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No "Zôo" de hoje tentamos ampliar a imagem para o dia de amanhã, dia que vai ser marcado pela presença de Joe Biden na reunião dos chefes de Estado e do governo da União Europeia e pela Cimeira da NATO, onde vai haver a participação do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky.
Para nos ajudar a antecipar as duas reuniões, olhar também para os contornos da visita do presidente norte-americano ao velho continente, junta-se a nós a Teresa Cravo, investigadora do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e professora de Relações Internacionais. Boa tarde e bem-vinda, professora.
Boa tarde.
Começava por lhe perguntar que mensagem procura Joe Biden transmitir com esta visita à Europa.
Essencialmente, de que os Estados Unidos se mantêm comprometidos com esta situação pelo tempo que a situação existir, e uma necessidade clara de galvanizar os aliados e promover e estimular a união dos aliados em relação à sua oposição à Rússia. Isto, obviamente, tem várias dimensões. Do ponto de vista de galvanização dos aliados, há aqui obviamente uma necessidade muito clara de tranquilizar, em específico, os países que se sentem mais ameaçados por esta invasão, nomeadamente a Polônia. E também, de alguma forma, mostrar que há aqui uma necessidade de iniciar novas fases em que o que se passar do ponto de vista de assistência militar à Ucrânia tem que ser coordenado e, portanto, há uma necessidade de coordenação dessas novas fases de assistência militar e também de novas ações que estão a ser anunciadas. Na quinta-feira vão ser anunciadas novas sanções. Se bem que a Casa Branca tem estado a referir com muita intensidade não só o aumento de sanções, mas sim, muito especificamente, garantir que aquelas que já estão em cima da mesa são de facto cumpridas, ou seja, evitar que haja capacidade de fuga ao cumprimento dessas sanções. Depois há outros objetivos, obviamente, que são importantes aqui do ponto de vista de um compromisso que já vem de algumas semanas do ponto de vista dos Estados Unidos, que é o de ajudar a garantir a segurança energética da Europa e, portanto, nesse sentido, ações que possam diminuir a dependência energética da Europa em relação à Rússia, em que houve aqui alguma divergência. Portanto, a Europa quer diminuir em dois terços, até ao final do ano, as importações de óleo e de gás russo, enquanto que os Estados Unidos, que estão numa situação obviamente muito mais favorável a uma decisão mais drástica, baniram essa mesma importação. É importante também aqui haver alguma tranquilidade do ponto de vista de que apesar das diferenças, há aqui uma união grande em relação à posição central da oposição à Rússia. E penso que é a mesma coisa em relação, por exemplo, às divergências em termos de que tipo de assistência militar é que pode ser dada. Há uma divergência entre os países que têm uma tomada de posição bastante mais ofensiva contra a Rússia, nomeadamente com a sugestão de envios de aviões de combate. Há aliados que receiam que essa escalada decorrente de uma tomada de decisão dessas possa ser bastante provável e, portanto, não querem levar esse tipo de iniciativa. Portanto, eu acho que o presidente Biden também quer mostrar que apesar de algumas divergências, há acima de tudo uma união e que os aliados se mantêm comprometidos na oposição franca e assertiva à invasão da Rússia.
E olhando para o encontro entre Biden e os líderes europeus, há precedentes de um encontro a esta escala, o que é que vai sair desta reunião? É mais um momento simbólico de demonstração de união ou vai haver também coisas concretas em cima da mesa, Teresa?
