A nossa aventura até aqui tinha sido um luxo. Sempre acompanhados de amigos, os nossos filhos entretidos com os deles, a passear e a comer à grande e muitas vezes à pala. Quando partimos de Bogotá para a cidade mais turística da Colômbia, Cartagena das Índias, ficámos pela primeira vez por nossa conta, entre o amargo das despedidas e o doce porvir do longo caminho que nos falta.

Inevitavelmente, fomos de cavalo para burro. Para o orçamento esticar, havia que poupar no alojamento. Quando reservei todos os hotéis — o meu lado quadriculado — , o grau de exigência foi mínimo: que permitissem crianças (a maioria dos hostels não aceita), que tivéssemos casa de banho no quarto e que não ficassem longe do centro da cidade. E reservei tudo para dois, logo se via onde os miúdos encaixavam — nenhum de nós quatro tem dificuldade em dormir em versão Tetris.

No caso de Cartagena, o espaço não foi problema — o quarto era amplo e tinha quatro camas (mas nem por isso deixámos de jogar Tetris). A localização muito menos: era só atravessar a marginal de Bocagrande, a zona dos hotéis, para termos os pés na areia. Só que o hotel onde eu tinha estado há 10 anos parecia não ter tido qualquer manutenção desde então: água turva na piscina, extintores muito fora da validade e paredes com rachas. Mas pior que rachas, só cucarachas — depois de uma feroz perseguição na casa de banho, lá consegui mandar a barata pelo autoclismo abaixo (sosseguem, senhores do PAN, as baratas sabem nadar, yo!).

Mas também não era caso para grandes lamúrias. A vista da nossa varanda para a praia e para a Cidade Velha compensavam o resto. E, com a água a 29ºC, o Manel, que até então fugia do mar a sete pés, perdeu o medo e o difícil era tirá-lo de lá. A Luísa, então, nem se fala, como pode ver na seguinte fotogaleria.

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Fizemos uma visita guiada pelos ex-líbris de Cartagena a bordo de uma chiva, o autocarro colorido de bancos corridos, que até há poucas décadas era o transporte mais comum na Colômbia. Subimos ao Convento da Popa para ver a vista, atravessámos os túneis do Castelo de São Filipe e terminámos com uma caminhada pela Cidade Velha, de arquitetura colonial, onde confluem várias histórias: importante porto comercial do Império espanhol, por onde saía ouro e prata; ponto de chegada dos escravos vindos de África, em cuja defesa se destacou São Pedro Claver; inspiração de Gabriel García Márquez, que tinha casa na cidade e quis que as suas cinzas por lá ficassem; zona turística bem explorada, com bons restaurantes e lojas sofisticadas.

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A cidade da eterna primavera

No avião que nos levou a Medellín, o meu vizinho do lado explicou-me como era difícil a vida naquela cidade, quando era considerada a mais perigosa do mundo. Com uma infância paralela à de Pablo Escobar (os seus pais eram conhecidos), Wilson contou-me como saiu ileso de um atentado numa festa, quando um grupo entrou a disparar sobre a banda e os convivas, no tempo em que o cartel de droga mais sanguinário dominava a cidade.

Mas a segunda cidade mais populosa da Colômbia está agora irreconhecível. O Senhor do Mal, como por aqui lhe chamam, foi morto em 1993 e, duas décadas depois, já quase ninguém do seu grupo está vivo. A regeneração urbana da cidade tem sido tremenda, com base num novo sistema integrado de transportes, que encurtou as distâncias sobretudo para os mais pobres, e também numa forte aposta na Educação e na qualidade dos espaços públicos. Um dos taxistas explica-nos que os paisas, nome dado aos habitantes da região de Antioquia, têm muito orgulho no que é seu e fazem as suas ideias tornar-se realidade. Pelo menos, assim parece.

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Aqui, voltámos a ser recebidos em casa por uma família amiga, com todas as mordomias — cama, mesa e roupa lavada (e este último aspeto é importantíssimo para quem só trouxe mudas para uma semana). A Carolina e o Saul também têm filhos pequenos, que se tornaram amigos da Luísa e do Manel. Com eles, confirmámos que na Colômbia não faltam espaços para as crianças: os centros comerciais têm autênticos parques de diversões e os restaurantes têm sempre um bom parque infantil.

Por poucos dias, perdemos três eventos importantes em Medellín: a final da Libertadores (a Liga dos Campeões da América do Sul), ganha pelo Atlético Nacional em casa; a Moda Colombia, que trouxe à cidade uma grande delegação portuguesa; e a Feira das Flores.

A cidade branca

Para cumprir o plano, partimos para o primeiro teste num autocarro de longo curso: uma viagem noturna de 11 horas, de Medellín para Popayán. Prova superada: ambos adormeceram pouco depois da partida, e tivemos de os acordar à chegada.

A cidade de Popayán não tem nada a ver com a dimensão das anteriores. É uma terra pacata, que se percorre bem a pé de uma ponta à outra. Ficamos alojados num hostel, onde contactamos pela primeira vez com o universo dos mochileiros internacionais.

Tiramos um dia para ir conhecer o projeto da Fundação Fedar, que diariamente recebe 130 crianças com necessidades especiais, numa quinta fora da cidade. Partimos com eles de manhã, no transporte escolar — uma chiva, lá está — e, enquanto os educadores nos fazem uma visita guiada pelas várias salas onde as crianças são estimuladas, com base na ligação ao cultivo da terra e nas artes, a Luísa e o Manel brincam alegremente com os meninos, que vão ficar no nosso álbum de memórias desta viagem, mesmo sem lhes termos tirado fotografias.

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Depois de um mês muito intenso e cheio de encontros na Colômbia, hoje vamos cruzar a fronteira para o Equador. A próxima crónica será escrita na latitude zero. Até lá, continue a seguir a nossa viagem no blogue O Verbo Ir, no Facebook e no Instagram.