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A guerra na Ucrânia está a agravar a fome no Médio Oriente e norte da África, isto porque a Ucrânia e a Rússia são dos principais exportadores de produtos agrícolas para países destas regiões. Miguel, o alerta é deixado pela organização Human Rights Watch. A organização internacional apela aos governos para que tomem medidas, de forma a que o problema não se agrave ainda mais. A Human Rights Watch pede urgentemente que os governos protejam o direito à alimentação dos países mais desfavorecidos. Junta-se agora a nós, em direto neste Zoom, a Aurora Teixeira. É professora da Faculdade de Economia da Universidade do Porto, especialista em macroeconomia e economia portuguesa e europeia, a quem agradeço a disponibilidade para estar connosco no Zoom da Rádio Observador. Boa tarde, professora.

Boa tarde.

Este é, de facto, um problema para estas zonas do globo, o norte de África e o Médio Oriente?

Sim, como disse e bem na peça, a Rússia e a Ucrânia, juntamente, no que diz respeito, por exemplo, ao comércio mundial de produtos, nomeadamente o óleo de girassol, representa mais de metade da cota do comércio internacional e os países africanos são relativamente expostos. Quer os africanos, quer aqueles que são países ditos de desenvolvimento intermédio, de baixo desenvolvimento, estão muito expostos, por exemplo, à importação, são muito dependentes da importação de trigo, nomeadamente, e 44% do trigo importado de África provém destes dois países, da Rússia e da Ucrânia. Há cerca de 15 países ao nível de África que importam mais de 50%, portanto, mais de 50% das suas importações de trigo vêm destes dois países, o que significa que, em virtude da guerra e da crise de abastecimento, há uma escalada enorme ao nível de preços dos bens alimentares, já para não falar dos preços dos bens energéticos, dos quais eles também são extremamente dependentes. E isto provoca, na base da cadeia alimentar, um grande aumento dos preços e, portanto, pressões inflacionistas muito elevadas. E estas pressões para o aumento muito intenso dos preços vai agravar a já muito frágil situação que estes países vivem, em termos económicos e em termos financeiros. E, portanto, esta escassez de matérias-primas ou de bens alimentares e energéticos vai, muitas das vezes, provocar não só escaladas de preços, mas também conflitos internos, muitas das vezes revoltas.

Como já tivemos, de resto, no passado, em alguns países.

Exatamente. Eles já são muito pobres e normalmente este tipo de desequilíbrios macroeconómicos, o que vai fazer é uma redistribuição dos rendimentos que vai ainda tornar mais difícil a vida das pessoas mais pobres. Não só dos países mais pobres, mas dentro dos países mais pobres, as pessoas mais frágeis, a população mais pobre cujo orçamento familiar é mais dependente deste tipo de bens, dos bens alimentares. Para além disso, nós temos, com o aumento muito acentuado dos preços das importações, um desequilíbrio ao nível das balanças das contas externas destes países, que vai provocar, desde logo, uma desvalorização das suas moedas, um desequilíbrio financeiro que vai agravar o desequilíbrio e a crise económica que é provocada por esta escassez de bens e serviços.

Portanto, vamos ter aqui uma série de eventos em cascata, não é?

Exatamente. É um ciclo vicioso em que estes países, pela sua já frágil situação económica, são ainda mais expostos a estes riscos, a estas incertezas, que já não são bem incertezas. Os preços já estão numa escalada tal que necessariamente estes países vão ter que ter ajuda, de maneira a que se evite também a instabilidade.

E no sentido da nossa próxima pergunta era perguntar-lhe o que se prevê, não havendo novas fontes de cereais disponíveis nos próximos meses no planeta, se isso reforça a necessidade de aumentar a ajuda alimentar aos países africanos.

Certamente, porque como eu referi, são países que estão muito dependentes, não são autossuficientes, muito longe disso, deste tipo de alimentos, destes tipos de cereais. É sempre uma necessidade para estes países, agora vai ser, de facto, dramático. E se não existirem ajudas dos países mais desenvolvidos para os países que estão nesta situação, é de emergir além da guerra, também nestes países, depois os conflitos internos, porque basicamente a fome gera necessariamente revoltas, como já temos visto historicamente. Estes países são muito propensos a este tipo de instabilidade também e conflito interno.

A alternativa poderá ser os Estados Unidos reforçarem o seu programa de ajuda alimentar?

Sim, como também são grandes produtores.

Corrija-me se estou enganado, mas têm uma percentagem da sua produção anual dedicada precisamente à ajuda alimentar. É aliás, um mecanismo de controle de preços que já existe há muitos anos nos Estados Unidos. Creio que ainda se mantém.

Exatamente.

Poderá ser aumentada essa percentagem de 2% para eventualmente 2,5%, 3% ou 4%?

Sim, essa pressão sobre os Estados Unidos tem que ser feita, em termos internacionais, de maneira a que, de facto, mitigue o problema, que é um problema muito sério, preocupante e tendencialmente explosivo ao nível dos países de África.

A professora tem acompanhado estas questões de forma mais próxima. O mundo ocidental, a União Europeia e os Estados Unidos, em particular, estão devidamente atentos a este problema e a antecipar estas dificuldades que aqui relatou e elencou?

Eu penso que nesta fase há sempre os esquecidos da vida, os esquecidos do mundo também. Graças a organizações não governamentais, de facto, eles nunca são esquecidos, mas não há dúvida que nesta primeira fase os países estão a olhar precisamente para os seus umbigos. Ou seja, é preciso fazer mais para atenuar o sofrimento que estão a passar, e que vão ainda passar de forma mais gravosa, os países mais pobres. Mas a minha perceção é que ainda está a ser feito relativamente pouco e está-se muito preocupado com as questões, que são preocupantes também ao nível dos próprios países mais desenvolvidos, mas há que também as organizações supranacionais olharem e tomarem devida atenção, nomeadamente, depois também em termos da própria política monetária do Banco Mundial, do FMI, olharem para estes países que vão necessariamente com este impacto da guerra, ter novamente graves problemas ao nível das suas contas correntes externas.

Professora, e se não há bens, as pessoas, é um instinto natural, um instinto de sobrevivência, têm de ir à procura desses bens. Sei que é uma pergunta de caráter especulativo, mas devemos esperar uma nova vaga migratória tendo como destino os países da União Europeia, precisamente para fazer face a esta situação de escassez de produtos alimentares?

Sim. Isto é tudo uma questão também de quanto tempo é que dura, ou que se estima que dure o conflito. E as pessoas tomam decisões, uma coisa é tentar perceber: bem, isto vai demorar um mês, dois meses, três meses, outra coisa é isto ser mais ou menos de forma permanente. Claro que isso vai originar novos fluxos migratórios e que são impactos secundários da guerra, mas que são impactos que também se prevêem que tenham muita importância, porque se em países em que tendencialmente e tradicionalmente há escassez de bens alimentares, um dos principais fatores que leva à imigração é de facto as condições de vida. E se as condições de vida já não são fáceis e elas se tornam ainda mais gravosas, basicamente, as pessoas destes países não têm nada a perder se não tentarem melhorar a sua vida indo para outros países e agravando ainda mais aquilo que são as condições e as crises migratórias.

Professora Aurora Teixeira, da Faculdade de Economia da Universidade do Porto, especialista em macroeconomia e economia portuguesa e europeia. Agradeço lhe ter estado no Zoom desta segunda-feira. Muito obrigado.

Foi um gosto. Boa tarde.