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Bem-vindo ao novo episódio de "Visões Criativas", um programa com o apoio da Alberto Oculista, onde entre desafios, vamos revelar as nuances que muitas vezes passam despercebidas e mostrar como em cada profissão, o que se vê vai muito além da superfície. Eu sou a Maria Ribeiro Nunes e hoje vamos explorar a visão como ferramenta invisível, mas indispensável por detrás de cada traço bem feito por um tatuador, com a ajuda da Sofia Dinis. Bem-vinda, Sofia.
Olá, obrigada pelo convite, antes de mais.
Obrigada nós. A Sofia é formada em Design de Comunicação e as tatuagens surgiram como forma de ultrapassar um estigma. Aprendeu a tatuar na própria pele, porque acredita que a arte não se ensina, é algo inato e muito pessoal. A arte salvou-lhe a vida e é também a sua maior causa. Quer passar a mensagem de que as tatuagens são para todos os que querem ver transformado em linhas aquilo que não se consegue expressar por palavras. Diz, por isso, que não tatua pele, tatua almas. As tatuagens são verdadeiras obras de arte no corpo, não são, Sofia?
Sem dúvida.
Vamos começar com um desafio para te conhecermos melhor. É um dilema de isto ou aquilo. Vou te dar duas opções e tens que escolher a que preferes. Vamos a isso?
Bora.
Sofia, preferes tatuar um design detalhado, com sombras e dimensões, ou fazer uma tatuagem minimalista com linhas finas e muitos detalhes?
Eu prefiro linhas finas e muitos detalhes, porque enquanto artista é mais desafiante, porque o fino é mais difícil e o detalhe também é difícil e às vezes numa tatuagem mais minimalista também se consegue ter grandes desafios, enquanto numa tatuagem grande, com vários elementos, é fácil disfarçar algumas imperfeições e quanto mais minimalista, a margem de erro é menor.
E tu gostas desse desafio.
Enquanto tatuadora, eu gosto desse desafio.
Preferes tatuar uma área do corpo plana, como o braço ou a coxa, ou áreas mais curvas, como o ombro, o peito?
Eu diria que a resposta rápida, enquanto tatuadora, é mais fácil uma superfície plana.
Mas tu gostas de desafios.
Mas eu gosto de desafios, por isso gosto de tatuar zonas curvas, mas tem que ter mais em consideração o desenho em si. Por exemplo, seria um erro da minha parte, enquanto artista, na minha visão de artista, tatuar uma forma geométrica, por exemplo, um triângulo, numa zona curva. O triângulo não vai parecer em nenhuma perspectiva um triângulo, então vai parecer que está mal feito, que está mal executado. Então há todo um estudar a anatomia do corpo e perceber as formas. Claro que se for um desenho mais orgânico, por exemplo, uma coisa mais botânica, onde há fluidez e há movimento, aí não interfere as curvas do corpo. Agora em símbolos ou imagens mais retas, já vai parecer que a tatuagem não está bem executada.
Para terminar, preferes tatuar linhas retas e geométricas, que exigem máxima precisão e concentração, naturalmente, ou um design mais orgânico e fluido?
Aqui, apesar do desafio ser maior em linhas retas, prefiro a parte mais fluida, mais orgânica. É também a área que eu gosto mais de tatuar, a parte botânica, tudo que seja mais orgânico. Por isso, neste caso, vou preferir a parte mais fácil, digamos assim. Eu acho que enquanto artista, tem que ter esta visão, tem que saber observar o corpo e perceber que nem todos os desenhos que as pessoas querem fazer ficam bem naquele sítio que a pessoa idealizou. E aí, agradeço imenso ao meu curso de design criativo e não só, mas há uma grande diferença, eu digo isto muitas vezes, entre ser um executante de tatuagem ou um artista. Neste caso, temos que avaliar o corpo num todo e perceber que nem a pessoa que vem tatuar tem o conhecimento. Somos nós, artistas, temos que dizer à pessoa: "Olha, isto não vai favorecer, isto não vai ficar bem". Por exemplo, respeitar as formas do corpo, um corpo masculino onde tem o peitoral, há desenhos e há formas que se eu colocar em cima dos traços do peitoral, a pessoa por mais que treine no ginásio, não vai ter as formas do corpo, porque o desenho vai lhe quebrar essa linha de contorno. Então aí tem que se adaptar o design às linhas do corpo.
