Beleza e Bem Estar

5 estratégias para comunicar melhor (em casa e no trabalho)

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Gesticular em demasia, não olhar nos olhos ou interromper continuamente a conversa. Estes são alguns dos erros apontados por Carla Rocha, a locutora que assina o livro "Fale Menos Comunique Mais".

Um dos pilares da boa comunicação, argumenta Carla Rocha, é a escuta ativa, uma realidade que acontece muito poucas vezes.

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Seja mais assertivo

A assertividade é tida como o mais diplomático dos estilos de comunicação e ganha pontos quando comparada aos estilos passivo e agressivo. O primeiro implica que não manifestemos a nossa opinião por uma questão de insegurança, dado que o que pensamos sobre um determinado assunto é automaticamente inferiorizado em relação à posição de terceiros; já o segundo tem por base fazer valer as nossas ideias passando por cima dos outros, com alguma agressividade à mistura. Como de habitual, no meio está a virtude: “Quando somos assertivos, somos claros no que queremos, isto é, dizemos claramente o que pensamos sem receio do que o outro possa achar”, garante Carla Rocha, autora do livro Fale Menos Comunique Mais (Manuscrito).

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O livro está à venda por 12,90€

A locutora de rádio que apresenta o programa Rocha no Ar, na RFM, explica que os nossos estilos de comunicação estão intrinsecamente ligados à personalidade, mas que também eles — à semelhança da confiança que vamos ganhando ao longo da vida — podem modificar-se com o tempo. Exemplo disso é a própria experiência da autora, que quando começou a carreira de falar sem dar a cara tinha um estilo “completamente passivo e permissivo”, associado a um complexo de inferioridade. Mas porquê apostar tanto na assertividade? Porque esta tem o potencial de reduzir drasticamente os conflitos e os recorrentes mal-entendidos, seja em casa ou no trabalho. Uma vez que somos claros no que dizemos, ficamos com a certeza de que a outra pessoa recebeu a mensagem tal como planeado, o que se pode traduzir numa redução significativa de ansiedade e/ou stress: “A assertividade elimina ruído na conversa, não há margem para equívocos.”

Acrescente-se ainda a importância de pensar antes de falar, o que difere de um ato encenado. “Costumo fazer esta analogia: quanto entrei na rádio disseram-me ‘nunca ligues um microfone sem saber o que vais dizer'”, conta Carla Rocha. A ideia a ter em conta é a linha de raciocínio que deve sempre anteceder a fala. Quantas vezes já deu por si a admitir que falou sem pensar? “Nós emitimos tudo o que nos vem à cabeça. Este compasso de espera, de parar para estruturar a ideia, não é encenação, até porque as conversas não têm guião. Estamos apenas a refletir no que vamos dizer.”

Pare para escutar

“O homem comum fala, o sábio escuta, o tolo discute”. A frase citada no livro de Carla Rocha diz respeito a um provérbio chinês que não só dá que pensar, como ajuda a corroborar a tese da locutora, que defende que escutar é um dos pilares da (boa) comunicação. No entanto, importa distanciar dois conceitos, uma vez que ouvir não é o mesmo que escutar. A explicação é simples: “Ouvir é involuntário. Ouvimos os pássaros ou as pessoas a falar na rua, mas não estamos a escutar. A escuta implica vontade, é o prestar atenção às pessoas.” Dito isto, a locutora explica que nas formações que dá sobre como comunicar, o maior desafio/problema apresentado pelos formandos é a incapacidade para escutar o outro, o que à partida até parece uma coisa muito simples de concretizar. Acontece muitas vezes estarmos a ouvir a pessoa (e não a escutá-la) porque estamos demasiado preocupados a pensar na resposta que vamos dar e, ao mesmo tempo, a emitir juízos de valor, explica a locutora. Esta é, por isso, uma faceta a trabalhar e oportunidades não vão faltar, uma vez que cada conversa pode servir de teste.

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Algumas técnicas para praticar a escuta ativa

  • Concentre-se na pessoa que fala consigo;
  • Repita na sua cabeça as mensagens mais importantes que recebeu, de maneira a seguir o rumo da conversa com mais facilidade;
  • Mostre que está a compreender o que lhe dizem mantendo contacto visual ou acenando a cabeça;
  • Evite interromper ou orientar a conversa;
  • Encoraje o outro a falar.

