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Seja bem-vindo ao "Vozes Circulares", um podcast da Associação Smart Waste Portugal, em colaboração com a Rádio Observador, onde falamos de economia circular, mas também de sustentabilidade. Eu sou o Nelson Ferreira e hoje vamos saber mais sobre simbioses industriais. E para me ajudar nessa tarefa, tenho comigo Inês Costa, associate partner na Deloitte e ex-secretária de Estado do Ambiente, e também Paulo Ferrão, professor catedrático no Instituto Superior Técnico. Sejam muito bem-vindos à Rádio Observador. Obrigado por estarem conosco. Professor, o que são simbioses industriais e de que forma é que esta estratégia também está aliada com a procura de uma economia que se quer cada vez mais circular?
Exatamente. Para pegar nesse ponto e dar uma referência numérica, talvez valha a pena dizer que a nossa economia, claro, baseia-se no consumo de materiais e cada um de nós, em Portugal, consome cerca de 20 toneladas de materiais por ano, o que é bastante. Nós consumimos cerca de 200 milhões de toneladas de materiais em Portugal, e aqui o que é relevante dizer é que desses materiais que nós usamos, uma grande parte deles fica na economia, na forma de edifícios, outras construções, outros materiais e outros produtos, e apenas 2,5% é reciclado. É muito pouco. Nós somos uma economia linear, somos uma economia 97,5% linear, apenas 2,5% são reciclados. E por isso, quando se fala em economia circular, é evidente que é um desejo, mas estamos longíssimos de o fazer. A simbiose industrial contribui para esse desejo. Ela tem mesmo como objetivo que resíduos e desperdícios da indústria sejam usados como matérias-primas novamente. Esses resíduos não têm que ser materiais, pode ser energia, pode ser água, podem ser gases, é desperdício da indústria que nós vamos utilizar novamente como matérias-primas. Por exemplo, se tivermos um resíduo florestal e pegarmos nesse resíduo e outra indústria o consumir como matéria-prima, por exemplo, para fazer aglomerados de madeira, estamos a promover uma simbiose industrial.
Essa simbiose existe entre empresas também, não é? Alguém que produz um resíduo que uma outra empresa poderá utilizar.
Sim, nós temos três formas, basicamente, de simbioses industriais. Temos uma simbiose industrial dentro da própria empresa, quando a empresa usa os seus próprios resíduos. Temos, como disse e muito bem, entre empresas, e normalmente quando há entre empresas, elas podem ser deslocalizadas, e nesse caso houve já vários mecanismos internacionalmente que foram usados, como por exemplo, uma bolsa de resíduos, em que se cria uma bolsa, como uma bolsa de comércio, em que empresas oferecem resíduos que têm e outras que veem se eles são úteis para comprar. De um modo geral, isto tem um problema, que é o problema da confiança. É preciso ter confiança que o outro vai dar o resíduo com uma qualidade constante e com quantidades que são necessárias. E por isso, muitas vezes, há intermediadores tecnológicos nisso. Eu depois posso dar alguns exemplos, mas que são os facilitadores. E depois há outra forma de promover essa simbiose industrial, que é regional. Por que não localizar empresas que usem resíduos umas das outras e que se colocalizam, que estão perto. A isso chama-se um ecoparque industrial. Temos essas três formas.
Inês, qual é o ponto de situação do tecido empresarial português em relação a esta estratégia de simbiose industrial, familiarizado ou ainda um pouco longe desta realidade?
Bom, eu penso que o tecido empresarial português ainda está, sobretudo neste momento, concentrado nos temas relacionados com a economia circular e, portanto, identifica a simbiose industrial como uma economia circular, enquanto que uma simbiose industrial implica aqui, como o professor estava a dizer, uma relação de confiança e de interação entre empresas de diferentes naturezas. É muito mais do que simplesmente eu tenho um resíduo que me interessa desfazer e tu, empresa vizinha, podes utilizá-lo para substituir uma matéria-prima e assim poupas dinheiro. Estabelece uma relação de longa duração, em que se procura ativamente desenvolver oportunidades assentes na coeficiência dos recursos, quer de uma empresa, como da outra. E isso é mais fácil fazer, por exemplo, num ambiente preparado para isso, como seja um ecoparque industrial, mas também acontece, por exemplo, ao nível regional. Quando nós olhamos, por exemplo, para determinadas regiões do país que se caracterizam por determinado tipo de indústrias, seja, por exemplo, a indústria cerâmica ou a agricultura.
No norte, o têxtil.
Exatamente, no norte, o têxtil. Há uma tendência para haver essa aproximação entre empresas no sentido de explorar essas oportunidades.
E quais diria que são as barreiras, as dificuldades que enfrentam as empresas portuguesas na adoção desta estratégia?
