Como construir uma biblioteca milionária

07 Outubro 2017

Os livros parecem quase sempre arredados das colecções valiosas mas há preciosidades que garantem uma estante de valor acrescentado. Carlos Maria Bobone dá exemplos e explica como investir.

Os coleccionadores de arte dão filmes, figuras mundanas apetecíveis e certificados de sofisticação. Os coleccionadores de antiguidades também: parece que vivem noutro tempo, ainda rodeados de luxos palacianos, entre o requinte cortesão e a sensibilidade artística. As colecções, mesmo que não estejam em palácios do Loire mas sim em barracões de betão ultra-protegidos, podem ser um grande negócio. Todas as empresas têm as suas fundações com colecções de arte, numismática, ou jóias de toda a espécie. São um património estável, bem-visto, e financeiramente pouco arriscado.

Ora, os livros parecem, na maior parte das vezes, arredados desta equação. Fazem-se catálogos das preciosidades dos bancos e das fundações, em que o único livro que se vê é o próprio do catálogo. Sabe-se, volta e meia, de um excêntrico que compra incunábulos e primeiras edições, de acordo com as suas tinetas e o seu gosto, mas quantas pessoas investem em livros como quem investe em quadros? O livro pode ser um investimento seguro, fácil de transportar e de arrumar (depende da quantidade, claro) e com variedade suficiente para vários tipos de investidores. Quem quer entrar com pouco dinheiro de cada vez consegue, paulatinamente, ir valorizando a biblioteca; quem entra de rompante, a apostar tudo num cavalo, pode ter no bolso um livro do valor de uma casa.

É possível criar uma biblioteca milionária de várias formas; requer experiência, claro, paciência e disponibilidade. Há manhas e truques que é importante conhecer, mas com algum estudo, é possível olhar para a biblioteca como um verdadeiro investimento.

A primeira coisa que se deve fazer é escolher o tipo de biblioteca. Uma biblioteca especializada é sempre mais fácil porque, em primeiro lugar, o próprio colecionador consegue definir e perceber os preços daquilo que procura. Se ao fim de dez anos a colecionar livros sobre moedas, ainda lhe falta o Teixeira de Aragão, consegue perceber que este é um livro mais raro do que a Colecção Numismática do Banco Mello. Mais: se o assunto ainda estiver pouco estudado, pode ser que nem os próprios vendedores percebam a raridade do livro.

Erros comuns: em primeiro lugar, é preciso vincar que livros com cem anos não são livros antigos. Há avós mais antigas do que esses livros. Um livro só começa a ter um moderado interesse pelo simples facto de ser antigo a partir do século XVIII.

Rubem Borba de Moraes, bibliófilo brasileiro, conta no seu Bibliófilo Aprendiz que quando começou a colecionar livros sobre o Brasil era dos poucos que o faziam. A hierarquia dos preços não estava, assim, ainda estabelecida. Como em todos os negócios, a oferta até pode ser escassa, mas se não houver procura, o preço do livro também não sobe. Criar interesse por um tema pode, assim, chamar a atenção para ele e valorizar uma biblioteca que foi cerzida a partir de aparentes bagatelas. Se, porém, não quiser arriscar e se ativer aos temas tradicionais, ficam aqui alguns deles, com uma pequena lista de erros comuns e de curiosidades:

Livros Antigos

Erros comuns: em primeiro lugar, é preciso vincar que livros com cem anos não são livros antigos. Há avós mais antigas do que esses livros. Um livro só começa a ter um moderado interesse pelo simples facto de ser antigo a partir do século XVIII. Claro que Os Maias têm interesse, mas por serem os Maias, não por serem de 1888. Mesmo no século XVIII, há livros que não são raros. O Telémaco de Fénélon, as obras históricas de Voltaire e traduções de romances hoje desconhecidos encontram-se em qualquer casa de família. Missais, livros de direito e sobretudo de direito canónico, livros de orações e toda a sorte de canhenhos pios, mesmo do século XVII, podem valer cinco ou dez euros. Os vendedores habitualmente indignam-se e estrebucham de despeito, contrariamente ao que seria de esperar de quem dá tanta importância a hagiógrafos seiscentistas que escrevem em latim.

