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E começa aqui mais um "Vozes Circulares". É o podcast que lhe explica tudo sobre economia circular. É uma iniciativa da Associação Smart West Portugal, em colaboração com a Rádio Observador. E hoje vamos falar de servitização e economia de partilha. Comigo estão hoje dois especialistas no campo da sustentabilidade e da inovação industrial. Susana Fonseca é vice-presidente da Associação Zero e Rui Sá, administrador executivo do INEGI, Instituto de Ciência e Inovação em Engenharia Mecânica e Engenharia Industrial. Sejam bem-vindos à Rádio Observador, muito obrigado pela disponibilidade. Susana, parece mais ou menos um conceito de que já todos ouvimos falar, a economia de partilha, mas parece-me que não é assim tanto com servitização. O que é isto de servitização?
De facto, é um conceito que é um pouco familiar para a maioria de nós, mas se pensarmos um bocadinho na palavra, conseguimos lá chegar. É a ideia de, em vez de estarmos a adquirir produtos, estamos a trabalhar mais numa lógica de serviços. Para dar aqui um exemplo, que torna sempre mais fácil percebermos estes conceitos. Há hoje em dia várias situações, um dos exemplos é um aeroporto na Holanda, que em vez de ter uma empresa que lhe forneceu lâmpadas para serem instaladas, fornece o serviço de iluminação e portanto fica ele próprio responsável também por garantir a manutenção.
O aeroporto aluga as luzes?
Aluga a iluminação. Sim, de certa forma, aluga aquele equipamento.
Não adquire.
Não adquire. E aqui uma das grandes vantagens é que nestas abordagens dos serviços, há um grande interesse por parte de quem também presta este serviço, no caso de haver alguma materialidade associada, algum produto associado, em garantir que são produtos duráveis, que cumprem a sua função durante muito tempo e que requerem baixa manutenção. Podemos dar aqui um exemplo mais antigo ainda, eu não vou dizer marcas, mas uma marca de fotocopiadoras, que desde sempre o seu conceito de funcionamento, o seu modelo de negócio assentava na venda de impressões e não na venda dos próprios equipamentos de impressão. E isso acaba por ter aqui benefícios ambientais ao permitir, e até eventualmente, espera-se também benefícios económicos, mas ao permitir de facto que na origem, estes serviços que são prestados assentem em estruturas duráveis e confiáveis. Um dos grandes desafios que nós temos atualmente é termos muitas vezes produtos que se estragam rapidamente. Um outro exemplo também que se calhar é mais comum para as pessoas, é a questão daquelas lavandarias comuns. Ao fim ao cabo, é o serviço de lavagem que a pessoa paga, mas nunca compra aquele equipamento.
Rui, quais é que considera que são as grandes vantagens para as empresas e, claro, também para os consumidores que já adotaram um bocadinho estes dois conceitos da servitização ou da economia de partilha? E consegue dar-me alguns exemplos de empresas, negócios que tenham tido sucesso com essa abordagem?
Bom dia e obrigado pelo convite. Eu tenho sempre a ideia que a economia da partilha parte muito do lado da procura e a servitização parte mais do lado da oferta. Ou seja, nós sentimos que os consumidores, e nomeadamente as camadas mais jovens, hoje não têm tanto o sentimento da posse relativamente a determinados objetos, têm mais o sentimento de poderem dispor desses objetos.
Isso também se viu na mobilidade, por exemplo.