E é preciso saber ver além, não é?
É preciso saber ver muito mais além.
Agora que já conhecemos um bocadinho as tuas preferências enquanto tatuadora, vamos falar um bocadinho também da tua carreira e do teu processo. Permite-me começar pelo que te trouxe a esta profissão. Abandonaste o design porque te faltava a parte humana. Dizes que tens mais clientes com histórias tristes do que com histórias felizes. Achas que as pessoas procuram o teu trabalho porque veem em ti o virar de uma página? É esta a dimensão da tua arte?
Também. Acredite. Eu faço uma correção, eu não sinto que abandonei o design. Eu abandonei o design enquanto designer de computador, porque, na realidade, o que eu acabo por fazer é design, só que mudei o computador pela pele. E aqui sinto que as pessoas acabam por me procurar, primeiro pelo que transpareço na minha montra, que é o Instagram, é onde eu partilho a minha arte, e acabam por me procurar também pela minha história de vida, porque acreditam em mim, confiam em mim, não só na minha linha, mas em tudo o que eu transmito, o que eu sou, na verdade.
E o teu processo é muito diferente do habitual. Tatuas apenas desenhos da tua autoria. As pessoas vão tatuar contigo e só no próprio dia da sessão é que tu desenhas a tatuagem de acordo com aquilo que vês e leitura que fazes da pessoa no momento.
Exatamente. Esse é o maior desafio.
Como é que funciona este processo? Conta-nos tudo.
Eu, desde sempre, desde que me conheço enquanto ser humano, digo que vejo muito para além do visível. Não só digo, como vejo mesmo. E comecei, na altura com as tatuagens, a unir todo o meu conhecimento enquanto tatuadora, artista, terapeuta, de vários cursos que fui tirando ao longo da vida e então reuni tudo numa só sessão. A pessoa só tem que me dizer Ou melhor, na verdade, a pessoa só tem que querer ser tatuada, o resto acontece tudo lá. Olha, eu já agora vou partilhar contigo, que vinha no carro e lembrei-me disto e eu assim: "Não, eu tenho mesmo que partilhar isto". Eu quando entrei no curso de design, a primeira disciplina que tive, a primeira aula, tinha escrito bem grande no quadro a dizer "design". E o professor, a primeira coisa que disse foi: "A partir de hoje vocês vão deixar de ver e vão passar a observar. Bem-vindos ao curso de design."
Uau! Estás no sítio certo, aqui na Rádio Observador.
É isso.
Só observadores.
Eu vinha no caminho assim: "Não, isso tenho mesmo que partilhar". E é muito isso. Eu sinto que a minha vida passa muito por eu deixar de ver e passar a observar. E passo o tempo inteiro a observar. Eu, como artista, não conseguiria reproduzir em linhas, por exemplo, um pássaro, se eu não passasse muito tempo a contemplar pássaros. Como é que eu vou saber como é a autonomia do pássaro, como é que funciona o movimento das asas, se eu não observar, se eu não souber o que aquilo é e como é que eu vou representar em linhas?
Como é que tu ouves uma história, como é que olhas pra alguém e transformas isso num desenho?
É complexo de explicar quem não faz isto. Mas eu vou te dar um exemplo. Lembrei-me agora. Esta semana onde tatuei, tive uma rapariga que precisava de encontrar a sua própria luz. Um exemplo. A pessoa não chega e não me diz: "Eu preciso encontrar a minha luz". A conversa leva-me pra aí. Enquanto terapeuta, eu tenho esta leitura. E então o desenho resultou numa semente a brotar, porque a própria semente, ela sozinha, só sozinha, isolada na terra, no escuro, consegue ter a força para romper e perfurar a terra e chegar ao sol. Então ela vai procurar a sua luz para sobreviver.
Tu foste ver alegorias.
