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A viagem estava planeada há meses e a data de Friedrich Merz partir para Nova Iorque, para a Assembleia Geral das Nações Unidas, aproximava-se. Porém, na passada terça-feira, uma semana antes da data prevista para o discurso do chanceler alemão, surgia a informação de que Merz não ia participar na cimeira de alto nível. “A sua presença é necessária em Berlim”, justificou um responsável do Governo ao Politico.
Em causa está o momento tenso que o Governo alemão atravessa. A crise de popularidade que Merz atravessa tem vindo a consolidar-se há meses, mas setembro trouxe um novo golpe para o chanceler da CDU, com a vitória histórica da Alternativa para a Alemanha (AfD, na sigla em alemão) nas eleições regionais de Saxónia-Anhalt. Face ao resultado, a taxa de reprovação de Merz subiu para cima dos 80%. Este domingo, o Executivo enfrenta um novo desafio, com as eleições regionais em Meclemburgo-Pomerânia Ocidental, onde as sondagens também colocam o partido da extrema-direita na liderança. Os alemães também vão às urnas na região de Berlim, onde a CDU pode sofrer uma terceira derrota, desta vez para uma coligação de esquerda.
É este o contexto que levou Merz a desistir da visita a Nova Iorque. Em Berlim, o chanceler estará a trabalhar para reunir apoio suficiente dos conservadores de forma a blindar a sua liderança do Governo, sob ameaça da AfD. Terá sido com esse propósito que Friedrich Merz convocou uma reunião da liderança da CDU para este domingo à tarde, antes da hora de fecho das urnas. A reunião serve como “uma demonstração de unidade” em torno do chanceler, descreveu um membro sénior do partido ao The Guardian.
▲ A vitória histórica da AfD na Saxónia-Anhalt acelerou a queda de Merz
AFP via Getty Images
Todavia, o encontro também terá como objetivo, segundo o Politico, testar o apoio do partido, a sua capacidade de sobrevivência e, em último caso, avaliar cenários alternativos. Por agora, Merz continua a resistir às pressões para apresentar a demissão. “Fomos eleitos para [um governo] de quatro anos. E quero usar esses quatro anos para tirar o país desta fase difícil. O resultado amargo do dia 6 de setembro na Saxónia-Anhalt não muda absolutamente nada neste objetivo“, declarou esta semana numa conferência da associação comercial BGA em Berlim.
Mas se os piores resultados possíveis se concretizarem no domingo, a pressão pode tornar-se incomportável. Uma fonte da CDU ouvida pelo Financial Times declarou que há um “consenso alargado” dentro do partido em como um mau resultado em Meclemburgo-Pomerânia Ocidental “iria mudar completamente a dinâmica”.
A lutar pelos 5%. A CDU em Meclemburgo-Pomerânia Ocidental
Apesar de estar entre os maiores estados da Alemanha, Meclemburgo-Pomerânia Ocidental tem apenas cerca de um milhão e meio de habitantes, uma das taxas mais pequenas de população imigrante, poucos trabalhadores qualificados e uma população envelhecida. Destas características resulta um retrato sociológico semelhante às restantes regiões do leste da Alemanha: um Estado social que se tornou praticamente insustentável e um terreno fértil ao populismo da extrema-direita alemã.
▲ Os resultados em Meclemburgo-Pomerânia Ocidental são positivos para um SPD em queda
FILIP SINGER/EPA
À semelhança do que aconteceu na Saxónia-Anhalt, as sondagens apontam para uma vitória da AfD, com perto de 37% dos votos. Contudo, ao contrário do que aconteceu no início do mês, o segundo lugar não é ocupado pela CDU, mas pelo SPD. Liderados por Manuela Schwesig, os sociais-democratas reúnem 34% das intenções de voto o que pode ser suficiente para disputar a liderança do governo regional com a AfD. Os especialistas atribuem o sucesso da campanha do centro-esquerda à elevada popularidade de Schwesig, que tem centralizado a corrida à sua volta, sob o lema “uma mulher contra o azul”, a cor do partido de Alice Weidel.
Porém, a estratégia de campanha de Schwesig não caiu bem aos dirigentes regionais da CDU, que acusam a líder do centro-esquerda de estar a roubar votos aos outros partidos, o que só ajuda a campanha da extrema-direita. Enquanto, a nível federal, o SPD é parceiro de coligação da CDU, em Meclemburgo-Pomerânia Ocidental, Schwesig conseguiu distanciar-se da queda livre de Merz.
Mesmo sem ser possível confirmar as acusações dos dirigentes da CDU relativamente à transferência de votos para a AfD, a verdade é que as sondagens indicam que os conservadores terão o seu pior resultado da história. Uma sondagem publicada a três dias das eleições coloca a CDU com 6,5% das intenções de voto, uma queda de 0,7% em relação ao estudo anterior — a margem de erro coloca a CDU muito perto dos 5%, o valor mínimo necessário para conquistar lugares na assembleia regional. Ou seja, se não conseguir conquistar pelo menos 5% dos votos, a CDU irá ficar pela primeira vez fora do parlamento de Meclemburgo-Pomerânia Ocidental. Se este resultado se verificar, “vai instalar-se o caos” dentro do partido, garantiu um responsável da CDU ao Politico.
▲ O "caos pode instalar-se" na CDU se os piores resultados se confirmarem
RONALD WITTEK/EPA
Mas o simples facto de a corrida regional estar a ser disputada entre a extrema-direita e o centro-esquerda já resulta numa atmosfera “febril”, caracteriza o cientista político Andreas Busch ao Financial Times. Isto porque a corrida é uma inversão dos papéis que se têm verificado na política nacional, onde o SPD tem estado em queda desde os Governos de Olaf Scholz e a CDU “costumava ser o partido da estabilidade e senso comum”.
