A embaixadora de Marrocos em Lisboa considera que o seu país exerce atualmente uma “função de polícia” contra a imigração ilegal na sua margem do Mediterrâneo, mas defende que as responsabilidades devem ser partilhadas com os países europeus envolvidos.

“Temos de ter em consideração a política de Marrocos como polícia [gendarme] do norte de África, junto ao Mediterrâneo. em direção ao Mediterrâneo norte”, indicou a embaixadora de Marrocos, Karima Benyaich, em declarações à Lusa.

No rescaldo da decisão da União Europeia (UE), que na quinta-feira decidiu triplicar o orçamento mensal da sua operação de patrulhas marítimas ‘Tritão’ para 120 milhões de euros — no rescaldo do naufrágio que no domingo vitimou 800 migrantes –, a embaixadora recordou que o seu país, por onde circulam milhares de pessoas que pretendem atravessar o estreito em direção à Europa, também se tornou num local de “acolhimento”.

“Pelo desenvolvimento [económico] que se regista em Marrocos muitos migrantes decidem ficar e, atendendo à política de direitos humanos que foi aplicada, o país possui uma política de imigração. Já regularizámos a situação de mais de 20.000 pessoas em Marrocos em conformidade com os direitos humanos”, assegurou.

Numa referência à abordagem da UE face à questão da imigração ilegal proveniente de África a responsável diplomática, há seis anos nestas funções e fluente em português, admite a necessidade de “políticas de vigilância” mas considera-as insuficientes.

“Não se deve esquecer que se os países conhecerem um desenvolvimento importante, toda esta imigração deixará de seguir em direção à outra margem. Os países no norte e do sul da orla mediterrânica devem trabalhar para evitar esses dramas que hoje estão a acontecer”, referiu.

“O Mediterrâneo converteu-se hoje num cemitério, e a responsabilidade deve ser partilhada. Não se deve falar apenas de vigilância, mas também em ajudar esses países a garantirem o desenvolvimento económico e dos direitos humanos”, acrescentou.

A representante de Rabat não prescindiu de voltar a sublinhar o empenho do Estado marroquino no combate à imigração clandestina “no qual despendemos mais de 100 milhões de dólares”, sendo “o único país da margem sul do Mediterrâneo dotado desta política”, a par das iniciativas para a integração dos imigrantes subsaarianos.

No entanto, diversas ONG têm acusado as autoridades marroquinas de medidas muito duras face aos imigrantes ilegais, com a maioria a serem simplesmente expulsos em direção ao deserto, onde muitos não sobrevivem.

“Estamos a lutar contra isso [as extradições e o abandono dos imigrantes no deserto…]. Há que ter em conta o que está a acontecer na margem sul do Mediterrâneo, e Marrocos é o único país da região dotado desde 2014 de uma política para a imigração. Marrocos não tem gás, não tem petróleo. E nem tem ajudas diretas da UE, ao contrário dos países que são seus Estados-membros”, sustenta.

Karima Benyaich considera ainda que as ONG que criticam a política migratória de Marrocos “têm de ter em conta” o que está a acontecer na margem sul mediterrânica, e nos outros países desta região de fronteira.

“O país que está a avançar mais nos direitos humanos é incontestavelmente Marrocos, na luta contra a imigração, o terrorismo, contra todas ameaças e todos os tráficos”.

Numa referência à situação em torno dos territórios espanhóis de Ceuta e Melilla, situados no norte do país e junto ao Mediterrâneo, a diplomata reconhece a existência de uma “pressão muito forte” para a entrada dos imigrantes nestas dois enclaves que são território da UE, e que permanecem cercados por muros, arame farpado, valas e sob alta vigilância.

“Marrocos tem uma política muito forte para lutar contra a imigração que é dirigida para a Europa”, reforçou.