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Sejam bem-vindos ao "Vozes Circulares", é o podcast do Observador em parceria com a Associação Smart Waste Portugal, que nos fala sempre de sustentabilidade e economia circular. A água é um recurso cada vez mais valioso e num contexto de alterações climáticas e de crescente pressão sobre os recursos naturais, começa também a ganhar forma uma ideia que há alguns anos parecia pouco provável: a água que passa por uma estação de tratamento pode, de facto, ter uma nova vida. Neste episódio vamos falar de água para reutilização, ou APR, e perceber como é possível transformar um recurso, que durante muito tempo foi visto como o fim de um ciclo, no início de uma nova utilização. Este é um episódio que conta com o apoio da SIMDOURO. E conosco estão hoje Mercês Ferreira, é presidente do Conselho de Administração da SIMDOURO, e também Bento Aires, presidente da Ordem dos Engenheiros, Região Norte. Muito obrigado aos dois por terem vindo ao Observador. Mercês Ferreira, começaria por si, talvez para olharmos para o essencial quando falamos de água para reutilização. Estamos, afinal, a falar do quê? O que é que acontece à água depois de tratada numa ETAR, para que ela possa então ganhar esta nova utilização, que é esse o objetivo?

Sim, muito bom dia, muito obrigada pelo convite. É um prazer estar aqui neste programa. A SIMDOURO é uma empresa que faz parte do grupo Águas Portugal e que tem como grande objeto o tratamento de águas residuais produzidas numa grande região da zona do Porto. Servimos cerca de 519 mil habitantes equivalente, numa área de 1300 km quadrados, que vai desde o litoral até ao interior e, portanto, com uma diversidade de território muito grande. E dispomos de infraestruturas que exploramos, o nosso core é esse, é explorar estas infraestruturas que tratam esta água suja que nós produzimos em casa, todos, e que por vezes não temos noção do que é a seguir o seu tratamento, o que custa e a mais-valia que ainda pode ter, que é o que estamos a falar hoje. E nós temos 27 ETAR, operamos 27 ETAR nesta região e, de facto, começou a ser uma preocupação, quer do grupo Águas Portugal, quer das empresas que o integram, desenvolver um plano de reutilização de águas residuais tratadas, as tais APR, no seguimento daquilo que é hoje em dia o novo paradigma da economia circular, da sustentabilidade, de todo o enquadramento legislativo e europeu e normativo que nós próprios à nível nacional também estamos a desenvolver. E assim, em resposta à sua questão mais concreta: sim, as águas tratadas de uma forma normal, convencional, na SIMDOURO fá-lo com bastante eficiência. Aliás, basta ver indicadores do ARHSAAR, da ERSAR, e demonstra que de facto esta empresa tem muito bom desempenho naquilo que é o core principal, que é tratar as águas residuais, que o seu destino final é ir para o meio recetor, um rio, o mar, etc. Esta nova preocupação é tentarmos acrescentar a esta linha de tratamento novos métodos de tratamento complementares, que permitem que a água que sai tratada possa ainda ser mais tratada para se poder ter qualidade acrescida para fins não potáveis. E aí, sim, estamos a fazer a reutilização da água residual tratada para fins diversos, que normalmente deve-se, e fazemo-lo, tentar perceber, mapear a região onde estamos, o que necessidades existem, ou seja, a oferta-procura, para se poder decidir se vamos aplicá-la na rega, na lavagem de arruamentos, na lavagem de contentores, na lavagem de equipamentos municipais, etc. E temos, de facto, dois projetos-piloto neste sentido, uma na principal ETAR, que é Gaia Litoral, e outra numa ETAR. Se calhar falamos mais à frente.

Queria desenvolver esses dois casos em particular com a Mercês, mas Bento Aires, durante muito tempo, de facto, olhamos para o ciclo da água aqui de uma forma um bocadinho mais linear. Utilizar, tratar, devolver ao meio, como dizia também a Mercês, nos rios. A reutilização obriga-nos a mudar esta lógica. É de facto uma mudança de paradigma na forma como estamos a gerir este recurso, é uma novidade que se saúda também.

