Gustavo Rubim chamou-lhe “um acontecimento precioso em língua portuguesa“, o poeta Carlito Azevedo disse sentir um “animozinho” ao ler os seus poemas e a Tinta-da-China chamou-lhe “autora-revelação“. “Ela” é Matilde Campilho e era, até há bem pouco tempo, uma perfeita desconhecida. Tudo mudou em abril, com o lançamento do primeiro livro de poemas, Jóquei. Desde então, a atenção parece estar voltada para ela.

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Jóquei foi lançado em abril no Teatro A Barraca, em Lisboa – Tinta-da-China

 

Uma pequena nota biográfica explica que nasceu em Lisboa e que vive no Brasil desde 2011. Ou melhor, que vive entre cá e lá, como o livro que escreveu. Jóquei é isso mesmo – não é português, nem brasileiro. Não tem sotaque alfacinha, mas tem muitas pontes pelo meio.

Matilde diz-se uma “nómada” e essa liberdade sente-se na facilidade com que transforma e usa a língua a seu belo proveito. O português, de cá ou de lá, não é uma prisão, é um ponto de partida – para outras formas, outros estrangeirismos. Sem pudor, mistura léxicos, frases em inglês e tiradas em italiano. Fala de canções de outros tempos, do Financial Times e de Whitman, jogadas que farão os mais puritanos tremer. Os poemas são em verso e em prosa e falam sobretudo de amor. É um livro sobre as coisas pequenas e a alegria das coisas pequenas. Não há complicações, embaraços – a história são “sete búzios” e um regresso esperado.

“e se tiver tempo me traz sete búzios volte me diga que volta”

Mas, apesar da dualidade constante entre a Lisboa “amarela da cor de um feixe de luz apanhado numa esquina” e o Brasil do “sorriso constante que atravessa o morro”, há sempre uma margem atlântica preferida. Matilde é uma portuguesa que escreve poesia brasileira, na forma, no sotaque, no gesto. Relembra Lisboa de longe e de perto, sem saudosismos. É com uma alegria de sol do Brasil.

“Quando Amelia morreu, continuava casada com Putnam — suspeito que ela deve ter visto rostos incríveis nas estrelas. Que coisa mais linda esse ácido despenteado, caramba. Olhei com mais atenção o desenho da estrutura e descobri: a raça humana é toda brilho.”