O risco de perder a Câmara da maior cidade-estado. A CDU em Berlim
Kai Wegner é presidente da Câmara de Berlim desde 2023 e preparava-se para assumir um segundo mandato à frente da cidade-estado. Contudo, as críticas à sua gestão da crise provocada por um ataque à rede elétrica de Berlim, em janeiro deste ano, resultaram numa queda nas sondagens que acabou por levar Wegner a retirar a candidatura. A troca de Wegner por Stefan Evers, o seu ministro das Finanças no governo regional, não foi suficiente para inverter a tendência.
Uma sondagem da Wahlen para a ZDF na semana antes das eleições coloca à frente o Die Linke, o partido da extrema-esquerda, com 22% das intenções de voto. A CDU aparece logo atrás, com 20% das intenções de voto. No entanto, uma soma de todos os partidos da esquerda (Die Linke, Verdes e SPD) rapidamente atira esse hemisfério político para os 49%, muito perto da maioria absoluta. Apesar de o Die Linke em Berlim, encabeçado por Elif Eralp, estar decidido a conquistar a cidade-estado e a equilibrar os governos da extrema-direita em duas regiões com um governo que possa juntar diferentes partidos de esquerda na maior cidade da Alemanha, a ideia de governar em coligação não reúne o apoio das bases.
“Queremos continuar a gerir a miséria deste governo em conjunto com o SPD e os Verdes, como tem acontecido no passado — ou queremos fazer de Berlim o coração da resistência?”, questionou um grupo de militantes do Die Linke num comunicado em que recusam governar a cidade em coligação com o centro-esquerda.
O cenário em Berlim é claramente muito menos pessimista para a CDU do que em Meclemburgo-Pomerânia Ocidental: a esquerda leva apenas dois pontos percentuais de vantagem e qualquer hipótese de formar governo depende de negociações à esquerda que se antecipam difíceis. A confirmar-se, o resultado reflete, ainda assim, a tendência generalizada de queda dos conservadores: é uma descida de oito pontos percentuais em relação às últimas eleições de Berlim.
E, tudo somado, é mais uma fonte de preocupação para um Governo já assoberbado por dificuldades. “Se a CDU se sair mal em Berlim e perder o presidente da Câmara, então muita pressão vai ser exercida sobre Friedrich Merz”, antecipa Wolfgang Muno, professor de ciência política na Universidade de Rostock, à Associated Press.
▲ O Die Linke procura equilibrar a preponderância da AfD conquistando a cidade de Berlim
CLEMENS BILAN/EPA
CDU não quer iniciar “manobra arriscada” de trocar Merz no atual contexto internacional
Alimentada pelos bons resultados eleitorais, a AfD apontou baterias ao Governo federal, que quer ver “substituído até ao Natal”. Contudo, a ideia de mudança também reúne apoiantes entre os conservadores. “Isto não é só sobre Friedrich Merz, mas ele é parte do problema. E é por isso que, infelizmente, não vamos conseguir ganhar mais eleições com este chanceler”, alertou Clara von Nathusius, líder da ala jovem da CDU, em entrevista no passado sábado.
Para outros conservadores, os riscos de substituir Friedrich Merz sobrepõem-se aos benefícios. Entre as preocupações contam-se fatores internos, mas também externos. Holger Schmieding, economista do banco Berenberg, salienta ao Financial Times o risco de empreender uma “manobra arriscada” contra uma “coligação que tem apenas uma pequena maioria”. Ao mesmo jornal, dois responsáveis do partido apontam ainda preocupações com a escolha de um sucessor. O nome mais falado é o de Hendrik Wüst, líder da região de Renânia do Norte-Vestfália, mas a maior região alemã em população vai a eleições em abril do próximo ano — a janela para Wüst avançar para a liderança da CDU ou focar-se em ser reeleito como líder regional é demasiado curta e, caso escolha a primeira opção, poderia estar a abrir uma crise de sucessão na liderança de Renânia do Norte-Vestfália que a AfD poderia instrumentalizar.
De qualquer modo, tanto Wüst como Markus Söder, líder regional na Bavária e outro nome apontado como potencial sucessor, não demonstram qualquer interesse em derrubar Merz. Pelo contrário, vão participar na reunião de domingo e declararam esta semana o seu apoio à manutenção do chanceler. Uma carta assinada por Wüst e outros sete líderes regionais não é propriamente uma blindagem a Merz, mas destaca um contexto internacional pouco propício a manobras internas.
▲ Hendrik Wüst é apontado como possível sucessor de Merz, mas declarou o seu apoio ao chanceler, em nome da estabilidade
dpa/picture alliance via Getty I
“No próximo ano, realizar-se-ão eleições parlamentares na Polónia, em Itália, em Espanha e na Grécia, e eleições presidenciais em França. Os resultados são incertos. Isto torna ainda mais crucial uma Alemanha estável e forte numa Europa unida”, pode ler-se na carta, em que acrescentam que o país “vai continuar a precisar de um governo federal estável e eficaz”. O destacar das eleições presidenciais francesas não é inocente — com a extrema-direita à frente nas sondagens, os conservadores alemães olham atentamente para as consequências dessa mudança no eixo franco-alemão e, consequentemente, na sua preponderância na Europa.
Se este apoio interno sobreviver ao pior cenário possível no domingo, o mais provável é que Merz volte a empreender movimentações dentro do Governo, em busca de uma renovação. Contudo, esta ferramenta já foi utilizada e, como a situação atual comprova, não assegura a sustentabilidade a longo prazo.