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Seja bem-vindo ao podcast "Vozes Circulares", uma iniciativa da Associação Smart Waste Portugal. Neste terceiro episódio, vamos descobrir novos modelos de negócios que incorporam as boas práticas da economia circular e não só. Para nos explicar o que são estes novos modelos de negócio, tenho hoje comigo a Joana Maia Dias, é professora associada e diretora dos cursos de licenciatura e mestrado em Engenharia do Ambiente da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, e está também conosco hoje o João Pedro Azevedo, CEO da Amorim Cork Composites, e é também vice-presidente da direção da Associação Smart Waste Portugal. Bem-vindos, muito obrigado pela disponibilidade. Joana, o que é isto de ter um modelo de negócios circular e já agora, quais são as diferenças também para um modelo de negócio mais tradicional?

Cumprimento a todos e agradeço o convite que me foi feito para estar aqui hoje à Rádio Observador e também à Smart Waste Portugal e cumprimento também, naturalmente, o jornalista, o doutor Nelson Ferreira e também o doutor João Pedro Azevedo. Acho que realmente primeiro temos que começar então pelo tal modelo tradicional e esse modelo tradicional acho que podemos bem encaixá-lo em relação ao que é o modelo econômico linear. O tradicional modelo econômico linear é o tal que se baseia na extração, produção, uso e descarte dos recursos. Em inglês usa-se muito o take, make, use, dispose. Tem por base o princípio de que o sucesso de negócio é diretamente proporcional à quantidade de bens, que por sua vez, depende diretamente de uma maior extração de recursos. Portanto, quanto mais extraio, mais produzo, mais ganho. Ou seja, há uma associação direta entre alimentar uma sociedade que é uma sociedade de elevado consumo, e esse elevado consumo suportar o modelo de negócio que tem um grande sucesso. Ora, este modelo econômico não só suporta um uso mais intensivo e insustentável dos recursos, como está assente, em grande medida, contrariamente ao que acontecia no passado, no uso de recursos como fontes de energia e materiais que não são renováveis. Assim, os sistemas naturais não têm capacidade para repor os recursos, causando uma sobrecarga no nosso planeta. Passarei então a falar um bocadinho sobre o que é a economia circular em paralelo a este modelo linear. A economia circular traz uma nova forma de materializar negócios de sucesso, devendo estes ter uma abordagem que considera o que eu costumo chamar como o antes, o durante e o depois. E isto está relacionado com princípios de regeneração, restauração, otimização e minimização dos impactos no fim de vida. Ou seja, a economia circular é uma alavanca fundamental na revisão das abordagens de conceção e projeto dos bens ou serviços em produção. As empresas devem, assim, escrutinar toda a sua abordagem de conceção dos produtos e serviços que realizam. A primeira questão que eu penso que será relevante é perguntarmos por que eu produzo um determinado produto ou por que eu presto um determinado serviço. Quiçá uma abordagem disruptiva será um produto diferente ou um serviço alternativo para suprir essas mesmas necessidades. E isto pode ser uma oportunidade de negócio altamente competitiva. Por outro lado, perguntas como: que material é que eu uso? Que consumos tem? De onde vem? Quais os recursos energéticos que utilizo? Quanto é que eu uso? Qual a eficiência dos meus processos? O que acontece aos produtos quando eu os uso e depois no seu fim de vida? Isto deve ser bem analisado e uma reflexão sobre estes requisitos pode levar as empresas a adotarem novos modelos de negócio, onde nomeadamente a preservação ambiental deixa de ser aquele problema econômico de mais custos e passa a ser uma oportunidade econômica. Passando a um exemplo mais concreto, se eu puder usar para a produção dos meus produtos, materiais com potencial regenerativo, como por exemplo, os biodegradáveis e fontes de energia renováveis, então eu vou conseguir reduzir a pressão sobre os sistemas naturais e posso inclusive contribuir para a sua regeneração, porque eu posso repor em termos de nutrientes ou matéria orgânica no ecossistema. Mas não existe apenas essa perspectiva, porque nem tudo se pode fazer pensando em recursos regeneráveis ou biodegradáveis. Mas se combinarmos o que podemos fazer neste âmbito com uma perspectiva de fazer um design ou uma conceção para produtos, por exemplo, duráveis, reparáveis ou ainda recondicionáveis ou remanufaturáveis, alongando os fluxos, podemos garantir que os recursos permanecem mais tempo na economia, desacelerando o seu metabolismo. Mas podemos também acoplar estratégias de otimizar os processos. Ao otimizar os processos, eu reduzo desperdícios, eu uso menos recursos, podemos encurtar os fluxos e, por fim, quando eu já não consigo estender mais o seu uso, posso ter uma perspectiva no processo de conceção de garantia de uma elevada reciclabilidade em fim de vida e reduzindo impactos ambientais associados. É assim uma combinação perfeita do uso de estratégias regenerativas com um design para alongar, para encurtar e para fechar os fluxos que conseguiríamos ter uma verdadeira economia circular.