Exatamente. Era exatamente um dos casos que eu queria referir. Na economia da partilha, temos os modos suaves de transportes. Hoje as grandes cidades têm as trotinetes, por exemplo, ou as bicicletas, em que a pessoa em vez de ter a sua trotinete ou a sua bicicleta, tem um serviço que pode dispor na rua através de uma aplicação informática e utiliza esse objeto. Hoje muita gente prefere não ter carro, ou como disse a Susana, as pessoas preferem não ter uma máquina de lavar ou de secar em casa e preferem ir a uma lavandaria. Quais são as vantagens para o consumidor? Em termos práticos, precisam de menos espaço para colocar este tipo de equipamentos, deixam de ter os aborrecimentos associados quer ao investimento inicial, quer depois às operações de manutenção, e estão a dispor de um serviço, ainda por cima que é um serviço partilhado por todos. A questão dos automóveis é um caso paradigmático. Quem tem automóvel sabe disso, ou seja, o automóvel está parado a maior parte do tempo e é um objeto que nós pagamos e que não está a ser usufruído. Se puder ser partilhado com outros, é uma vantagem do ponto de vista dos recursos, porque há uma utilização do automóvel que é bastante mais extensa e isso possibilita que tenhamos menor pegada ecológica e ao mesmo tempo que haja um custo menor, porque só gastamos quando utilizamos e não estamos a pagar algo que está imobilizado durante muito tempo. Há várias empresas que têm trabalhado nestas áreas, no caso das lavandarias, há várias marcas. No caso dos modos suaves de transporte, há também várias marcas que as pessoas conhecem, que estão a ser utilizados. Ou no caso da servitização, de facto, esse caso das fotocopiadoras é talvez o mais paradigmático, o inicial que houve relativamente a esta matéria. E hoje eu creio que nenhuma empresa deve ter a sua fotocopiadora instalada na empresa, mas pagam é as fotocópias e não se preocupam com a manutenção dos equipamentos.
Susana, no que toca à economia da partilha, surgiram de facto nos últimos anos várias ideias, várias plataformas que promovem a troca, o aluguer, a partilha de equipamentos e mesmo de serviços Elas têm tido sucesso? Como é o modelo econômico de uma aplicação deste gênero?
Se elas tiveram muito sucesso do ponto de vista econômico, é difícil avaliar, porque nunca estive nos bastidores desse tipo de plataformas.
Mas de adesão há.
De adesão, sim. Na preparação que eu fiz pra este programa, até andei à procura, pra ver o que havia agora mais recente, e deparei-me com várias situações em que já houve e agora já não existem. Ou seja, muitas vezes também há alguma informalidade. Nós temos aqui muitos cenários quando falamos dessa economia da partilha.
Temos cenários dentro das redes sociais, de grupos de pessoas que se organizam nesse sentido.
Exatamente. E não há mal nenhum com isso, é ótimo que exista toda essa diversidade. E às vezes uns têm troca financeira, outros não têm troca financeira, portanto, vários modelos podem coexistir e não há problema nenhum. Aqui, o que muitas vezes acontece é que não se consegue, às vezes, ganhar escala. Ao fim e ao cabo, algumas dessas iniciativas resultam muito do voluntarismo de algumas pessoas, que depois é difícil manter ao longo do tempo, porque há sempre algum desgaste. Claro que há outros casos que não. Um dos exemplos, agora também muito comuns, é, por exemplo, nas ferramentas. Há muitas empresas, grandes empresas, retalhistas até, que já têm estes serviços de aluguel, que também faz parte desta economia da partilha. Porque às vezes quando olhamos pro conceito de economia da partilha, parece uma coisa mais informal, mas de fato, a economia da partilha tem lá dentro muitas coisas diferentes. Por exemplo, um dos meus favoritos é o banco do tempo. É talvez das iniciativas que eu acho que ilustram melhor a questão da economia da partilha no conceito mais humano.
Esse é aquele em que dispomos do nosso tempo num banco de horas, se quisermos, para prestar um serviço a alguém.
Exatamente. Depois ficamos também, ao prestar um serviço, com crédito e podem haver outras pessoas que nos prestam um serviço. Nunca participei, devo confessar, mas parece muito interessante. Mas depois há, de fato, todo um conjunto de situações, de plataformas, porque depois pode haver a tal troca financeira ou não, de venda em segunda mão, porque quando falamos de economia da partilha, também estamos a falar daquela lógica de eu não deixar que algo que pra mim já não é útil, deixe de ter uma utilização. E isto pode ser através de uma doação, eu posso doar, posso trocar, mas também posso vender, por um preço que é mais acessível, que vai permitir que outra pessoa continue a utilizar. Eu, como agora sou de uma ONG, não tenho que ter tantas preocupações científicas, se calhar o Rui gostaria de um conceito mais fechado, mas nós quando olhamos pra economia da partilha, incluímos tudo isso. Tudo aquilo que permite, de fato, dar uma nova vida a coisas que de outra forma ficariam paradas.
