Às cinco da manhã desta terça-feira, Francisco Lufinha vai fazer-se ao mar para bater um recorde. A travessia em kitesurf vai ligar as Ilhas Selvagens e o Funchal, num percurso de 300 quilómetros que pode durar entre 10 e 15 horas, sem paragens. O frio e o vento serão, previsivelmente, os principais inimigos da viagem.
Em 2013, Francisco Lufinha partiu da Foz do Douro, no Porto, em cima de uma prancha. 564 quilómetros e 29 horas depois, sem direito a qualquer paragem, chegou a Lagos, naquela que foi a primeira etapa da “Mini Kitesurf Odissey”. “Depois disso eu fiquei com o sonho de percorrer todo o território português em kitesurf e este ano pegámos no território mais a sul, as Selvagens, num desafio mais extremo”, disse Francisco Lufinha ao Observador, a partir do único telefone fixo existente nas Ilhas Selvagens.
Apesar da distância a percorrer ser menor – 300 quilómetros – o atual desafio é mais exigente. “Desta vez vou viajar no inverno, logo temos o fator frio”. Uma ameaça forte quando se está a falar de 10 a 15 horas de viagem. “Com o corpo sempre na mesma posição há perigo de cãibras. Eu estou a apanhar a frente polar que também está a afetar o Continente”, disse, ainda que a água esteja “quentíssima”, o que, ainda que sem termómetro que ateste, deverá andar a rondar os 20 graus celsius.
Depois, “o sistema de ventos é muito mais instável” do que aquele que enfrentou na viagem entre o Porto e o Algarve. A viagem será feita de sul para norte, pelo que o vento é o risco número um. “Se o vento falhar eu fico parado e se for muito forte eu posso não aguentar porque vou contra o vento. Entre as Desertas e o Funchal a probabilidade de o vento cair e eu não conseguir chegar é alta”. Para evitar surpresas, Francisco e a equipa que o acompanha estão em contacto permanente com o Instituto Hidrográfico. Para esta terça-feira estão previstos 20 nós de vento leste, ou seja, o desportista vai fazer a viagem com o vento de lado, tarefa exigente em termos musculares. “Sempre é melhor do que o habitual vento nordeste”, disse, otimista.
Ao lado de Francisco Lufinha segue a embarcação de apoio, com cinco tripulantes “que também vão sofrer bastante por causa do impacto nas ondas”, explicou. As previsões indicam que as ondas podem chegar aos 10 metros de altura. Outro dos perigos está logo na saída. “Tem sido complexo porque nós desembarcamos em rochas, a própria embarcação de apoio pode perder-me e depois para me virem buscar é complicado. A tudo isto junta-se o facto de estarmos há três dias a dormir quatro horas por noite, o que torna tudo muito mais exigente. Mas estamos com moral e vamos conseguir”, disse, confiante.
Francisco Lufinha com a embarcação de apoio. ©www.facebook.com/franciscolufinha
O kitesurf poderá atingir velocidades elevadas. Ao todo vão ser percorridas 160 milhas, o equivalente a 300 quilómetros. Para Francisco conseguir cumprir o objetivo de fazer a viagem em 10 horas terá de fazer 16 milhas por hora. A equipa aponta a hora de chegada ao Funchal para as 17h00 de terça-feira. Para que nada falhe, Francisco vai antecipar a hora de saída das Selvagens e vai partir às cinco da manhã, com a Lua Cheia como única luz no céu. “Esperemos que não estejam muitas nuvens”.
Se a segunda etapa em kitesurf correr bem, Francisco Lufinha promete que haverá mais. Se não correr bem, já valeu pela estadia nas Ilhas Selvagens. “Isto é espetacular. Estive a enviar vídeos e fotografias e para conseguir tive de subir a uma falésia para conseguir ligar o equipamento de satélite. Estamos a falar de coisas extremas”, contou. E, claro, já esteve perto das famosas cagarras. “Faltou tirar uma fotografia”, disse, entre risos.