Há uma tendência para concentrar as atenções e o foco na questão regulamentar associada à gestão de resíduos. Há uma tendência para encontrar aí uma barreira, porque, de acordo com a legislação, é preciso ser um operador de gestão de resíduos para conseguir receber um resíduo e conseguir utilizá-lo como matéria-prima num processo. E há muitas empresas que identificam isso como sendo uma barreira. Ou seja, o estatuto de fim de resíduo, que está consagrado em lei, na verdade, aplica-se apenas a um determinado tipo de categorização de resíduos que tem que passar por um processo de desclassificação junto da entidade, como seja, por exemplo, a Agência Portuguesa do Ambiente. Nós precisamos de olhar para esse mecanismo com diferentes olhos. No passado, tentou-se deslocalizar essa função para, por exemplo, centros tecnológicos, que iriam ser capacitados no sentido de fornecer as evidências científicas e tecnológicas que garantissem a recuperação desses materiais em substituição à matéria-prima dos setores. Mas lá está, as questões da confiança aqui E as garantias que se dá relativamente às operações que são feitas a esses materiais, continua a ser uma questão, seja entre empresas, seja entre empresas e regulador.
Paulo, pelo que percebi, não sei se concorda, há setores de atividade onde a adoção destas simbioses industriais estejam mais facilitadas e outros para os quais será mais difícil?
Há, e isso está documentado internacionalmente. Os setores internacionalmente onde há mais simbioses industriais são, por exemplo, o setor agroindustrial, o setor energético, o setor da indústria do papel, da química, do cimento, da indústria florestal e metálico, porque são aqueles onde há mais facilidade em introduzir nos seus processos de fabrico outros resíduos e o inverso, que produzem resíduos que interessam a outras indústrias.
De facto, já aqui nos últimos minutos olhámos um bocadinho para esta realidade portuguesa, mas Paulo, há exemplos emblemáticos de simbioses industriais que são de sucesso, quer internacionalmente, quer até a nível nacional, não sei se há algum caso desse género.
Sim. A nível internacional, há o caso histórico da simbiose industrial, que é a mãe de todas as simbioses.
A Meca das simbioses industriais.
Que é Kalundborg. Começou nos anos 60 e começou ocasionalmente. Não se planeou, que é uma coisa muito interessante, mas havia uma refinaria.
É uma empresa, é uma região? Explica.
É uma região.
Uma região.
Na Dinamarca. E depois foram-se juntando empresas, uma refinaria que fornecia gás, uma central térmica que fornecia eletricidade e depois usavam as cinzas pra uma fábrica de produção de cimento.
Também optaram por pôr estas empresas mais próximas umas das outras, fisicamente?
Fisicamente. Isto é um ecoparque industrial, elas estão todas relativamente perto, na Dinamarca, numa localidade que se chama Kalundborg, e isto começou a acontecer naturalmente. E foi daqui que se começou depois academicamente a estudar e a ver que isto, se calhar, era possível fazer de uma forma programada. Também há outro caso muito interessante e que, aliás, a Inês estudou muito, sabe mais deste caso do que eu, porque a Inês, é bom dizer, fez a tese de doutoramento nesta matéria.
Com professor como orientador.
Já ouvi dizer, com o professor Paulo Fão.
Mas há um caso muito interessante que é o NISP, que é o Programa Nacional de Simbiose Industrial do Reino Unido. E o que é que isto é? Ele foi desenvolvido por volta de 2005 como um facilitador independente. No fundo, ele pretende ajudar empresas de vários setores e de várias dimensões a reunirem-se para encontrar utilizações de materiais indesejados. É muito importante ter este facilitador, porque ele tem capacidade técnica, por exemplo, para ver se de facto o resíduo tem aquela composição que interessa, para mediar os acordos, para fazer testes, para ir à procura de massa crítica. E isto funcionou muito bem no Reino Unido. É claro que os processos podem ser espontaneamente, mas parte deles não aparece espontaneamente. É muito importante ter facilitadores e para quem quer ver, o NISP é uma boa referência internacional de como é que se pode facilitar estes processos, nomeadamente na identificação de recursos, depois na ligação entre as empresas, facilitar o processo das trocas e depois observar, monitorizar e ver como é que pode ser expandido. É muito importante. Hoje em dia, isto para ter sucesso, já não se faz, provavelmente, sozinho.
E em Portugal, há casos de simbiose?
