É muito mais do que uma casa a arder. O Manchester United, atualmente, já não é sequer uma casa — é um conjunto de paredes onde ninguém se entende e não há uma única pessoa, desde o cargo mais alto da estrutura até ao treinador e passando pelos jogadores, que tenha o lugar garantido. E essa análise tornava-se ainda mais clara depois da última jornada da Liga dos Campeões e na antecâmara do jogo deste domingo contra o Bournemouth.

Para explicar, portanto, é preciso puxar a fita da cronologia um bocadinho atrás. Na quarta-feira, em Itália, o Manchester United foi goleado pelo Como de Cesc Fàbregas e chegou ao sétimo jogo consecutivo sem ganhar para todas as competições, entre o pior arranque em décadas na Premier League, a eliminação da Taça da Liga e três pontos em três jornadas da Liga dos Campeões. Bruno Fernandes, que foi substituído durante a segunda parte e saiu do relvado visivelmente descontente, não mediu palavras na zona de entrevistas rápidas — e atirou a todos, incluindo ao treinador.

Carrick precisou mesmo de levar uma lição de Paz para perder a guerra: United é goleado pelo Como

“Não fizemos muita pressão sobre a bola, não fizemos muitos movimentos bons sem bola. É difícil tentar pressionar, ser corajosos, ter a posse de bola e criar oportunidades. Mas se não formos capazes de fazer isso vai ser muito difícil sair desta situação. É uma decisão do staff não fazer pressão homem a homem. Às vezes podíamos deixar um pouco de espaço atrás e tentar tirar a bola num primeiro momento. Temos de ser mais corajosos na pressão. Temos feito o que o treinador nos pede. Temos passado a mensagem para dentro de campo, daquilo que ele nos exige. Os resultados não estão a aparecer, não estamos a ganhar os jogos e isso complica tudo o resto. No futebol o que interessa são os resultados, pouco interessam as exibições ou como jogas”, disse o internacional português, que acabou por ser muito criticado por vários antigos jogadores dos red devils.

Ora, Michael Carrick, que há algumas semanas já tinha ouvido Lisandro Martínez a rasgar por completo toda a estrutura do Manchester United, começou por responder de forma tática e técnica ainda na quarta-feira. “Na segunda parte pressionámos a meio gás homem a homem e acabámos por sofrer um golo por causa disso. Seja qual for a tática em que jogas se não corres para trás não vais ganhar”, disse o treinador inglês. Dias depois, porém, teve uma reação mais musculada quando questionado sobre a possibilidade de retirar a braçadeira de capitão a Bruno Fernandes na sequência das palavras do jogador.

“Farei sempre o que for melhor para o clube e para a dinâmica da equipa. Não acho que este seja o melhor momento para entrar em muitos detalhes. Balneário dividido? Não, não está. Só precisamos de voltar a fazer o que fazemos melhor”, sentenciou. E este domingo, na receção ao Bournemouth, Michael Carrick evidenciava o que considera ser “o melhor para o clube e para a dinâmica da equipa”: deixava Bruno Fernandes no banco de suplentes pela primeira vez na atual temporada e pela primeira vez desde que é treinador do clube, com o médio português a falhar uma titularidade na Premier League pela primeira vez desde maio do ano passado.

“É apenas futebol. Quando se tem opções é sempre uma decisão difícil. Temos de tomar a decisão certa para hoje e para a equipa, de modo a conseguirmos o rendimento pretendido”, disse Carrick antes do apito inicial, em explicações parcas que não mascararam o momento claramente encenado em que entrou no relvado de Old Trafford ao lado de Bruno Fernandes. Sem o português, Tielemans aparecia nas costas de Bryan Mbeumo, com Carlos Baleba e Andrey Santos no meio-campo e Mason Mount e Amad Diallo nas alas, e Diogo Dalot surgia na esquerda da defesa, sendo que Leny Yoro era o lateral do lado contrário. No Bournemouth, que durante a semana viveu um dos melhores momentos da sua história ao vencer o AC Milan de Ruben Amorim na Liga Europa, António Silva e Evanilson eram ambos titulares.