E que percepção é que tem do consumidor português relativamente a isso? Porque eu acho que há aqui uma questão cultural, se calhar, a ultrapassar. Primeiro, na própria literacia pra estes assuntos e depois também no desapego que nalguma cultura portuguesa ainda terá de existir para se partilhar o carro, por exemplo, pra algumas gerações pode ser uma ideia mais complicada, entre essas outras.
Sim, também me parece. Não tenho estudos na minha mão, mas eu diria que ainda há, às vezes, alguma reação, alguma dificuldade em olhar pra segunda mão, por exemplo, comprar em segunda mão, partilhar coisas que são nossas, usar máquinas de lavar que são comuns. As pessoas têm muita tendência a encontrar percalços, pequenas pedras no caminho, ou porque depois vão lá lavar qualquer coisa e não sei como é que estão os filtros, ou no carro eu não sei quem é que o teve, ou na roupa eu não sei quem usou, ou vão pensar que eu até nem tenho capacidade financeira de comprar e tenho que me vir às lojas em segunda mão. Felizmente, minha filha é muito adepta da segunda mão, e ela às vezes fala com os colegas e os colegas: "Mas por que você está comprando em segunda mão? Não tens dinheiro?" Mesmo nos jovens ainda continuam a haver algumas destas reações. Eu acho que é algo que se vai construindo. Quando há crises, há um crescimento deste conceito, há uma maior apetência das pessoas pela segunda mão. Pela doação, pela troca, pelo que for. Quando começamos a ter maior bem-estar econômico, às vezes deixamos um pouquinho pra trás. Mas eu diria que podemos sentir que há sinais, neste momento, claros de que o caminho é este. Como nós já vemos até grandes empresas a trabalhar nesta lógica do aluguel, a questão da roupa em segunda mão também são áreas que têm crescido bastante, o car sharing, a mobilidade software. São tudo modelos que vão começando a tornar-se mais comuns e isso também muda a nossa postura face a eles. Porque não há grandes diferenças, às vezes, entre partilhar uma bicicleta ou partilhar um carro. Há algumas, mas não muitas, e portanto, é uma questão, às vezes, de irmos fazendo esse caminho e todas estas experiências acabam por contribuir e ajudar a construir esta nova imagem de uma nova sociedade mais partilhada.
E é isso que se procura também numa economia que seja, de facto, circular, tem também estes dois conceitos associados. Rui, a Susana falou aqui numa questão que tinha para colocar, como é que isto funciona do lado das empresas? Isto pode ser desafiante. As grandes empresas podem ter alguma margem para começar a ter estes modelos de negócio que são mais circulares, mas até aqui estávamos habituados a que uma empresa, um produto, uma indústria quer vender mais e quer vender outros produtos. E depois fico também com a ideia de que as grandes empresas que querem começar a apostar nisto, até como economia paralela e modelo de negócio associado, pode-lhes ser mais fácil do que uma pequena ou média empresa, que não terá essa capacidade.
Sim, há aqui vários desafios, até do ponto de vista interno. Eu dou um exemplo: o INESC, que tem cerca de 400 pessoas, nós temos na nossa intranet um sistema de partilha de boleias, porque com 400 pessoas divididas por várias unidades de negócio, às vezes não sabem que vêm, por exemplo, de Guimarães para o Porto, várias pessoas utilizando vários meios de transporte e têm dentro da intranet a possibilidade de saber outros colegas que também vêm de Guimarães e, por exemplo, passarem a partilhar boleia. Mesmo do ponto de vista interno, isto lança novos desafios, porque esta mudança de cultura que as pessoas vão tendo necessitam destes tipos de situações e hoje, de facto, as pessoas trabalham num raio muito grande. Ou seja, não é como era habitual, a empresa só empregava pessoas que morassem relativamente próximos. São pessoas a 50, 60, 70 quilómetros.
Dantes até se construía um bairro junto.
