Aproveitando a estreia de “Variações de Casanova”, de Michael Sturminger, com John Malkovich, aqui se recordam algumas das aparições do lendário sedutor veneziano no cinema, dos anos 40 até aos nossos dias, interpretado por actores como Donald Sutherland, Alain Delon, Heath Ledger e até Bob Hope e Tony Curtis.

Desde muito cedo que a figura de Giacomo Casanova foi convocada pelo cinema. Em 1918, rodou-se na Hungria o mudo Casanova, que será o primeiro filme dedicado ao libertino, aventureiro e autor veneziano que atravessou o século XVIII deixando um rasto de conquistas amorosas, escândalos, proezas, dívidas e escritos vários, incluindo as suas “Memórias”, e que contava com a participação de um então desconhecido Bela Lugosi.

Desde aí, Casanova tirou assinatura de presença regular nas fitas. Em 1944, por exemplo, Gary Cooper personificou um Casanova americano na comédia romântica “O Moderno Casanova”, de Sam Wood. Quatro anos mais tarde, em 1948, Vittorio Gassman teve o seu primeiro papel de destaque no cinema interpretando Casanova em “Aventura na Rússia”, de Ricardo Freda, e em 1955, um filme alemão propunha uma versão feminina do mesmo. Hoje estreia-se em Portugal “Variações de Casanova”, de Michael Sturminger, a mais recente contribuição para o cânone de Casanova no cinema, rodado em Lisboa e com John Malkovich, que é a adaptação à tela do espectáculo do realizador, “The Giacomo Variations”.

“Trailer” de “Variações de Casanova”

O filme de Sturminger é uma jiga-joga auto-referencial e com pretensões meta-narrativas e de subversão (algo atabalhoada) da barreira entre espectadores e espectáculo, alternando entre palco, bastidores e tela, a actualidade e o século XVIII, a “realidade” e a ficção, o “verdadeiro” e o “falso”. Malkovich interpreta-se a si próprio e a Casanova no São Carlos e nos últimos tempos da vida deste, no castelo da Boémia onde estava instalado a escrever as memórias. É tudo entremeado de árias de óperas de Mozart que supostamente ajudam a contar a “história” e mostram os fracos dotes vocais de Malkovich, e em parte dominado pelo generoso decote da vedeta alemã Veronica Ferres, que faz a aristocrática Elisa.

A propósito deste nova aparição cinematográfica do lendário conquistador veneziano, fomos ao baú cinéfilo buscar uma mão-cheia de títulos onde ele é a vedeta.

“A Grande Noite de Casanova” (Norman Z. McLeod, 1944)

Bob Hope interpreta Pipo Pippolino, um alfaiate falhado amoroso contemporâneo de Casanova em Itália, que se faz passar por ele para poder conquistar uma rica viúva. O problema é que Casanova é também perseguido por uma matilha de credores, e Pippolino acaba por se meter numa série de confusões que lhe chegam a pôr a vida em perigo. Acompanhando Hope nesta comédia cheia de anacronismos voluntários (as fãs de Casanova berram como as do então jovem Frank Sinatra), encontramos Joan Fontaine, Basil Rathbone, John Carradine e o pugilista Primo Carnera.

Cena de “A Grande Noite de Casanova”

“Casanova 70” (Mario Monicelli, 1965)

Uma versão moderna e satírica do mito de Casanova, com Marcello Mastroianni na pele de um italiano colocado nas Nações Unidas e conquistador inveterado, mas que só se consegue excitar sexualmente quando há um elemento de perigo na aventura amorosa, coisa que não consegue encontrar devido à liberalização dos costumes e à crescente libertação das mulheres. Assim, temos um Casanova moderno que sofre de impotência e tem que ir ao psiquiatra, que lhe aconselha tentar a abstinência sexual. “Casanova 70” conta com uma grande interpretação de Mastroianni, a contrapelo da sua imagem.

http://youtu.be/-nEJW0u72Bs

“Trailer” de “Casanova 70”

“A Iniciação Sexual de Casanova” (Luigi Comencini, 1969)

O título português é de filme pornográfico, mas esta realização do grande Luigi Comencini não tem nada a ver com “hardcore” e segue Casanova durante a sua infância e juventude em Veneza, e nas suas primeiras aventuras e experiências com as mulheres. O inglês Leonard Whiting, que um ano antes se havia revelado em “Romeu e Julieta”, de Franco Zeffirelli, personifica o jovem Casanova. Uma das suas paixões é interpretada por Tina Aumont, que alguns anos mais tarde entraria no “Casanova” de Federico Fellini.

