Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Seja bem-vindo ao "Vozes Circulares". É o podcast onde falamos de economia circular e de sustentabilidade, aqui na Rádio Observador, uma parceria com a Associação Smart Waste Portugal. O que são serviços de ecossistema e o que é que têm a ver com a regeneração da natureza? Como é que estes dois conceitos também se ligam com a economia circular? É isso que vamos saber hoje com Helena Freitas, professora catedrática da Universidade de Coimbra e diretora do Parque de Serralves, e também com Pedro Norton de Matos, fundador da Academia G e também do Green Fest. Sejam muito bem-vindos à Rádio Observador. Helena, vamos começar por tentar perceber melhor o que é que são os serviços de ecossistemas e de que forma é que este conceito também se relaciona, e muito, com a economia circular.
Muito bem, muito obrigada. De facto, os serviços de ecossistema, assim chamados num quadro conceptual que teve uma relação direta mais recente com a IPBES, a Plataforma Intergovernamental para a Biodiversidade e Serviços do Ecossistema, é uma ferramenta, um quadro conceptual que visa revelar a importância que os ecossistemas têm para as pessoas. Hoje até estamos a transitar para um quadro conceptual um pouco renovado, que se chama os NCPs, os contributos da natureza para as pessoas. Verdadeiramente é o que isto é. Estamos a falar de contributos da natureza para as pessoas, que são mais visíveis neste quadro, que procura classificar os ecossistemas na perspectiva dos serviços que eles oferecem à humanidade. Concretamente, esses serviços, neste quadro conceptual, são caracterizados ou distinguidos em quatro grupos principais, que são chamados os serviços de provisão ou de aprovisionamento, que têm a ver com-
Alimentos.
Exato, alimentos.
Água.
Água, os bens como a madeira, etc. Aqueles que nós percebemos claramente que têm um valor na economia convencional, portanto, facilmente compreendemos. Depois, os serviços de regulação, que têm a ver, sobretudo, com aspetos de funcionamento dos ecossistemas e que são tanto melhores quanto mais saudáveis, quanto em melhor condição estiverem os ecossistemas, e que são aqueles que não conseguimos da mesma forma captar na economia, mas que percebemos claramente, como os serviços de controle do clima, purificação do ar, da água, e aspetos mais concretos que já se relacionam diretamente com a economia, que já vou falar, como por exemplo, o serviço de polinização, que é um serviço do qual dependem grande parte das culturas agrícolas.
Mas isso não são as abelhas que fazem?
Não são só as abelhas, há imensos polinizadores, há uma diversidade de polinizadores. E as abelhas também, ao contrário do que as pessoas pensam, nós não temos uma única espécie de abelha.
Claro.
Temos centenas de espécies de abelhas, mas há outros polinizadores que são também importantes, mas é bom que associemos. E outra questão muito pertinente enquanto serviço de regulação hoje, que é o controle de pragas e doenças. Isso também é um serviço que as pessoas percebem bem na translação para a economia, porque, de facto, por exemplo, se tiver uma vinha, percebe que se tiver que ter maior cuidado, uma das estratégias que hoje cada vez mais se usa é exatamente o recurso à biodiversidade. E depois tem os serviços que são mais considerados intangíveis, portanto, e que nos são mais dificilmente apropriados e percepcionados, que são, de facto, os serviços culturais, que percebemos muito durante a pandemia, queríamos o refúgio, procurávamos a natureza, porque precisávamos de inspiração, de um tempo também de lazer, de usufruto até, de uma estética que a natureza também sempre inspirou e continua a inspirar. E os serviços de suporte, esses que têm, sobretudo, a ver exatamente com algo que falávamos, com a qualidade do ecossistema, que hoje estamos a ter uma consciência bem mais clara dele, como, por exemplo, a formação do solo, os ciclos biogeoquímicos, etc. Estes são os serviços ou então os contributos da natureza para as pessoas, que depois têm, claro, uma perceção diferente também em função das geografias e das nossas próprias realidades. Há contextos onde a relação com os serviços do ecossistema tem muito a ver com a vida quotidiana das pessoas, e portanto, essa perceção, porventura, pode ser mais presente. No nosso caso, não será da mesma maneira, mas claramente isto relaciona-se com a economia circular, que é uma questão que me colocou também, e que é um modelo de produção e consumo que valoriza exatamente uma lógica regenerativa. E também na natureza, e quando pensamos em serviço do ecossistema, temos também sempre aqui uma intenção muito clara de regenerar, de garantir que o ecossistema consegue providenciar, numa lógica, pelo menos, idealmente permanente, tem que ter a necessária qualidade para providenciar este conjunto de serviços. Da mesma forma, na chamada economia circular, o que nós também queremos é esgotar a permanência dos materiais no ciclo de produção e consumo, por forma, de facto, por um lado, claro, a minimizar também o custo do processo.