Muito bem. João, quais é que acha que são as principais vantagens para as empresas que seguem este caminho de um modelo mais circular? É a preservação do ambiente, a sustentabilidade ou há aqui também vantagens do ponto de vista do próprio consumidor, que pode preferir um produto desse gênero ou de uma empresa que tenha já adaptado um modelo mais circular?

Olha, em primeiro lugar, o modelo, de uma forma geral, o modelo circular, é um modelo que visa e tem como princípio a busca incessante do reaproveitamento, da reutilização, da valorização, da reciclagem de resíduos ou de desperdícios. E se nós olharmos para trás, temos muitos exemplos a nível mundial que quem foi pioneiro nesta abordagem, ganhou a liderança mundial Nós temos, para dar exemplos concretos-

É um fator de competitividade.

É um fator de competitividade e nós temos vários exemplos, mas temos um líder mundial português, que é a Corticeira Amorim, que na década de 60, ou seja, já 90 anos após a fundação, houve uma decisão tomada na altura pelo líder do grupo, que foi o senhor Américo Amorim, em que basicamente a decisão consistiu em fundar uma nova empresa apenas com um objetivo, que é valorizar todos os desperdícios da indústria da rolha. Na altura, a indústria da rolha era basicamente uma indústria em que 70% da cortiça era desaproveitada e, portanto, a utilização era depois para queimar, para biomassa, produção de energia, que é uma valorização muito baixa do ponto de vista económico. Aquilo que o senhor Américo, na altura, decidiu, foi desenvolver uma nova unidade de negócio exclusivamente para valorizar todos estes desperdícios. E a partir daqui, tudo aquilo que hoje em dia nós conhecemos para além da rolha, seja na indústria aeroespacial, na indústria de espelhos, da construção, da mobilidade, da energia, surgiu efetivamente assentando desta cadeia que hoje em dia vale mais de 200 milhões de euros, e que permitiu à Corticeira, que não era na altura, ser destacadamente o líder mundial no setor. Para nós percebermos a importância que isto pode ter para uma indústria, claramente, e temos muitos exemplos, quem avançou primeiro deste modelo, ganha efetivamente uma vantagem competitiva que lhe permitiu, neste caso, chegar à liderança mundial.

E quais são os principais desafios e dificuldades que as empresas enfrentam quando querem adaptar o seu modelo de negócio para uma economia mais circular? E já agora, se há apoios públicos ou privados que ajudem nessa missão.

Olha, eu penso que o desafio e a oportunidade é muito maior do que aquilo que são os bloqueios e as dificuldades.

É preciso muito investimento.

É preciso algum investimento, mas eu vou lhe dar aqui alguns exemplos também, porque os exemplos concretos às vezes ajudam as pessoas a perceberem como é que as coisas funcionam. Eu acho que o desafio, portanto, esta busca incessante de procurar soluções para tudo aquilo que é o desperdício, para tudo aquilo que é o mau aproveitamento, por vezes, de uma forma geral, pode ser uma enorme fonte de vantagem competitiva. Nós, por exemplo, temos uma organização com a qual trabalhamos na Corticeira Amorim. Temos também um protocolo de colaboração que é a Nike. A Nike o que fez? Tinha um grande problema que ela decidiu assumir para ela esse problema. Tinha na subcontratação que fazia e que basicamente grande parte da produção é uma produção em regime de subcontratação, na indústria, sobretudo do calçado esportivo, na Ásia, todos os desperdícios desta indústria, ela decidiu tomar para si.

Fica com eles.

Fica com eles, sob um lema que é: um resíduo é uma matéria-prima boa nas mãos erradas. E o que eles fizeram? Eles no fundo fazem a separação, limpeza de todos os resíduos. Estamos a falar de resíduos têxteis, de EVAs, de borrachas, de poliuretanos. Eles têm um catálogo de produtos, que depois vendem a outras indústrias para incorporarem nos seus processos produtivos, podendo, quem incorpora esses produtos, fazer co-branding com a Nike. Por exemplo, nós estamos agora e temos um produto que desenvolvemos com os desperdícios da Nike, em colaboração com eles, que é um produto para subpavimento, que combina desperdícios desta indústria do calçado com cortiça, e em que vamos lançar no mercado americano, estamos a lançar um produto que é um produto Amorim-

Nike.

