Porque o “vírus” do stress consegue ser viciante, tal como o açúcar e o álcool, e traduz-se em vários sintomas — desde falta de paciência e irritabilidade a má alimentação e insónias. “As pessoas quando estão permanentemente em stress acham que tudo é urgente e esquecem-se do que é prioritário”, explica Conceição Espada ao Observador, acrescentando que “Portugal é um país doente, deprimido e triste”.

Há mais de uma década que Conceição Espada se dedica a ensinar as pessoas a gerir o stress e o impacto que este tem no respetivo quotidiano. Além de colaborar com clínicas fora de fronteiras nacionais, como o hotel-clínica Sha Wellness Clinic em Alicante, dá consultas privadas e formações para grupos empresariais. O objetivo é sempre o mesmo — proporcionar uma melhor qualidade de vida a quem a procura.

Conceição foca-se igualmente no stress feminino por achar que as mulheres são quem educa e cria os homens. A responsabilidade acrescida é posta em causa numa sociedade consumista onde não há tempo para ser-se mãe, companheira e mulher. “Se uma mulher estiver muito stressada, não vai ter nem o tempo nem a paciência para educar um filho” e “as crianças vivem em stress desde pequenas porque têm mães stressadas“.

Por esse e outros motivos, nos próximos dias 1 e 2 de novembro realiza-se a segunda edição do programa “Gerir o stress no feminino”, um workshop para mulheres com características únicas em Portugal. A ocupar o Hotel do Sado Business & Nature, do plano de atividades constam sessões de meditação, Chi Kung, exercícios e massagens. Posto isto, Conceição Espada esclarece que não consegue “salvar” ninguém, mas antes ajudar quem quer ser “salvo”.

 

Qual é o seu papel na gestão de stress?
É ajudar as pessoas a lidar com o seu stress, orientá-las e dar-lhes programas para que o possam fazer. Mas depende de cada um, até porque para sairmos de um ciclo de stress temos de tomar decisões de fundo, tem que ver com percebermos com a distinção (muito grande) entre urgente e prioritário. As pessoas quando estão permanentemente em stress acham que tudo é urgente e esquecem-se do que é prioritário. Isso parece uma coisa simples, mas é de uma complexidade muito grande.

O que se entende por stress?
Acho que o stress não tem sido devidamente tratado. Há uma profunda falta de educação. Considerando a Organização Mundial de Saúde, o stress é tido o maior vírus do século XXI. Considero o stress mais um vírus do que propriamente uma doença — é um vírus que provoca uma quantidade de doenças.

Quais são os sintomas de uma pessoa stressada?
Há imensos sintomas, desde físicos e psicológicos a comportamentais. Vou falar-lhe dos mais importantes. Em termos físicos, temos questões como problemas cardíacos, tensão alta, taquicardias, problemas de colunas — a maior parte das pessoas tem problemas de coluna, a nível cervical, do pescoço, ombros e até lombar, e acham que é normal viver com isso. As insónias representam um sintoma gravíssimo: as pessoas habituam-se a dormir mal e pouco.

As pessoas habituam-se ao stress?
Sim. O stress é viciante. Mas é uma coisa que toda a gente tem. O stress é uma hormona — tem que ver com a adrenalina e com o cortisol — que é libertada pelo nosso cérebro para o sangue. Está relacionado com a nossa capacidade de resposta. A resposta pode ser de ação e de estímulo ou de fuga e de contração. Costumo comparar o stress com o colesterol: há o colesterol bom e o mau. O stress é igual. Temos o stress bom, que é aquele que nos faz estar otimistas, fazer coisas e ter capacidade de ação e de resposta quando há um estímulo do exterior. Passar do stress bom para o mau implica uma fronteira muito ténue e é difícil de perceber. Se o stress se torna crónico, a pessoa pode-se tornar viciada.

Qual o estilo de vida de uma pessoa com stress crónico?
Um tipo de vida que tem que ver com o facto de a pessoa estar sempre a fazer coisas, ter imensa dificuldade em dormir ou mesmo em deitar-se. Há várias formas de insónias, não são só aquelas em que acordamos a meio da noite e que vamos para a cama e não conseguimos dormir; mas também o evitar ir para a cama e adiar o tempo de descanso. Nesses casos, a adrenalina está muito alta — uma pessoa quando tem muito stress tem dificuldade em descansar, é como açúcar, o tabaco ou o álcool, é uma adição. Há outro perfil que remete para quem tem tudo controlado. São indivíduos que quando se fala com eles parece que está tudo calmo e sereno. Não é verdade. São perfis completamente diferentes, que normalmente têm sintomas físicos diferentes — úlceras, problemas de digestão e de intestinos, uma irritabilidade muito grande, facilidade de conflitos, excesso de perfeccionismo e falta de paciência. Portugal é um país onde isso é muito visível no trânsito, onde somos muito agressivos — o trânsito permite ver o que se passa num país ao nível do stress.

