A chuva, teimosa, já caía de novo com força. A visibilidade na pista era cada vez menor. E o perigo maior. Bastava uma trajetória mal calculada ou uma poça de água escapar ao olhar para alguém ser embalado pista fora. Aconteceu a Adrian Sutil, piloto da Sauber, à 43.ª volta ao circuito de Suzuka, quando o piloto alemão foi projetado contra a barreira de pneus. Fim da corrida para ele. Uma volta depois, a organização do Grande Prémio do Japão decidiu enviar acenar duas bandeiras amarelas na pista, metros antes do local onde um trator, com uma grua, tratava de retirar o carro de Sutil da margem da pista. Depois, à 44.ª volta, Jules Bianchi colidia com a tal grua.

Foi grave. E muito. Tanto que os responsáveis pela prova nem autorizaram a transmissão das imagens da colisão. Horas depois, soube-se que o piloto francês de 25 anos, da Marussia, sofrera um hematoma cerebral. Ou uma “lesão grave na cabeça”, como informou a Federação Internacional Automóvel (FIA), quando emitiu um comunicado sobre o incidente. Por agora está na corda bamba entre a vida e a morte no hospital universitário de Mie, em Yokkaichi, no Japão, onde já foi operado de urgência. Agora, enquanto se aguarda por novidades e se espera pelo melhor, há perguntas a surgirem.

A primeira chegou com o safety car. Ou melhor, questionou o porquê de o carro de segurança não ter aparecido mais cedo, logo após Sutil embater contra a barreira de pneus. Quando a grua já estava a trabalhar para retirar o carro do piloto alemão da margem da Dunlop Curve, a organização optou por apenas mostrar duas bandeiras amarelas antes dessa secção — logo, os pilotos, de acordo com o regulamentos, sabiam que deviam reduzir a velocidade e, se necessário, estarem preparados para pararem o carro. Não resultou.

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A curva onde Adrian Sutil, primeiro, e Jules Bianchi, depois, saíram de pista e colidiram contra a barreira de pneus ® Andreia Costa/Observador

Na volta seguinte, Jules Bianchi saiu disparado da mesma curva. Culpa da aquaplanagem, fenómeno em que os pneus do carro perdem aderência à pista devido à acumulação de água no alcatrão. O piloto francês acabou por chocar contra a barreira de pneus e, depois, na grua que retirava o monolugar de Adrian Sutil. Só após este embate é que a organização decidiu atirar o safety car para a pista. Algo que Felipe Massa, piloto da Williams, estava “a gritar há cinco voltas” para que acontecesse. “Acabaram com a corrida demasiado tarde. Estava muita água em pista”, criticou o brasileiro, de 33 anos, que em 2009 também sofreu um acidente, no Grande Prémio da Hungria.

A opinião não é a mesma, mas a de Adrian Sutil, que viu tudo de perto, caminha no mesmo sentido. “Toda a gente sabe que esta curva é uma das mais complicadas [do circuito] quando a chuva aumenta. Se há um acidente ali é melhor pensar num safety car”, explicou o alemão, da Sauber, antes de acrescentar, citado pelo The Guardian, que Bianchi sofreu o que pouco antes lhe acontecera na mesma curva: “Ele estava a aquaplanar. E tudo o que posso dizer é que o embate foi forte.” Uma coisa parece ser certa — se o carro de segurança já estive em pista, nunca o piloto francês entraria a rápida velocidade na Dunlop Curve.

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E até nem foi a primeira vez que Jules Bianchi teve problemas com este troço do circuito de Suzuka. Em 2013, na anterior edição do Grande Prémio do Japão, o gaulês embatera na Degner Curve, logo a seguir à curva onde, no domingo, perdeu o controlo do monolugar. Na altura, não sofreu qualquer ferimento.

Há quem diga, contudo, que a organização do Grande Prémio agiu como devia. Niki Lauda é um deles. O antigo piloto austríaco, três vezes campeão mundial (1975, 1977 e 1984) de Fórmula 1, hoje com 65 e a servir de presidente não-executivo da equipa da Mercedes, considerou antes que foi um momento “muito infeliz”. E explicou porquê. “Já tinha havido um safety car e a corrida estava a decorrer de forma mais ou menos segura. Até podia ter ido até ao fim sem acidentes”, defendeu, lembrando que, logo à segunda volta, a corrida esteve interrompida e que os pilotos andaram uns 20 minutos atrás de um carro de segurança, até que a chuva amainasse.

O austríaco, depois, até sublinhou que “as corridas de automóvel são muito perigosas” e que as pessoas “se habituam” quando não há acidentes e, “de repente”, todos “se surpreendem”. Lauda considerou ainda que o acidente de Bianchi se deveu “à conjugação de várias coisas difíceis” — ele que, em 1976, se recusou a participar no Grande Prémio do Japão por considerar que as condições estavam demasiado perigosas, na mesma época em que sofreu um acidente em Nürburgring, na Alemanha, onde o seu carro se incendiou.

Mas foi Niki Lauda, porém, quem criticou o facto de a corrida não ter começado mais cedo. E havia uma razão para o fazer — o tufão Phanfone estava a aproximar-se. Os boletins meteorológicos previam que, durante a tarde de domingo, o fenómeno (que chegou a provocar rajadas de vento a rondar os 180 quilómetros por hora) pudesse atingir a região de Suzuka. “Poderiam ter começado a prova mais cedo”, avaliou Lauda. A corrida, recorde-se, arrancou às 15 horas locais (7h portuguesas).

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O dirigente, segundo a Globo, revelou que existiu uma proposta para a competição arrancar antes, às 11h. O britânico The Guardian, contudo, escreveu que a sugestão foi rejeitada pela Honda, principal patrocinadora da corrida, por temer que o horário matinal afastasse os fãs da modalidade das bancadas do circuito. Portanto, nada se alterou.

E a verdade é que, à hora do acidente de Jules Bianchi, e a par da forte chuva, vários pilotos se queixaram da reduzida visibilidade que a pouca luminosidade natural também provocava. “No final já estava a anoitecer, a chuva aumentou e a visibilidade era cada vez menor. Assim que ficou mais escuro, deixou de ser possível ver onde estavam as poças de água na pista”, retratou Adrian Sutil, o piloto que foi traído pelas condições uma volta antes de Jules Bianchi se despistar.

Os aguaceiros foram piorando ao longo da corrida, que durou cerca de uma hora e 51 minutos. A polémica, contudo, não acaba aqui, pois há quem questione o facto de Bianchi ter sido transportado para o hospital de ambulância, quando existia um helicóptero para o fazer — que não terá sido utilizado devido às tais reduzidas condições de visibilidade. Certo é que o francês chegou ao centro hospitalar de Mie, onde se está a ser tratado nos cuidados intensivos. Para já, é isto que se sabe. A Marussia, equipa do piloto, agradeceu “a avalanche de apoio e preocupação” com a situação de Bianchi, mas pediu “paciência e compreensão” para com a família do francês, que é “a principal prioridade”.

Mais informações apenas virão quando o pai do gaulês chegar a Yokkaichi. Uma viagem que está a ser prolongada, lá está, devido ao tufão que assola a região. Até lá, e como o disse Lewis Hamilton, líder do mundial de F1 e vencedor do Grande Prémio do Japão — por, à 44.ª volta, quando se deu o acidente, estar à frente da corrida –, “todos os pensamentos estão com o Jules”.