http://youtu.be/-P4XGnsjSeA

“Trailer” de “A Iniciação Sexual de Casanova”

“Casanova de Fellini” (Federico Fellini, 1976)

Um dos mais discutidos e menos consensuais filmes de Fellini, parcialmente baseado na autobiografia de Casanova e com Donald Sutherland no papel do título. Uma escolha que à altura dividiu radicalmente a crítica e o público, sobretudo nos EUA, mas que Fellini defendeu com unhas e dentes, após ter recusado a escolha dos produtores, Robert Redford. Casanova era uma personagem com que o realizador antipatizava, por ter aquilo que Fellini entendia ser “uma noção mecânica do amor” e no fundo, ser incapaz de amar verdadeiramente, esgotando-se no acto sexual, e daí o ser representado a certa altura como um boneco mecânico.

“Trailer” de “Casanova de Fellini”

“As 13 Mulheres de Casanova” (Franz Antel, 1977)

Tony Curtis no papel de Casanova? Sim, é verdade, Tony Curtis, que interpreta igualmente Jacomino, o seu sósia labrego, nesta inenarrável farsa histórica de produção europeia, mas que parece ter sido inspirada pela revista “Playboy” e pelas festas que Howard Hughes dava na sua mansão de Hollywood. Entre as beldades internacionais que adornam “As 13 Mulheres de Casanova” e que aligeiram o tormento do espectador, encontramos Marisa Berenson, Sylva Koscina, Marisa Mell, Britt Ekland e Lilian Muller. Um sério candidato a Pior Filme Já Feito Sobre Casanova.

“Trailer” de “As 13 Mulheres de Casanova”

“A Noite de Varennes” (Ettore Scola, 1982)

Neste filme histórico do italiano Ettore Scola, passado durante a Revolução Francesa, o idoso Casanova personificado por Marcello Mastroianni é um dos ilustres passageiros de uma diligência que se vêem envolvidos na tentativa de fuga do rei Luís XVI, depois preso em Varennes. O muito vivido e céptico Casanova de Scola está acompanhado por figuras como o (também) libertino, escritor e revolucionário Restif de la Bretonne ou o patriota e teórico político americano Thomas Paine, com os quais discorre sobre os acontecimentos que estão a testemunhar, o Antigo Regime, o futuro da revolução e a natureza humana.

“Trailer” de “A Noite de Varennes”

“O Regresso de Casanova” (Edouard Niermans, 1992)

Escrito por Jean-Claude Carriére com base num livro de Arthur Schnitzler, e assinado pelo actor e realizador Edouard Niermans, este “O Regresso de Casanova” é uma jóia escondida do cinema francês, um belíssimo, subtil e melancólico filme ambientado nos últimos anos da vida do inveterado sedutor. Alain Delon é notável num Casanova já entradote, que se propõe fazer uma última e grande conquista, uma rapariga belíssima, mas que acaba por se apaixonar verdadeiramente pela primeira vez na sua vida, com consequências dramáticas e humilhantes.

http://youtu.be/Hcz8UP9VFSY

“Trailer” de “O Regresso de Casanova”

“Casanova” (Lasse Halstrom, 2005)

O malogrado Heath Ledger é um Casanova de capa e espada nesta comédia inofensiva e acelerada, com pós feministas. Realizada pelo sueco Lasse Halstrom e integralmente filmada em Veneza, em cujo festival de cinema teve a sua estreia mundial. O enredo baseia-se numa série de enganos, de identidades trocadas e de situações de comédia física para conseguir o riso, e Ledger está muito bem rodeado: Jeremy Irons num Grande Inquisidor de muito maus fígados, Siena Miller na afoita e intelectual Francesa, Lena Olin, Oliver Platt, Tim McInnerny, parceiro habitual de Rowan Atkinson, num Doge ridículo, e Omid Djalili no gordo e sofredor criado de Casanova.

“Trailer” de “Casanova”

“História da Minha Morte” (Albert Serra, 2013)

O cineasta espanhol Albert Serra, que filmou a viagem dos Reis Magos que vão adorar o Menino Jesus em “O Canto dos Pássaros”, e os tempos mortos da história de D. Quixote em “Honra de Cavalaria”, promove aqui o encontro entre Casanova e o conde Drácula, mas a atmosfera não tem nada a ver com as dos filmes de vampiros. Em “História da Minha Morte”, Casanova, idoso e instalado no Leste da Europa, vê o seu estilo de vida e a sua visão do mundo racionalista confrontados pela figura de um Drácula que representa a emoção e o desejo irracional. Muita, muita conversa e muito pouco sangue.

“Trailer” de “História da Minha Morte”