9 de julho de 2011: A nação benfiquista exultava com a primeira vitória da pré-época (9-1 aos alemães do Friburgo), o ciclista Rui Costa entrava na história ao ganhar uma etapa da Volta a França, Passos Coelho já dizia que o Governo ia para além da troika – mas que era para o bem do país – e na novela da ida de José Sócrates para Paris estudar, mais um episódio: Sócrates pedia licença sem vencimento das funções de engenheiro civil na Câmara Municipal da Covilhã (na qual quase ninguém sabia que trabalhava). Francisco Assis (recentemente cabeça-de-lista pelo PS às europeias mas que na altura se candidatava à liderança do PS) também dizia que António José Seguro era mais parecido com Passos Coelho e que a sua recusa em abrir aos jornalistas dois dos três debates entre ambos se tratava de uma visão “preocupante” e “restritiva” sobre o papel dos partidos.

Em Portugal era assim, mas lá fora acontecia algo muito mais raro: nascia um novo país. Foi na manhã desse dia 9 de julho de 2011 que o Parlamento do Sudão do Sul proclamou a sua independência, na mais nova capital, Juba, perante as delegações de oitenta países e com trinta chefes de Estado. Milhares nas ruas festejavam o feito ainda antes de ele acontecer. O Sudão do Sul acabava de se tornar o 193.º membro da ONU e o quarto novo país reconhecido pelas Nações Unidas no século XXI, depois de Timor-Leste em maio de 2002, e da Sérvia e Montenegro se terem dividido em dois países em 2006.

O Kosovo, que se declarou independente a 17 de fevereiro de 2008 não teve a mesma sorte, já que a sua soberania foi reconhecida por 76 países – entre eles Portugal – mas não foi aceite como membro da ONU (a Rússia ameaçou exercer o seu direito de veto no Conselho de Segurança se a questão da independência do Kosovo fosse submetida a uma votação). As regiões da Abkházia e da Ossétia do Sul, ainda em 2008, também declararam a independência da Geórgia, mas só um punhado de países – entre os quais: Rússia, Venezuela e Nicarágua – reconheceram estes territórios como Estados independentes.

“É algo que esperávamos há anos. Um momento que vamos comemorar com alegria”, afirmou, na altura, Mangar Gordon Marial, porta-voz oficial do governo do Sudão do Sul. “Nós, representantes democraticamente eleitos pelo povo, baseados na vontade do povo do Sudão do Sul, como confirmam os resultados do referendo sobre a autodeterminação, proclamamos o Sudão do Sul uma nação independente e soberana”, disse o presidente do Parlamento do então mais recente país, James Wannilgga. A declaração deu especial destaque às relações amigáveis que o novo país pretendia estabelecer com todos os países, em especial, com o Sudão, depois de décadas de conflitos entre cristãos e animistas do sul e os muçulmanos do norte.

A história do conflito

Em 1956, quando o Sudão se preparava para se tornar independente face ao domínio britânico e egípcio, os líderes do sul do país acusaram as autoridades de Cartum, segunda maior cidade do país, de voltarem atrás à sua promessa de criarem um sistema federal e de tentarem impôr a lei islâmica. Quando o exército do sul se rebelou e provocou um motim, deflagrou uma guerra civil, liderada pelo movimento guerrilheiro Anya Nya e o governo sudanês. O conflito só terminou quando foi assinado o acordo de paz de Addis Ababa, em 1972, que concedeu autonomia ao sul.

Mas em 1983, o sul, liderado pelo Movimento Popular para a Libertação do Sudão e a sua ala armada, o Exército Popular para a Libertação do Sudão, voltou a insurgir-se quando o governo sudanês voltou atrás com a cedência de autonomia. De acordo com a BBC, estima-se que pelo menos 1 milhão e meio de pessoas tenham morrido e mais de 4 milhões de pessoas tenham ficado desalojadas. Esta segunda fase da guerra civil terminou apenas em 2005 com a assinatura do tratado de Naivasha, em Nairóbi, Quénia, o qual devolveu a autonomia à região sul do Sudão. Este tratado também previa a realização de um referendo no sul do país sobre independência, referendo esse em que 99% dos sudaneses do sul votaram a favor da divisão do Sudão.

E na atualidade?

Apesar das vastas reservas de petróleo, o país mais jovem do mundo tem vindo a ser classificado como um “enorme fracasso” e ocupa o primeiro lugar do Fragile States Index, à frente da Somália, do Afeganistão e do Iraque. De acordo com a AFP, há cartazes nas ruas de Juba que proclamam “um povo, uma nação”. Mas com a guerra civil a controlar o país e mais de um quinto da população desalojada, falar de unidade nacional parece não fazer sentido. Juba encontra-se dividida deste dezembro de 2013, depois de os guardas leais ao presidente Salva Kiir terem entrado em confronto com as tropas de apoio do vice-presidente deposto Riek Machar – o evento desencadeou a guerra civil que dura há já sete meses.

A Amnistia Internacional considera a situação “catastrófica”. Centenas de pessoas morreram ou ficaram feridas desde que o conflito estalou. Mais de 1 milhão e meio de pessoas já ficaram desalojadas. Algumas delas estão a viver em locais destacados pela ONU, onde as condições de higiene são mínimas, os cuidados de saúde limitados, os alimentos escassos. O próprio espaço é também demasiado pequeno. As Nações Unidas estão a ter algumas dificuldades em gerir a situação. Nos últimos meses milhares de pessoas subnutridas chegaram à base de Bentiu, no norte do Sudão do Sul, e nas últimas semanas mais de 200 crianças já morreram de cólera. A crise de fome está a tomar proporções dramáticas. Num país com 10 milhões de habitantes, quatro milhões estão em risco de subnutrição. O desalojamento de milhares de pessoas contribuiu para o abandono dos terrenos de cultivo, algo que também não ajuda à escassez de alimentos.

O próprio clima não ajuda. Durante a época das monções, que dura metade do ano, o acesso da ajuda humanitária ao país fica limitado. A chuva bloqueia o funcionamento das limitadas infra-estruturas do país e isola muitas comunidades. As frequentes inundações tornam quase impossíveis as entregas de comida, água e outros recursos essenciais seja por via terrestre, seja por via aérea. As negociações de paz foram suspensas por ambas as partes, o que mantém o país à procura de uma solução pacífica. Enquanto não for tomada uma decisão, o Sudão do Sul continuará numa “situação catastrófica”, diz a AFP. “As duas partes do conflito não estão interessadas em assinar um acordo”, explicou Zachariah Diing Akol, investigador de um think-tank do Sudão do Sul. “Ambas as partes ainda acreditam que podem vir a ganhar esta guerra”, conclui.