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Seja bem-vindo ao "Vozes Circulares", é o podcast sobre sustentabilidade e economia circular, numa parceria da Rádio Observador com a Associação Smart Waste Portugal. Eu sou o Nelson Ferreira, hoje vou conversar com a Luísa Magalhães, é diretora-executiva da Associação Smart Waste Portugal, e também com o João Nunes, que é presidente do SecoLab. Entre outros assuntos, vamos falar de colaboração e parcerias para a economia circular e vamos também conhecer um programa, o Cluster Portuguese Circularity, é um novo cluster já aprovado pelo governo e que vai ter liderança partilhada entre a Smart Waste Portugal e o SecoLab. Olá, Luísa. Olá, João. Sejam bem-vindos. Já vamos conhecer melhor este cluster Portuguese Circularity, mas antes disso, Luísa, ao longo dos últimos episódios aqui no "Vozes Circulares", ficamos a perceber que esta transição para um modelo cada vez mais circular da nossa economia não se faz sem colaboração entre as empresas, a academia, entidades públicas. Mas de que forma é que a Smart Waste Portugal tem vindo também a fomentar essa colaboração entre estas entidades, que percebemos já, é tão essencial para uma economia mais circular.
Olá, antes de mais. A colaboração, de facto, está na gênese da Smart Waste Portugal, sendo fundamental, e consideramos sempre o trabalho em rede para que haja mudanças com impacto, para que estas possam mesmo acontecer. Nós temos, no âmbito da Smart Waste, mais de 150 associados de áreas totalmente distintas e setores, desde a indústria à academia, passando também pelo setor público, e o objetivo é concretizar a economia circular com estas entidades todas em rede. A economia circular assenta numa visão holística e integrada, pelo que a sua concretização passa pelo estabelecimento de parcerias entre as diferentes entidades, que têm valências, características e conhecimento também diferente. Por isso, a Smart Waste tem promovido nesta rede grupos de trabalho, também coordena plataformas colaborativas, nomeadamente o Pacto Português para os Plásticos e a plataforma Vidro Mais. Depois também organiza sessões técnicas, produz ferramentas, nomeadamente, como exemplo, a plataforma MyWaste, que é um marketplace de subprodutos, resíduos e fim de estatuto de resíduo, organiza eventos, produz ferramentas, produz conhecimento e promove muito o contato entre os seus associados e também estabelece alguma advocacy junto da tutela. Smart Waste tem vindo, assim, a posicionar-se como entidade de referência para a economia circular, procurando perceber os diferentes desafios nesta transição circular, bem como as oportunidades existentes, tanto em termos nacionais como internacionais.
João Nunes, vamos também querer saber o que é o SecoLab, antes de mais, para contextualizarmos um pouquinho esta estrutura. Já percebi que tem um papel ativo no que toca à inovação colaborativa, de facto, no âmbito da economia circular, mas como é que essa inovação também se traduz em resultados que sejam práticos e mensuráveis no terreno?
Olá, Luísa. Olá, Nelson. Olá a todos os ouvintes. Primeiro, o SecoLab é um laboratório colaborativo que une a academia com as empresas. E o objetivo de um laboratório colaborativo é como é que nós juntamos duas partes, normalmente é difícil expor no mesmo ecossistema a trabalhar, que é as empresas e, do outro lado, a academia. O esforço do laboratório colaborativo, como o SecoLab, para a economia circular, é conseguir conciliar que nós temos que desenvolver inovação com base em conhecimento. Aqui onde se diferencia das entidades acadêmicas, é que as acadêmicas não estão orientadas muito para o mercado no desenvolvimento do seu conhecimento. E o laboratório colaborativo orienta para o mercado o desenvolvimento do seu conhecimento, que é o que as empresas querem, é conhecimento orientado para o mercado, porque é aí que depois nós vamos ter inovação. Sabemos que há graus de sucesso para nós chegarmos ao mercado com a inovação, e o SecoLab faz este papel de interface entre estes dois mundos. Isto é um papel muito importante, porque havia aqui um vazio de colaboração em termos da academia e as empresas, porque nunca falam a mesma linguagem. Eu costumo dizer, a academia fala em papers e as empresas falam em vendas. São duas linguagens muito distintas que nós temos.
Podemos dizer que é uma espécie de incubadora de ideias ou negócios antes da sua chegada ao mercado.
