O tempo é o fio condutor do novo trabalho de Camané. Em “Infinito Presente” há passado com fados tradicionais, um poema de Frei António Chagas que data do século do séc. XVII e até fados cantados no início do século XX pelo bisavô do fadista. Há presente com as letras de Manuela de Freitas e novos fados de José Mário Branco. E futuro, que Camané diz ao Observador ser o tempo que mais lhe interessa. E depois há o tempo constante, ou infinito, nos poemas de David Mourão Ferreira e na sonoridade do fadista que comemora este ano 20 anos do seu primeiro álbum de estúdio.

O Observador conversou com Camané no dia da apresentação do novo disco e o fadista confessou ainda ficar “nervoso” antes da apresentação do seu trabalho, embora esqueça qualquer medo quando começar a cantar. “Tenho menos medo de cantar os temas novos do que quando apresento o disco. Eu sei que vou cantar e vou poder fazer melhor do que fiz no disco”, afirma o fadista, garantindo que os fados “ganham uma dimensão diferente” depois de cantados e tocados ao vivo. “Acho que a melhor coisa que há é cantar ao vivo”, afirmou entre risos.

Depois de lançar o seu último álbum, a colectânea “Camané O Melhor 1995-2013”, o fadista percorreu o mundo atuando em locais como Moscovo, Rio de Janeiro, Ancara ou Mélina, fez uma tournée nacional e foi protagonista do documentário “Fado Camané” que estreou no Doc Lisboa. Pelo meio, aconteceu “Infinito Presente”. Camané diz que o novo álbum foi feito de forma “intuitiva” e é fruto de “várias coincidências muito felizes”. O álbum está à venda a partir desta segunda-feira.

Veja o vídeo com a entrevista e dois dos novos fados do seu mais recente trabalho.

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No entanto, Camané admite que nas suas escolhas, a musicalidade está muito presente. “Aconteceu tudo muito rapidamente. Quando fomos para estúdio já sabíamos o que íamos gravar. […] A escolha dos fados acontece de forma intuitiva, mas olho muito para a musicalidade. Mas também é difícil o David Mourão Ferreira não ter musicalidade”, afirmou o fadista dando como exemplos os temas “Chega-se a este ponto” ou “Infinito presente” – que dá nome ao álbum. Para além deste poeta, de quem afirma gostar muito, o fadista canta Fernando Pessoa num fado do seu bisavô José Júlio Paiva.

Foi há dois anos que Camané ouviu pela primeira vez o seu bisavô, fadista e compositor de fados no início do século XX. As gravações chegaram-lhe através de José Moças, colecionador de fado, e duas composições do avô entraram neste álbum. Quanto à voz e à forma de cantar, Camané diz que não há muitas semelhanças. “Tinha muito bom gosto a cantar. […] Tinha uma voz mais aguda, era diferente, não sinto nada ali parecido com a minha maneira de cantar”, sublinhou.

Para além das parcerias com Manuela de Freitas e José Mário Branco, Camané juntou-se a outros amigos para novos fados, cantando um fado da autoria de Vitorino chamado “Medalha da Senhora das Dores”. Também adaptou o poema “As Facas” de Manuel Alegre a um fado tradicional. Já o single, embora Camané considere que todos os 17 temas do álbum seja singles e que “o disco funciona como o todo e não só por uma canção” é um poema de Manuela de Freitas num fado composto por Alain Oulman e dado a Camané por Nicola Oulmain, filho do compositor.

Agora, os fados vão ganhar nova vida. “Para mim, o que está feito, está feito, o melhor está para vir. Não fico agarrado ao passado. O que me dá prazer e felicidade é o que vou fazer amanhã. Porque quando vou cantando ao vivo, os temas vão ganhando uma dimensão diferente, vão ganhando uma vida”.