E eu faço estas analogias todas enquanto estou com as pessoas. Não digo o que é que estou a desenhar, simplesmente estou a desenhar enquanto estou a ouvir a pessoa falar. E depois mostro o desenho e, claro, explico o porquê. Às vezes não preciso explicar porque é demasiado óbvio, outras vezes explico e as pessoas ficam em lágrimas. É lágrimas porque, na verdade, a alma está a se sentir acolhida, está a sentir que está a ser vista.
E as pessoas costumam trazer-te referências visuais?
Também trazem. Cada vez mais trazem menos referências, porque já conhecem o meu trabalho e acabam por perceber. Eu gosto que a pessoa às vezes traga, também por conseguir perceber o que a pessoa quer transmitir, porque às vezes é difícil a pessoa conseguir explicar por palavras aquilo que quer fazer. Então com desenhos, às vezes as pessoas sentem-se mais seguras.
E depois tu dás-lhe uma nova vida?
Claro, dou-lhe uma nova vida ou faço uma nova abordagem, ou tento explicar o porquê, ou o que a pessoa escolheu também me vai dizer muito sobre a pessoa. Por exemplo, a pessoa que já entra no estúdio a dizer que quer fazer um sol, por exemplo, quer tatuar um sol, e eu faço sempre a pergunta onde é que a pessoa quer tatuar e, consoante a zona do corpo onde a pessoa quer tatuar, já me vai dar várias mensagens. Se é do lado direito, tem um significado, se é do lado esquerdo, tem outro significado.
Sério?
Se é à frente, tem outro, atrás tem outro. Vou te dar um exemplo. Uma pessoa que tatue um sol nas costas. Vamos imaginar, quer tatuar um sol nas costas do meu lado direito. O lado direito representa o pai, representa o masculino. O sol representa o pai, a lua representa a mãe. O sol representa a vida, o nascer. A pessoa que está a querer tatuar o sol no consciente, quer tatuar o sol porque acha bonito o sol, no inconsciente, que é aí onde eu trabalho, na alma, mesmo no inconsciente, aí vai me dizer que a pessoa, na verdade, precisa trabalhar o pai e precisa lhe dar vida e que precisa, neste caso, ao tatuar nas costas, representa a proteção, porque ela está a querer, no seu inconsciente, a proteção do pai.
Agora gostava de olhar um bocadinho aqui pra visão no teu trabalho enquanto tatuadora. Falamos há pouco de zonas com curvas, áreas mais complexas do corpo, com articulações. Na medida em que todos os corpos são diferentes e todos eles têm a sua própria assimetria, como é que a visão ajuda aqui na adaptação de um design nestas áreas mais complexas, em que qualquer linha ou traço pode ser um desafio, não é?
Sim, aqui temos que saber avaliar várias coisas e, sem dúvida, a visão e o tato é muito importante, porque cada pele tem uma espessura. A pele do homem é mais grossa do que a pele da mulher. Cada zona do corpo também tem a sua espessura. A tatuagem, a linha, neste caso, a tinta, nós temos várias camadas de pele, temos três principais e a tinta deve estar na camada do meio. Se estiver na terceira camada, a linha vai expandir, vai abrir. Tanto que às vezes se vê: "Essa linha expandiu ou abriu". É porque está mal tatuado, foi tatuado muito fundo. Se a linha ficar despigmentada, com falhas, é porque está na camada de cima. O ideal é a tinta estar na camada do meio.
Ok.
O que acontece? Aqui, enquanto tatuadora e profissional, temos que estar atentos e observar bem a pele, analisar primeiro a pele antes de começar a tatuar, pra perceber onde é que está essa camada do meio em cada zona do corpo.
Cia, não poderia não te perguntar isto.
Claro.
Sofres de psoríase, uma doença de pele que deixa feridas. Inclusive, começaste a tatuar-te pra distrair os olhares das feridas, as marcas que ficam no corpo. E tens sido uma voz ativa no que diz respeito a esta condição. Como é que funciona este processo de tapar queimaduras, marcas, cicatrizes com tatuagens? Porque é muito profundo isto de permitir que os outros só vejam aquilo que realmente queres mostrar. Como é este trabalho de olhar pra uma marca dura e conseguires ver além e transformá-la? Porque as pessoas deixam de reparar numa ferida E passam a olhar para uma obra de arte.
