País

Crónica de um cidadão consciencioso que decide que terreno quer pisar

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A Junta de Freguesia de Campolide, em Lisboa, perguntou aos fregueses o que querem para o seu chão: calçada ou betão. E a resposta foi pelo fim da calçada portuguesa.

Campolide, freguesia afamada pelo transporte de água (noutros tempos), decide agora o que fazer com o chão

Gonçalo Villaverde/Global Imagens

Autor
  • João Pedro Pincha

O trânsito entre o Chiado e o Largo do Rato está infernal. De onde veio esta gente toda? A situação é de tal modo grave que o taxista pondera voltar para trás, beijar o Tejo e subir pela Infante Santo. Que desvio! Faria perder muito tempo e podia não ser lá muito eficaz: quem sabe quantos outros lisboetas não tiveram ideia semelhante… Inopinadamente, eis que os automóveis parecem escassear junto ao Príncipe Real e, mais rápido do que as previsões pessimistas fariam prever, vai dar para chegar a Campolide.

A pressa era escusada. Haverá seis pessoas a receber quem quer que queira votar até às 22h. Sim, votar. Entre quarta e quinta-feira, a Junta de Freguesia de Campolide, em Lisboa, promoveu um “processo de partilha de decisão”. Uma “consulta popular”. Um referendo, vá. Em discussão: que terrenos querem os campolidenses pisar? A tradicional calçada portuguesa ou outro tipo de pavimento?

O boletim de voto é surpreendentemente extenso.

Na sequência do Protocolo de delegação de competências em que a Câmara Municipal de Lisboa delega na Junta de Freguesia de Campolide a competência de recuperação da pavimentação de algumas vias de trânsito pedonal da Freguesia de Campolide, qual a sua preferência de tipo de pavimento a colocar nas ruas da freguesia que a Junta de Freguesia de Campolide vier a intervencionar?”

Hipóteses:

Calçada, tradicional, à semelhança do que já existe

Outro tipo de pavimento contínuo, mais moderno e seguro

Não se notará nestas hipóteses uma ponta de enviesamento? André Couto, presidente da junta, ri-se entusiasmado e nega partidarismos. Houve “uma grande preocupação com a isenção” em todo o processo, diz, e ele próprio absteve-se de opinar nos vários debates que a autarquia promoveu nos últimos tempos. “Podíamos ter decidido nós”, resume. Por terras lusas, costuma ser assim, mas André Couto foi aos países nórdicos buscar inspiração. Segundo ele, perguntar às pessoas que usam a rua que tipo de rua querem, é “uma forma inovadora de participação democrática” que dá “credibilidade à democracia”.

Falem então os parcos cidadãos que pelas 18h se encontram a votar. A maioria dos eleitores já exerceu o seu direito durante o dia, mas o entusiasmo de quem vem só agora não parece menor. “Acho lindamente que envolvam as pessoas da freguesia”, diz uma sorridente Graça, que não pôde participar em nenhum dos debates mas foi acompanhando a querela argumentativa nas páginas do boletim da junta. Essas leituras, “a mim pessoalmente ajudaram-me a formar uma opinião”, opina inopinadamente, quando já se retirava da assembleia de voto onde manifestou que o melhor era manter a calçada tal como está.

Percebo as questões de segurança, mas daquilo que vi no debate nem esse problema se colocaria”, afirma. E foi com esse argumento que convenceu a vizinhança a vir votar. Todas na mesma direção.

Junto das mesas de voto não se dá abébia sobre tendências eleitorais. O mais que podemos saber, da boca das seis pessoas que guardam as urnas para os cidadãos com nomes de A-H e de J-Z, é que a afluência tem sido boa e excedeu as expectativas. Num universo de cerca de 15 mil cidadãos recenseados, “umas centenas” vieram quarta e outras tantas vieram quinta. Se chegarem a 10% dos eleitores, “é ótimo”, atiram.

18h50, momento para a fotografia: André Couto vota. É o culminar de um dia que “está um caos”, mas no bom sentido, apressa-se a dizer. “A máxima da junta é a proximidade com as pessoas”, diz depois, relatando o que já ouviu da boca dos fregueses nestes dois dias. “Há muita gente que traz o feedback: ‘eu sinto que estas eleições influenciam mais a minha vida do que outras'”.

E provavelmente têm razão. Numa freguesia em que todos – todos – os quarteirões têm uma média de idade superior a 65 anos, “o piso não acompanha a estrutura etária e a qualidade física das pessoas”, argumenta o presidente, que indica três arruamentos onde a intervenção é mais urgente: a Rua de Campolide, a Rua General Taborda e o Alto do Carvalhão.

O cidadão consciencioso não precisava de se ter apressado, já o dissemos. Se a escolha que fez foi em consciência, já foi uma grande vitória da democracia.

Dos cerca de 350 eleitores que votaram, 61,5% optaram pela novidade e abandonaram a calçada portuguesa em troca de um pavimento mais seguro. Sem abstenções e com apenas um voto nulo, o exercício democrático ajudou a definir o chão que pisam os cidadãos de Campolide.

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