A ideia de escutar é particularmente importante para criar empatia entre quem fala e quem ouve. “Nós gostamos de ter atenção, de ser ouvidos. A partir do momento em que uma pessoa está lá para nós — considerando também que não está constantemente a interromper-nos –, é natural que haja empatia”, diz Carla Rocha, que defende que isto não acontece muitas vezes. Caso necessite de um exemplo, aqui fica um teste: se estiver a trabalhar neste preciso momento, desloque-se ao seu colega mais próximo e meta conversa — é muito provável que ele lhe responda sem desviar a atenção do computador ou do smartphone. É ainda relevante equacionar os momentos de silêncio na comunicação:

Quando comecei na rádio achava que tinha de preencher todos os silêncios. Mas quando temos uma comunicação importante, a pausa funciona como um bold, sublinha uma ideia. Cada vez que temos algo importante a dizer, uma boa ideia é fazer uma pausa e olhar olhos nos olhos. Isto é sobretudo válido para as pessoas que falam muito depressa.”

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Opte pela simplicidade da mensagem

Ponto número um, simplificar não é de todo tornar uma mensagem simplista. Ponto número dois, toda a estratégia da comunicação passa por clarificar e não escurecer o que se tem a dizer. “Como não vivemos na cabeça uns dos ouros, simplificar a comunicação faz com que o outro perceba o que disse e isto é meio caminho andado para criar uma ligação”, explica Carla Rocha. No entanto, a ideia de simplificar não tem de ser sempre posta em prática e é antes uma questão de sensibilidade. E caso tenha dúvidas, clarificar implica não só uma escolha acertada das palavras como um igualmente cuidadoso poder de síntese. “É a capacidade de dizer muito com poucas palavras, de limpar tudo o que está à volta.”

Ao contrário do que se possa pensar, saber comunicar eficazmente não implica dominar um extenso vocabulário. Nem implica memorizar um dicionário da língua portuguesa. (…) Para que a comunicação resulte é necessário que seja compreendida por todos os que a ela têm acesso e a melhor estratégia para o conseguir é falar a linguagem de quem ouve.”

Fale Menos Comunique Mais, página 46

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Conte mais histórias

As histórias são ótimas para explicar o porquê das coisas e para agarrar a atenção de quem escuta. São também o terror de quem não se acha capaz de fazer a vez de um narrador participante ou não participante, mas até para isto há solução: comece a contar as suas histórias sem vontade de as terminar, sem ter o fim à vista, aconselha Carla Rocha. “Não contamos uma história só por contar, mas sim com um propósito, uma aplicação para a audiência”, seja ela composta por colegas de trabalho, possíveis clientes, alunos inquietos ou a família que todos os dias o/a espera em casa. O truque, ou parte dele, é lembrarmo-nos de cenários com os quais os outros se possam identificar — “Somos seres humanos e os pontos em comum são muitos. As pessoas nunca se vão lembrar do bonito slide 33 ou do gráfico xis, isso não acontece. Mas se se contar uma história, vão-se lembrar”. Dito isto, eis alguns conselhos para se transformar num/a bom/boa contador/a de histórias:

  • não tente ter graça ou forçar a piada, deixe o público surpreender-se;
  • não demore muito tempo a contar algo, seja sintético/a;
  • crie momentos de suspense, deixe a audiência a pensar onde é que a história a vai levar;
  • crie imagens, uma realidade que ajuda a tornar a nossa mensagem memorável.
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Tenha atenção à linguagem corporal

A comunicação não depende apenas das palavras, até porque começamos a comunicar muito antes de proferirmos algo. Mesmo sem nos apercebermos, o nosso corpo fala por e antes de nós. “Não acredito que as palavras valham zero. A mensagem para mim é o principal, mas a postura pode ajudar a reforçá-la ou pode fazer exatamente o contrário”, defende Rocha. Uma postura agitada que implique, por exemplo, andar de um lado para o outro pela sala passa a ideia de que quem fala está desorientado ou perdido no raciocínio, mesmo que seja um verdadeiro entendido na matéria. O contrário também pode acontecer, o que ajuda a entender o poder transformador da linguagem corporal. “A questão da linguagem corporal resolvia-se muito facilmente se toda a gente se filmasse, para assim perceber o seu tom de voz e postura. Nós passamos a vida sem ter noção do que podemos melhorar”, atira a locutora. Mas antes de pegar no seu smartphone e de pedir a alguém para o filmar, tome nota do que deve e não deve fazer:

  • não gesticule muito, ao fazê-lo está a desviar a atenção de quem supostamente deveria estar a escutá-lo;
  • olhe nos olhos da pessoa com quem está a falar; é normal (e recorrente) olhar para cima ou em volta quando está a pensar, mas certifique-se que regressa sempre ao ponto de partida, como quem diz aos olhos da outra pessoa, de modo a criar uma ligação e a potenciar a comunicação;
  • mantenha as mãos afastadas do corpo, isto porque alguns psicólogos argumentam que tal pode indicar desconforto.

“Eu posso ser insegura, mas tendo noção da minha postura significa que aos poucos vou ganhando confiança. Há todos os motivos para retificarmos a nossa linguagem corporal”, conclui Carla Rocha.

ilustração de Milton Cappelletti.
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