Os humanos convivem com uma vasta quantidade de bactérias, umas que provocam doenças e outras que ajudam ao funcionamento do organismo. As bactérias “boas” podem mesmo ajudar a combater as bactérias “más”, como é o caso das bactérias da vagina que são capazes de produzir um antibiótico para combater as que causam infeções na pele. Embora não tenha conseguido demonstrar a produção de antibiótico dentro do corpo humano, uma equipa de investigadores norte-americana conseguiu provar essa produção em bactérias em cultura, conforme publicado na revista científica Cell.

Apenas 10% do corpo humano é composto por células humanas, tudo o resto são microrganismos, como as bactérias, que comunicam entre si e com o organismo hospedeiro (onde vivem). Essa comunicação é mediada por moléculas que podem ter propriedades específicas e afetar a nossa saúde, positiva ou negativamente. Descobrir que moléculas são usadas na comunicação foi o objetivo dos investigadores.

A equipa liderada por Michael Fischbach, químico e microbiólogo na Universidade da Califórnia, em São Francisco (Estados Unidos) criou um algoritmo que permitisse a um computador identificar genes que já se sabe serem responsáveis pela produção de moléculas com propriedades antibióticas, noticia a Nature. O programa foi capaz de identificar milhares desses genes no microbioma humano (microorganismos que usam o homem como hospedeiro). Algumas das moléculas identificadas pertencem a um grupo de antibióticos composto por moléculas “primas” destas que já está em ensaios clínicos.

“Costumávamos pensar que as drogas eram descobertas pelas empresas farmacêuticas e prescritas por um médico antes de chegarem até nós”, disse à Nature Michael Fischbach. “Mas o que descobrimos é que as bactérias que vivem sobre e dentro dos seres humanos inverteram o processo – são capazes de produzir as drogas diretamente no nosso corpo.”

Purificando uma molécula das bactérias da vagina, os investigadores verificaram que as bactérias que vivem neste órgão feminino podem produzir um antibiótico capaz de matar Staphylococcus aureus, uma bactéria responsável por causar infeções respiratórias e na pele e que pode facilmente originar estirpes super-resistentes. Este estudo demonstrou que o potencial para encontrar novos antibióticos nas bactérias que vivem no organismo humano é vasto e como os meios informáticos são importantes na recolha e análise de grandes quantidades de dados.

“Tanto quanto sei, este é o primeiro trabalho que isola novos compostos com forte potencial medicinal a partir do microbioma humano”, diz Rob Knight, microbiólogo na Universidade do Colorado, que não esteve envolvido no estudo. “Este trabalho apresenta uma plataforma atrativa para a busca no nosso microbioma de novos compostos de interesse médico.”

Mas mais do que levar os novos medicamentos a ensaios clínicos, o principal objetivo de Michael Fischbach é perceber de que forma as moléculas produzidas pelos microrganismos que convivem com o ser humano nos influenciam ou tornam suscetíveis à doença. O investigador acredita que as bactérias nos poderão ser muito úteis, não só na produção de medicamentos, mas com outras propriedades ainda por descobrir.