Eu acho que a questão simbólica é muitíssimo importante. Esta é a terceira viagem do presidente Biden como presidente dos Estados Unidos a um país estrangeiro e, portanto, a sua necessidade de vir à Europa, ou o que é sentido como uma necessidade de vir à Europa nesta situação em específica, tem uma dose simbólica muitíssimo importante, mas não é só simbólica. Ou seja, eu acho que esta é uma visita produtiva, ou seja, é uma visita que garante efetivamente o compromisso dos Estados Unidos com esta situação, que obviamente é muito menos impactante para os Estados Unidos do que para os aliados, e nomeadamente os aliados mais do flanco Leste. Ou seja, há aqui uma necessidade de apoio, nomeadamente a países como a Polônia, que é o país que vai ser visitado, para além de Bruxelas, que é bastante importante porque ultrapassa a orla apenas do simbolismo para mostrar efetivamente que há um compromisso claro dos Estados Unidos, não só do ponto de vista de medidas econômicas, como medidas militares. Há também do ponto de vista de ajuda humanitária, ou seja, o que está em cima da mesa é um aumento significativo de ajuda humanitária para o acolhimento de refugiados e que se concentrará especificamente na Polônia, que é obviamente o país que tem assumido a responsabilidade de acolhimento de refugiados de forma mais clara nesta situação, neste contexto. E há também, obviamente, uma questão que está em cima da mesa, que é: a Polônia já é um país onde existe maior mobilização e concentração de forças neste momento, até por causa da sua situação em termos de fronteira, tanto com a Ucrânia, como com a própria Rússia, e está em cima da mesa essa concentração se manter e ser aumentada. Portanto, eu acho que há várias medidas que estão em cima da mesa que são medidas claras.
E é também por isso que Biden vai à Polônia, Teresa.
Exatamente. Há aqui uma necessidade, como eu estava a dizer, de garantir a união e de alguma forma mostrar que algumas das divergências que têm surgido, que têm vindo a lume, nomeadamente em relação ao tipo de ofensiva que pode ser feita ou em relação ao grau de sanções, em relação ao acolhimento de refugiados, etc., portanto, com pesos diferentes, garantir que apesar dessas divergências, os aliados se mantêm unidos e a opção por ir à Polônia aqui parece-me extraordinariamente importante.
Antecipa aqui uma mudança naquela que tem sido a posição diplomática assumida pelos Estados Unidos, um pouco secundarizada, por exemplo, face àquele que tem sido o papel revelado pelo presidente francês Emmanuel Macron. Virá mais à tona o esforço diplomático dos Estados Unidos ou essa diplomacia tem que continuar a ser gerida com pinças para não ferir a suscetibilidade de Moscovo?
Eu acho que o que eu vou dizer não é incompatível. Ou seja, claro que há aqui um receio de escalada que é muitíssimo importante que esteja à cabeça das preocupações dos líderes aliados, nomeadamente dos Estados Unidos. Ou seja, o receio de tomadas de posição, nomeadamente do ponto de vista militar, mais assertivas e mais ofensivas, e o facto desse tipo de tomada de decisão ter implicações diretas na possibilidade de uma escalada, nomeadamente de armas químicas e biológicas, como tem vindo a ser falado, e eventualmente de armamento nuclear, é essencial que esteja em cima da mesa e que continue a presidir às preocupações. E, portanto, desse ponto de vista, as ações diplomáticas, mas tais como as outras ações que estão em cima da mesa do ponto de vista de sanções, do ponto de vista de ajuda militar, etc, têm que ser, de alguma forma, equilibradas com a necessidade de prevenir o conflito e prevenir a escalada do conflito. Dito isto, não há dúvida nenhuma que esta visita do presidente Biden à Europa, e nomeadamente à Polónia, é uma demonstração de força. É garantir à Rússia que esta situação, e principalmente agora em que de alguma forma se entende que infelizmente esta guerra se vai prolongar e vai continuar a ter custos humanitários altíssimos, que os Estados Unidos vão continuar comprometidos pelo tempo que for necessário. Eu acho que esta demonstração de força é também nesse sentido.
E já relativamente à cimeira da NATO, também com participação de Volodymyr Zelenskyy, quais são os pontos expectáveis desta reunião? Poderá ser discutido o envio de uma força de paz da NATO para território ucraniano? As declarações de Lavrov, conhecidas hoje, revelam de alguma forma que isso pode ser uma intenção. Lavrov diz que Moscovo responderá com força a um envio de uma força de paz da NATO. Será um ponto em discussão nesta reunião?