Cuidando também da natureza.
Cuidar também da natureza. E portanto, dessa maneira, há uma relação inequívoca entre uma coisa e outra.
Pedro, pode falar-nos aqui um pouco da importância de trazermos este tema do ambiente e da biodiversidade pra discussão pública e, já agora, por que lidera alguns projetos neste âmbito?
Muito obrigado. De facto, acho fundamental trazer pra esfera pública, mas trazer pra esfera pública, precisamente, para que as pessoas conheçam, e nós só podemos cuidar ou cuidamos melhor daquilo que conhecemos. E como acabou de ser dito, os contributos da natureza são inúmeros e é importante que os conheçamos, que tenhamos consciência deles, porque há coisas que damos por adquiridas e, de fato, não são e podem estar em causa, como sabemos que estão, nomeadamente através das alterações climáticas e de outros impactos que vamos conhecendo. Portanto, fundamental trazer para a esfera pública, porque isso também contribuirá para uma cidadania mais responsável. Se cada um de nós, enquanto cidadão, tiver melhor conhecimento de esses tais serviços, esses tais contributos que a natureza nos presta, podemos também perceber qual é o impacto que o nosso modelo, a nossa forma de estar, a nossa forma de viver, o nosso modo de vida, como é que o nosso modo de vida impacta. E o que nós sabemos, como impacta a natureza, como é que impacta o ambiente. E nós podemos ter um bom ou um mau ambiente. Então, diria que há um grande déficit de conhecimento, se quisermos, e, portanto, a questão da literacia aqui entra, claramente, a literacia para a sustentabilidade. Mas eu quase que diria, ligando, de fato, a questão até da biodiversidade. Bio quer dizer vida, vida diversa, e portanto para a biodiversidade, o que nós neste momento sabemos, e é incontestável, é inegável, a ciência diz-nos isto, portanto, é baseado na ciência, de que o nosso modelo de desenvolvimento, que nos trouxe até aqui, nomeadamente nas últimas dezenas de anos, se quisermos, o modelo de desenvolvimento, que trouxe inúmeros, e os indicadores socioeconômicos comprovam, inúmeros ganhos civilizacionais, mas também uma fatura grande, nomeadamente no respeito ao impacto na natureza. A perda de biodiversidade, os ecossistemas, a extinção de espécies, a emissão de gases de efeito estufa, etc. A acidificação dos oceanos, dos solos, a pobreza dos solos. Se tivermos a oportunidade de falar nos solos, é algo também fundamental, porque depois implica todo o ciclo da alimentação, o ciclo da comida. E, portanto, fundamental sim, e era a questão, trazer pra esfera pública este debate. E eu até diria que devíamos ter uma formação, a tal literacia, nas escolas, ou desde as escolas, também quase diria na química base.
É isso que faz a Academia G.
A Academia G faz, é de fato uma academia literacia pra sustentabilidade, uma academia online e que procura também ajudar a dar um contributo para uma maior literacia. E eu ia referir que este aspecto químico, eu que estudei química, depois segui economia e portanto estudei química básica. Eu quero rever os manuais de química e acho que é muito importante, porque, por exemplo, se cada cidadão tivesse em sua casa, cada munícipe, tivesse em sua casa um compostor com o seu resíduo orgânico produzido nas cozinhas, tirado das panelas.
As sobras das comidas.
Sim, exatamente. E se juntar, também se tiver jardim ou se tiver quintal, juntando verde e castanho. Mas pode ser só num prédio de habitação em que a pessoa tem uma marquise ou que tem um pequeno espaço, junta verde e castanho e vê a alquimia que é transformar isto, no fundo está a misturar azoto e carbono, portanto nitrogênio e carbono, é vida. E portanto perceber isso, acho que as pessoas a partir desse momento, e se tiverem depois um vasinho ou uns vasinhos para semear e plantar e ver crescer, perceberão o valor dessa mesma natureza e tendencialmente terão melhores condições pra preservar.
Pedro, já quero continuar a falar consigo um pouquinho sobre essa falta de literacia, mas queria aqui voltar à Helena. Helena, conseguimos, se quiser, traçar já aqui um retrato da situação atual no que toca à perda de biodiversidade, que é de fato provocada pela atividade humana, e se é mesmo verdade que estamos a chegar a um ponto de não retorno, e onde é que será mais urgente atuar pra mudar isso?
