O consumo regular de cannabis encolhe o cérebro, ao mesmo tempo que aumenta a complexidade das ligações nervosas. Estas foram algumas das conclusões de uma investigação levada a cabo por cientistas norte-americanas, publicada na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences.

As investigadoras da Universidade do Texas analisaram, através da combinação de três técnicas diferentes de Ressonância Magnética, os cérebros de 48 consumidores de cannabis ao longo de oito anos, comparando-os simultaneamente com o mesmo número de não-consumidores. E chegaram à conclusão de que o volume cerebral de um fumador tende a diminuir. Mesmo assim, essa perda de volume é aparentemente compensada com um maior número de conexões entre os neurónios e a uma maior complexidade dessas ligações.

Uma das cientistas que liderou o estudo, Sina Aslan, explicou ao The Guardian que “os resultados sugerem aumentos de conectividade, tanto estruturais, como funcionais, que podem estar a compensar a perda de matéria cinzenta. Eventualmente, no entanto, a conectividade estrutural ou de ‘ligação’ do cérebro começa a degradar-se com o uso prolongado da marijuana”.

As análises revelaram que, depois do consumo prolongado de erva, a região do córtex orbitofrontal (OFC), envolvida no processamento mental, na tomada de decisões, assim como na capacidade de resposta às adversidades e na capacidade de demonstrar empatia, retrai-se e apresenta danos, o que, segundo os investigadores, pode estar na origem de certos episódios de psicopatia.

Ainda assim, apesar de todos os consumidores testados terem um Quociente de Inteligência (QI) inferior ao dos indivíduos não-fumadores de erva, tal não parece estar relacionado com as alterações cerebrais resultantes do consumo de longa-duração de cannabis.

O estudo parece indicar, também, que a idade em que o paciente começou a fumar pode ser determinante: o consumo numa idade precoce aumentou conectividade estrutural e funcional desses indivíduos. Além disso, o aumento da atividade cerebral conhece um pico nos primeiros seis a oito anos de consumo regular. Depois desse período, a conectividade entre os neurónios perde intensidade, mas, ainda assim, esses indivíduos continuam a apresentar níveis superiores aos dos não-consumidores.

A outra responsável pela investigação, Francesca Filbey, acredita que esta compensação – o volume cerebral diminui, mas as ligações cerebrais intensificam-se – pode explicar o facto dos fumadores regulares de cannabis não apresentarem sinais de demência ou qualquer outro sinal de degradação cerebral.

Este estudo é um dos primeiros a avaliar o impacto neurológico do consumo regular de drogas leves a longo prazo e traz-nos pistas importantes sobre os efeitos desse consumo e a sua relação com os fatores “idade” e “duração do uso”. Ainda assim, Francesca Filbey reconheceu que existem ainda algumas “limitações metodológicas” que impedem uma resposta em definitivo à pergunta: o consumo de cannabis altera diretamente a morfologia do cérebro humano e determinadas funções cerebrais?