Já existem restaurantes assim. A pessoa chega, solta um cumprimento, puxa a cadeira e aguarda. Ementa? Qual quê. A refeição é às escuras. Não na cozinha, onde é pensava e fabricada. Mas na mesa, sobre a qual é apreciada e degustada. O cliente senta-se e espera que alguém o sirva. É engraçado. Tem a sua piada. Não deixa é de ser arriscado. Tudo fica a depender do chef, do cozinheiro que tem de escolher ingredientes, receitas, modo de confeção e apresentação prato. Depois é à confiança: as pessoas lá aparecem se souberem que o resultado, no final, e estilos à parte, será bom. Sempre, ou quase. E ponto final.

Ir ao estádio, ou sentar-se no sofá, para ver um grande jogar, também é assim. Roda-se, fazem-se experiências, mudam-se os jogadores e as posições. O prato servido, porém, tem de ser a vitória. É assim a exigência. E a vida de Julen Lopetegui. Diz-se que gosta de rodar, de experimentar e, à vez, usar todos os ingredientes que tem na despensa para tentar ganhar. Agora até manteve a receita. Com uma diferença — acrescentou sal. Não uma pitada. Uma mão cheia

E atirou-a para o sítio certo da panela. De novo Juan Quintero foi um dos onze condimentos — a única alteração face aos 11 que jogaram na terça-feira, contra o Athletic Bilbao, para a Champions, foi a entrada de Marcano para o lugar de Maicon. O colombiano, agora, jogou sempre ao centro, no meio campo, não à direita, onde sempre se tinha encostado esta época, mascarado de um extremo que não é. E o prato servido pelo FC Porto foi melhor. Culpa do colombiano e da surpresa que a sua inclusão criou no Arouca de Pedro Emanuel, que tinha apenas a acidez de David Simão e Bruno Amaro para tentar anular a doçura de Casemiro, Herrera e Quintero. O sabor dos anfitriões, portanto, foi sendo anulado.

Logo aos 2’ o remate de Brahimi, que recebeu, ajeitou e pontapeou, tudo com três toques, à entrada, da área, não acertou na baliza. Aos 8’, os dragões passam quase um minuto com a bola, levando-a a passear por todo o relvado, em todos os jogadores (menos Marcano e Alex Sandro), até tudo acabar com um remate falhado de Jackson Martínez. O tempero fluía e não encravava o mastigar da bola. “Às vezes, uma equipa que a tem muito tempo tem mais hipóteses de cometer falhas”, dizia, porém, Lopetegui antes do encontro. Falava de erros individuais, como o que Marcano, aos 10’, cometeu quando, ao receber um lançamento lateral de Alex Sandro, meteu a bola no pé de Pintassilgo, a metros de distância.

O cozinhado não se entornou. A panela apenas abanou quando o remate de André Claro foi defendido, a custo, por Fabiano. Não deixou de ser um erro. Mais, até ao intervalo, não se viram. E o FC Porto pegou na colher de pau e começou a mexer o caldo, em lume brando. O Arouca até pressionava com dois avançados, lá à frente, mas a equipa parecia partida, com os quatro do meio campo a ficarem longe e não se aventurarem em pressões.

Resultado: havia tempo para o cozinhado ganhar sabores. Aos 24’ tomou o gosto colombiano: Quintero, a uns cinco metros da área, recebeu a bola, virou-se e, no momento em que rematou, Nuno Claro deslizou pela relva, à sua frente, para dar o obstáculo onde a bola bateu e ganhou altura e velocidade para entrar na baliza. 1-0 e o ‘10’ aproveitava o espaço que o adversário lhe dava. “Sabíamos que se sofrêssemos um golo ficaria tudo mais difícil”, lamentou Nuno Claro no final. E ficou mesmo.

Dois minutos passaram e a equipa aqueceu a coisa. Na esquerda, o picante Brahimi abafou o insonso Balliu, fintou, deixou-o para trás e empratou um passe que Jackson teve apenas de encostar, à frente da baliza. 2-0. De repente, esta refeição cheirava a repetido — na época passada, os dragões tinham vencido em Arouca por este resultado e os mesmos colombianos a servirem os golos. A sensação só durou até aos 39’.

O Arouca continuou encolhido, sem ativar os contra ataques e a ser ultrapassado pela inferioridade que tinha no centro do campo. As jogadas do FC Porto junta à baliza inimiga sucediam-se e, após um remate de Herrera dar um canto, Casemiro, na pequena área, sem alguém a chateá-lo, cabeceou para fazer o 3-0. Aqui se fechava o lume. A refeição parecia estar pronta. Os passes falhados eram poucos, Herrera e até Quintero, à vez, recuavam e vinha perto de Casemiro pedir a bola, enquanto os laterais corriam para a frente e trocavam bolas com os extremos, sem dificuldade.

Ao intervalo o prato serviu-se e levou-se até à mesa. Ou seja, começou a esfriar. Os sabores estavam lá. mas perdiam intensidade com o tempo. E o Arouca espevitou-se. A perder por três foi arriscando mais. Com 57 minutos contados, Roberto conseguiu encontrar uma bola entre os centrais do FC Porto, fintou um deles (Bruno Martins Indi) e rematou, rasteiro, para Fabiano defender. Era um aviso, sim. Mas também um aperitivo que poucas atenções roubava ao prato principal azul e branco.

A equipa continuava a jogar. E bem. Sobretudo Quintero, que simplificava coisas que, por norma, até complica — não queimou segundos a soltar a bola e raramente a perdeu quando o fez –, e distribuiu passes que mantiveram a refeição morna. Um deles, aos 60’, foi parar a Cristian Tello, na direita, que pegou na varinha mágica, deu rotação às pernas, ultrapassou Tinoco e cruzou para Jackson, outra vez, só ter de encostar o pé à bola. E marcar. 4-0 e, agora sim, o prato era aprovado.

E jogo acalmava e, nem por isso, o Arouca conseguia inventar perigo para a baliza de Fabiano. Roberto mexia-se, pedia a bola na frente e desmarcava-se, mas só aos 86’ lhe voltou a chegar uma bola que, de novo, rematou para o guarda-redes portista parar. Antes já Herrera, por duas vezes, estivera perto de marcar. Quintero, o craque da noite, também pontapeou a bola contra a barra, após Quaresma, na esquerda, a conduzir para ultrapassar dois adversários e a servir ao colombiano numa bandeja.

Algo que voltou a fazer aos 88’, pelo meio do relvado, até a conseguir passar para Aboubacar, avançado camaronês que viu abertas as pernas de Goicochea e por ali rematou a bola para a baliza. Era o 5-0 e o último prato que o FC Porto servia na refeição que cozinhou e levou para Arouca. A refeição correra bem, os pratos sucederam-se e restava agora digeri-los.

Em números, a digestão era esta: após cinco jogos seguidos a sofrer golos, o FC Porto manteve a sua baliza quieta; depois da primeira derrota da temporada, conseguiu a segunda maior vitória (a seguir ao 6-0 contra o BATE Borisov, a 17 de setembro); e, sobretudo, viu Quintero a jogar em sítios do relvado onde melhor pode vestir a bata e chapéu de chef principal da equipa. Qualquer refeição saberá melhor com o colombiano no meio do relvado.

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