E Nike, neste caso é Nike Grind, que é a marca que eles têm. Eles fizeram de um negócio, um problema. E isto só traz vantagem competitiva, isto do ponto de vista também do posicionamento para tudo aquilo que são as tendências de sustentabilidade, ambiente, responsabilidade social, são também fatores de engagement com toda uma geração que é altamente sensível a estes temas.

Sem dúvida. Joana, existem já uma série de conceitos, estratégias que as empresas podem implementar. Temos a economia de partilha, por exemplo. Eu estive a ler um pouquinho sobre isso e depois fiquei curioso com uma delas, que é a servitização. O que é a servitização?

Efetivamente, estão reconhecidos ou consensualmente cinco modelos de negócio na área da economia circular. Eles são os abastecimentos circulares, a valorização de recursos, a extensão do tempo de vida útil dos produtos, a plataforma de partilha e os produtos como serviço. O exemplo que dá relativamente à servitização, é um claro exemplo de algo que realmente as pessoas se calhar não conhecem tão bem. Este modelo, que é relacionado com o produto como serviço, ou seja, ao invés de eu ter um produto, eu tenho um serviço. Ora, se o meu produto pretendia satisfazer uma certa necessidade, será que eu consigo satisfazer essa mesma necessidade através de um serviço e será que esse serviço pode ser uma vantagem competitiva para as empresas desenvolverem novos negócios? Portanto, aqui a ótica é que o valor não resulta da posse, mas sim do desempenho. Alguns exemplos práticos: imagine que uma empresa, ao invés de pagar a eletricidade e os respectivos consumíveis, luminárias, etc, passa a pagar por um serviço de iluminação. Este serviço de iluminação, que até já acontece em alguns casos em Portugal, aparece a designação em inglês do Lightning as a Service, repercute-se num custo, um custo mensal, por exemplo, e esse custo abarca O investimento, ou seja, dispensa o investimento do lado das empresas naquilo que são os equipamentos necessários. O serviço inclui as luminárias, a manutenção, a atualização. Qual é o ganho que isso traz e qual é a oportunidade que isso cria? Primeiro, traz ganho para quem subcontrata o serviço, pois não precisa de fazer aquele investimento imediato, portanto, reduz custos à cabeça. E depois garante, em princípio, um serviço com elevada qualidade e desempenho, porque quando eu compro uma lâmpada, eu não tenho uma perspectiva do serviço da lâmpada e talvez a minha lâmpada não seja aquela que supre melhor as necessidades que eu tenho em termos do tempo de utilização, de intensidade, etc. Há um foco mais específico no desempenho. O grande valor é o desempenho, e o desempenho também é a mais-valia para o prestador de serviço. O prestador de serviço, como tem o foco no desempenho, já vai adquirir, por exemplo, bens duráveis, porque ele tem interesse que dure muito mais tempo. Por outro lado, também, se aquele bem avaria ou se tem uma deficiência, se calhar tem modelos já de conseguir trabalhar aquele recurso. De uma forma natural, vamos transitar para resolver alguns dos vários problemas que eu elenquei anteriormente, ou seja, o próprio modelo de negócio está assente numa fidelização de um cliente através de prestar uma boa qualidade de um serviço e para o consumidor, a mim o que me interessa, de facto, é ter uma boa iluminação. Eu não estou preocupada com a questão de pagar a fatura da iluminação ao fim do mês. Isto traz ganhos, traz novas abordagens de negócios, de facto, que antes não existiam e pode trazer grandes vantagens, tanto para novas empresas como para também o consumidor.

Muito interessante isso. Temos que avançar, estamos aqui a ficar sem tempo. Queria dar aqui um pulinho ao futuro, se quisermos. João, como é que imagina o nosso país daqui a 10 anos? Qual é que acredita que será o panorama ao nível das empresas que seguem, de facto, este modelo de negócio circular? Já abordou isto há pouco. Essas empresas vão destacar-se, de facto, e nalguns casos tomam a dianteira até das suas áreas.

