Autárquicas 2017

Manuel Pizarro apanhado numa espiral de silêncio?

Autor

A acreditar na tese de Noelle-Neuman, a única hipótese de vitória de Pizarro está em alterar esta perceção dos portuenses, sobretudo dos indecisos, fazendo-os acreditar que ganhar é possibilidade real

Duas sondagens publicadas esta sexta-feira apresentam resultados bastante diferentes sobre as eleições para a Câmara do Porto. Na sondagem do “Jornal de Notícias”, realizada pela Universidade Católica, Rui Moreira e Manuel Pizarro aparecem empatados tecnicamente. Na do Correio da Manhã e da Aximage, é atribuída uma vitória com maioria absoluta a Rui Moreira. Qual das sondagens é mais credível?

Em 1940, Paul Lazersfeld e a sua equipa realizaram um estudo no Condado de Erie, Ohio, que resultaria na publicação em 1944 de The people´s choice. Este livro tornou-se um marco. Afinal, nas eleições, a influência dos media era menor do que se pensava até então.

Os líderes de opinião dos grupos a que cada indivíduo pertence (amigos, colegas, família) são mais importantes no seu processo de decisão. Foi nessa obra que surgiu o conceito de efeito do carro-ganhador (bandwagon effect). Os indivíduos, em especial os indecisos, votariam no “último minuto” baseados na sua perceção de “quem está à frente” na corrida.

Trinta anos depois, em 1974, a cientista política alemã Elizabeth Noelle-Neumann publicou um dos artigos mais influentes sobre sondagens: “The spiral of silence: a theory of public opinion”. A espiral do silêncio converge em parte com o efeito do carro-ganhador de Lazarsfeld. Os indivíduos observam e monitorizam, no seu meio social, os sinais de força e fraqueza de cada um dos lados em disputa. Ao contrário de Lazarsfeld, Noelle-Neumann considera os media essenciais na formação das perceções dos indivíduos. Mais importante: para a autora alemã, o que move os indivíduos não é a ânsia de se juntarem aos vencedores.

A baixa autoestima da maioria das pessoas não lhes concede ilusões sobre a possibilidade de subir ao carro dos vencedores; a maioria, temerosa e prudente, quer apenas ir atrás do pelotão. À semelhança de Tocqueville, a autora alemã acha que a maioria teme mais o isolamento do que o erro. Dito de outro modo, os indivíduos dão mais importância ao risco de ficarem isolados do que às suas próprias opiniões. Na verdade, as diferenças entre a espiral do silêncio e o efeito do carro-ganhador são bastante subtis e não vale agora a pena alongar-me mais em divagações filosóficas.

Voltemos às sondagens acima referidas. De acordo com a espiral do silêncio, as duas sondagens podem estar certas, embora reflitam coisas diferentes. A sondagem da Católica (candidatos principais empatados) é, provavelmente, a que reflete melhor a realidade atual. Foi realizada com simulação de voto em urna, o que garante o anonimato. Por outro lado, a sondagem da Aximage (não garante o anonimato) diz-nos, sobretudo, que o Rui Moreira está em vantagem na reta final da corrida. Isto porque a perceção da maioria das pessoas parece ser que ele vai ganhar. A acreditar na tese de Noelle-Neuman, a única hipótese de vitória da candidatura de Pizarro está em alterar esta perceção dos portuenses, em especial dos indecisos, fazendo-os acreditar que a vitória é uma possibilidade bastante real. Caso contrário, Rui Moreira ganha novamente, independentemente de estar (ou não) empatado neste momento.

Professor do Instituto Politécnico da Guarda

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt

Só mais um passo

Ligue-se agora via

Facebook Google

Não publicamos nada no seu perfil sem a sua autorização. Ao registar-se está a aceitar os Termos e Condições e a Política de Privacidade.

E tenha acesso a

  • Comentários - Dê a sua opinião e participe nos debates
  • Alertas - Siga os tópicos, autores e programas que quer acompanhar
  • Guardados - Guarde os artigos para ler mais tarde, sincronizado com a app
  • Histórico - Lista cronológica dos artigos que leu unificada entre app e site