Isto é mais um acelerador de conhecimento, que é acelerar conhecimento e orientá-lo para o mercado, em resposta a determinados setores ou determinadas necessidades de empresas. E nos juntamos determinadas empresas de setores com essa valência do desenvolvimento. Em termos práticos, o SecoLab, o seu KPI principal é desenvolvimento de conhecimento e não de papers científicos. Isso é logo uma grande diferença. Nós, neste momento, temos já cinco patentes. De cinco patentes, três já estão em demonstradores tecnológicos na última escala, que nós chamamos de validação tecnológica. Para os nossos ouvintes perceberem, há várias escalas. Cada vez que nós aumentamos o nível de conhecimento, e nós sabemos que quando está no nível nove, está indo na entrada de mercado. E nós já temos, das cinco patentes, três que já estão no nível oito e nove, que é na fase mesmo de entrada do mercado. E este é um papel do SecoLab, é acelerar o desenvolvimento de conhecimento, porque as universidades não têm esse papel e as empresas também não têm núcleos seus internos com capacidades para acelerar conhecimento, para depois conseguir chegar à inovação e ao mercado.
Luísa, quais diria que são os principais desafios quando se trata de envolver diferentes setores e até cadeias de valor nessa visão comum para uma maior circularidade? E já agora, como é que ultrapassamos também esses desafios?
Sim, há muitos desafios que nós vamos encontrando, mesmo nas nossas iniciativas que vamos organizando e falando mesmo com as pessoas que estão no terreno. E podia elencar aqui, penso que alguns que são relevantes. A questão da sensibilização e qualificação. Ainda temos algumas confusões também com este termo da economia circular, por isso eu acho que é um tema que temos que trabalhar, a questão da sensibilização. Depois, alguma falta também, às vezes, de incentivos e financiamento, ainda se sente, porque nós temos também muitas PMEs no nosso mercado e aqui sentem alguma necessidade, às vezes, de financiamento. Depois, o tema também da burocracia e da regulação excessiva ou dispersa. Eu acho que está sempre a aparecer muita regulamentação e às vezes há dificuldades também das entidades para tentar trabalhar estes temas Depois posso dizer ainda mais a questão da aversão à mudança, também acho que ainda há aspectos culturais.
Um aspecto cultural.
Exatamente, que ainda temos aqui.
Essa resistência típica.
Exatamente. Acho que em Portugal se sente ainda um bocado isso. E depois falar também da dificuldade, muitas vezes, de obtenção de dados para a própria monitorização e harmonização destes dados, que são muito relevantes, mas que as empresas têm alguma dificuldade. E depois a parte da colaboração. Eu acho que ainda falta, mesmo nesta parte também cultural, se calhar, nós temos ainda entidades que são pouco colaborativas e nós tentamos trabalhar este tema para haver mais confiança também nos parceiros. Como é que ultrapassá-las? É difícil.
É o grande desafio.
É o grande desafio, exatamente. Mas eu acho que a formação é fundamental, a parte da formação aos colaboradores, a partilha de informação, e nós temos na Smart West Portugal feito muito isto, a questão de informação sobre legislação, financiamentos, para promover aqui também alguns consórcios que são também relevantes. Promovemos também alguns fóruns de discussão, porque eu acho que o conhecimento é necessário para ser partilhado pelas diferentes pessoas. Depois a partilha também de boas práticas, que achamos que é relevante, e demonstrar que a economia circular é uma vantagem e é uma necessidade, já que é fundamental para as empresas. Eu acho que tem que haver aqui esta voz, e aqui também ligar à tutela e ao governo para demonstrar o que é que existe, para haver aqui uma maior promoção desta temática da economia circular. Por isso acho que estamos no caminho, acho que as empresas já começam a ver esta necessidade.
Já perceberam que terão sempre mais vantagens quanto mais rápido também aderirem a esta ideia. João, na sua visão, que tipo de parcerias são as mais promissoras para escalar soluções circulares em Portugal? Porque ao longo deste "Vozes Circulares", em outros episódios, já se falou muito deste problema da nossa economia. Seria quão mais fácil adaptar a nossa economia a um modelo cada vez mais circular se os próprios negócios tivessem uma dimensão de escala maior, o que acontece noutros países. Essa é uma das dificuldades, e nesse campo, este novo cluster também pode ser uma solução?
Sim, com certeza que é uma solução, e se não, acho que também a Smart West e a Seclab não se juntavam. O que nós identificamos são duas entidades que são um bom exemplo, este cluster nasce numa parceria entre o Seclab e a Associação Smart West Portugal, em que identificamos essas lacunas. Por que nós temos 2,7% de taxa de circularidade em Portugal e a média da União Europeia vai nos 12%? Esta é a grande questão.
Estamos muito atrás, então.