Calculo que sim. Mas eu não tenho dúvidas nenhumas de que uma missão de paz da NATO não pode nunca ser entendida como uma missão de paz do outro lado, e nós temos que ter total consciência disso. Tal como também, convém dizer, nós não aceitámos a ideia de que havia uma operação de paz por parte da Rússia na região do Donbass. Portanto, obviamente há aqui uma simetria do ponto de vista de interpretação do contexto. O contexto é um contexto de guerra, mesmo que nós queiramos, e a mim nem me parece fazer grande sentido, mas mesmo que nós queiramos utilizar aqui rótulos de missão de paz, de operação de paz, etc, de um lado ou do outro, ela vai ser sempre interpretada como uma ofensiva militar e, portanto, a outra parte vai reagir em conformidade. No meu entender, mas obviamente esta é a minha opinião e não em relação ao que se vai passar nessa cimeira, na minha opinião, isto seria uma atitude ofensiva bastante problemática do ponto de vista do receio da escalada do conflito.
Como é que interpreta a declaração hoje feita pelo ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergey Lavrov, precisamente a este propósito, dizendo que nunca aceitaria e que isso abriria caminho a um conflito direto com os países da NATO, a intenção de enviar uma força de paz da Aliança Atlântica para território ucraniano? Sendo que não parece que seja um assunto que tenha estado nos últimos dias em cima da mesa. Portanto, como é que interpreta essa declaração do Lavrov?
É uma antecipação. Sim, eu percebo o que está a dizer. Sim, desse ponto de vista é uma antecipação, ou seja, atenção ao que vai ser discutido desse lado, porque do nosso lado nós vamos interpretar sempre desta forma, como um ataque, e portanto, não como uma missão de paz, mas como uma força militar ofensiva, que depois terá a sua resposta militar também. E, portanto, eu acho que aqui esta escalada, pra mim, parece muitíssimo problemática. Mas isto numa perspectiva de resolução do conflito, que é o que eu acho que tem que estar em cima da mesa neste momento.
E como é que vamos chegar nisso?
Deixe-me só terminar. Peço desculpa. A demonstração de força aqui é justificada do ponto de vista daquilo que são as tomadas de posição, que depois têm que ser, de alguma forma, alvo de discussão na mesa das negociações. Mas é essa, e tem que ser essa e apenas essa, a necessidade de fazer este tipo de demonstrações de força. Não é no sentido de escalar o conflito, é no sentido de garantir que efetivamente há alguma capacidade de negociação e, portanto, isso é natural em todos os conflitos que são alvo de negociação, em que obviamente há aqui uma tentativa de, no terreno, ganhar vantagem militar e política para depois recolher as vantagens dessa situação depois na mesa das negociações. E só assim se entende que se possa falar e se possa até antecipar jogadas do outro lado para, nesse contexto, dizer o que é aceitável e o que não é aceitável.
Nessa perspectiva, sob o ponto de vista negocial, estamos num momento de impasse? Não há uma clara vantagem militar de qualquer uma das partes para que possamos chegar a um cessar-fogo e a um roteiro para a paz?
Nós neste momento ainda estamos claramente numa situação de impasse. Ou seja, um impasse de negociação quer dizer que há ainda uma perceção muito clara de incompatibilidade de interesses, sendo que as negociações de paz são uma tentativa de compromisso e de conciliação desses interesses. Neste momento, ambas as partes consideram que conseguem ganhar vantagem militar e ir para as negociações mais tarde numa posição política mais forte, que lhes permita ter mais concessões e, portanto, lhes permita ganhar mais vantagens. Essa situação pode ser uma situação muito complicada do ponto de vista de prolongamento do conflito. Basta olharmos, por exemplo, para a situação na Síria, que dura há mais de 10 anos e em que as várias negociações que têm existido do ponto de vista das altas instâncias, em Genebra, etc, não têm dado resultado. E tem a ver com a lógica de a escalada ou o impasse militar impede, de alguma forma, que as partes concedam aquilo que é preciso conceder do ponto de vista da resolução do conflito. Eu acho que aqui a mediação é importante.
