Foi o Mundial em que o futebol voltou a encontrar a sua casa por afinidade. O Brasil recebeu a corrida para organizar a 20.ª edição de um Mundial, 64 anos depois de ter recebido a quarta, em que perdeu diante do Uruguai. Quando o Mundial-2014 chegou ao país do futebol, o Brasil já há muito tinha feito as pazes com o desporto-rei. Ainda hoje, o escrete é a seleção com mais Campeonatos do Mundo conquistados, com cinco triunfos, todos conquistados depois do Maracanazo, em 1950, e antes de 2014.

Os fantasmas do futebol acabaram, no entanto, por ferir o orgulho de todos aqueles que apoiam a seleção canarinha. Até aos dias de hoje, as meias-finais daquela edição da prova deram mais que falar do que a final. Um Brasil sem Neymar – que fraturou uma vértebra nos quartos de final –, mas com a esperança de milhões pelo hexa, defrontava a Alemanha no jogo que valia um dos passaportes para a grande final do torneio. Foram necessários apenas 11 minutos para os germânicos começarem a operar um resultado que iria ficar para a história. Aos 25 minutos, o jogo estava resolvido, com 3-0 a favor dos alemães. Aos 29′, a questão de quem ganhava já tinha passado havia quatro minutos e passava a ser sobre os números pelos quais a Mannschaft ia vencer: até ali, estava 5-0. Só terminaram no sétimo golo, que entretanto teve resposta com o único que os brasileiros conseguiram marcar, por Óscar, a ditar o 7-1 final, sob aplausos condescendentes dos alemães, que seguiram em frente na competição.

Nada fazia prever que a seleção brasileira acabaria em tamanho pesadelo naquele Mundial. Na fase a eliminar, até à histórica derrota, o escrete tinha eliminado uma seleção chilena bastante diferente da atual, então com Arturo Vidal, Alexis Sánchez e Claudio Bravo. Venceram também a sensação Colômbia, que marcou um dos mais emblemáticos golos da história dos Mundiais, depois de James Rodríguez, diante do Uruguai, matar no peito e atirar de pé esquerdo, na passada, para o apogeu da sua carreira concentrado em dez segundos. Além do Brasil, foi uma das seleções pelas quais os adeptos foram criando uma espécie de relação afetiva, que foi crescendo durante a campanha.

Mas esse golo de James – o melhor marcador do Mundial-2014 – não foi o único a marcar a edição de 2014 do Campeonato do Mundo. O neerlandês Robin Van Persie também assinou um dos momentos da prova, ao voar para um cabeceamento em peixe que desenhou um chapéu sobre Iker Casillas. Esse foi um dos golos que ajudou a ditar a ausência da seleção espanhola – então campeã em título – na fase a eliminar da prova.

Fora das grandes decisões, ficou Portugal, que deu continuidade à tendência de não conseguir vingar em Mundiais disputados fora da Europa. A equipa nacional, orientada por Paulo Bento, e com Cristiano Ronaldo longe dos 100% em termos físicos, também foi goleada pela Alemanha, neste caso no seu jogo de estreia, por 4-0. A campanha na fase de grupos foi em crescendo, com um empate diante dos EUA e uma vitória no último jogo contra o Gana. Mas nada fazia apagar os quatro golos que a Seleção sofreu contra os germânicos no início da competição. Essa derrota viria a ter peso na eliminação de Portugal na fase de grupos, à luz do critério da diferença entre golos marcados e sofridos. Portugueses e norte-americanos terminaram o grupo G em igualdade pontual, mas a seleção dos EUA perdeu com a Alemanha por apenas um golo de diferença.

Os alemães, no plano teórico, não tiveram um trajeto propriamente fácil até chegarem à final, começando com Portugal no primeiro jogo, passando por França e pelo anfitrião Brasil, antes de encontrar a Argentina, no último jogo. No plano prático, em alguns jogos, a história foi diferente. Joachim Löw tinha à sua disposição uma geração rica de futebolistas – muitos deles protagonistas da única final da Liga dos Campeões 100% alemã até aos dias de hoje: Neuer, Weidenfeller, Grosskreutz, Hummels, Phillip Lahm, Jérôme Boateng, Schweinsteiger, Kroos, Thomas Müller e Mario Götze, o autor do único golo da final, contra a Argentina, já durante o prolongamento. Além destes nomes, estavam ainda os de Mesut Özil, Sami Khedira e Miroslav Klose, o melhor marcador de sempre da história da Mannschaft.

Uma história. A lesão de Neymar e a ideia de que um mal nunca vem só

Os quartos de final juntaram o Brasil e a Colômbia. Neymar era o melhor marcador da seleção brasileira, com quatro golos na prova, e a principal arma de criatividade no ataque do escrete. Enquanto a Colômbia lutava por anular uma vantagem de dois golos, o Brasil tentava que o tempo passasse mais rápido, depois de James Rodríguez ter reduzido a vantagem de dois golos da canarinha, marcados por Thiago Silva (7′) e David Luiz (69′), para apenas um. O escrete viria a conseguir aguentar a vantagem e garantiu a passagem às meias-finais da competição. Ganharam o jogo, mas perderam a grande estrela: aos 88′, um duelo entre o colombiano Zúniga e Neymar tirou o brasileiro do que restaria da prova. O joelho do então defesa do Nápoles atingiu as costas do, na altura, avançado do Barcelona, que fraturou a terceira vértebra lombar.

A isto juntava-se a ausência de Thiago Silva no jogo seguinte, depois de ver o seu segundo amarelo na competição. O terceiro ato desta história seria o último da história do Brasil naquele Mundial, com a derrota histórica do Brasil nas meias-finais, depois de perder por 7-1 contra a Alemanha, no Estádio Governador Magalhães Pinto, em Belo Horizonte.

