A Europa está cheia de europeus médios. E o europeu médio sonha provavelmente em manter-se europeu, perdendo o médio. Não é fácil. Este nosso continente pode não ser a Ásia do Japão ou da China, cheia de liturgias sociais, ou a da Índia, com castas várias, mas, ao mesmo tempo, não facilita os elevadores sociais que a América do Norte nos inspira. Não é fácil ser um europeu médio.
Mas é tudo uma questão de perspetiva. Imaginem um encontro académico. Há um convidado especial que discursa a partir da sua experiência de vida. A sua experiência de vida é única e ganhou a pertinência de conquistar um espaço na atenção do mundo universitário. Este convidado especial detalha o seu percurso: era um chimpanzé da Costa do Ouro quando foi capturado pela Firma Hagenbeck.
O macaco que discursa levou dois tiros mas sobreviveu. Foi transportado para a Europa maritimamente numa jaula. Viajou sem condições, apanhou pulgas, conviveu com os marinheiros que não tinham maneiras. Decidiu aprender com eles: “era tão fácil imitá-los. Logo nos primeiros dias já sabia cuspir. (…) Não passou muito tempo até que começasse a fumar cachimbo.” Aprende a arte de beber aguardente e atinge o dom da linguagem surpreendendo todos com um “Olá!”.
Quando é entregue a um domador em Hamburgo tinha dois caminhos: o jardim zoológico ou o teatro de variedades. Escolhe o segundo e nota: “a natureza símia fugia de mim para sempre a toda a pressa e aos tropeções, de tal maneira que o meu primeiro professor quase se tornou ele próprio um macaco, desistiu das aulas e teve de ser internado num sanatório”. A criatura construiu a sua própria sorte macaca e agora descreve-a na Universidade.
Numa das últimas afirmações que partilha com os Excelentíssimos Senhores da Academia, revela confiante: “Graças a um esforço como o mundo nunca viu, adquiri a educação de um europeu médio”. Como podem calcular, a história não é minha. É de um conto de Franz Kafka, chamado “Relato para Uma Academia” e faz parte de “Josefine, a cantora ou o povo dos ratos”, acabado de editar pela Penguin. É obrigatório.
Se há nome literário usado em vão é o de Kafka. Sempre que alguma coisa ultrapassa negativamente os limites da nossa expectativa metemo-lo ao barulho e afirmamo-nos numa realidade kafkiana, como se a conquista do escritor de Praga fosse o diagnóstico de que o mundo está doido pelo menos desde o início do século XX. Não é que não possamos concluir algo parecido enquanto o lemos, mas é claramente pouco ficar por aí.
O chimpanzé de Kafka celebra na Academia o que pela sua vontade conquistou ao mesmo tempo que não idealiza: “do mesmo modo que a liberdade pertence aos sentimentos mais elevados, é também maior a desilusão que lhe corresponde”. O macaco que singra na Europa pode até ganhar uma carreira universitária mas essa esforçada conquista vem mais do teatro de variedades do que das avenidas largas da emancipação. A moral da história faz-se sozinha.