Como é que a cultura de um país pode influenciar a nossa gestão de stress?
Há uma mentalidade incorreta no país, no sentido em que se confunde a pressão com o estímulo. A pessoa para estar estimulada não tem de estar pressionada. Ajudar uma pessoa a salvar-se do seu próprio stress implica ajudá-la a mudar os conceitos que tem em relação ao ser-se produtiva. As pessoas não são estimuladas por aquilo que fazem bem, por serem criativas ou por serem boas profissionais. Há, em Portugal, uma atitude em que ainda se premeia quem está mais horas no local de trabalho mesmo não sendo produtivo. As pessoas sentem-se mal por não estarem tantas horas no local de trabalho — ainda vivemos nesta cultura. Portugal é um país doente, um dos países da Europa onde se vende o maior número de ansiolíticos e de antidepressivos. É um país deprimido e triste.

Na gestão do stress é preciso ter em conta uma coisa muito característica de Portugal, que é o ser-se vítima. Ninguém, nunca, é responsável por nada, nem pela sua própria vida. A culpa está sempre no exterior, ou é do Governo ou do partido. A sociedade está, hoje em dia, feita para que as pessoas estejam sempre a consumir; entrou-se numa sociedade em que as pessoas acham que ser evoluídas é consumirem. Houve um desenvolvimento económico e de consumo mas, simultaneamente, não houve educação relativamente ao bem-estar das pessoas.

Porquê centrar-se no stress no feminino? A mulher sofre mais do que o homem?
O stress da mulher é diferente, mais complexo, até pela quantidade de papéis que a sociedade lhe pede e que a própria mulher pediu para ter. A mulher obrigou-se a cumprir um determinado número de papéis. Nesse cumprimento de funções, a maior parte achou que tinha de se tornar igual aos homens esquecendo-se de uma coisa básica: por qualquer razão há homens e há mulheres, somos diferentes. As mulheres esqueceram-se que têm um círculo hormonal diferente dos homens e as hormonas estão altamente ligadas ao stress. Imagine quando a mulher está grávida — há uma mudança tremenda nas hormonas. Ter um filho, e a própria recuperação do parto, é tratado como se a mulher fosse uma máquina. Ela faz isso a si mesma, não tendo em conta que o distúrbio hormonal é total e completo. O stress é uma questão biológica e é isto que as pessoas têm de perceber.

Há gestão de stress no ensino?
Faço uma enorme distinção entre educação e ensino. Para mim, devia chamar-se Ministério do Ensino e não Ministério da Educação. As pessoas vão para a universidade e para a escola aprender determinados temas. Não vão para a escola para serem educadas no sentido de educação de base. Hoje em dia, como as famílias não têm tempo, coloca-se a responsabilidade da educação na escola. Acho que a escola é um complemento. Isto resolve-se, quanto a mim, com uma mudança profunda de consciência e de paradigma da sociedade. A mulher tem a responsabilidade, a um determinado nível, de educar: não lhe compete educar o homem, mas educa. E se uma mulher estiver muito stressada, não vai ter nem o tempo nem a paciência para educar um filho. A partir do momento em que uma mulher é mãe torna-se responsável e acha que tem de controlar a vida das outras pessoas.

Quais os efeitos nocivos do stress numa mãe que quer educar?
Atualmente, as crianças vivem em stress porque têm mães stressadas desde pequenas. Acordar, vestir-se, ir para a escola. É tudo a despachar. As crianças estão um dia inteiro no colégio e, quando chegam a casa, volta a ser tudo a despachar: jantar, banho… A essa hora, as crianças querem brincar e relaxar. É como se as relações ficassem cada vez mais pragmáticas, no sentido de que executar tarefas é o mais importante. Uma mãe tem de perceber que arranjar tempo para ela não é uma questão de egoísmo, antes de altruísmo.

Como é que se descansa o cérebro?
Costumo começar pelo mais simples que é respirar profundamente várias vezes ao dia — respiração abdominal. O ser humano está vivo porque respira, tudo o resto que andamos a fazer é sobrevivência. A qualidade da nossa respiração é fundamental. Depois, é a questão dos ritmos em termos alimentares, até porque as pessoas saltam refeições — dizem que não têm tempo para comer – ou, então, comem compulsivamente. O sono é igualmente importante. A criatividade (ser criativo não implica ser artista) e o desporto (muitas vezes aconselho a comprar um saco de boxe porque há muita energia acumulada) são complementos que vão ajudar para que estes ritmos sejam repostos.

E se a pessoa responder, perante isto, que não tem tempo?
O problema é dela. Não receito remédios, mas sim trabalhos, TPCs que ajudam na gestão diária do stress. E aviso que, se a pessoa não fizer aqueles trabalhos, então isto não vai dar. Não consigo salvar ninguém. As pessoas só se salvam se assim o quiserem.