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Antony and the Johnsons: o futuro é feminino

Entre a força e a vulnerabilidade, uma voz que desafia os conceitos de raça e de género, acompanhada por uma orquestra sem fronteiras. Em defesa das mulheres, actuam no Porto dia 5 de junho.

Antony Hegarty

Imagem: RAFA RIVAS/AFP/GettyImages

Alimenta o sonho de viver num mundo menos influenciado pelas hormonas e pelas questões de género. Vive preocupado com a defesa e proteção da biodiversidade no cenário de transformação e desgaste impostos pela vida moderna. Critica a ambição económica e o consumismo desenfreado. Admite em entrevistas que a solução passa por um reforço do poder das mulheres na sociedade, visando anular os desequilíbrios historicamente provocados pelos sistemas patriarcais da religião, da economia e da política.

Antony Hegarty, a alma criadora do coletivo Antony and the Johnsons, leva a defesa ideológica muito além da música e dos palcos. Intervém como protagonista na “Future Feminist Foundation”, entidade que fundou em Nova Iorque com um grupo de artistas e pensadores unidos pelo desejo de reorganizar a sociedade humana enquanto espécie e afirmar os valores do arquétipo feminino. Um dos seus princípios básicos é o de que a subjugação das mulheres e do planeta Terra têm precisamente as mesmas causas. Portanto somente um novo paradigma cultural dominado por mulheres poderá evitar um desastre ecológico global.

Antony é transgénero e gosta de ser tratada pelos pronomes femininos. Para dar nome à banda inspirou-se no nome de Marsha P. Johnson, a famosa drag queen negra, ativista pelos direitos dos transexuais, cujo cadáver foi encontrado no rio Hudson, perto dos cais de West Village, pouco depois de ter participado na marcha do Orgulho Gay em 1992. O álbum de estreia de Antony and the Johnsons, o homónimo lançado em 1998, inclui uma canção dedicada à estrela gay: “River of Sorrow”.

Até agora editaram quatro discos de originais, mais três gravações ao vivo. “Swanlights” é o último trabalho de estúdio editado em 2010. Ao vivo, o último registo chama-se “Del Suo Veloce Volo” gravado durante o concerto em Verona, em 2013, com o cantor e compositor italiano Franco Battiato. Uma das surpresas é a interpretação do tema “Crazy In Love” de Beyoncé, que apareceu pela primeira vez no verão de 2009 com o single “Aeon” do álbum “The Crying Light”. A canção tornou-se habitual nos concertos, completamente travestida na voz e no arranjo de Antony e companhia:

Usada atualmente com ligeireza para designar espetáculos musicais de qualquer tipo, a palavra “concerto” define uma composição musical organizada em três partes, ou movimentos, para um instrumento solista (ou mais), como um piano ou um violoncelo, devidamente acompanhados por uma orquestra ou uma banda. É por isso que as actuações de Antony and the Johnsons se aproximam de verdadeiros concertos, com oito músicos em palco: Antony ao piano e os sete Johnsons ao serviço de violoncelos, trompas e violinos, além de bateria, guitarra e viola baixo. Com várias atuações no nosso país, onde se destaca o concerto com a Orquestra Sinfonietta de Lisboa, em julho de 2012 em Cascais, a banda de Antony Hegarty tem tido oportunidade de tocar nos últimos anos com as principais orquestras de diversos países como a Dinamarca, Turquia ou a Austrália.

Para comemorar os 82 anos de Yoko Ono, assinalados em fevereiro passado, Antony e Yoko apresentaram uma nova versão em dueto de “I Love You, Earth” um tema original do álbum “Starpeace” de Ono editado em 1985. A receita da venda do disco de edição limitada “Antony & Yoko” reverte a favor do Rain Forest Trust.

Na esteira desta colaboração com a eterna viúva de Lennon surgiu o anúncio da mais recente encarnação de Hegarty. A artista assume agora a identidade ANOHNI no disco que está ainda em fase de mistura e que terá o título “Hopelessness” produzido pela própria em parceria com Hudson Mohawke (Ross Birchard de seu nome) e Oneohtrix Point Never (nome artístico de Daniel Lopatin).

O filme “Turning” editado em novembro passado é o documentário musical que resultou da colaboração do realizador Charles Atlas com Antony and the Johnsons. Explorando a atmosfera intimista das canções, o vídeo aborda as temáticas da igualdade de género, da sexualidade e da transcendência através da performance de 13 mulheres, artistas, modelos, lésbicas e transexuais que atuaram durante os concertos.

Hegerty nasceu em 1971, em Chichester, Inglaterra, onde viveu a infância até aos seis anos de idade, altura em que a família foi viver para a Holanda. O pai, engenheiro de profissão, havia sido colocado em Amesterdão. Em 1981 partiram para os Estados Unidos da América, fixando-se na zona da Baía, próximo de São Francisco.

Enquanto adolescente cresceu influenciada pelos ritmos de Boy George dos Culture Club, e pelas vozes de Alison Moyet, Kate Bush e Marc Almond dos Soft Cell. Começou a usar maquilhagem por volta dos 13 anos. No início dos anos 1990 já a viver em Nova Iorque para estudar Teatro Experimental na Universidade de Nova Iorque. Fundou o Blacklips Performance Cult, um coletivo artístico avant-garde que esteve ativo durante três anos, entre 1992 e 1995.

Dirigiu peças de teatro como “The Birth of Anne Frank” e “Miracle Now”, que foram realizadas com os membros dos Blacklips. Passou vários anos a atuar em bares e clubes da zona de Manhattan. Cantava com acompanhamento gravado previamente em simples cassetes. Depois de ser premiada com uma bolsa da New York Foundation for the Arts (NYFA) para a produção de “O Nascimento de Anne Frank/A Ascensão de Marsha P. Johnson” em 1996, Antony pediu aos músicos que a acompanhavam para gravar uma série de canções que ela tinha escrito no início dos anos 1990. O conjunto tocou pela primeira vez como parte de uma instalação artística de William Basinski em 1997. Depois disso o grupo passou a tocar com frequência em inúmeros locais em Nova Iorque e em 2000 era finalmente editado o álbum de estreia.

O segundo álbum “I Am a Bird Now”, porventura o mais aclamado, ganhou o Mercury Prize em 2005 e recebeu também o título de Álbum do Ano pela revista “Mojo”. O disco “Cut the World” apresenta uma coleção de canções gravadas ao vivo em Copenhaga com a Orquestra Nacional Dinamarquesa, em 2012, percorrendo o repertório dos quatro álbuns da banda. Nesse mesmo ano Antony foi escolhida para dirigir a programação do famoso festival londrino de verão “Meltdown”. Marina Abramovic, CocoRosie, Lou Reed, Laurie Anderson, Elizabeth Fraser (ex-Cocteau Twins) e Marc and the Mambas, projecto de Marc Almond (ex-Soft Cell), são apenas alguns dos nomes que incluiu na sua curadoria.

A voz de Hegarty, indefinida no género, oscilando entre tons femininos e frequências graves, soa como um lamento cantado que parece alcançar uma profundidade emocional invulgar sobre o público. Sob o impulso criativo da multifacetada auteur – cantora, compositora e artista plástica – os Antony and the Johnsons chegam ao NOS Primavera Sound para mais um concerto que se espera memorável na noite sexta-feira, 5 de junho. Nos ouvidos estarão os temas mais relevantes, não só da música mas também do feminismo e do aquecimento global.

Antony and the Johnsons / NOS Primavera Sound

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