A sisa acabou em 2003. Esta palavra foi durante muitos anos um dos piores pesadelos dos contribuintes. Obrigatório quando se comprava casa, o imposto era considerado pesado por muitas pessoas que tentavam arranjar forma de escapar ao seu pagamento. Muito conhecido nos meios políticos, já fez cair ministros e secretários de Estado e semeou suspeitas nos currículos de alguns governantes.

O caso mais conhecido é o de António Vitorino. Em 1997, era ministro da Defesa e demitiu-se quando o Público descobriu que não tinha pago a sisa relativa a um monte em Almodovar, comprado antes de ser ministro, porque declarou um valor abaixo do valor real. O então ministro de António Guterres convocou uma conferência de imprensa para apresentar a demissão mal recebeu as perguntas do Público. Não esperou que saísse a notícia.

Murteira Nabo foi ministro do Equipamento Social durante apenas 15 dias por causa do não-pagamento da sisa. Em 1995, aceitou integrar a equipa de João Cravinho, ministro das Obras Públicas, e demite-se quando é noticiado que não declarou o valor real de um apartamento que tinha comprado (e, por isso, pagou menos sisa do que aquilo que devia). Quando se demite, anuncia que vai regularizar de imediato a situação.

Em 1989, Miguel Cadilhe era ministro das Finanças e rebentou o escândalo da sisa do apartamento das Amoreiras. O Independente faz várias notícias sobre a compra de uma casa nas Torres das Amoreiras um ano antes, pela qual o social-democrata pagou 5.999 contos (o limite máximo para isenção de sisa era de seis mil contos). Cadilhe sempre alegou a legalidade da transação, pois resultava da troca de um apartamento no Lumiar. O caso perseguiu-o semanas, mas nunca se demitiu.

Pouco tempo depois, o então líder parlamentar do PSD, Duarte Lima, demite-se do cargo por causa de suspeitas relacionadas com a compra de uma quinta em Nafarros, Sintra. Segundo uma investigação do Expresso, o social-democrata comprou, entre 1993 e 1994, seis terrenos em Nafarros, numa extensão de três hectares. As escrituras estavam em nome de uma sobrinha sem rendimentos.

Antes disso, o social-democrata tinha comprado um andar de luxo na avenida João XXI por um valor declarado inferior ao assumido pelo construtor. Depois, muda-se para outro prédio na avenida Visconde Valmor, declarando também um preço inferior ao do mercado.

Como funcionava a sisa? Até aos seis mil contos (30 mil euros) do valor da transação de imóveis, as pessoas estavam isentas de pagar sisa. A partir daí, havia escalões de valores. Muitas vezes, compradores e vendedores declaravam valores abaixo dos reais para efeitos de escritura e, consequentemente, fiscais. A sisa foi substituída em 1 de janeiro de 2014 pelo Imposto Municipal sobre Transações, menos pesado.

Com José Sócrates, nova polémica. Em 1998, compra um apartamento no edifício Heron Castilho, na Rua Braamcamp, em Lisboa, por 47 mil contos (235 mil euros). O negócio levanta suspeitas de fraude fiscal porque, segundo o Público, dois anos antes uma casa idêntica tinha sido vendida por 70.200 contos (351 mil euros, sem o imposto de sisa), mais 50% do que o valor declarado por Sócrates.

Também o atual Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, já se viu envolvido em dúvidas sobre transações de imóveis que não foram totalmente esclarecidas. Em causa esteve a moradia de férias no Algarve. Em 1998, Cavaco adquiriu uma vivenda em fase de construção, dando como permuta a antiga casa de Montechoro.

Segundo investigação do Público, inicialmente não foi pago nada a título de sisa porque foi atribuído às duas propriedades o mesmo valor, de 135 mil euros (27 mil contos). Mais tarde, as Finanças resolvem fazer uma avaliação da propriedade da Coelha e Cavaco paga 8.133 euros porque a nova casa tem uma avaliação superior à antiga. Ainda de acordo com o Público, a avaliação é feita com base num projeto de construção desatualizado (em termos de área de terreno e de arquitetura) da nova moradia.