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“O que é que a baiana tem? Tem graça como mais ninguém!”.

A luso-carioca Carmen Miranda divulgou assim a Bahia no final dos anos 30 (1939), através da música que Dorival Caymmi lhe ofereceu. Mas a baiana tem mais que graça, tem também acarajé. E o acarajé, para além de comida tipicamente baiana, tornou-se símbolo máximo de que a FIFA não é invencível.

Por partes.

O acarajé é uma espécie de bolo, a massa é feita de feijão fradinho, cebola e sal, e é frito em azeite de dendê. Originário de África, trazido para a Bahia pelos escravos, é uma comida dedicada a um orixá do camdomblé, Iansã, a senhora dos raios e dos trovões.

“Acarajé surgiu da junção de duas palavras africanas da língua Iorubá, Akará, que significa bola de fogo, e o verbo Je, que significa comer. Akará + je = comer bola de fogo”. Vagner Rocha é um estudioso do acarajé, fez a tese de mestrado sobre a comida sagrada.

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As baianas de acarajé vendem a iguaria há muitos, muitos anos em pontos específicos de Salvador, um desses pontos era o antigo estádio Fonte Nova. Mas o futebol atrapalhou. O futebol não, quem manda nele. “Logo que Salvador foi anunciado como uma das cidades-sede do Mundial que estalou a polémica”. Vágner Gomes lembra que “a FIFA proibiu. Com o novo estádio, com os jogos da Copa das Confederações e da Copa do Mundo não pode. A praça da alimentação terá de ser com as empresas autorizadas, principalmente a McDonalds”. Foi isto antes da Copa das Confederações, em 2013.

Símbolo da cultura, mais do que mero alimento, o acarajé virou instrumento de luta. A Associação Nacional das Baianas (ABAM) entrou em campo, com tudo.

“Aqui a gente tem a tradição de qualquer festa de largo, casamento, baptizado, ter uma baiana vendendo, ou servindo, acarajé. Como já é uma coisa tradicional aqui da Bahia, teve uma briga muito grande”. Cláudia de Assis é uma baiana de Acarajé, filha de Dinha de Acarajé, uma das baianas mais conhecidas da cidade. Há cerca de 20 anos que tem o ponto de venda no Rio Vermelho, dando seguimento a uma tradição começada pela bisavó, há 70 anos. “A ABAM pressionou muito, junto do Governo, do Estado e da Prefeitura. Mandaram até emails para a FIFA”.

A contestação chegou aos meios de comunicação social e acabou por chamar a atenção do site “change.org”, que organiza abaixo-assinados em defesa de diversas causas. 17 mil pessoas assinaram. No dia da inauguração do novo Arena Fonte Nova a petição foi entregue a Dilma Roussef, a presidente do Brasil. Dois meses depois, em Junho, as reivindicações chegaram a bom porto, “a FIFA admitiu que as baianas poderiam vender o acarajé no Fonte Nova durante a Copa das Confederações e a Copa do Mundo”, conta Cláudia de Assis.

“Ganhámos da FIFA, porque tudo na Bahia tem de ter dendê!”, acrescenta a baiana, acompanhando a frase com uma rasgada e sonora gargalhada. O azeite de dendê vem de uma planta, espécie de palmeira. Da semente é extraído o azeite.

Por estes dias, quem vai ao estádio de Salvador pode então comer acarajé, a troco de oito reais.