Muito obrigado pelo convite. É um gosto estar aqui, sobretudo também associar-me a uma empresa que é uma empresa de referência da região, que é a SIMDOURO, e também com a Mercês Ferreira, uma técnica distinta que agora empresta a sua expertise a esta empresa. Sim, precisamos de mudar esta mentalidade e a forma como olhamos para este recurso. Se durante muito tempo nós olhamos para a água como um recurso que não tinha fim e que era de fácil utilização e de fácil acesso, este paradigma mudou, quer a nível nacional, quer a nível internacional, e obriga-nos a sermos muito mais exigentes na forma como nós consumimos, na forma como nós gerimos este recurso, que apesar de tudo, é um recurso que na conta econômica das famílias ainda é um recurso barato, face à sua importância, se compararmos isto, por exemplo, com a conta de eletricidade, com a conta de gás, com a conta até de internet e telecomunicações, e que é um dos recursos mais críticos e mais essenciais e que o seu custo até pode estar subvalorizado face ao seu valor. E perante este cenário de escassez, ou pelo menos de aumentar a nossa necessidade e os requisitos de controle e da sua utilização, temos que mudar mentalidades e aproveitar todas as oportunidades para reduzir consumos de água de primeira linha, se estivermos a falar, por exemplo, da água potável. Isso vai desde as empresas gestoras dos sistemas, em que aqui obrigamos a que estas empresas tenham ter cada vez mais técnicos especializados, mais qualidade não só da construção das próprias infraestruturas, mas da forma como elas são mantidas, como elas são operadas, como é que a sua vida útil pode ser prolongada No sentido de termos uma utilização cada vez mais eficaz deste recurso. Da mesma forma que este princípio tem de ser contagiado a todas as famílias, a todos os utilizadores. Não faz sentido só que se olhe para a reutilização das águas quando falamos do destino final da saída de uma estação de tratamento de águas residuais, mas nós próprios também nas nossas casas devemos fazer este exercício de pensar onde é que nós podemos pegar nas águas que não estão tão sujas quanto isso, usando aqui um conceito que a Mercês há bocado usou das águas sujas. Podemos ter águas que podem não ser tão sujas quanto isso e que possam ser reutilizadas também dentro das nossas habitações, dentro dos nossos escritórios, dentro também das unidades industriais, e voltar a utilizá-las ainda numa fase anterior à injeção na rede de águas residuais. Este esforço é uma mudança de mentalidades, em que tem de envolver todos, desde o cidadão comum até as próprias empresas, que têm de estar qualificadas, temos de estar todos conscientes que temos um recurso nas nossas torneiras, que pode parecer fácil abrir a torneira, mas quer a montante, quer a jusante, há uma complexidade grande e uma responsabilidade social enorme.

Mercês Ferreira, a SIMDOURO tem vindo a desenvolver várias soluções de água para reutilização. Já aqui abordou também o caso das ETAR de Gaia Litoral e de Campelo. Que projetos são estes e que utilização afinal é que esta água pode ter depois de tratada?

Sim, temos estes dois projetos-piloto que desenvolvemos desde 2021, no caso de Gaia Litoral, e 2024, no caso de Baião, em que de facto apostámos na inovação, em desenvolver projetos inovadores que acrescentaram ao processo de tratamento normal alguns métodos e técnicas de tratamento complementar da água tratada e essa água tratada depois é armazenada, é colocada em redes próprias que faz a sua distribuição precisamente para fins para que estão licenciados. Atenção, eu digo isto por quê? A água para reutilização tem também requisitos de qualidade obrigatórios que temos que cumprir. Portanto, estes nossos dois projetos foram licenciados pela Agência Portuguesa do Ambiente com os requisitos e os padrões de qualidade que são exigíveis para os destinos a que se destinam, neste caso, desculpem a redundância, que é rega de espaços verdes, é a limpeza de arruamentos, é a lavagem de contentores, etc. Portanto, estas licenças servem para isto.

