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O embaixador russo em Sarajevo ameaça seguir o exemplo ucraniano se a Bósnia aderir à NATO. São declarações que podem dar a entender que a ideia expansionista russa pode ser prolongada a outras geografias e não se ficar apenas pela Ucrânia. Vamos falar sobre este assunto com o professor Bernardo Teles Fazendeiro, professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e investigador do Centro de Estudos Sociais. Tem feito várias investigações na área das relações internacionais, conflitos armados e também no mundo pós-soviético. Obrigado por se juntar a nós, Bernardo Teles Fazendeiro.

Muito obrigado pelo convite.

O que o embaixador russo em Sarajevo quer dizer com o exemplo ucraniano?

A Rússia apoiou, aquando da anexação da Crimeia, os separatistas da região de Donbass, quando conquistaram a independência e pretenderam separar da Ucrânia. O que o embaixador russo, ao fazer essas indicações, está a estipular é que basicamente a Rússia poderá, caso a situação também na Bósnia se destabilizar, apoiar, neste caso, bosnio-sérvio, os separatistas, se esses porventura quiserem se separar da Bósnia. O objetivo central disso não é obviamente a própria política doméstica e nacional da Bósnia atual, que já demonstrou na maioria da sua população que pretendia juntar-se à União Europeia e também à NATO. O objetivo mais aqui é destabilizar a aliança transatlântica e as próprias relações entre a União Europeia e, de certa forma, desviar a atenção de muitos líderes europeus para fora da Ucrânia e para outras regiões, em particular os Balcãs.

Mas isto pode ter um efeito de medo em todos aqueles países que estão próximos da Rússia.

Com certeza. O objetivo é precisamente esse, o objetivo mesmo é fomentar medo e a partir desse medo, desviar as atenções e quanto muito apetrechar também, portanto, fortalecer a posição da Rússia fora do contexto da Ucrânia.

Professor, entretanto, têm decorrido várias negociações, não só as que acontecem entre a Rússia e a Ucrânia, mas outros países têm se posicionado de alguma forma e até tendo alguns encontros. Hoje mesmo o presidente americano esteve à conversa com o presidente chinês. Desta conversa, nós já conhecemos por esta altura qual é que é a posição chinesa transmitida pelas autoridades chinesas e aquilo que chega de Pequim é que esta guerra não beneficia ninguém. De certa forma, esta é uma posição mais clara da China face aquilo que temos ouvido nos últimos tempos.

Sim, é mais clara, é mais categórica. Não sei se é relativamente mais clara, porque a China também não apoiou de forma vincada, muito pelo contrário, a invasão russa, embora não tenha usado esse termo. A China ao também indicar isto, está de certa forma a pressionar, de modo encafuado, mas não de forma também deliberada, a Rússia a demonstrar algum do seu descontentamento passivo em relação à situação. Do ponto de vista chinês, até porque os números para crescimento econômico, embora seja previsível que haja crescimento econômico para a China, mas os números que foram avançados no início deste mês não eram extremamente ambiciosos, ainda por cima, quando no Congresso do Partido Comunista Chinês que será pro final do ano, Xi Jinping à partida quererá ter o seu mandato renovado. Importa que o desenvolvimento econômico e social da China prossiga de uma forma otimista e com a demora contínua desta guerra, e tudo indica que a guerra vai demorar mais tempo a ser resolvida, é provável que os impactos negativos econômicos desta guerra se alastrem e também afetem a própria economia da China e isto não está no interesse chinês. A China quanto muito, o que queria, se é que queria esta invasão, que queria que fosse uma operação especial, como o próprio Putin disse, rápida, e que a coisa se resolvesse e que a instabilidade pelo menos acontecesse simplesmente durante alguns meses, mas o que tudo indica é que isto vai persistir muito mais do que se calhar os chineses esperariam.

E podemos ver a China a tomar algum tipo de atitude no sentido de tentar demover Putin desta estratégia?

Essa é a grande incógnita. O secretário de Estado norte-americano Blinken já tinha avisado que, embora não dissesse como, indicou que a China seria punida caso apoiasse mais o Putin. Não está claro como é que os Estados Unidos, por um lado, puniria a China e por outro lado, também não está claro como é que a China quererá coagir ou forçar a Rússia a tomar uma posição. Há formas simbólicas de o fazer, e no Conselho de Segurança uma delas é não apoiar as moções russas, isso obviamente ajuda a isolar a Rússia. Mas a posição chinesa tem sido de alguma cautela, esperar para ver, e o que tudo indica é continuar a esperar para ver, mas o esperar para ver para a Rússia, que quer muito forçar a sua posição, e quanto mais a Rússia sendo isolada, por lá essa pressão indireta, embora não seja Muita coação, portanto, não ser uma posição de força da China, pode ter, a longo prazo, se a coisa assim persistir, impacto na Rússia, que se sente cada vez mais isolada, quer do ponto de vista político, quer do ponto de vista econômico, através das sanções promulgadas pela União Europeia e Estados Unidos.

