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Banda Desenhada

“Revisão”, o melhor da banda desenhada portuguesa dos anos 70

Com o 25 de Abril, a BD portuguesa ganhou uma nova força. A estética conservadora deu lugar a desenhos coloridos e a temáticas políticas e libertárias. A "Visão" foi uma das revistas desse período.

A capa é uma ilustração de Isabel Lobinho, rejeitada para um dos número da "Visão"

Há exatamente 40 anos, saía o último número da Visão, revista icónica dos anos 70 que marcou um momento de viragem na arte e na banda desenhada portuguesa. Filha do 25 de Abril, a Visão era uma revista improvável, ousada, num país com graves problemas económicos, que aprendia, passo a passo, a viver com a liberdade recentemente adquirida. Nas suas páginas, reunia-se mensalmente o melhor da BD portuguesa, novas expressões plásticas e conteúdos que, com o fim da ditadura, podiam finalmente passar para o papel. Reunia-se a banda desenhada do pós-25 de Abril.

A importância da Visão é, por isso, inegável, apesar de, com o passar dos anos, as histórias e desenhos que enchiam as suas páginas terem caído no esquecimento. Hoje, vivem apenas na memória daquela geração de 70, que teve a sorte de folhear a mítica revista. Por essa razão, a Associação Chili com Carne decidiu recuperá-la, juntá-la a algumas histórias de outras publicações e criar Revisão, um livro que reúne o melhor da banda desenhada portuguesa dos anos 70.

Revisão faz parte da Coleção Mercantologia (é o volume 9) da associação sem fins lucrativos, criada em 1995 por um grupo de jovens artistas. Apesar de não ser uma editora, a Chili Com Carne acaba muitas vezes “por se transformar numa plataforma editorial para autores”, como referiu Marcos Farroja, da organização. “Apesar de não o ser, faz uma camuflagem e acaba por ter coleções”, brincou. “No caso desta, o objetivo é reeditar trabalhos que estão escondidos, material que saiu em fanzines, em tiragens muito limitadas”, como foi o caso da Visão.

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“As Aventuras de Cabral Eanes, de Carlos “Zíngaro”. Publicada na Visão #8, em novembro de 1975

A ideia não é de agora. “Já discutíamos isto há algum tempo”, admitiu Marcos. “Há algum tempo que achava que fazia sentido fazer uma espécie de best off da década de 70, porque é uma geração que mais tarde ou mais cedo vai desaparecer. Fazia sentido trazer isto ao de cima.” Porém, Revisão não pretende ser um livro nostálgico, muito pelo contrário. “Na Chili Com Carne não somos de nostalgias”, refere a introdução da obra. “Se nos metemos nesta aventura de recuperar BDs passados 40 anos é porque achamos que elas ainda têm a vitalidade necessária para serem (re)visitadas em 2016.”

Uma rotura com a BD tradicional

A Visão nasceu em 1975, pelas mãos de um coletivo de autores de BD portugueses. Foi a primeira do género e, durante 12 números, publicou quase exclusivamente material feito em Portugal. Além disso, marcou o início de uma nova era para a banda desenhada portuguesa, quebrando as amarras que a ligavam à estética do Estado Novo, conservadora e sem cor. Com a Visão, surgiu um novo grafismo, uma nova aparência, uma nova cor, que “não tem nada a ver com o realismo e o naturalismo que existia anteriormente“, explicou Marcos Farrajota.

Os temas de antigamente, conservadores e até nacionalistas, deram lugar a outros, que ainda hoje são pertinentes, como o aborto ou as drogas. “Acabam por não ser assim tão explícito, mas o simples facto de haver uma referência já é importante”, garantiu Marcos. Não é que os artistas de banda desenhada estivessem a tentar marcar uma posição, muitos deles “nem sequer estavam a pensar em nada disso”. “Estavam a fazer aquilo que lhes apetecia fazer.” Porém, é impossível negar — as bandas desenhadas da Visão são um reflexo da altura em que foram criadas. O espírito da década de 70 está lá.

Apesar de ter fechado portas em 1976, a Visão foi uma das revistas que mais tempo permaneceu no mercado. Por esse motivo, e também pela qualidade das suas edições, luxuosas para a época, foi uma das que mais se destacou. Para quem dava de caras com a publicação, era difícil não ficar a olhar para ela. As cores eram ácidas, os desenhos modernos. Tão modernos que podiam ter sido feitos “hoje, por um artista nascido algures nos anos 90”, como se pode ler na introdução de Revisão. “É uma coisa única, que faz um antes e um depois”, salientou Marco. Mas está longe de ser a única do género em Portugal.

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“O Menino e o Caixote”, de Mário-Henrique Leiria e Isabel Lobinho. Da Visão #9, de janeiro de 1976

Além de várias BDs da Visão, o livro da Chili Com Carne contém ainda bandas desenhadas retiradas de outras publicações da altura, como as fanzines O Estripador e Evaristo, o jornal &etc e o livro de Jorge Lima Barreto, Grande Música Negra. Revisão inclui ainda BDs inéditas de Mário Henrique-Leiria e Isabel Lobinho, de António Pinho e Carlos “Zíngaro”.

Revisão já se encontra à venda mas, por enquanto, só está disponível em algumas lojas e livrarias especializadas (a lista completa pode ser consultada no site da associação). Só em setembro é que chegará às grandes superfícies, como a FNAC.

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