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Hoje no Zoom das Manhãs 360, Paulo Ferreira e Miguel Cordero. Destaque para os apuros que o fundador da Tesla começa a passar na empresa, mas antes começamos pelo atual czar da Rússia.
Sim, centramos atenções na Rússia pra começar. Hoje, dia 1 de julho, termina um referendo que pode garantir a longevidade de Putin. A votos vai uma reforma constitucional. São 200 alterações ao documento que foi aprovado em 1993. As novas medidas foram apresentadas em janeiro, tiveram aprovação do Parlamento e seriam votadas a 22 de abril, mas esse referendo foi adiado por causa da pandemia. Agora, avança a votação, estava agendada para hoje, mas para evitar ajuntamentos nas urnas, as autoridades russas decidiram alargar o período de votação e, por isso mesmo, já se vota desde a passada quinta-feira. Vota-se desde quinta, termina hoje. Entre as medidas, está a introdução da frase "fé em Deus" na Constituição oficial russa e está também a restrição do casamento à união entre um homem e uma mulher. São medidas para agradar aos ortodoxos. Está ainda a proibição de entregar território russo, medida para agradar aos nacionalistas. São várias mudanças, mas a maior de todas está nos mandatos presidenciais.
E neste momento, de acordo com a Constituição, o presidente russo só pode fazer dois mandatos consecutivos. São mandatos de seis anos cada um. E foi precisamente por isso, para contornar esta norma, que entre 2008 e 2012, Putin deixou o cargo de presidente e passou para o cargo de primeiro-ministro. Trocou na altura com o primeiro-ministro de então, Dmitri Medvedev, que é assumidamente braço direito de Putin. Depois de cumprir esse mandato, em 2012, Putin pôde regressar ao Kremlin, mas de acordo com a lei, tem de deixar agora o cargo em 2024. Este cenário pode mudar, se for aprovada esta reforma constitucional. O novo texto retira apenas a palavra consecutivos e por isso impede qualquer pessoa de fazer mais do que dois mandatos. E como é que isto então beneficia Putin, se ele já vai no quarto mandato? Putin sai favorecido, porque com as alterações constitucionais, o tempo começa a contar do zero. Não contam os mandatos passados, todo o tempo que o presidente russo esteve no cargo não contará para as mudanças da Constituição. Neste caso concreto, as mudanças a nível presidencial só entram em vigor para a próxima presidência, ou seja, depois das próximas eleições.
Trocando tudo isto por miúdos, com esta alteração, Putin pode ficar no cargo até 2036. E é bem provável que isso aconteça. As restantes medidas são do agrado de vários setores da população. Como disse, há medidas para agradar aos ortodoxos e aos nacionalistas e perante o consenso, o referendo está à beira de terminar com uma aprovação de todas as reformas. As mais recentes sondagens revelam que 76% dos russos concordam com esta reforma constitucional. São dados de uma sondagem feita à boca das urnas nos quatro primeiros dias de votação, ou seja, entre quinta e domingo.
E hoje, como já disseste, termina essa votação. Estão inscritos cerca de 110 milhões de eleitores. Mais uma votação em tempo de pandemia, que desta vez dura os tais sete dias, com máscaras, com álcool gel à disposição, tudo como mandam as boas regras. E todas essas sondagens apontam para a aprovação das reformas, porque mesmo na questão presidencial há consenso, Putin mantém a popularidade. E há de recordar que em 2018, Putin avançou para as eleições presidenciais como independente e venceu com quase 77% dos votos.
E com essas reformas e perante a popularidade de Putin, pode ficar garantida a longevidade. Se cumprir todos os mandatos possíveis, Putin pode garantir 36 anos na liderança da Rússia, com seis mandatos como presidente e um como primeiro-ministro. Neste cenário, Putin deixa a liderança do país apenas aos 84 anos.