Há notícias que dão conta de que a Rússia já pediu apoio à China, até inclusivamente apoio militar. Não é muito provável que vejamos isso acontecer.

Militar, do meu ponto de vista, mas posso estar errado, eu também não achava que esta invasão iria acontecer. Achava que uma invasão dessa escala, achava que a Rússia há uns meses iria retaliar de alguma forma, mas não a esta escala. Portanto, eu não quero agora dizer de forma concreta qual será a posição da China, mas parece-me improvável a China querer se meter, quer dizer, através de apoio militar, neste conflito. Agora, acredito que se a guerra persistir e a situação não se resolver, a China poderá sinalizar através das relações comerciais com Moscovo, através de possíveis sanções ou embargos, ou pressões extras relativamente ao escoamento de produtos russos, mas sobretudo escoamento de energia da Rússia pra China, que quer que a Rússia rapidamente resolva o conflito, ou que ceda, de alguma forma. Mas isto também depende de como é que a guerra se desenvolve a longo prazo. Portanto, a posição da China, por enquanto, no meu ponto de vista, é de esperar pra ver.

Até porque a China também não estará muito interessada em ser alvo de sanções e os próprios países ocidentais aplicando sanções à China, elas provavelmente terão efeitos ainda mais graves na própria economia ocidental do que as que estão sendo aplicadas à Rússia. Há uma dependência até maior da China do que há da Rússia.

Claro, mas também do mesmo ponto de vista, para muitos estados ocidentais, europeus sobretudo, também não há um interesse em também isolar uma grande economia como a China, cujo impacto no mercado internacional é muito maior do que a Rússia, incomparavelmente maior, independentemente da importância que a Rússia tem no setor energético, que obviamente afeta todos os outros setores. Mas a China está ligada a todos os setores da economia internacional, não interessa também à União Europeia, em particular, e aos Estados Unidos da América, embora os Estados da América se calhar tenham maior capacidade de manobra, não sei, no sentido de também isolar a China. Isso então geraria uma recessão econômica talvez ainda maior, que não é do interesse de ninguém. Face ao que já está acontecendo na Ucrânia e na Rússia, isso do ponto de vista da gestão política e econômica já é bastante complexo. Se juntarmos a China a essa equação, torna-se muito difícil de resolver a longo prazo.

E como é que está a olhar para as negociações e para os últimos dias de negociações diretas entre a Ucrânia e a Rússia? Nós no início da semana começamos a noticiar um possível acordo, até com 15 pontos, algo detalhado, mas ambos os lados já vieram dizer que não é exatamente assim. Há aqui algum tipo de margem para podermos pensar, de fato, pelo menos num cessar-fogo a breve prazo?

Depende de ambos os lados e de como a guerra evoluir. A Rússia quererá ter e quererá aumentar a sua pressão sobre a Ucrânia no sentido de conseguir demonstrar, face ao que aparenta ser cada vez mais um falhanço geoestratégico promulgado pela Rússia. A Rússia e Putin, em particular, julgava que a guerra resolver-se-ia rapidamente. Não tem sido o caso e tudo apontava para isso. A lei marcial vem muito posterior ao início da guerra. Os avanços militares e as próprias tropas que foram utilizadas inicialmente no combate e que foram colocadas logo em cidades apontavam que se calhar achariam que conseguiriam controlar e cumprir os seus objetivos estratégicos relativamente rapidamente. Isso não tem a acontecer e a Rússia, sobretudo Putin, tendo em conta o grau de exposição que ele tem em relação a esse conflito, por o ter começado, quererá certamente demonstrar, pelo menos para o seu eleitorado, que ganha alguma coisa. Há esta problemática política. E Zelensky, obviamente, que já antes do conflito tinha demonstrado uma posição de não cedência, também não quer ceder muito, até porque, fruto do número de ucranianos que já morreu no conflito, tende a haver algum ganho deste lado e até pra resolução do conflito ser sustentável. Se calhar uma das partes achar que o que foi resolvido não é sustentável, como por exemplo foi o caso dos ucranianos que achavam que os Protocolos de Minsk não eram sustentáveis, e a Rússia também só queria que os Protocolos de Minsk fossem implementados segundo a sua própria ótica. Portanto, para que a resolução seja realmente definitiva, é preciso que ambos os lados consigam negociar algo concreto. Eu não sou otimista neste sentido. Acho que a posição russa pede demasiado à Ucrânia e que, no fundo, pede basicamente na prática pra Ucrânia abdicar da sua soberania e, ao mesmo tempo, face a essa situação, parece-me improvável que haja uma resolução a longo prazo. Dependerá mais, no meu sentido, de como a guerra evoluir no longo prazo e da resistência demonstrada pelos ucranianos.

Muito bem. Bernardo Teles Fazzendeiro, vamos ter certamente mais oportunidades para falar, até porque as negociações vão continuar a decorrer e haverá novos detalhes, certamente, a cada dia que passa. Muito obrigado por se ter juntado a nós.

Muito obrigado, foi um prazer, obrigado pelo convite.