Estamos muito atrás. Quando nós nas renováveis conseguimos dar um grande exemplo, escalar, aumentar e ganhar tração e velocidade, não conseguimos fazer na circularidade. E há coisas que estão a falhar. E quando nós olhamos para o ecossistema, nós verificamos que temos um laboratório colaborativo, temos uma associação Smart West, mas se calhar um cluster ajuda a ganhar a tal escala, que a Nelson fala, que é preciso ganhar escala de volume, de dimensão. Muitas vezes há muitas empresas que dizem: "Nós queremos aqui não gerar resíduos", mas perguntamos: "Quanto é que gera?" "Uma tonelada, duas por ano". Não é nada, para tecnologias de valorização. Mas no seu conjunto e todas elas em várias, aí já se ganha tração e dimensão. Este cluster, o Portuguese Circularity, é uma corporação e um exemplo de parceria entre duas instituições complementares, o Seclab mais ao contexto da inovação, e a associação Smart West, como a Luísa bem disse, há algumas das atividades que faz, que são complementares em termos institucionais e em termos de visão. E que nós dissemos: "Nós temos que trazer uma visão então de cluster para a economia circular", que não há em Portugal. Portugal era dos poucos países que não tinham cluster para a economia circular a nível europeu. E foi esses esforços que nós juntámos. Estamos a dizer que juntámos já, de arranque, 51 entidades. Das 51 entidades, temos 33 empresas. Para os nossos ouvintes verem já a dimensão, estamos a falar em 2,7 mil milhões de euros o volume de negócio destas empresas, mais de 600 milhões de euros de exportação e mais 16 mil postos de trabalho. Isto é o que representa o início, o arranque deste cluster em termos institucionais.
Que tem a ambição ainda de ser maior.
Tem, claramente. Isto é a nossa ambição, que estamos nós a trabalhar as equipes do lado da Smart West, do lado da Seclab.
Parece-me considerável que já tenham essas 33 empresas.
Já temos este arranque com a parte científica e temos desafios interessantes para ajudar a posicionar as nossas empresas. Quando nós olhamos para a taxa de circularidade, há dois posicionamentos. Um são empresas que vão conseguir aumentar a circularidade de resíduos. Outras são que vão disponibilizar conhecimento e tecnologias para ajudar outros a aumentar a sua circularidade. Porque quando nós olhamos para tudo e para a fotografia, há uma questão muito importante que é: por que temos 2,7? Há uma outra questão, a Luísa já falou, a questão burocrática, a questão legal, essa tão de todas as empresas, mas há uma que é o limiar de comportamento humano Será que nós vamos conseguir aumentar mais, estaremos só dependentes do comportamento humano? Será que o comportamento humano não consegue dar a capacidade de resposta que nós pretendemos? Tudo isso tem que ser uma atividade económica e um cluster a dinamizar e não estarmos só à espera que as pessoas é que vão conseguir aumentar essa circularidade como resposta do comportamento, como a reciclagem, e esta também é a nossa visão e missão como cluster. E temos algumas iniciativas e programas já para conseguir ajudar a fazer esse posicionamento.
Luísa, já estamos aqui a conhecer um pouquinho melhor este novo cluster. O seu reconhecimento para a economia circular também confirma que este é um tema de prioridade nacional para nós?
Sim, eu acho que é mesmo este reconhecimento e nós, em conjunto com o Secolab, a Smart Waste, tentamos trabalhar mesmo este tema para ser ainda mais reconhecido e mais prioridade também para as empresas. Eu acho que é importante também referir aqui que a economia circular, e nunca se perde também falar em definições, para as pessoas perceberem, enquanto um princípio regenerativo e restaurativo, pretende usar menos recursos, manter os produtos ao mais alto nível e com mais valor e componentes também, e tentar evitar a redução da produção de resíduos e a diminuição também dos impactos ambientais, sociais e económicos. Isso é muito importante as empresas e as entidades terem esta noção. Este tema tem vindo cada vez a ser mais falado e é importante passar mais da parte teórica também e concretizar e escalar ideias e projetos, que é o que nós queremos fazer também no âmbito deste cluster. É necessário haver aqui mais atenção ao tema, claro que sim, e temos que tentar aumentar, como diz o João, também a taxa de circularidade e ver mesmo bem este número, porque temos aqui muitas oportunidades e temos aqui muito potencial também nacional para trabalhar este tema. Já temos muitas empresas a trabalhar e com exemplos muito práticos e bons, e temos que levar também estas boas práticas e tentar promover aqui mais circularidade. Por isso, neste cluster, nós em conjunto e com vários parceiros e com várias empresas, o que nós queremos é ter representatividade também grande de diferentes setores, porque acho que só assim é que conseguimos também trabalhar o tema da economia circular. Pretendemos também objetivos como depois chegar a uma sustentabilidade maior, uma descarbonização e uma sociedade também mais justa e que viva também dentro dos limites do planeta.
