Moda

Artes e ofícios portugueses transformados em roupa

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Enquanto o futuro permanece incerto, as oficinas de artes decorativas da Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva são a inspiração de uma nova coleção da Bainha de Copas.

As clutches reproduzem padrões encontrados na Fundação e borlas feitas na oficina de passamanaria.

Ana Grangeia Neves

Em vez de atirar a toalha ao chão, a Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva (FRESS) resolveu vestir uma blusa de seda e pôr um lenço ao pescoço. Enquanto as notícias se enchiam de expressões como “crise no GES”, “perda de mecenato” e “futuro incerto”, as agulhas da Bainha de Copas corriam a toda a velocidade para pôr de pé a coleção que é apresentada esta quinta-feira, 28, na casa que funciona também como escola e Museu de Artes Decorativas Portuguesas.

A parceria nasceu precisamente dos tempos conturbados: de um lado a FRESS, à procura de fontes de financiamento alternativas depois do colapso do Grupo Espírito Santo, seu principal mecenas e financiador, mas também a tentar abrir a casa e mostrar que não há apenas cómodas de estilo D. Maria a serem feitas no número 2 do Largo das Portas do Sol, em Lisboa. Do outro lado a Bainha de Copas, uma marca que tem vindo a transformar o património nacional em moda, dentro de um conceito chamado “Portuguese Wearitage” (qualquer coisa como “herança para vestir”) e que teve um dos seus pontos altos no momento em que Mariza usou uma saia cheia de azulejos perante 400 milhões de pessoas, na cerimónia de abertura da Liga dos Campeões, em maio do ano passado.

Conceição Amaral, presidente do conselho de administração da Fundação, viu uma dessas saias e lançou a Graça Martins, a cabeça à frente da Bainha de Copas, o desafio de desenhar uma coleção inspirada nas 18 oficinas de Artes e Ofícios que funcionam dentro da FRESS há 62 anos e empregam cerca de 60 pessoas. “A primeira coisa que eu pensei foi: ‘como é que vou pegar em peças de roupa e surpreender estas pessoas que estão habituadas a fazer coisas tão bonitas?'”, conta Graça, que assim que entrou na fundação ficou refém da oficina onde se encadernam e decoram livros a ouro, com ferros aquecidos, mas também da passamanaria (arte de adornar tecidos) onde uns enormes teares que parecem engolir mestres e aprendizes transformam fios de seda em galões com padrões elaborados.

“Assim que entrei os meus olhos já não se conseguiam desviar daquilo”, diz a empresária, que escolheu precisamente esses três ofícios — Encadernação e decoração de livros a ouro, Batedor manual de ouro e Passamanaria — para a primeira coleção FRESS by Bainha de Copas, uma linha que inclui lenços de seda e de homem, saias de cintura subida, blusas de seda, clutches e tops de linho mais acessíveis.

“Todas as peças têm um apontamento das oficinas”, diz Graça, referindo-se por exemplo aos botões de madeira forrados com fio de lã mercerizada que apertam as blusas, mas também às borlas — daquelas que mais habitualmente se veem nos cortinados — penduradas no fecho das clutches. Todas se inspiraram também em materiais ou pormenores encontrados na fundação, como o papel marmoreado usado nas guardas dos livros, que deu origem a um dos padrões mais marcantes, ou a folha de ouro, reduzida a milímetros de espessura através de um processo artesanal demorado (e muita força de braços).

“Esta coleção implicou muito tempo nas oficinas, a tentar perceber os ofícios”, conta Graça, que juntou uma equipa de propósito para o projeto e visitou a fundação “umas 15 ou 20 vezes”. Por isso mesmo, a parceria acabou por dar origem não apenas a uma linha de moda mas também a uma exposição que inaugura quinta-feira, às 18h30, e onde os retratos de sete mestres e aprendizes, feitos por Luís Mileu, são acompanhados de entrevistas conduzidas por Ana Gabriela Pereira onde os artesãos falam do seu trabalho mas também do processo pelo qual a Fundação está a passar.

“Vim para cá aos 19 anos porque sempre gostei de trabalhar com as mãos”, diz Teresa Romão ao Observador. Com 51, trabalha na oficina de encadernação, onde faz decoração e douramento de livros a partir de uns ferros com motivos tão variados como flores ou cenas de caça. “Tento passar todo o testemunho desta arte tal como me passaram a mim, e achei [esta colaboração] uma ideia fantástica.”

Leonor Dias, de 54 anos, é da mesma opinião: “Normalmente trabalhamos mais para a decoração, e não para a moda, mas tenho visto cada vez mais passamanaria em vestidos, sejam franjas ou galões”, diz, enquanto trabalha uns fios mesclados em forma de pompons. “Esta parceria é muito boa ideia e dá-nos ânimo para o futuro”, conclui. Afinal, a mestre em passamanaria soube o que queria fazer logo aos 12 anos: “A minha mãe trabalhava num alfaiate em Belas e em frente havia uma fábrica destas. Perguntei-lhe se podia ir para lá nas férias, fui e já não quis sair.”

Quem vai salvar a Fundação ainda não é certo, mas tudo indica que, até ao final do ano, as restantes profissões das oficinas — restauro, azulejaria, cinzelagem e marcenaria — darão origem a novas coleções.

Nome: FRESS by Bainha de Copas
Pontos de venda: Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva (Largo das Portas do Sol, 2, Lisboa) e loja online da Bainha de Copas, a partir de dia 28 de maio, às 18h30.
Preços: 45€ (tops de linho) e 255€ (blusas de seda com aplicação especial FRESS).

Se quiser visitar as oficinas, pode fazê-lo em visitas guiadas que custam 10€ (3€ para estudantes) e acontecem de duas formas: com marcação prévia (segunda a sexta das 10h00 às 13h00 e das 14h30 às 16h30, através do 21 881 4600/21 881 4639) ou sem marcação, com inscrição na recepção do museu (segundas e quartas às 11h00 e às 15h00, quintas às 15h00).

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