VIH

Uma vacina contra o VIH ou publicidade a mais?

Um grupo de investigadores conseguiu resultados promissores na prevenção da infeção pelo vírus VIH. O Observador falou com três especialistas sobre as limitações deste estudo.

A dificuldade de criar uma vacina contra o VIH está na mutabilidade do vírus

MICHAEL REYNOLDS/EPA

Descobrir uma forma para prevenir que a infeção pelo VIH – vírus da imunodeficiência humana – se estabeleça no corpo do hospedeiro ou encontrar uma cura para essa infeção estão entre os principais objetivos dos grupos que estudam o vírus, em particular daqueles que procuram desenvolver uma vacina. Os resultados publicados esta quarta-feira na revista Nature sobre uma proteína que se mostrou eficaz mesmo perante cargas virais elevadas, conseguiu muitos aplausos e cobertura mediática, mas também levantou muitas questões sobre a investigação.

Na experiência, os macacos rhesus foram vacinados com uma forma modificada de um adenovírus, que funciona como meio de transporte para o que os investigadores desejam colocar nas células. O adenovírus tinha no interior ADN do VIH, manipulado de maneira a produzir a proteína idealizada pelos cientistas (eCDA-Ig, uma proteína nunca antes produzida por um ser vivo). Quando infetou as células, o adenovírus fez com que produzissem esta nova proteína que ataca alvos específicos no invólucro do VIH, impedindo-o de entrar nas células do sistema imunitário que normalmente ataca (os linfócitos CD4).

Os investigadores referem no artigo que todos os macacos inoculados com o adenovírus, que transportava o gene que expressou a nova proteína, ficaram protegidos de “doses múltiplas de infeção que são provavelmente maiores do que aquelas a que os humanos estão sujeitos durante a transmissão [entre duas pessoas]”, pelo menos no período de 34 semanas.

“A tática é boa e está a ser seguida por uma vintena de grupos de investigação. Alguns deles até já publicaram resultados prometedores, mas não usaram um trombone [para o anunciar] como este grupo”, diz ao Observador Jaime Nina, professor no Instituto de Higiene e Medicina Tropical, da Universidade Nova de Lisboa. “É um avanço, mas foi muito empolado.” O médico especialista em doenças infecciosas critica em particular a impossibilidade de se poder tirar conclusões estatisticamente válidas de uma experiência com apenas quatro animais.

Embora se mostre menos cético em relação a este estudo, José Azevedo-Pereira, investigador na Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa, concorda que “a amostragem não é muito grande”. “As conclusões não podem ser extrapoladas tão taxativamente. Estão a antever muita coisa em poucos animais e pouco tempo“, refere ao Observador o investigador que se dedica ao estudo das infeções com VIH. “Caso se confirmem, estes resultados são fantásticos.”

Os macacos rhesus são usados como modelos em algumas experiências - Ye Aung Thu/AFP/Getty Images

Os macacos rhesus são usados como modelos em algumas experiências – Ye Aung Thu/AFP/Getty Images

Mas criar uma vacina contra este vírus têm-se mostrado muito difícil. Por um lado, os retrovírus, e em particular o VIH, sofrem mutações muito facilmente. “Nem sequer se sabe quantos tipos de vírus diferentes se podem formar num único indivíduo”, refere Rui Soares, investigador na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra. Por outro, o sistema imunitário do organismo vacinado pode nem sequer chegar a produzir o anticorpo desejado.

Ainda que este adenovírus se ligue aos linfócitos CD4 e provoque a resposta imunitária prevista pelos responsáveis pelo estudo enfrenta os mesmos problemas das vacinas até agora estudadas – a mutação das glicoproteínas no invólucro do vírus fazem com que deixe de funcionar, como lembra Rui Soares, que está a realizar doutoramento com VIH.

“Quanto tempo é que a resposta é mantida? Durante quanto tempo haverá concentração suficiente para proteger o hospedeiro?”, interroga-se José Azevedo-Pereira, visto que no estudo só foi analisada a eficácia até às 34 semanas. “O organismo pode [até] ter uma resposta imunológica contra a proteína”, levando o organismo a atacá-la como se de um agente patogénico (que causa doença) se tratasse. Jaime Nina levanta ainda outro problema: “Uma coisa é fabricar a molécula artificialmente, outra é convencer o organismo a fazê-lo”.

Ainda que os macacos rhesus utilizados nesta experiência tenham um sistema imunitário comparável ao humano, Rui Soares refere que mesmo assim são limitativos. “Os macacos têm uma proteína ativa que inibe retrovírus [como o VIH] e os humanos não.” Logo os efeitos em humanos podem ser muito diferentes daqueles conseguidos em macacos rhesus, que ao fim de 34 semanas ainda se mostravam imunes ao vírus.

Mas, e depois dessas 34 semanas? É preciso perceber se passado esse período a quantidade da nova proteína no organismo continua a proteger da infeção, se apresenta toxicidade para o corpo (embora não haja registos disso neste período de tempo) e quantas vezes tem de ser repetida a inoculação para ter efeito a longo prazo. Rui Soares lembra também que a proteína manipulada tem aminoácidos em comum com outras proteínas do vírus que não sofreram nenhuma manipulação e que no estudo não há qualquer referência à interação destas proteínas. Esta interação pode alterar o comportamento das mesmas.

Sobre a possibilidade de ser usado como terapia para pessoas que já tenham a doença, Jaime Nina diz que só “como tratamento de último recurso, para quem não respondesse a mais nenhum tratamento”. O médico lembra que os tratamentos injetáveis têm menos sucesso do que os comprimidos, porque a toma é diária e os comprimidos são mais práticos. Rui Soares, embora classifique este estudo como “um passo importante”, também considera que é muito cedo para falar em ensaios clínicos em humanos. “O mais importante era associar todos os estudos que foram feitos até ao momento e criar um modelo que tentasse colmatar as lacunas que cada estudo tem.”

Atualizado às 10h30 de 20/02/2015

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