Logo Observador
Dois filhos na mochila

Misfit, aquele hostel onde todos sabem o seu nome

424

Depois de carregarmos baterias em Cuenca, no sul do Equador, passámos três dias de sonho nas cabaninhas frente ao mar do Misfit, o hostel de um lisboeta na praia de Máncora, no Peru.

Estas são as quatro cabaninhas de um hostel muito especial.

Lembra-se da série “Cheers, Aquele Bar”, que tanto nos divertiu nos anos 80? Com as devidas diferenças entre um bar escuro em Boston e um hostel de praia em Máncora, no norte do Peru, o Misfit podia bem ser aquele sítio aconchegado onde toda a gente sabe o seu nome. É pelo seu caráter que está sempre cheio, mesmo tendo “as piores instalações da vila”, segundo confessa o próprio dono, para quem o maior problema é gerir as camas disponíveis, porque muitos dos que vêm por poucos dias acabam por prolongar a estadia. E entre os que já não conseguem vaga, muitos vão dormir a outro hotel, mas passam os dias no Misfit.

O segredo do sucesso está no ambiente que é incutido por Rodrigo Guedes, a alma do Misfit. O lisboeta de 38 anos fixou-se aqui há cinco anos, após uma viagem pela América do Sul que lhe mudou o destino. Foi aqui que conheceu Diana, a argentina que se tornou a mulher da sua vida, e decidiu abrir este hostel, que durante muito tempo liderou as classificações do TripAdvisor na localidade. A vida social acontece em torno das mesas do bar, onde propositadamente estão as únicas cadeiras; é ali que os hóspedes passam o dia, entre um mergulho e outro, a ler, conversar e tocar viola.

As quatro cabanas duplex têm em pinta o que lhes falta em condições. Não têm mais do que as camas e umas prateleiras feitas de caixas reutilizadas e, numa vila onde a água doce é muito escassa e cara, a que nos chega pela torneira é salgada, o que pode desmotivar os mais picuinhas. Umas paredes têm pinturas de cores garridas, outras são forradas com páginas de livros. Na nossa cabana tínhamos poesia de Pessoa (Portugal), códigos de Direito (o meu curso) e clássicos de Shakespeare (do país onde a Maria e eu nos conhecemos), não podia ser mais na mouche.

Este hostel é de gritos! #misfithostel #mancora #peru #buenaonda #travelwithkids

A photo posted by O Verbo Ir (@overboir) on

Quando soube que havia um português por estas bandas, cancelei outra reserva que já tinha e entrei em contacto com o Rodrigo, que nos abriu uma exceção à regra de que “meninos não entram”, comum neste tipo de alojamentos. Tal como no diálogo do Principezinho com a raposa, antes do encontro entre compatriotas fomo-nos cativando mutuamente, numa animada troca de e-mails. Quando finalmente chegámos ao Misfit e conhecemos o Rodrigo, foi amizade à primeira vista. O cachecol do Sporting pendurado entre as toalhas de praia foi a cereja em cima do bolo.

Durante três dias, conversámos horas a fio e rapidamente descobrimos amigos comuns (já se sabe que Lisboa é um T0). A Diana e o Rodrigo adotaram os nossos miúdos como sobrinhos: puseram-nos a fazer pinturas, encheram-nos de guloseimas e até nos levaram a passar o último dia num hotel “mais compostinho”, com piscina e um bom restaurante.

A estadia foi também uma verdadeira aula de Biologia para miúdos e graúdos: vimos pelicanos a voar sobre o mar, pássaros a pescar num veloz voo picado, um lobo-marinho que deu à costa e até o repuxo de uma baleia que nos fez uma visita.

Antes de entrarmos no terceiro país da nossa viagem, o Peru, tínhamos estado em Cuenca, cidade Património Mundial da Humanidade, no sul do Equador. Uma cidade pacata que palmilhámos a pé, e onde também aproveitámos para comer melhor — ficámos num hotel melhorzinho, com buffet de pequeno-almoço, e descobrimos um restaurante com uns ótimos camarões panados. Estávamos fartos de comer carne com arroz…

Contentes por termos chegado ao país do ceviche, estamos agora em Trujillo, onde vamos visitar as ruínas de Chan Chan e vamos levar os miúdos ao circo.

Hoje espera-nos a terceira viagem noturna da semana, que nos vai levar à capital do Peru, Lima. Na próxima crónica já estaremos às portas de Machu Picchu, um dos pontos altos da nossa viagem. Até lá, continue a acompanhar-nos no blogue, no Instagram e no Facebook.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Crónica

Quem viaja muito a trabalho tem sorte?

Ruth Manus

Viajar toda hora só é uma sorte quando tais viagens são por turismo voluntário ou por outra razão mais nobre. Viajar por necessidade ou por imposição não tem lá muita graça.

Maioria de Esquerda

Jogo da Glória: regras e regulamentos

Alberto Gonçalves
189

Na sua página do Facebook, um comentador lembra-lhe educadamente que, além de outras interessantes peculiaridades “culturais”, os ciganos também acham a homossexualidade uma “anomalia”. Recue uma casa