“Telémaco”, de Fénélon

Como investir?

Embora já não sejam tão comuns, nos livros do século XVI, se quisermos basear o nosso critério na antiguidade, o melhor é optarmos pelos incunábulos. Os incunábulos são os livros impressos com tipos móveis, entre 1455 e 1500. Nem todos são o Tratado de Confissom, que ainda hoje não se sabe por quanto foi vendido, mas só com muito azar se vende um por menos de mil euros. Pode não saber o que está lá escrito, pode não se interessar pelo assunto – os incunábulos interessam, mais não seja, pelo seu valor tipográfico. Claro que são raros, mas são os únicos livros que pode reconhecer como valiosos sem ter o mínimo interesse no conteúdo.

Livros Clássicos

Erros comuns: os livros sem capa, com a lombada estropiada, comidos pela traça, manchados de café, colados por humidade, roídos por ratos, rabiscados por crianças, embrulhados em fita-cola ou de páginas rasgadas não têm uma pátina que os valoriza. Livros assim não têm o desgaste natural do tempo, têm o desgaste de quem enfrentou sozinho o exército de Napoleão. É possível ter livros quinhentistas em perfeitas condições, pelo que não vale a pena comprar uma edição mutilada na ideia de que isso não interessa no livro antigo: o livro estragado não acompanha as cotações do livro em boas condições, pelo que o investimento é sempre arriscado.

Como investir?

A maneira mais fácil de construir uma biblioteca milionária é esta. Compra-se uma primeira edição dos Lusíadas, uma primeira edição do D. Quixote e com três tomos já tem uma biblioteca que ultrapassa o milhão de euros (claro que, se comprar o primeiro número do Super-Homem, tem uma biblioteca que vale o dobro só com uma revista).

A poesia costuma ter menor tiragem do que a prosa. Daí que primeiras edições dos Maias valham pouco mais de 100€, que a Aparição ou o Mau Tempo no Canal não cheguem a isso, e que seja possível encontrar primeiras edições de Júlio Dinis por vinte e tantos euros.

Se não tiver quatrocentos mil euros para investir nos Lusíadas, ou se não quiser esperar que apareça um, ou, ainda, se não quiser entrar nas controvérsias do pelicano para a esquerda ou para a direita, pode investir meia centena de milhares na Peregrinação. Conhecer a literatura clássica portuguesa é, neste caso, uma vantagem, porque não há grandes surpresas. Ainda em Maio deste ano a Vida de Dom João de Castro foi a leilão por 3500€, preço semelhante ao de uma Corte na Aldeia, ou clássicos desse jaez. Claro que a antiguidade e a importância influenciam, e há casos enganadores: a primeira edição do Soldado Prático é muito posterior à morte do autor, já mais que conhecido, pelo que as tiragens e a época fazem o preço descer para a casa das centenas (se tanto) e não dos milhares. No resto, seguir o cânone, até ao século XVIII, é seguro.

Primeiras edições modernas

Erros comuns: a primeira edição só interessa se for rara. As edições de Saramago, já dono do prémio Nobel, com uma tiragem de milhares e milhares de exemplares, talvez não pagassem o papel em que foram impressas. Mesmo noutros casos, é preciso ter em conta o universo de leitores e, sobretudo, de leitores dispostos a pagar mais por uma curiosidade bibliográfica. Uma tiragem de 1000 exemplares não é, em circunstância alguma, uma tiragem pequena – nem em França ou nos Estados Unidos uma primeira edição de mil exemplares é rara.

Como investir?

A poesia costuma ter menor tiragem do que a prosa. Daí que primeiras edições dos Maias valham pouco mais de 100€, que a Aparição ou o Mau Tempo no Canal não cheguem a isso, e que seja possível encontrar primeiras edições de Júlio Dinis por vinte e tantos euros. Em contrapartida, a Mensagem ou o podem valer à volta de 3.000€, livros do Teixeira de Pascoaes e de Mário de Sá-Carneiro possam valer muitas centenas e a revista Presença completa (duas séries e número comemorativo, mais vulgar) chegue aos 10.000€.