Não, de fato, estamos numa evidente perda acelerada da natureza. E é por isso que ainda bem que estamos aqui a falar também de economia circular, porque é exatamente uma economia que tem este cuidado pela natureza e é esse o propósito, de evitar o consumo excessivo de materiais, ou seja, no fundo, dilapidar a natureza. Nós estamos, de fato, numa situação muito complexa, estamos mesmo a chegar a um ponto em que a ciência considera que estamos perante aquilo que pode ser considerada a sexta extinção em massa da biodiversidade. Tivemos durante a história do planeta alguns outros episódios. Este resulta da atividade humana diretamente e inequívocamente. Estamos perante uma taxa de extinção de espécies que corresponde a cerca de 100 a 1000 vezes mais do que seria a taxa normal de extinção de espécies.
Fomos nós que aceleramos isso?
Estamos a acelerar, inequívocamente. Evidente, nós estamos a perder todos os dias, se eu lembrar, por exemplo, os habitats úmidos, as turfeiras, nós percebemos a poluição excessiva dos solos, das águas, tudo isso. Nós próprios também somos afetados com a condição de estresse quando estamos perante uma atmosfera poluída, quando estamos a beber água contaminada, quando não temos acesso a alimento, também ficamos mais suscetíveis à doença, também perdemos progressivamente capacidade de resiliência perante as condições adversas. Também na natureza, a biodiversidade, nós estamos, de fato, a perder, e é inequívoco. A IPBS, no último relatório 2019, aponta para que estejamos perante um cenário de perda de cerca de 1 milhão de espécies durante as próximas duas a três décadas. É, de fato, uma coisa avassaladora, que se sente particularmente em alguns grupos. No caso europeu, por exemplo, temos falado muito sobre a questão exatamente dos polinizadores e do impacto que está a ter já nos sistemas produtivos e sobretudo na agricultura, por exemplo, do centro da Europa. Isso está a acontecer. E percebemos exatamente os sistemas onde essa perda é mais acelerada: nos oceanos, nos rios. No caso dos mamíferos, também temos valores que apontam para cerca de 70% dos vertebrados, à escala global, também em perda. Eu diria dois ou três sistemas que percebemos exatamente o que está a acontecer, na floresta amazônica, onde estamos a assistir a uma transição da floresta para a savana. Imagine o que isso significa. Estamos a passar de uma floresta tropical. Porque ao contrário do que as pessoas pensam, a riqueza de uma floresta tropical está na vegetação. 90% da matéria, dos elementos, os nutrientes, estão nas plantas, não está no solo, na floresta tropical. Quando removemos a biomassa vegetal, nós basicamente estamos a impedir a renovação do próprio sistema e estamos a simplificar a este nível. Essa transição é visível nos nossos recifes de coral, o que está a acontecer, já foi aqui mencionada a questão da elevação das águas, mas também o próprio aquecimento da superfície das águas, nós estamos também a assistir. Esse é um dos sistemas que está a desaparecer rapidamente. E depois, de uma forma geral, a alteração do ciclo hidrológico também é visível em muitos contextos do mundo, onde há um avanço da desertificação e da incapacidade produtiva. São inúmeros, infelizmente, os impactos.
E são questões que, de alguma forma, se podem relacionar com as alterações climáticas também.
Também se liga aqui um nexo evidente. Há um nexo evidente entre a questão da água, do clima e da biodiversidade. Esse nexo é evidente e estamos a também perceber, e por isso é que estamos perante não uma crise, de facto, mas um conjunto de crises que convergem rapidamente, mas que têm a ver com o planeta e a forma como nos relacionamos com o planeta e com a natureza, em particular. Aqui o grande desafio que temos é, de facto, conseguirmos uma economia capaz de se conciliar com a conservação da natureza. E eu queria ainda voltar à sua pergunta das zonas críticas que mencionou, onde é que estão as zonas críticas, na minha opinião, mas absolutamente, imediatamente, é a conservação das florestas tropicais. Nós temos que ter capacidade de defender as florestas tropicais, que temos sobretudo em três grandes zonas do mundo. Temos na América do Sul, temos em África, infelizmente, o desaparecimento em África tem outras motivações e nós aí temos uma elevadíssima vulnerabilidade de comunidades que vivem em estreita dependência destes recursos. E temos o Sudeste Asiático, onde também a Europa tem grande responsabilidade no corte ativo da floresta tropical pra responder também a algumas das nossas preocupações cotidianas, que estão muito longe, mas a verdade é que aquilo que nós fazemos reflete-se também aí.
Pedro, falávamos há pouco desta falta de literacia numa altura em que a ciência nos dá tantos números, depois também fica estranho ou fica confuso perceber por que continuamos nesta direção. Onde é que esta falta de literacia pra estes assuntos tem mais poder na mudança? Será no cidadão comum, na indústria, nas organizações, no poder político, que vemos em algumas situações a negar todos estes dados científicos?
