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"Ideias Feitas", na Rádio Observador, com Alberto Gonçalves. Olá, Alberto, bem-vindo.
Olá, Ricardo. Boa tarde.
E hoje queres ir às declarações de António José Seguro, que quebrou o silêncio sobre as manifestações e as cargas policiais. Como leste as palavras do presidente?
Li com alguma decepção, porque eu não votei no doutor Seguro para presidente e Deus me livre de algum dia sequer ponderar semelhante coisa. Mas a verdade é que estava a começar a achar que ele nem fora uma péssima escolha para o cargo. Pelo menos parecia ser alguém com consciência das suas limitações e presumi que, por isso, desde que foi eleito, mal abriu a boca. Ou quando abriu, foi para dizer umas trivialidades, umas coisas inócuas e que ninguém registou. Isso pra mim era bom. Eram pontos positivos a favor do doutor Seguro enquanto presidente da República. O problema é que ele agora falou a propósito das manifestações ditas pela habitação e dos confrontos dos manifestantes com a polícia, como referiste, e apesar de ter continuado a dizer trivialidades, já não são trivialidades tão inócuas quanto as anteriores. Quanto a isso, ele pareceu-me que se sentiu pressionado por alguns dos seus eleitores, um setor do seu eleitorado a demarcar-se dos fascistas que defendem a ação da PSP. E então o doutor Seguro acabou por ceder e disse o seguinte, passo a citar: "A cultura portuguesa não é de violência, a democracia não é um espaço de violência, os nossos problemas resolvem-se com diálogo. Não gostei do que vi nas imagens recentes, não são imagens normais", fim de citação. Eu não vou analisar aqui, naturalmente, o mito dos brandos costumes que, como tantos políticos antigamente e alguns da atualidade, o doutor Seguro parece ter abraçado. Eu prefiro centrar-me nesta referência, nesta alusão ao diálogo, que desde logo era um mantra muito utilizado pelo mentor político e espiritual do doutor Seguro, o Engenheiro Guterres, nos tempos em que era primeiro-ministro, dia sim, dia sim falava em diálogo. E é claro que só por esta evocação, a referência ao diálogo já arrepia um bocadinho. Mas vamos deixar de lado a memória do Engenheiro Guterres. E seria possível dar razão ao doutor Seguro se ele estivesse a referir-se a protestos normais, com reivindicações normais. Vamos imaginar que os campistas de Lisboa e do Porto apenas apelavam a medidas discutíveis, mais ou menos sensatas, para reduzir os preços das casas e das rendas. Vamos imaginar que os campistas apenas queriam discutir pacificamente a questão da habitação. Nesse caso, não faria qualquer sentido a ação policial, parece-me, e com certeza ou quase certeza, não haveria acampamentos, haveria métodos mais civilizados de se fazerem ouvir. O problema, como já referi aqui várias vezes, e os próprios campistas, os que conseguem expressar-se com o mínimo de clareza, não são assim tantos, mas como eles referem todos os dias, é que nada daquilo, se é que tem alguma coisa a ver com a habitação. Aquilo é uma importação desta tentativa de implantação do caos que vem do resto da Europa, em particular de França, mas não só de França, infelizmente. São eles que o dizem. Eu vi um rapazinho que foi ouvido no Rossio, que explicou à TVI: "Isto não tem a ver com a habitação, mas com a necessidade de destruir o Estado, a polícia, os tribunais, o capital, os media, destruir o sistema e por aí fora. Destruir tudo." Outro rapazinho, outro campista, foi aos estúdios da RTP garantir que os manifestantes não aceitam nem a democracia, nem, isto é uma redundância, os resultados eleitorais. São eles que decidem o que é que se vai passar ali naquelas praças de Lisboa e do Porto. Outro ainda pede a invasão da casa do doutor Montenegro, outros gritam pela morte de israelitas e de cães fascistas e de quem calhar. Há os que vandalizam estátuas, há os que agridem agentes da polícia. E há uma impressão muito forte que se aqueles campistas fossem em número suficiente, estariam a incendiar carros, casas e transeuntes, como no limite até já aconteceu na França e está acontecendo na Bélgica, na Espanha, etc. O que se conclui daqui é que o doutor Seguro rejeita o uso de violência contra gente assumidamente empenhada na violência. Será que é com esta gente que ocupa ilegalmente, que conquista à força o espaço público, ou que tenta conquistar, se não fosse a polícia, para reivindicar destruição e, em última instância, morte, é com esta gente que o doutor Seguro quer que as autoridades dialoguem? Eu não quero faltar ao respeito a Sua Excelência, o presidente da República, mas talvez fosse recomendável, se calhar o melhor, era ser ele a dialogar diretamente com os campistas, porque com o seu jeito e o seu carisma, com aquele talento que ele tem para entusiasmar as massas, até é possível que o doutor Seguro acabasse com os acampamentos num instante. Eles se mobilizavam por não conseguir continuar a ouvi-lo. É tortura, a tortura não é permitida, mas com certas pessoas, se calhar a tortura, mesmo esta tortura inominável, acaba por ser o único meio eficaz.
Obrigado, Alberto. E até amanhã.
Até amanhã, Ricardo.