É obra! Olha, quem provavelmente não vai ter uma longevidade muito grande à frente da empresa que criou é Elon Musk, e é disso que vamos falar agora, porque esta é uma daquelas histórias em que a criatura se vira contra o criador. A criatura, neste caso, é a Tesla, o fabricante de automóveis elétricos de Silicon Valley, e o criador é, claro está, Elon Musk, que é um dos mais inovadores, irreverentes e desconcertantes empreendedores, empresários ou gestores deste início de século. Musk, convém recordar, foi o homem que desbravou o caminho para a mobilidade elétrica nas ruas e nas estradas de todo o mundo. Acreditou, antes de mais ninguém, nos automóveis limpos, lançou vários modelos e agora é vê-los cada vez mais nas nossas cidades. Mas é também o promotor da conquista do espaço. O lançamento do SpaceX há cerca de um mês marcou o início de uma nova era na aventura espacial, com a colocação em órbita e depois na Estação Espacial Internacional de dois astronautas, isto num empreendimento privado. Mas o sucesso de Elon Musk nestes empreendimentos não faz dele o líder intocável da empresa que fundou faz hoje precisamente 17 anos, em San Carlos, na Califórnia.
Antes pelo contrário, Musk começa a ser vítima do seu próprio sucesso e a contestação à permanência à frente da Tesla começa a crescer entre vários acionistas de peso desta empresa. A Pear, que é uma influente empresa de aconselhamento financeiro de investidores e ontem emitiu uma recomendação, aconselha os acionistas da Tesla a votar a saída de Elon Musk da empresa para evitar que o fundador consiga chegar a um prêmio jackpot de 45 mil milhões de euros, prêmio que foi aprovado há dois anos pelos órgãos próprios do grupo. A proposta feita por Elon Musk há dois anos aos investidores foi simples: se ele conseguisse fazer crescer a empresa até atingir os 650 mil milhões de dólares, valor em bolsa, claro, cerca de três anos do PIB português, então recebia esse prêmio bilionário. Ora, o valor das ações da Tesla tem crescido muito na bolsa. Ontem a empresa comemorou o décimo aniversário desde que começou a ser cotada e desde então o valor aumentou 4000%. É isto mesmo. Quem há 10 anos investiu 100 dólares na Tesla, tem agora 4 mil dólares na poupança. Esta subida está a fazer a Tesla valer já 200 mil milhões. Ainda está longe da meta fixada por Musk há dois anos, mas a trajetória aí está a confirmar que é possível chegar a esse patamar.
E para prevenir isso, prevenindo esse prêmio astronômico que isso pode valer ao seu criador, os conselheiros de investimentos recomendam que Elon Musk seja apeado rapidamente. Ele e um conjunto de executivos que, dizem esses consultores, se preparam para enriquecer muito ou muito mais, se quisermos, à custa da própria empresa, de forma desequilibrada. Isto é uma história que nos é contada agora pelo Guardian. Mas há mais uma coisa que incomoda os investidores: são tweets escritos pelo próprio Musk, que já custaram à Tesla 20 milhões de dólares de multas por manipulação do mercado de capitais.
Os tweets são sempre um problema. De outro caso, o criador dos carros elétricos foi libado, foi quando criticou o explorador geológico Vernon Unsworth, que em 2018 ajudou a retirar os 13 jovens tailandeses que tinham ficado presos numa gruta. Musk insinuou na altura que este salvador era pedófilo e que tinha participado na operação por motivos de relações públicas. Foi processado por difamação e foi-lhe pedida uma indenização de 190 milhões de dólares. O tribunal não condenou Elon Musk, mas a reputação foi abalada e o risco foi corrido, claro.
E esse risco, mais a questão do prêmio, tudo motivos para que os investidores queiram agora retirá-lo dos comandos da empresa. A assembleia geral de acionistas da Tesla estava marcada para o dia 7, daqui a uma semana, mas foi, entretanto, adiada para setembro. É já daqui a dois meses e é assim que Elon Musk pode ser apeado, mesmo no momento em que não queria nada ser travado.
E hoje é com os Queen que chegamos ao fim de mais um Zoom das Manhãs 360, com o Paulo Ferrario e o Miguel Cordeiro. Se não ouviu desde o início, pode sempre fazê-lo através de podcast. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.