético, porque, por exemplo, imagine, eu tenho um espaço muito clean e depois ponho uma peça, ou ponho uma obra de arte, ou ponho uma peça mais antiga, um clássico, e uma pessoa que entra naquele espaço e que é mais clássica, a primeira coisa que vai ver é essa parte clássica, não vê o resto. Uma que gosta mais do contemporâneo, nem vê que o clássico está lá e já vê o espaço todo em si. Isso acontece.

E agradam-se dois tipos de clientes diferentes, ao mesmo tempo. Interessante, isto tem tudo a ver também com a perceção pessoal, aquilo que falávamos há pouco, a história que cada um carrega, não é?

Sim, a história que cada um carrega. E as pessoas são a maneira como evoluíram, como viveram, o sítio onde viveram. É muito interessante que o facto de eu ter trabalhado com a minha equipa em muitos países do mundo, é muito diferente do trabalho que fazemos. Isto é um exemplo. Por exemplo, nós estávamos a fazer uma casa em Tóquio e o meu cliente disse:

Que tem uma arquitetura muito diferente da portuguesa.

Completamente diferente. E o nosso cliente disse: "Eu tenho dois espaços, um que tem janela e outro que não tem janela. Um é para armazenar umas coisas e o outro é o meu escritório." Automaticamente, um europeu disse logo: "O escritório tem janela, o outro vamos fazer de armazém." E o cliente disse: "Nem pensar. Eu quero o espaço para quando eu estou a raciocinar, a ler, eu não quero me distrair com nada e não quero janela no meu escritório."

Curioso.

Completamente diferente da nossa maneira de pensar.

É verdade. Aqui seria impensável termos um escritório sem luz natural. Mas pegando aqui nesta questão da luz, que tem um papel fulcral naquilo que é o resultado final de um trabalho, de que formas é que achas que a iluminação natural ou artificial de um espaço pode ser usada como estratégia?

A iluminação é das coisas mais principais num projeto, porque um bom projeto com uma péssima iluminação consegue ser pior do que um mau projeto com uma boa iluminação. É verdade. Por exemplo, nós entramos num restaurante, isto é um exemplo, que as pessoas entram todas no restaurante. Entramos no restaurante e se a luz não está preparada ou pensada, pode estragar completamente. Basta acender as luzes todas que parece que se está no fundo de uma piscina É horrível. A luz é muito importante nos nossos projetos.

E, por exemplo, nas situações em que temos que tornar um espaço pequeno, num ambiente aparentemente maior, também pode ser utilizada nesse sentido?

Completamente. E é engraçado, porque muitas vezes as pessoas diziam assim: "O espaço é pequeno e eu não quero peças grandes". E nós fazemos muitas vezes peças grandes em espaços pequenos, que tornam o espaço mais grandioso. Isto é um exemplo: nós temos umas instalações sanitárias num hotel no Porto, o The Lodge, que é um hotel que já ganhou muitos prémios, e o lavatório é enorme. Eu sei que quando o lavatório chegou lá, uma das pessoas que estavam lá disse-me assim: "Nini, isto é muito grande, tem de mandar cortar, isto não vai fazer sentido nenhum". E um lavatório grande, num espaço 2x2, nunca lhe vai tirar espaço para andar lá, porque não há mais nada para fazer ali. E então fizemos uma escultura. E as pessoas vão às instalações sanitárias só para verem o lavatório. Tornou-se uma visita obrigatória.

Curioso.

E é um espaço muito bonito. Nós podemos criar espaços pequenos muito interessantes.

Nini, se pudesses dar um conselho a futuros designers de interiores sobre como aprimorar a perceção visual, qual seria?

O conselho que eu dou aos futuros designers é assim: primeiro, acreditarem no que estão a fazer. É o mais importante. Segundo, depois de acreditarem, é isto que eu quero, estudarem muito bem, verem com outras pessoas. Por exemplo, no meu caso, nós fazemos com projetistas de iluminação, discutimos com eles, nós não fazemos tudo, porque se eu quiser fazer tudo, eu não vou fazer uma coisa bem feita. Hoje em dia, felizmente, as profissões juntam-se e eu acho que só em grupo é que se consegue ter um trabalho muito bem feito e as pessoas têm de se ouvir uns aos outros. Eles têm de saber ouvir, que é uma coisa que quando se sai e é novo, uma pessoa que tem a certeza do que vai fazer, muitas vezes, "eu vou fazer e depois logo se vê". Não, temos de nos ouvir uns aos outros e depois de ouvir todos, eu vou fazer como eu acho que é o melhor, porque cada um tem de ter a sua maneira de trabalhar, porque senão ninguém é diferente. Eu lembro-me quando me intitulei a garota do calhau na Madeira, que as pessoas todas diziam: "Nini, isso não". Mas eu achei que os calhaus são os seixos. Nós na Madeira chamamos calhaus, que são as pedras. E eu fiz uma coleção enorme de móveis, de tudo, a partir daquelas pedras. E foi especial. Muitas vezes as pessoas têm a resposta ao seu lado e vão buscar muito longe porque não estão a ver as coisas que estão perto. Portanto, as pessoas têm de olhar talvez mais para os seus lados e perceberem o que é que está ali ao lado mesmo, o que eu posso fazer com isto.

Um ótimo conselho. Nini Andrade e Silva. Vamos a mais um desafio?

Vamos.

Estamos quase a chegar ao fim e para terminarmos este programa, trago-te outro dilema. Vou dar-te duas frases, uma delas é um facto sobre visão, outra é um mito. No fundo, só tens de identificar qual delas é a afirmação verdadeira e qual delas é a afirmação falsa. Então vamos ver se consegues identificar o facto e o mito. As frases são: ler com pouca luz prejudica a visão e os óculos de sol ajudam a evitar doenças oculares. Qual destas é verdadeira e qual delas é falsa, Nini?

Ler com pouca luz prejudica a visão.

Ler com pouca luz prejudica a visão. É um mito. A má iluminação pode tornar a leitura mais difícil e exigir um maior esforço visual e por isso pode causar cansaço ocular e desconforto temporário. Além disso, exige uma maior concentração e diminui o número de vezes em que piscamos os olhos, o que pode espoletar maior secura. Felizmente, estes efeitos são apenas temporários e não danificam permanentemente a visão. Já os óculos de sol ajudam sim a evitar doenças oculares, são indispensáveis para a prevenção e combate de doenças oculares. Os raios ultravioletas podem provocar lesões nos tecidos e os óculos escuros são uma proteção contra lesões na retina e ainda previnem doenças como fotofobia, conjuntivite e até mesmo cataratas. Surpreendida?

Quer dizer, as duas acho que estavam mais ou menos certas, porque é assim, eu não consigo viver sem óculos de sol. Eu tenho um vício que se chama comprar óculos de sol. E a outra, desde criança eu sempre ouvi dizer que não se podia ler sem luz.

É verdade, é daquelas coisas que nós crescemos a ouvir e efetivamente não vamos ver a base científica por detrás disso. Nini Andrade e Silva, muito obrigada por nos teres ensinado tanto sobre a tua profissão enquanto designer de interiores. Muito obrigada por teres aceitado o nosso convite.

Obrigada eu.

Chegamos ao fim do novo episódio de Visões Criativas, um programa com o apoio da Alberto Oculista. Hoje ouvimos um testemunho da importância da visão na carreira de designer de interiores. Lembre-se, é com um olhar apurado que conseguimos desvendar as melhores combinações, iluminar os espaços certos e destacar os detalhes em ambientes que falam por si. Por hoje está tudo visto, mas continue a ver além, para a semana há novo episódio. Até lá.