Muitos observam o céu, mas poucos o fazem como Miguel Claro. Aos 36 anos, o astrofotógrafo viu uma fotografia sua ser destacada pela NASA — o feito, repetido pela sexta-vez, é um (claro) sinal de reconhecimento profissional. Apesar de ter sido tirada a 13 de junho, só a 21 do mesmo mês o site Astronomy Picture of the Day (APOD), ligado à respetiva agência espacial norte-americana, considerou o trabalho como “foto do dia”.

Miguel, que diz ser também astrónomo amador, captou o Cristo-Rei num cenário invulgar. Atrás deste ergue-se o percurso ascendente da lua, cujas tonalidades fazem uma viagem explícita, do encarnado carregado a um subtil dourado. A foto em questão é a imagem de uma sequência que retrata um lapso de tempo. A câmara fotográfica acompanhou o percurso da lua a cada minuto, durante cerca de uma hora. O resultado consiste na soma dos retratos e capta a chamada “lua de mel” (“honey moon” para os norte-americanos), o que corresponde à fase em que a última lua cheia antes do solstício de verão (dia 21 de junho, o dia mais longo do ano) está mais próxima da terra.

“A lua é 400 vezes mais pequena que o sol e está 400 vezes mais perto de nós. Está no infinito e, perante a minha câmara, vai ter sempre o mesmo diâmetro aparente. O mesmo não acontece com os objetos da terra, razão pela qual tive de me afastar o mais possível do Cristo-Rei de modo a criar a ilusão de uma lua de grandes proporções”, explica Miguel Claro ao Observador. A foto foi tirada numa rua em Algés, a seis quilómetros de distância do objeto alvo, isto é, do Cristo-Rei, que está a 128 metros do chão.

CristoReiFullMoonLinda-Velha-poster

Fotografias tiradas a 13 de junho – Miguel Claro

O sitio para recolher a imagem não foi ao acaso, mas sim o resultado de estudos intensos realizados pelo professor de física e astrónomo profissional Dr. Guilherme de Almeida, quem desafiou o fotógrafo a entrar na aventura. Outras fotos foram tiradas, a partir no mesmo local estratégico e no mesmo dia, também com recurso a um telescópio. Na verdade, e ao contrário dos restantes retratos, a fotografia distinguida surgiu de um imprevisto. “Não foi planeada, mas temos de estar preparados para os imprevistos e tentar aproveitar as ocasiões”.

A primeira foto de Miguel a ser destacada pelo APOD, que tem milhões de visualizações, data de 2007. Foi precisamente entre 2007 e 2009 que o percurso profissional do fotógrafo ganhou contornos mais sérios no que diz respeito à fotografia dos astros. No entanto, a paixão sempre esteve presente e o gosto pela astronomia andou, desde cedo, de mãos dadas com a fotografia. O astrofotógrafo explica porquê: é tudo uma questão de mostrar a estética da ciência, de misturar arte e factos comprovados num único resultado. O certo é que a dedicação imensa já gerou frutos. Miguel Claro é o autor do livro AstroFotografia – Imagens à luz das estrelas, fotógrafo da reserva Dark Sky Alqueva e formador em cursos e workshops na Fotonature.