Sim, eu penso que, resumindo-

Não sei se em Portugal esse caminho está a ser ainda inicial

Não, está a ser. Eu acho que nós, se virmos o próprio sucesso da Smart Waste, da qualidade dos associados, a forma como se fazem representar, percebemos que isto está na agenda de público, privado, das grandes organizações e para falar aqui de setores também muito concretos, como o setor da construção, o setor do vidro, o setor da madeira, o setor têxtil, todos os setores, de uma forma geral, têm na agenda a circularidade. Se quisermos avançar 10 anos, eu penso que claramente a circularidade fará parte do novo normal. Eu acho que não vai ser um fator de diferenciação, vai ser um fator crítico de sucesso para quem quer estar no mercado. Não vai ser uma tendência, vai ser uma realidade. Quem não abraçar efetivamente esta questão da circularidade, do combate ao desperdício, a questão da utilização de materiais recicláveis, renováveis, etc, não terá certamente espaço, digo eu, ou cada vez menos no mercado.

Joana, partilha desta visão e pegando aqui um bocadinho no que o João disse, há aqui também um trabalho a fazer ainda ao nível da consciencialização para este assunto. Tenho sempre a ideia, não sei se erradamente, que as gerações um bocadinho mais antigas são mais resistentes a estas ideias, até de economia de partilha, quando falam de roupa usada. Há uns temas que ainda podem fazer alguma confusão a algumas pessoas, mas o caminho passa também por uma educação, uma consciencialização destas novas práticas para os donos das empresas, por exemplo.

Certo. Certamente, acho que esse é um ponto extremamente relevante. Eu acho que do ponto de vista económico, as exigências atuais em matéria financeira, pressões legais, etc, fazem com que estas soluções aparentem altamente competitivas no mercado e isso potencia os negócios naquela perspectiva de que se eu não fizer, eu vou ficar para trás. De facto, eu até sou uma pessoa bastante otimista, mas também não posso descurar um pouco, e o seu comentário vai nesse sentido, aquilo que nós temos vindo a assistir nos últimos anos, nos últimos 20 ou 30 anos, em matéria ambiental, é que de facto tem havido muito esforço e há muita mobilização, mas, por exemplo, se olharmos para as matérias relacionadas com resíduos, quer dizer, se há 30 anos que temos a recolha seletiva implementada e estamos a 20% em massa de recolha seletiva na atualidade, e mais de metade dos resíduos, quase 60% dos resíduos terminam nos aterros. E, portanto, há esforço das empresas, há esforço de entidades, há novos negócios a aparecer, mas o certo é que temos 10% de aterro para atingir, temos um valor de 65% de preparação para reutilização e reciclagem, só temos 32. Ou seja, há muitas coisas que estão a ser feitas, há muitas iniciativas, mas é difícil fechar os olhos a este, às vezes, gap que existe entre o que é a realidade e o caminho que queremos fazer. Acho que há trabalho feito, há uma necessidade de criar estes alertas e de ter mudanças, como disse, e uma das questões, de facto, fundamental é a questão que é relativa à parte de formação, de capacitação, mas também é preciso que haja mais financiamento para o setor, nomeadamente nesta área, digamos, dos resíduos como recursos. Precisamos ter tarifas, precisamos ter competição de mercados externos de uma forma que realmente ajude as empresas a poderem utilizar estes novos modelos de negócio como vantagens verdadeiramente econômicas no seu contexto nacional. Nós não queremos perder o nosso capital humano, nossos cérebros fantásticos que nos podiam estar a ajudar hoje em dia a desenvolver tantos destes negócios e que vamos perdendo e temos vindo a perder, infelizmente. E eu gostava de ter uma visão muito otimista, mas eu acho que, se calhar, daqui por 10 anos, vamos continuar a ter alguns exemplos incríveis, mas se calhar não vai ser, e peço desculpa por dizer isto, e fica um bocadinho como provocação, até para que a Amorim e outras empresas me possam provar o contrário daqui a 10 anos. Espero que seja isso que aconteça, mas efetivamente, aquilo que eu vejo da evolução que temos tido, não conseguimos correr ao ritmo que devíamos correr. Espero estar enganada.

Esperemos que sim, também, todos. Muito obrigado, Joana Dias, João Azevedo, pelos vossos esclarecimentos. Aqui no Vozes Circulares hoje ficamos a saber que a transformação para modelos de negócio mais circulares não é só uma opção, é uma necessidade para a sustentabilidade, resiliência e longevidade das próprias empresas. Siga-nos nas plataformas de podcast e junte-se a nós no próximo Vozes Circulares, onde vamos falar de ecodesign. Até lá.