Estão direcionadas.

Exatamente. Por exemplo, a ETAR de Gaia Litoral está preparado este processo e este projeto para regar toda a orla litoral de Gaia, todos os espaços verdes da orla litoral de Gaia, que são numa extensão de quase 17 km, e também para fazer lavagem de contentores, lavagem de equipamento. Além disto, nós próprios, em todas as nossas instalações, em todas, não só nestas duas, temos práticas que estão subjacentes ao plano que eu falei há pouco da ação de reutilização das águas no próprio grupo, é utilizar dentro das nossas próprias instalações o mais possível a água para os nossos processos. Nesse caso, por exemplo, o grupo estabeleceu que 90% dessa água que nós precisamos fosse reutilizada através dos nossos tratamentos. E no caso da SIMDOURO, já atingimos esse indicador que o grupo definiu. Portanto, temos feito isso.

Os tais 90%.

Exato, os tais 90% nas próprias instalações. Para além disso, temos estes projetos que queremos fazer com que entidades externas também usem as águas de reutilização. E tal como o engenheiro Bento disse, e muito bem, é muito importante, para que isto tenha sucesso, que toda a cadeia de valor, desde o consumidor até a quem produz e a quem usa, de facto tenha consciência para mudar este tipo de paradigma, que implica mudança de comportamentos muito profundos.

Há aqui uma mudança quase de cultura, não é?

Exatamente. Não há dúvida que isso é um desafio.

Bento Aires, já vou aos desafios também com a Mercês, a outros desafios, mas Bento Aires, do ponto de vista da engenharia, imagino que há também aqui desafios. Quais são para garantir que esta água possa ser utilizada então em segurança nestes fins e com qualidade para essa finalidade que foi definida anteriormente?

A engenharia tem este conhecimento já há muito tempo e coloca-o ao dispor desde a produção e conceção e execução das estações de tratamento de águas residuais, da garantia que a saída das estações de tratamento tem.

Estamos a falar de soluções muito complicadas?

Depende dos núcleos urbanos onde se inserem, depende da utilização que está a montante de uma estação de tratamento de águas, mas eu diria que o bugilis da questão não está na complexidade técnica ou na capacidade de termos estações de tratamento que respondam às necessidades. Aquilo que nós devemos é focar-nos que enquanto há empresas que têm este conhecimento técnico e este cuidado de devolver ao meio ambiente e de colocar águas para reutilização disponíveis para utilização, se calhar temos núcleos urbanos de menor dimensão e que não conseguimos ter este nível de maturidade. Por isso esta mudança de mentalidades é também uma mudança de aplicabilidade de escala. E depois eu já toquei há bocado aqui num ponto que é fundamental: a capacidade de operação e gestão destas infraestruturas. Isto só se faz com conhecimento técnico especializado, com bons engenheiros, com bom pessoal a assessorá-lo sob o ponto de vista operacional, para garantirmos que estes equipamentos estão em condições para cumprir aquela que é a sua função. Por isso, nós vivemos momentos de escassez de profissionais de engenharia no mercado, que obriga a termos técnicos muito mais qualificados, que estejam mais preparados, que sejam bem acompanhados pelas empresas para garantir que todos nós coletivamente temos, por um lado, água segura nas torneiras, mas também que os sistemas de tratamento de águas residuais, que são eficientes e que são competentes.

Mercês, a reutilização da água parece ser uma solução, de facto, com grande potencial, mas implica, evidentemente, investimento nas infraestruturas, numa nova forma, imagino, de organizar os sistemas. Quais é que têm sido os principais desafios na SIMDOURO neste caminho?

Sim, de facto, não é importante só termos disponibilidade de água tratada nas ETAR. É necessário muito investimento. Por exemplo, nestes dois projetos que nós iniciámos em Gaia Litoral e Baião.