Em todos esses. Isso é um dos aspectos muito importantes, é a interdependência e é nessa aproximação também diversa, de diversos atores, de diversas partes interessadas, não é uma ou outra, são todas. Estamos no mesmo barco. Deixe-me pegar só aqui na questão da natureza, a tal natureza que nos presta, que nos dá contributos pra nossa vida e que nos permite ter um determinado tipo de vida, porque a natureza, como dizia Lavoisier, na natureza nada se perde, tudo se transforma. Nós temos é que ser mais humildes, tirar um pouquinho esta visão muito antropocêntrica e sermos humildes, olhar pra natureza, que é um laboratório vivo, tem 4 bilhões de anos. E nós vemos, por exemplo, os prêmios Nobel, que vamos consagrando, que são, muitos deles, algo que a natureza já resolveu ou já tem resolvido há mais tempo. E se nos inspirarmos na natureza e nesse modelo de desperdício zero, porque a tal economia circular regenerativa é de desperdício zero, e nós somos uma sociedade de desperdício, desperdiçamos água, desperdiçamos alimentos, desperdiçamos energia, desperdiçamos cidadania, enfim, não tenho tempo pra aprofundar estes diferentes pilares de desperdício, o que são más e boas notícias. Más notícias, porque desperdiçamos muito, um terço da água, um terço dos alimentos, por exemplo, da semente aeroprato, um terço da água potável, em Portugal. As boas notícias são que temos muito por onde melhorar e recuperar. E então é fundamental que esses diferentes atores, partes interessadas que referiu, por exemplo, deixe-me agarrar nas empresas. Nas empresas, se quiserem, nos setores, na indústria ou nos setores, mas a empresa é um ecossistema que tem clientes, tem fornecedores, tem colaboradores e tem uma cadeia de valor que, se efetivamente praticar, tiver uma política em que coloca os valores da sustentabilidade no seu ADN, então nós conseguiremos ter um efeito multiplicador e um impacto muito maior na sociedade. Todas as empresas, sobretudo as grandes, têm uma responsabilidade também grande e ainda maior.
E considera que quem o faz, essas organizações que estão mais atentas e mais cedo acordem pra essa realidade, vão ter vantagem competitiva?
Eu acho que sem dúvida, desde logo em termos reputacionais. Em termos reputacionais, até como o Great Place to Work, porque acredito eu que novas gerações valorizem cada vez mais este tipo de valores E, portanto, procurem essas organizações. Por outro lado, há inegavelmente uma economia verde, uma economia que gera valor pra sociedade, que cria green jobs. E quando se diz verde, diz azul, diz uma economia em que a natureza está claramente valorizada, a par dos pilares sociais e econômicos. Portanto, vejo, sem dúvida, uma grande importância no impacto da formação e eu acredito muito em educação, acredito muito em investigação e em desenvolvimento. Deixe-me dizer, porque eu não falei no ator, se quisermos, o tal ator político. Eu acredito que para mudar comportamentos, e nós estamos a falar, de fato, de comportamentos, há duas formas: uma, vamos lá pela literacia, vamos lá pela educação, vamos lá por esse caminho.
Ou vamos lá pela lei.
Em paralelo, eu acredito, confesso que sou dos que acredita bastante na fiscalidade verde. Costuma-se dizer muitas vezes na brincadeira, eu digo na brincadeira-
Beneficiando fiscalmente as empresas que apliquem.
Sim, claramente. E esse também será um dos benefícios pras empresas, que podem ter benefícios fiscais e podem, por exemplo, ter acesso, quando os bancos cada vez mais, as instituições financeiras terão no seu portfólio que ter mais clientes na sua carteira de crédito que cumpram com critérios ESG, com critérios de sustentabilidade, então há aí um outro benefício. Portanto, tudo concorre para que, efetivamente, esta economia, porque havia alguém que dizia: "Tudo se explica pela economia", e eu digo isso como economista e às vezes triste pelos resultados que vamos atingindo. It's the economy, stupid. Tentando explicar tudo, de fato, pela economia. Mas efetivamente, há uma economia à volta e portanto, há uma oportunidade para as empresas, há uma oportunidade para os cidadãos de beneficiar deste caminho para os valores da sustentabilidade estarem integrados nos valores das organizações.
Muito bem. Serviços de ecossistemas e regeneração da natureza, como é que isto se liga também com a economia circular? Ficamos a perceber, e bem, com a ajuda da Helena Freitas, professora catedrática da Universidade de Coimbra, diretora também do Parque de Serralves, e Pedro Norton de Matos, fundador da Academia G e do Green Fest. Convido-os também a conhecerem estas iniciativas através das suas páginas oficiais, o Green Fest e a Academia G. Muito obrigado por terem vindo à Rádio Observador. Até à próxima.
Muito obrigado.