Em Portugal há, e eu depois vou dar aqui um caso interessante. Houve também um caso inicial muito interessante. Este caso foi o caso da Chamusca, que era uma zona que queria desenvolver-se mais economicamente. E de repente houve em Portugal um movimento que foi de atribuir dois CIRVER para processar resíduos industriais perigosos. E em Portugal acontecem estas coisas. Os dois CIRVER foram localizar-se na Chamusca, que é uma coisa estranha, quer dizer, provavelmente havia de ter maior diversidade geográfica. E então Chamusca, uma vez estava a fazer uma palestra, aconteceu assim, o presidente da Câmara estava lá e disse: "Bom, mas esta ideia da simbiose era uma coisa interessante, por que não fazemos na Chamusca o primeiro ecoparque industrial?" E mais uma vez, nós no técnico demos apoio para que isso acontecesse. Foi mesmo uma matéria em que a Inês se envolveu muitíssimo, ela foi a protagonista principal deste apoio e de facto começou-se a criar o Ecoparque do Relvão, que é basicamente o seguinte: davam-se benefícios especiais a empresas que se quisessem localizar naquele sítio, naquele parque industrial, desde que eles conseguissem usar resíduos de outras empresas que já lá estavam e que se lá localizassem.
Foi dado um incentivo a quem o fizesse para se instalar naquela local.
Um incentivo que era essencialmente, por exemplo, ter a terra muito barata. E de facto funcionou no princípio, mas depois também se provou que é difícil de manter. Não havia o facilitador, mas é um caso de estudo interessante para Portugal. Ainda noutro dia verifiquei com agrado que houve uma tese que estuda a evolução e o que aconteceu e depois como é que se tentou revitalizar.
Desse caso em particular.
Desse caso em particular, do Ecoparque do Relvão. E acho que é muito interessante. Mas ainda hoje, por exemplo, nós estivemos também ligados agora ao último plano da Ação para a Economia Circular, preconizam-se zonas empresariais circulares, que não é mais do que isto. É uma matéria que está aberta, em que se tenta promover facilidades para que isto aconteça, mas de facto não é trivial e terá sempre desafios.
E Inês, o que é que falta fazer no país para dar um impulso também a esta estratégia e para que ela passe a ser cada vez mais uma realidade nas indústrias portuguesas? É possível, pode haver aqui uma questão às vezes até quase cultural, ou não sei.
Não, eu acho que à parte da questão regulatória, que é sempre tema que vem pra cima da mesa e que, ao que tudo indica, será tema a ser abordado no âmbito do Circular Economy Act, que vai ser apresentado no próximo ano pela Comissão Europeia, e aliás, tudo isso está ligado à questão de segurança de abastecimento de matérias-primas críticas à economia europeia, e portanto, as simbioses industriais e a economia circular contribuem pra essa segurança. Nós temos que começar a olhar para fluxos de recursos que tipicamente as pessoas põem de lado. A questão da água, a questão da energia, o calor, isto tudo são fluxos que também têm o seu valor do ponto de vista económico e que se traduzem em poupanças significativas pras empresas. Não é por acaso que muitos dos novos projetos que estão a surgir em Portugal, é sobretudo pelo nexus água, energia e agricultura. Por exemplo, ainda muito recentemente, no BPI do Fórum do Futuro da Água, premiou-se precisamente o projeto, o SISWEF NEX, que é um projeto que vai ser desenvolvido no Alentejo e no Algarve, que visa promover a economia circular da água a partir do aproveitamento das águas oriundas do tratamento da azeitona e da produção dos lagares, conjuntamente com a exploração de energias renováveis e a proteção do recurso. Olhar pra este tipo de fluxos que não Somente os resíduos, traz oportunidades relevantes pra indústria e outras áreas, como seja, no caso da agricultura, por exemplo, temos uma grande questão a sul do país, com pobreza orgânica dos solos. O projeto Teia Dia do Ursa, que é um projeto que foi feito numa simbiose com os agricultores locais do projeto Infraestrutura do Alqueva, permitiu recircular material que seria deixado simplesmente no campo para produzir composto de elevada qualidade e assim garantir solos mais ricos, que retêm mais água e, portanto, trazem outro tipo de segurança relativamente a impactos oriundos, por exemplo, das alterações climáticas. E isso tem que ser feito recorrendo a estas plataformas de mediação, promotores, campeões desse tipo de práticas, que aproximam as pessoas localmente e que geram esses momentos de confiança e que permite partilhar estas oportunidades e realmente mediar este fluxo de informação, que muitas vezes é a maior barreira a estas simbioses se desenvolverem.
Espero que esse esforço continue e que essa seja cada vez mais uma realidade também nas indústrias portuguesas, que o possam fazer. Inês Costa Paulo Ferrão, muito obrigado pelos vossos esclarecimentos. Hoje aqui no "Vozes Circulares" falamos de simbioses industriais. Junte-se a nós no próximo episódio, onde vamos falar de serviços dos ecossistemas e regeneração da natureza. E já sabe, pode ouvir todos os episódios do "Vozes Circulares" nas plataformas de podcast. Até ao próximo programa.