Sim, eu vou começar pelo início. Pela minha experiência, foi-me diagnosticado psoríase aos nove anos de idade, aos 16 tive a minha primeira grande crise e desde aí durante muitos anos andei em desconforto com a minha própria pele e arranjei na tatuagem a alternativa possível na altura, hoje tenho outra leitura, mas arranjei nessa altura a forma de eu disfarçar as minhas feridas, as minhas dores. E comecei a tatuar, só que aqui tenho que ressalvar, nunca se pode tatuar em cima de feridas, nem de escaldões, nem nada do gênero, porque a pele não está preparada para receber essa agressão, que a tatuagem não deixa de ser uma agressão. Eu estou a introduzir um elemento que não é meu, no meu corpo. Acabas por criar aqui um conflito interno.
Sofia, para terminar, que dica darias a tatuadores iniciantes sobre a importância da perceção visual na arte de marcar a pele, quer para quem tatua, quer para quem depois vai viver com as tatuagens?
A mensagem principal, eu acho que as pessoas têm mesmo que parar, analisar e observar se realmente é isso que querem, é uma coisa que vai ficar eternamente na pele. Não ir pelo impulso de "apetece-me, quero" e acho que tem que ser uma coisa ponderada e contra mim falo, porque sou tatuadora. Mas acima de tudo sou terapeuta e acho que tem de ser uma coisa ponderada e pensada. Em relação a quem está a começar enquanto tatuador, curiosamente eu recebo muitas mensagens de pessoas que estão a começar a pedir dicas e conselhos. É como qualquer outra profissão, dedicação ao máximo, tens que saber dedicar o teu tempo, tens que desenhar muito, não há como. Às vezes fazem-me a pergunta: "Para ser tatuador é preciso desenhar?" Claro que sim, não há como. Como é que eu vou conseguir reproduzir na pele algo que eu não sei fazer?
E nisso o design foi uma boa escola.
Sim, sem dúvida. Daí eu dizer que todos os dias eu pratico design.
Sofia Dinis, vamos ao nosso último desafio?
Vamos lá.
Estamos quase a chegar ao fim e para terminarmos este programa trago-te mais um dilema. Vou dar-te duas frases, uma delas é um facto sobre visão, a outra é um mito. Só tens de identificar qual delas é a afirmação verdadeira e qual delas é a falsa.
Ai, meu Deus!
Vamos a isso? As frases são: "cada olho tem um ponto cego" e "estar muito perto da televisão ou de ecrãs prejudica a visão". Qual delas é a verdadeira e qual delas é a falsa, Sofia?
Eu diria que a última é falsa em todos os aspetos. Eu diria que disse.
Que estar muito perto dos ecrãs prejudica a visão?
É tipo mito.
É um mito, exatamente.
Mas é a tal coisa. Mas o meu sentir, enquanto artista, vai-me dizer isso, eu sei que é mito.
É verdade, e estás certa. É um mito. Ficar perto da televisão ou de ecrãs de computadores e telemóveis não danifica a visão, embora possa causar cansaço ocular. Há que ter em atenção que nestes momentos, por estarmos muito focados nos ecrãs, temos tendência a não pestanejar tantas vezes, o que seca a visão. E nestes casos, aconselha-se a piscar os olhos regularmente para os lubrificar e evitar o desconforto ocular que referias há pouco. Sofia Dinis, muito obrigada por nos teres ensinado tanto sobre a tua profissão e muito obrigada por teres aceitado o nosso convite.
Obrigada.
Chegámos ao fim de mais um episódio de Visões Criativas, um programa com o apoio da Alberto Oculista. Hoje ouvimos um testemunho da importância da visão na carreira de tatuador. Lembre-se, este é o sentido responsável por guiar cada traço, cada sombra e cada detalhe que transforma a pele numa tela viva. Por hoje damos descanso à nossa visão, mas prepare-se para ver ainda mais além na próxima semana, no novo episódio de Visões Criativas. Até lá.