Durante muitos anos nem teve uma letra própria. Era conhecida por não-A e não-B. Só em 1989 foi identificado o agente infeccioso que provoca esta hepatite: a C.

Trata-se de uma doença “silenciosa”, uma vez que um doente com hepatite C crónica pode demorar décadas a perceber os sinais e a descobrir a doença que afeta milhões em todo o mundo, a maioria dos quais não diagnosticados. Em Portugal, no último ano, esta doença e respetivos doentes entraram na agenda mediática por causa da polémica negociação entre o Governo e a farmacêutica Gilead para dispensar um medicamento inovador, com altas taxas de cura e efeitos adversos reduzidos.

O Observador ajuda-o a perceber o que é a hepatite C, quais os sintomas, como se transmite, como se pode evitar e tratar.

 

  • O que é a hepatite C?

A hepatite C é uma inflamação do fígado provocada por um vírus que pode conduzir à cirrose, insuficiência hepática e cancro. Até agora foram identificados seis genótipos diferentes do vírus que se subdividem. Durante muitos anos era conhecida como hepatite não-A e não-B até que, em 1989, se identificou o agente infeccioso que a provoca e que se transmite, sobretudo, por via sanguínea. Cerca de 20% dos infetados com o vírus da hepatite C (VHC) recuperam espontaneamente, sem precisarem de terapêutica, já os restantes, que ficam com o vírus no organismo por mais de seis meses, evoluem para hepatite crónica, sem que muitas vezes a doença se manifeste durante anos a fio. Em cerca de 20% desses casos que evoluem para hepatite crónica, os doentes acabam por desenvolver cirrose ou cancro no fígado (hepatocarcinoma), e muitos são transplantados, embora o vírus permaneça lá na mesma. Os especialistas ainda não chegaram a uma conclusão sobre o que justifica que uns desenvolvam cirrose mais rapidamente que outros, mas há várias possíveis explicações: idade em que a pessoa foi contaminada (quanto mais tarde mais grave pode ser), as diferenças hormonais (mais comum no sexo masculino) e o consumo de álcool.

  • Quantos infetados existem?

Não se sabe ao certo quantos infetados com o vírus da hepatite C existem, até porque a grande maioria não está diagnosticada. Mas a Organização Mundial de Saúde (OMS) estima entre 130 milhões e 150 milhões de infetados em todo o mundo. Já o Centro Europeu de Prevenção e Controlo da Doença aponta para os 170 milhões de pessoas com hepatite C, sendo que com hepatite C crónica haverá 130 milhões. Na União Europeia fala-se em nove milhões de pessoas infetadas. A mesma entidade estima que todos os anos surjam três a quatro milhões de novos casos. Em Portugal, de acordo com o levantamento feito pelo Infarmed há 13.015 doentes com hepatite C.

  • Quais são os sintomas?

O período de evolução da doença estimado é de 20 a 40 anos e muitos doentes nem apresentam sintomas na fase aguda. Mas entre os sintomas podem destacar-se: letargia, mal-estar geral, febre, urina escura, problemas de concentração, perda de apetite, náuseas, intolerância ao álcool, dores na zona do fígado ou o sintoma mais específico que é a icterícia. Muitas vezes, os sintomas não são claros, podendo assemelhar-se aos de uma gripe. O portador crónico do vírus, por outro lado, pode mesmo não ter qualquer tipo de sintoma, sentir-se saudável e, no entanto, estar a desenvolver uma cirrose ou um cancro hepático.

  • De que forma é feito o diagnóstico?

Os primeiros exames a fazer são análises sanguíneas para verificar a existência de anticorpos, embora os anticorpos anti-VHC possam corresponder a uma hepatite antiga e já curada, pelo que é preciso fazer mais testes específicos de forma a verificar se a infeção está ativa. Há ainda outros testes que permitem verificar o genótipo do vírus (e há seis) e métodos para avaliar a gravidade da doença, que podem ir de biopsias a outros menos invasivos.

  • Como se transmite a hepatite C?

O principal veículo de transmissão deste vírus é o sangue, bastando o contacto com uma pequena quantidade de sangue contaminado, se este entrar na corrente sanguínea de alguém através de um corte ou ferida ou na partilha de seringas. Aliás, a principal via de transmissão do VHC na Europa, segundo o Centro Europeu de Prevenção e Controlo da Doença, é o uso de drogas injetáveis, por causa da partilha de agulhas contaminadas. O vírus também pode ser transmitido por via sexual, embora não seja muito frequente. E apesar de o VHC já ter sido detetado na saliva, é pouco provável que se transmita através de beijos. A hepatite C também pode ser transmitida a fazer tatuagens, piercings e acupuntura, se os materiais não estiverem esterilizados. De assinalar por exemplo que entre os grupos de maior risco estão aqueles que fizeram transfusões de sangue ou foram sujeitas a intervenções cirúrgicas antes de 1992. As mulheres grávidas com hepatite C também podem transmitir o vírus para os filhos, embora seja muito raro.

  • Como pode prevenir?

Não havendo ainda uma vacina para a hepatite C – tal como já existe para a A e a B – pode prevenir-se a doença, evitando o contacto com sangue contaminado, a partilha de objetos de uso pessoal cortantes ou perfurantes (escovas de dentes, corta-unhas, alicates, lâminas de barbear e tesouras), utilizando luvas sempre que se entre em contacto com sangue, feridas ou objetos com sangue, evitando a reutilização de seringas e outros instrumentos utilizados na preparação e consumo de drogas injetáveis e utilizando sempre preservativos nas relações sexuais para reduzir o risco de transmissão sexual, sobretudo quando existem múltiplos parceiros. Não serve para prevenir, mas serve de conselho para quem é portador deste vírus: o álcool deve ser evitado ao máximo, bem como medicamentos que possam sobrecarregar o fígado.

  •  Qual o tratamento para a hepatite C?

Atualmente, o tratamento considerado “standard” pela comunidade científica internacional consiste na combinação do interferão peguilado (uma injeção semanal) com a ingestão diária de comprimidos de ribavirina (a quantidade varia de acordo com o peso do paciente). Este tratamento tem uma taxa de sucesso de cerca de 60%, variando para cima ou para baixo consoante o genótipo do vírus. Ou seja, mais de metade dos doentes deixam de ter o vírus no sangue. Os genótipos 2 e 3 respondem melhor ao tratamento, enquanto os genótipos 1 e 4 alcançam um índice menor de cura. Infelizmente, muitos pacientes toleram mal este tratamento e acabam por desistir. Entretanto, alguns doentes (com o genótipo 1 do vírus) passaram, mais recentemente, a ser tratados também com inibidores (Telaprevir ou Boceprevir). O tratamento, quando indicado, passa a ser uma terapia tripla: injeção semanal, comprimidos de ribavirina diários e outro que pode ser boceprevir ou telaprevir. Com estes, a eficácia passa para os 80%. E ainda mais recentemente foi aprovado pela Agência Europeia do Medicamento o sofosbuvir (Sovaldi) e o sofosbuvir com ledispavir (Harvoni), da Gilead, que apresentam taxas de cura superiores a 95%. O primeiro dá para todos os genótipos, o segundo, que evita a associação com outros medicamentos, funciona nos genótipos 1 e 4, e nalguns doentes também com genótipo 3. O tratamento tem normalmente a duração de três meses e tem efeitos secundários diminutos. Portugal fechou acordo com a farmacêutica esta sexta-feira.