São estações mais complicadas, mais complexas?

Como disse aqui o Bento, não são muito complicadas. Existe a técnica, existe o know-how. É preciso estar sensibilizado para o fazer e a política pública enquadrar este tratamento adicional, que não são técnicas muito difíceis, são técnicas já existentes, têm é que ser dirigidas, como dizia também o Bento, para o uso a que se destina. E também depende do sítio onde nós estamos, se é urbano, se é agrícola, se não é agrícola. Há todo um planeamento que deve ser feito a montante.

E há também que convencer os municípios e as empresas e outras entidades para integrar esta água para a reutilização nas suas operações.

Sem dúvida. Esse é um dos desafios também. Para além de termos necessidade de investimento, infraestruturas dedicadas, respeitar enquadramento regulamentar, há a necessidade de facto de vender o produto ao cliente.

Como é que estamos nesse campo?

Penso que estamos muito mal, ao nível de Portugal ainda estamos muito mal. Ainda há uma percentagem de reutilização muito reduzida, precisamente porque eu acho que ainda há aquele estigma de isto não é uma água boa, isto vem da água suja. Ainda há esta falta de aceitação e confiança por parte de quem vai utilizar.

Uma ideia errada que é preciso desmistificar.

Ideia errada que tem de ser desmistificada e isso passa por muita comunicação, muita informação e sensibilização e trabalho.

Há aí um trabalho de literacia, quase, para fazer também nesta matéria.

Sem dúvida.

Bento, muito rapidamente, pedia-lhe também uma opinião sobre este assunto. Temos aqui vividos alguns períodos de seca, também de maior pressão sobre a disponibilidade da água, mesmo no nosso país. Esta água para reutilização é uma peça importante na adaptação de Portugal às alterações climáticas?

É uma das peças importantes. E a Mercês tocou aqui num ponto que é fundamental, que é perdermos o medo de utilizar esta água. E este perder o medo vai desde nós cidadãos até o município de pequena dimensão, que pode ter algum problema de alguma dificuldade de implementação desta medida para lavar as ruas ou para lavar os contentores, ou eventualmente até para ter um sistema de reservatórios específicos para usar para um sistema de rega de jardim. Só que o somatório destas medidas é que nós vamos conseguir vencer o campeonato de adaptação às alterações climáticas e sobretudo nos consciencializarmos que a água é um recurso crítico, que acima de ser preservado, tem de ser bem gerido, de forma equilibrada e que a água que passou numa torneira é a mesma água que é tratada e que está apta para reutilização. Da mesma forma que confiamos que esta água que sai das ETAR está competente para ser descarregada num rio ou no mar, também está competente para podermos usar novamente para regar, para limpar, para alimentarmos os carros dos bombeiros, para usarmos nos sistemas nos depósitos de água dos edifícios. Se nós olharmos para o nosso dia a dia, encontramos um conjunto enorme de oportunidades e de utilizações em que nós podemos usar esta água. Agora, vamos precisar de infraestrutura de transporte, de infraestrutura para garantirmos que há qualidade e que há separação e que está perfeitamente sinalizada, mas no fim do dia, uma conta em que o resultado social tem um elevado impacto e elevado retorno. Agora temos é que nos adaptar e de fazer este percurso e de perdermos o medo.

É uma ideia que fica desta conversa muito interessante com a Mercês Ferreira e o Bento Aires. Muito obrigado por terem vindo também à Rádio Observador. De facto, a água para reutilização mostra-nos como a economia circular pode começar aqui com uma mudança de perspetiva, aquilo que durante muito tempo foi visto como o fim de um processo, pode afinal continuar a ter valor e diversas utilizações. Este foi o Vozes Circulares, o podcast do Observador em parceria com a Associação Smart Waste Portugal. Neste episódio contou com o apoio da SIMDOURO. Junte-se a nós no próximo programa. Continue a descobrir tudo sobre sustentabilidade e economia circulares.