O Bournemouth começou melhor e continuou melhor, com o Manchester United a ter muitas dificuldades para contrariar a superioridade do adversário. Apesar de a equipa de Marco Rose também não ter criado verdadeiras oportunidades de golo até abrir o marcador, tanto Evanilson (3′) como Rayan (4′) tiveram situações não enquadradas em que ficaram vincadas as facilidades com que encontravam espaço na área contrária. Os red devils não tinham ligação entre setores, Baleba e Santos pareciam escondidos do jogo, Mbeumo estava perdido no ataque e Tielemans acumulava passes errados.

Já depois de Evanilson ter cabeceado ao lado na área (29′) e também depois de Diogo Dalot ter protagonizado o único laivo ofensivo do Manchester United até então, com um remate que falhou o alvo (18′), o golo acabou mesmo por aparecer. Na sequência de um livre descaído na direita, Justin Kluivert cruzou para o poste mais distante e Rayan, completamente esquecido por toda a gente, atirou de primeira para abrir o marcador (38′). Os red devils até reagiram de imediato, com Mbeumo a obrigar Djordje Petrovic à primeira defesa do jogo com um remate cruzado (40′), mas o que parecia inevitável aconteceu: Leny Yoro cometeu um erro inexplicável, escorregou em zona proibida e ofereceu a bola a Adrien Truffert, que ofereceu o golo a Marcus Tavernier (42′).

Ao intervalo, o Manchester United já perdia com o Bournemouth por dois golos de diferença e não dava qualquer ideia de estar pronto para ir atrás do resultado. Muitos adeptos abandonaram as bancadas de Old Trafford ainda nos últimos minutos da primeira parte, numa das bancadas surgiu uma tarja gigantesca onde se lia “standards”, padrões, e a realização da transmissão televisiva procurava insistentemente Bruno Fernandes no banco de suplentes. Michael Carrick desceu aos balneários assobiado, assim como toda a equipa, e com a certeza de que teria de dar a volta ao resultado para ainda ter trabalho esta segunda-feira.

Carrick mexeu logo no início da segunda parte e trocou Tielemans por Matheus Cunha, mantendo Bruno Fernandes no banco, e tudo poderia ter ficado ainda pior logo ao fim de 30 segundos, com Evanilson a acertar na baliza depois de um erro infantil de Ayden Heaven e Harry Maguire, mas o lance foi anulado por fora de jogo (46′). Heaven poderia ter novamente deitado tudo a perder logo a seguir, com mais um erro inaceitável, mas o remate de Rayan saiu à figura de Senne Lammens (50′). Ao contrário do que seria expectável, o Manchester United parecia ter voltado ainda pior do balneário. 

O Bournemouth tirou o pé do acelerador à medida que o relógio se foi aproximando da hora de jogo e os red devils acabaram por aproveitar para subir ligeiramente as linhas, chegando com outra frequência ao último terço contrário e criando algumas finalizações, com um remate ao lado de Matheus Cunha (57′) e outro de Mbeumo que também saiu desenquadrado (60′). Nesta fase, o principal desequilibrador ofensivo era mesmo Diogo Dalot, que ia tentando criar espaços a partir da velocidade no corredor esquerdo.

Lisandro Martínez substituiu Ayden Heaven a pouco mais de 20 minutos do fim e Bruno Fernandes ia realizando exercícios de aquecimento enquanto Rayan, mais uma vez e na cara de Senne Lammens, falhou o terceiro golo (66′). Logo a seguir, porém, surgiu mesmo o xeque-mate: Maguire e Martínez não falaram um com o outro ou com Lammens, o guarda-redes saiu desprotegido e Evanilson antecipou-se, tirando depois um grande remate em jeito para a baliza vazia (71′). Joshua Zirkzee entrou logo a seguir e Bruno Fernandes, por sua vez, regressou ao banco de suplentes enquanto Michael Carrick parecia até lutar contra as lágrimas na linha técnica.

Shea Lacey ainda entrou para o derradeiro quarto de hora e já nada mudou, com os red devils a cumprirem os últimos minutos quase parados, apáticos, sem qualquer reação ao que se estava a passar. O Manchester United perdeu com o Bournemouth em Old Trafford, leva agora oito jogos sem ganhar para todas as competições entre cinco derrotas e três empates e o pesadelo do clube, na verdade, já se tornou uma verdadeira casa dos horrores.