Exatamente, junto das empresas para facilitar a intervenção das pessoas. Do ponto de vista externo, eu acho que há um desafio que é a mudança de cultura, ou seja, uma empresa que é uma fabricante de produtos e passa a ser uma empresa prestadora de serviços, isto é uma mudança cultural muito grande. Deixa de haver o foco no produto, passa a haver o foco na resposta àquilo que é um serviço que cobre o conjunto de necessidades dos clientes. As mudanças culturais são sempre as mais difíceis dentro das organizações e é necessário implementar essa situação. Traz é muitas vantagens, que é do ponto de vista da fidelização do cliente. Ou seja, uma coisa é eu vender o produto e corto a relação com o cliente. Mal acaba a garantia, o cliente está entregue o produto e nós não temos mais nada a ver com ele. Outra coisa é eu vendi um produto e tenho um serviço associado que vai perdurar no tempo e que me vai dar um conjunto muito significativo de informações sobre aquilo que é os hábitos dos clientes e procurar com base nesses hábitos, ir adaptando o serviço e muitas vezes ir crescendo ao longo da cadeia de valor desse serviço para cada vez satisfazer mais necessidades. Eu creio que aqui, quer as grandes empresas, quer as pequenas empresas, têm capacidade de fazer esta adaptação. Normalmente, as pequenas empresas têm mais flexibilidade de mudança cultural do que as grandes empresas, que têm uma inércia que é bastante maior, mas também é verdade que as grandes empresas normalmente também têm meios financeiros associados que permitem fazer o investimento e eventualmente fazer esta migração de uma forma mais rápida do ponto de vista económico.
A tecnologia pode ser aqui um aliado. Tem-se falado tanto de inteligência artificial, já falámos aqui no "Votos Circulares" de digitalização, são tudo aliados que podem promover estes modelos mais circulares.
Sim, e eu acho que além de poderem promover, estiveram na base desta mudança. Eu dou um exemplo. Eu com a minha idade, fiz milhares de quilómetros à boleia, mas eu quando fazia à boleia, ia para a estrada e estendia o polegar e quem parasse, levava-me. Nunca me passava pela cabeça andar a pôr cartazes na rua a dizer: "Se alguém vai para Lisboa amanhã e se me pode levar". Hoje, é evidente que estas plataformas digitais facilitaram muito toda esta partilha e portanto, essa tecnologia da digitalização das tecnologias de informação foram, diria eu, até uma alavanca para estes negócios da economia de partilha e mesmo nas áreas da servitização. E vão continuar. Por exemplo, a inteligência artificial, quando nós hoje sabemos que adquirimos um cartão de uma empresa qualquer, nós sabemos que o cartão não é apenas para nos dar vantagem na nossa compra, é para recolher um conjunto de informação que depois aquele que nos forneceu esse cartão está a trabalhar, está a identificar perfis do consumidor e está a procurar permanentemente adaptar aquilo que é a sua oferta àquilo que é o perfil dos seus consumidores e até a poder individualizar a oferta consoante o perfil dos vários consumidores. Estas tecnologias são fundamentais para o desenvolvimento, quer da componente da servitização, quer da componente da economia de partilha.
Susana, a sociedade tem aqui também um papel importante no que diz respeito a preferir, a exigir que um determinado produto ou serviço tenha maior longevidade e que também exista essa lógica da partilha e da servitização. É o consumidor e a sociedade que podem também fazer esse esforço para obrigar, entre aspas, alguns dos negócios a começarem a optar por estas medidas.
Sim e não. Ou seja, sim, porque de facto o consumidor, os cidadãos têm um poder enorme. Às vezes nós não nos apercebemos porque vemo-nos como uma pessoa apenas e não como um conjunto, mas obviamente a pressão dos cidadãos, o solicitar determinado tipo de soluções tem aqui ou pode ter um peso muito significativo junto de quem produz e de quem coloca produtos ou serviços no mercado. Nós, enquanto ONG de ambiente, que trabalha muito a questão das políticas públicas, achamos sempre que há aqui também uma grande responsabilidade também da parte de quem legisla, de quem regula um bocadinho como é que estes mercados funcionam.
Há ainda um caminho a percorrer?