Há pouco o João já explicou aqui um pouquinho como é que o cluster Portuguese Circularity pode, de facto, contribuir para aumentar esta taxa de circularidade em Portugal. Mas tinha aqui uma outra questão, João, que é esta aposta que o cluster quer fazer na internacionalização, na competitividade. Como é que se promovem estes aspectos e de que forma é que isto pode também ajudar as empresas a serem mais circulares?
Sim, até acrescentando a parte da taxa de circularidade. Há dois pontos ainda pra acrescentar e vai de encontro também ao que a Luísa está a dizer e é um foco para o cluster Portuguese Circularity, que é: o Nelson, ou eu, ou a Luísa podemos ter uma tecnologia muito boa que vai resolver um problema de circularidade, valorização de resíduos, que se transforma em matéria-prima. Se nós não conseguimos licenciar, implementar e legalmente estabelecê-lo, não vale de nada a tecnologia e o conhecimento que temos. E este é um drama português, do nosso DNA, do ecossistema, da burocracia, do tempo que demora e das coisas que têm que avançar e de acelerar de outra forma na implementação. Algo que o cluster também, para aumentar a taxa de circularidade, é acelerar a pressão e as capacidades e competências para que seja possível implementar novos conhecimentos, tecnologias e serviços para dar resposta à circularidade. E claro, quando vemos isto e quando o nosso foco, que é a questão da internacionalização, que é fundamental, nós já temos uma iniciativa que em conjunto estamos a querer muito, vamos já aqui dizer, nós queremos muito aqui é um evento de grande dimensão, depois vamos noutra temporada dar aqui mais sinal ao evento. Vamos ter aqui um evento de grande dimensão que vamos querer juntar empresas nacionais a mostrar o que é que fazem de melhor na economia circular e de soluções concretas, e que possa mostrar ao público e aos clientes, mas uma perspectiva internacional. Nós temos que começar a ter mais os bicos em pés e dizer que nós somos melhores do que somos, para demonstrar a nível internacional que nós conseguimos crescer. E há muitas empresas, soluções e tecnologias que estão em Portugal que têm capacidade de crescer a nível internacional, em termos de implementação. E esta é uma das missões, nós vamos ter um evento e uma atividade específica para internacionalizar associados do Portuguese Circularity, do cluster, em que nós vamos promover a sua divulgação, quer in-house, em Portugal, quer para fora de Portugal, das suas tecnologias e soluções em conjunto. E temos aqui uma atividade própria, que em momento próprio, depois vai ser divulgada.
Isso parece-me um atrativo também para novas empresas que se queiram juntar ao cluster. Luísa, já percebi também que a capacitação, a requalificação dos recursos humanos e até a promoção do networking é essencial. Têm estratégias planeadas nesse sentido?
Sim, no âmbito do cluster, e a Smart Waste também tem esse propósito, a parte da capacitação e networking, mas o que nós pretendemos também é capacitar recursos humanos a vários níveis, desde os aspetos menos técnicos aos mais técnicos, tendo em consideração também as especificidades de cada setor, que acho que é importante. Por isso, também com parcerias com universidades e centros de investigação, tentar trabalhar muito estas formações e dar resposta às formações que sentimos que há necessidade no terreno. A nível de capacitação dos RHs e dos recursos humanos das empresas, esperamos incentivar uma aposta numa formação também mais atrativa para os jovens, que eu acho que é importante, e para talentos de diferentes setores, através de programas de capacitação, de bolsas, de especialistas em economia circular, onde as empresas também possam recorrer à contratação de especialistas nestas áreas, depois criação aqui de alguns programas, até de estágios, que beneficiem as empresas com a integração de jovens no mercado. Por isso, o tema da capacitação é uma das áreas, um dos eixos, especialmente, que vamos trabalhar no âmbito do cluster. Quanto ao networking, este obviamente que será, sem dúvida, uma prioridade do cluster com todas as iniciativas também que vamos desenvolvendo através de eventos, como disse o João, também de grandes eventos e também muito de grupos de trabalho que vamos criando para partilhar também as dores, as dificuldades, as oportunidades e as coisas boas também que existem dentro das diferentes áreas também da indústria que nós temos em Portugal, das universidades, trazendo também o setor público, queremos que seja uma coisa forte em termos de parceria também para promover aqui este networking.
Muito bem, Luísa e João, muito obrigado pelos vossos esclarecimentos neste novo episódio do podcast Vozes Circulares, onde ficamos a saber que a colaboração e as parcerias são importantíssimas para a economia circular e onde ficamos também a conhecer este cluster Portuguese Circularity, uma nova entidade que tem precisamente por missão tornar a economia portuguesa cada vez mais circular. E hoje ficamos também a saber que isso não se consegue sem a colaboração de todos e diria até da nossa simples consumidores. Já sabe, todos os episódios do podcast Vozes Circulares estão disponíveis nos sites do Observador e da Smart Waste Portugal.