Sandra corre. Sandra sobe escadas, toca a campainhas, bate a portas, corre, não pára de correr ruas acima e abaixo, no subúrbio belga onde vive com o marido e os dois filhos. Sandra, a protagonista de Dois Dias, Uma Noite, o novo filme dos irmãos Luc e Jean-Pierre Dardenne, interpretada por Marion Cotillard, não corre à toa. Corre contra-relógio, para salvar o seu emprego, e tem precisamente dois dias e uma noite de um fim-de-semana para o conseguir.

Sandra acabou de curar uma depressão e vai voltar à empresa onde trabalha. Mas é informada por uma colega que, na sua ausência, decidiram despedi-la e houve uma votação. Os seus 16 companheiros de trabalho, postos perante as seguintes hipóteses: 1) Sandra é reintegrada mas perdem o vosso bónus de mil euros. 2) Sandra é despedida e recebem o vosso bónus de mil euros; escolheram quase todos a segunda. E assim, Sandra vai sair directamente de uma depressão para o desemprego. Por isso corre, corre de um lado para o outro durante todo o fim-de-semana, para tentar convencer os colegas, um a um, a inverterem o seu voto na nova votação que conseguiu arrancar ao seu director e que terá lugar na segunda-feira de manhã, a abdicarem do bónus de mil euros de que todos tanto precisam, por uma razão ou outra, e a devolverem-lhe o seu emprego.

‘Trailer’ ‘Dois Dias, Uma Noite’

Sandra é uma típica personagem dos irmãos Dardenne, duplos vencedores da Palma de Ouro no Festival de Cannes, e que desde A Promessa (1996) fazem filmes impenitentemente realistas, com personagens das classes trabalhadoras ou com existências modestas postas perante tempos e situações difíceis num mundo duro, feio e salve-se-quem-puder. Um mundo que todos os dias põe à prova a sua capacidade de resistência física e mental e a sua consciência moral.

Além de ser um filme que consegue sintetizar na situação da heroína todas as dificuldades, os dramas, os dilemas e as indignidades a que a crise submete as pessoas comuns (Sandra precisa absolutamente do emprego, mas sabe que a maior parte dos colegas também precisam dos mil euros como pão para a boca, para um significa pagar o gás e a electricidade durante um ano, para outros as despesas da filha que está na universidade, e não quer parecer que está a mendigar que abdiquem dele mas sabe que está a humilhar-se ao pedi-lo), Dois Dias, Uma Noite é também uma história de suspense (conseguirá Sandra o que pretende no pouco tempo de que dispõe, sem desanimar e voltar a quebrar?), um thriller social onde toda a gente é uma vítima, e uma fábula humanista sobre o egoísmo, a solidariedade, a necessidade e a dignidade em tempos de desespero, sobre o melhor e o pior que há em cada ser humano condicionado pelas circunstâncias.

http://youtu.be/SzlEc25rcR0

Entrevista com Marion Cotillard

Tudo filmado pelos Dardenne com aquela sua câmara incansável e adesiva, que nunca sai da beira das personagens, e com o seu imediato, tangível e intenso sentido do real e do banal, do vivido, falado, sentido e sofrido como nas vidas que vivemos na realidade, onde entre as verdades ásperas, os encontrões dolorosos e as decepções brutais, às vezes se abrem umas frestazinhas por onde entra alguma luz de esperança.

Este é também um filme tão “político” como quase todos os anteriores dos irmãos belgas, de Rosetta a O Miúdo da Bicicleta, passando por A Criança, mas sem que isso signifique “ideológico” ou “militante”. Porque Dois Dias, Uma Noite não é um gesto “de denúncia”, um manifesto “contra”, um panfleto “anti” (no seu entusiasmo de esquerda, o meu estimado confrade Xan Brooks, do The Guardian, apressou-se a chamar-lhe “uma epopeia socialista em miniatura”), já que os irmãos não se encarniçam contra o “sistema capitalista”, o “patrão mau” ou “o sistema de produção”, não esticam dedos acusadores, procuram culpados, pedem cabeças ou chamam nomes, isso não faz nem nunca fez o seu género. Eles fazem cinema, não fazem comícios, os seus filmes não são tribunais de causas, são histórias sociais de rosto humano. Dois Dias, Uma Noite está limpo de demagogia, de ódio social e de armadilhas melodramáticas

http://youtu.be/5pyKVSizNM4

Entrevista com Luc e Jean-Pierre Dardenne

Em Dois Dias, Uma Noite, os irmãos trabalharam pela primeira vez com uma actriz não belga que é também uma estrela europeia oscarizada e solicitada em Hollywood , e ligada ao mundo da moda, Marion Cotillard, que conheceram na rodagem de Ferrugem e Osso, de Jacques Audiard, o qual co-produziram.  Cotillard mete-se na pele de Sandra, e no cinema dos Dardenne, como uma ervilha numa vagem, interpretando-a da determinação ao desespero, entre o “vais conseguir” que lhe lança o marido (o excelente e discreto Fabrizio Rongione, habitué dos filmes dos irmãos) e o “não existo” que a certa altura grita, sem um tique melodramático que seja, nem se transformar na mendicante da piedade ou dos soluços do espectador. Sandra corre, corre, corre contra o relógio, corre pelo seu emprego, até à vitória (moral) final, uma sacrificada mas altiva atleta da integridade.