É assim, nós demos alguns passos importantes com a questão do Pacto Ecológico Europeu, um conjunto de legislação que saiu, do direito à reparabilidade, do reforço dos critérios no âmbito do regulamento Ecodesign, no sentido de integrar critérios de durabilidade, por exemplo, de reutilização e da própria reparabilidade. São passos importantes para que também cada vez mais as empresas tenham que pensar na durabilidade dos produtos, na circularidade também dos seus produtos. E ao pensarem-no, também se cria aqui o tal espaço, porque se o produto é mais durável, se calhar também as marcas se sentem ou se têm que produzir de base produtos mais duráveis, também se sentem mais seguros de que podem oferecer o serviço e não só o produto, porque como o Rui dizia há pouco e bem, a partir do momento em que se oferece o produto, também tem aqueles anos que são de garantia, a partir daí, se houver problemas, a marca descarta-se completamente.
Há legislação para obrigar agora a ter peças de substituição.
Exatamente, o direito à reparação, exatamente, à reparabilidade.
E com nova garantia para mais alguns anos.
O programa não é sobre isto. Podíamos falar aqui só sobre a questão da legislação, sobre a questão do direito à reparação, que é muito limitada, ainda assim, do nosso ponto de vista, mas é um passo, vamos vê-lo assim, vamos ver como um passo. Não podemos colocar o peso no consumidor, dizer que o consumidor é que vai mudar, porque o consumidor, para mudar, e o Rui também falava disso, a nossa cultura não é esta. Na generalidade, nós não somos confrontados com tantos exemplos ou não somos instigados a partilhar. Bem pelo contrário, somos instigados a ter.
A comprar.
A comprar, a ter e quase a definirmo-nos.
Por isso.
Exatamente, por aquilo que nós compramos. E isso é extremamente perigoso em termos de mensagem, além de ser errado e ter vários problemas associados, tem também este problema ambiental, das pessoas terem ainda muito esta noção da posse. Nós não podemos dizer: "Agora são os consumidores que têm que mudar", até porque vivemos todos na mesma sociedade, os decisores políticos, os decisores empresariais, nós vivemos todos no mesmo caldo. Tem que se mudar a diferentes níveis para que se consiga construir uma sociedade diferente. Há alguma urgência, enquanto a Engie não podia deixar de dizer isto, há alguma urgência e deveríamos fazer esta transição com muito maior rapidez do que estamos a fazer, infelizmente.
Rui, estamos quase a terminar e ia lhe perguntar se há aqui tendências que podemos esperar para os próximos anos nesta área de inovações, a servitização, a economia de partilha, podem vir a substituir completamente esse modelo tradicional de compra e de posse?
Eu acho que vai haver uma tendência. Se vai substituir completamente, eu tenho dúvidas, até porque a velocidade de mudança que nós vivemos, não sei se vão aparecer aqui outras tendências que vão substituir estas. Nós temos aqui, e a Susana refere isso, uma contradição. Nós vivemos num sistema económico que é baseado no crescimento económico. E baseado no crescimento económico, faz com que as empresas queiram lançar sempre novos modelos, porque têm que continuar a vender. E se vendem um modelo que dura muitos anos e que não vai tendo mudanças, as pessoas não compram mais e isso leva a uma estagnação. Há aqui uma contradição entre aquilo que é esta tendência, que é contrariar aquilo que é a corrente, remar um bocado contra a corrente e temos esse problema. E há aqui um outro problema, que alguns encontrarão. Eu dou-lhe um exemplo: o Covid-19. O Covid-19 diminuiu os anseios de partilha. As pessoas passaram a ter receio de partilhar, não partilhavam mesmo locais de trabalho, tinham medo de partilhar o transporte público, etc. Mas aumentou a servitização, porque as pessoas sabendo que estão em casa, as empresas queriam vender, começaram as refeições, o restaurante a dizer: "Nós levamos a casa". Por quê? Porque senão sabiam que as pessoas não iam ao restaurante e tiveram que aumentar a servitização, ofereciam a refeição e também o serviço. Eu acho que nós vivemos num mundo de mudanças muito permanentes e será difícil dizer que esta tendência vai substituir a outra, a ordem nova vai substituir a ordem velha. Mas há uma tendência que eu acho que é positiva e que vai continuar.
Susana, Rui, muito obrigado pelos vossos esclarecimentos. No "Vozes Circulares" de hoje ficamos a saber que o novo paradigma de consumo, baseado na servitização e na economia da partilha, é de facto essencial para reduzir desperdício e claro, para uma economia cada vez mais circular. Não perca o próximo programa, onde vamos falar de gestão de recursos. Até lá.