Um herói. A melhor versão de James Rodríguez

Foi o melhor marcador e a sua seleção não chegou particularmente longe. A Colômbia caiu nos quartos de final do Mundial-2014 diante do Brasil, mas isso não impediu James Rodríguez, na altura jogador do Mónaco, de ficar com o nome gravado naquela edição com mais força do que alguns dos jogadores que, inclusive, venceram a prova. Foi a cara de uma seleção que não tinha Radamel Falcao, o grande candidato a ser o número 1 dos colombianos, mas que sofreu uma rutura do ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo, o que significou a sua ausência nas escolhas do técnico José Pékerman. O seu grande momento na prova – e, possivelmente, na sua carreira – surgiu ao 50.º minuto do jogo da Colômbia contra o Uruguai, nos oitavos. Nove dias depois do fim oficial da competição, o Real Madrid pagou 75 milhões de euros aos monegascos pelo passe de James Rodríguez, que, desde aí, entre alguns altos e baixos na carreira, nunca mais conseguiu chegar ao nível que alcançou no Campeonato do Mundo de 2014.

Uma curiosidade. O aparecimento dos sprays em Mundiais

Já foi uma novidade e agora está a desaparecer dos relvados do futebol. O spray com que os árbitros limitavam as barreiras para os pontapés livres e para que os batedores não adiantassem a bola de forma discreta foi utilizado pela primeira vez, em Mundiais, no Campeonato do Mundo de 2014. O árbitro responsável por essa estreia foi o japonês Yuichi Nishimura, no jogo inaugural da prova, entre o Brasil e a Croácia, que os brasileiros venceram por 3-1.

Como foram os resultados do Mundial 2014

  • 12 de junho (fase de grupos): Brasil-Croácia, 3-1
  • 13 de junho (fase de grupos): México-Camarões, 1-0, Espanha-Países Baixos, 1-5 e Chile-Austrália, 3-1
  • 14 de junho (fase de grupos): Colômbia-Grécia, 3-0, Uruguai-Costa Rica, 1-3 e Inglaterra-Itália, 1-2
  • 15 de junho (fase de grupos): Costa do Marfim-Japão, 2-1, Suíça-Equador, 2-1, França-Honduras, 3-0 e Argentina-Bósnia e Herzegovina, 2-1
  • 16 de junho (fase de grupos): Alemanha-Portugal, 4-0, Irão-Nigéria, 0-0 e Gana-Estados Unidos, 1-2
  • 17 de junho (fase de grupos): Bélgica-Argélia, 2-1, Brasil-México, 0-0 e Rússia-Coreia do Sul, 1-1
  • 18 de junho (fase de grupos): Países Baixos-Austrália, 3-2, Espanha-Chile, 0-2 e Camarões-Croácia, 0-4
  • 19 de junho (fase de grupos): Colômbia-Costa do Marfim, 2-1, Uruguai-Inglaterra, 2-1 e Japão-Grécia, 0-0
  • 20 de junho (fase de grupos): Itália-Costa Rica, 0-1, Suíça-França, 2-5 e Honduras-Equador, 1-2
  • 21 de junho (fase de grupos): Argentina-Irão, 1-0, Alemanha-Gana, 2-2 e Nigéria-Bósnia e Herzegovina, 1-0
  • 22 de junho (fase de grupos): Bélgica-Rússia, 1-0, Coreia do Sul-Argélia, 2-4 e Estados Unidos-Portugal, 2-2
  • 23 de junho (fase de grupos): Austrália-Espanha, 0-3, Países Baixos-Chile, 2-0, Camarões-Brasil, 1-4 e Croácia-México, 1-3
  • 24 de junho (fase de grupos): Itália-Uruguai, 0-1, Costa Rica-Inglaterra, 0-0, Japão-Colômbia, 1-4 e Grécia-Costa do Marfim, 2-1
  • 25 de junho (fase de grupos): Nigéria-Argentina, 2-3, Bósnia e Herzegovina-Irão, 3-1, Honduras-Suíça, 0-3 e Equador-França, 0-0
  • 26 de junho (fase de grupos): Estados Unidos-Alemanha, 0-1, Portugal-Gana, 2-1, Coreia do Sul-Bélgica, 0-1 e Argélia-Rússia, 1-1
  • 28 de junho (oitavos de final): Brasil-Chile, 1-1, 3-2 g.p. e Colômbia-Uruguai, 2-0
  • 29 de junho (oitavos de final): Países Baixos-México, 2-1 e Costa Rica-Grécia, 1-1, 5-3, g.p.
  • 30 de junho (oitavos de final): França-Nigéria, 2-0 e Alemanha-Argélia, 2-1 a.p.
  • 1 de julho (oitavos de final): Argentina-Suíça, 1-0 a.p. e Bélgica-Estados Unidos, 2-1 a.p.
  • 4 de julho (quartos de final): França-Alemanha, 0-1 e Brasil-Colômbia, 2-1
  • 5 de julho (quartos de final): Argentina-Bélgica, 1-0 e Países Baixos-Costa Rica, 0-0, 4-3 g.p.
  • 8 de julho (meias-finais): Brasil-Alemanha, 1-7
  • 9 de julho (meias-finais): Países Baixos-Argentina, 0-0, 2-4 g.p.
  • 12 de julho (3.º e 4.º lugar): Brasil-Países Baixos, 0-3
  • 13 de julho (final): Alemanha-Argentina, 1-0 a.p.