E o que é que precisa a Ucrânia ainda de conceder para que a Rússia aceite o cessar-fogo, tendo em conta que Volodymyr Zelenskyy já afirmou, por exemplo, e de forma reiterada ao longo dos últimos dias, que não é intenção da Ucrânia aderir à NATO, por exemplo, que foi usado como argumento justificativo para esta invasão militar
Sim, eu acho que o presidente Zelenskyy aqui esteve bastante bem. É importante percebermos que o presidente Zelenskyy percebe que, neste momento, a NATO não estaria sequer disposta a uma adesão da Ucrânia e, portanto, não faz sentido manter isso em cima da mesa e ceder nesse ponto do ponto de vista das negociações. Isto não quer dizer, atenção, que nós não tenhamos que ter em consideração, porque temos que ter, a autodeterminação e aquilo que é a independência política da Ucrânia. Mas não há dúvida nenhuma que a situação que nós estamos a assistir em termos de guerra na Ucrânia é bastante mais alargada do que a oposição político-militar entre a Ucrânia e a Rússia. E também o impasse do ponto de vista das negociações também tem a ver com isso, porque o contexto é francamente mais alargado. No meu entender, a negociação e a resolução deste conflito exige mais atores do que muito simplesmente a Rússia e a Ucrânia. E exige, nesse sentido, mais atores comprometidos com essas negociações de paz, que eu também não estou a ver.
A China, por exemplo.
A China, claro, que não está minimamente interessada em arriscar enquanto não perceber bem para que lado é que vai pender a situação. Mas isso é problemático, porque enquanto estamos todos nesta fase de transição do ponto de vista da ordem internacional, que se está neste momento a centrar na Europa, mas que não é apenas em relação à Europa, mais este conflito se vai prolongar e a tragédia humanitária é mais do que suficiente neste momento e ela vai crescer, vai aumentar. Os ataques indiscriminados vão continuar a aumentar, isto é muitíssimo problemático do ponto de vista de custo humano.
O reconhecimento da independência da região do Donbass e abdicar da integridade territorial ucraniana relativamente à península da Crimeia serão condições "sine qua non" para que possamos chegar à tão almejada paz? E é isto aceitável por parte da Ucrânia, também.
Pois, exato. Ora bem, que é isto que a Rússia quer, pelo menos. Ou seja, pelo menos isso nós temos a certeza que a Rússia quer, não sabemos se quer mais do que isto. Acho que também dependerá daquilo que será o contexto militar no terreno, mas que é isto que a Rússia quer e portanto, que tem em cima da mesa, nós sabemos. Se isto é aceitável, eu acho que em relação à Crimeia, tenho sérias dúvidas que consigamos voltar atrás. Muito daquilo que nós estamos a fazer agora, de alguma forma devia ter sido feito, nomeadamente sanções a sério. Devia ter sido feito em 2014, na altura da anexação, e não foi. Portanto, há aqui alguma dificuldade de reverter este tipo de situação. E para todos os efeitos, eu acho que nós temos noção em relações internacionais que é difícil essa reversão, até pelos exemplos que temos à nossa volta, nomeadamente, por exemplo, bem pertinho de nós, a questão do Sahara Ocidental, etc. Portanto, anexações de territórios por parte de atores mais fortes no sistema internacional têm muita tendência a serem situações "de facto" e irreversíveis. Obviamente não é uma situação que me agrade do ponto de vista da minha visão das relações internacionais, mas tenho sérias dúvidas que a situação da Crimeia seja reversível. O resto eu acho que ainda está muito dependente, efetivamente, da situação militar, que eu acho mais problemático, mas devia estar ainda mais dependente daquilo que é o progresso das negociações de paz. Estes pontos têm que ser debatidos, eles não têm que ser assumidos como se a Rússia põe estes pontos em cima da mesa, eles têm que ser assim. Mas eu acho que é importante percebermos que é um conflito assimétrico, a não ser que nós efetivamente alarguemos as discussões e as negociações de paz do ponto de vista de uma arquitetura de segurança europeia, em que a Rússia tem obviamente que participar, e em que há aqui vários interesses de alguma forma legítimos em relação a situações de ameaça, de insegurança, etc., que têm que estar em cima da mesa.
Professora Teresa Cravo, investigadora do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, professora de Relações Internacionais, agradeço a sua presença no "Zoom" de hoje da Rádio Observador.
Obrigada eu pelo convite.