Primeira edição de “Os Maias”

É preciso cuidado com a poesia moderna, porém, porque o estatuto canónico dos autores ainda não está bem definido. Hoje em dia é Herberto Helder que sofre da excitação com as suas primeiras edições; porém “os Rochas” (livros que Miguel Torga assinou ainda com o verdadeiro nome, Adolfo Rocha) chegaram a vender-se por milhares que hoje em dia já não atingem.

Livros de Arte

Erros comuns: os livros de arte são, por natureza, livros caros. A impressão é dispendiosa, normalmente há um apuro gráfico que também custa e um pretenso luxo que aumenta o preço do livro. Estes livros, no entanto, têm uma tendência grande para se desvalorizarem. Houve tempos em que Os Primitivos Portugueses ou o Reynaldo dos Santos se vendiam por várias centenas; hoje em dia, é difícil vender os primitivos por mais de 40 euros: a tecnologia torna a qualidade das reproduções obsoleta, o que, num livro de arte, tem maior importância do que em qualquer outro lado.

Como investir?

Há alguns livros, como a Lisboa, Cidade triste e alegre, que mantêm há muito tempo um preço alto (neste caso, à roda dos 3.000€). Para garantir que o preço não baixa, porém, o mais fácil é encontrar um marco que não desvalorize. Na Crónica de Nuremberg, de Hartmann Schedel, por exemplo, está pela primeira vez representada a cidade de Lisboa numa gravura. Mesmo que a representação não seja minimamente fiel, isto basta para que o livro nunca venha a desvalorizar.

Nos livros franceses, uma primeira edição pode valer uma ninharia. Isto porque normalmente há um pequeno aviso no princípio ou no fim, a dizer que daquela edição de 1000 exemplares foram tirados 50, numerados e assinados pelo autor, revestidos a pêlo de unicórnio e impressos em seda.

Livros Estrangeiros

Erros comuns: o investidor mais cosmopolita pode aventurar-se pelo infindável mundo das edições inglesas e americanas, francesas ou alemãs. Não espere, no entanto, encontrar reconhecimento pátrio: de nada vale que em França se venda a primeira edição da Viagem ao Fim da Noite por 3.000€; em Portugal, não consegue 300 por ela. É certo que, em mercados maiores, as possibilidades de negócio são maiores, no entanto, a exigência também aperta. Há regras que nunca esperaria ver aplicadas em Portugal

Como investir?

Nos livros franceses, uma primeira edição pode valer uma ninharia. Isto porque normalmente há um pequeno aviso no princípio ou no fim, a dizer que daquela edição de 1000 exemplares foram tirados 50, numerados e assinados pelo autor, revestidos a pêlo de unicórnio e impressos em seda. Ora, são essas as edições que realmente valem dinheiro. Em Inglaterra, as gralhas dão dinheiro.

O exemplo mais conhecido é o da Wicked Bible, rara à conta de uma gralha que fez esquecer o “não” em “não cobiçarás a mulher do próprio”; uma primeira edição do David Copperfield, porém, passa de 4.000 para 12.000€ se tiver uma gralha na página 16. Inglaterra tem um dos mercados mais pujantes de primeiras edições de livros modernos; mas tem, também, um dos mais picuinhas: de nada adianta comprar primeiras edições de P.G. Wodehouse ou de Agatha Christie sem atenção aos pormenores: sem sobrecapas, por exemplo, não valem absolutamente nada.

“The Wicked Bible”

Todos os tipos de livros têm as suas regras e as suas precedências. Um autógrafo de Jorge Amado, que os distribuía com grande prodigalidade, nada aumenta o valor de um livro; porém, se uma folha insignificante confirmasse a assinatura de Camões, teria grande valor. Há temas tradicionalmente mais caros – caça, touros, cavalos, etnografia – e outros certamente por explorar. Há curiosidade estranhas – o estado actual das pescas, por exemplo, tem um peixe que borra o livro e tira muitos dos cento e tal euros do seu valor, e pormenores engraçados. Como investimento, pode não ser dos mais cotados, mas será dos mais interessantes.

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